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Corvo deu apenas dois passos à frente, distanciando-se dos capangas, enquanto direcionava seu olhar ao jovem que acabara de lhe confrontar.
Por trás de Slezzy surgia um grande vapor de fumaça, originado pelo acidente do carro-forte, acompanhado de um forte cheiro de gasolina.
O veículo estava prestes a explodir.
Cercados pelas ruas desertas, nenhuma pessoa fora avistada por aqueles que se encaravam.
— Então… é você…! — falou Corvo, surpreso. — O garoto que salvou todas as crianças naquele dia! Também foi quem assassinou todos os meus homens!
Slezzy se reprimiu por um momento, já que no dia citado pelo mafioso, em que havia resgatado Harvim e Rainn das mãos de Salvador, a camuflagem da sua face tornava a sua identidade irreconhecível.
— Foi um lindo ato, meu jovem! Mas é uma pena que… um pirralho, ignorante e cheio de braveza como você… não vá durar tão pouco por essas ruas.
Duas pessoas repletas de pequenos ferimentos saíam pela porta traseira do carro com uma certa dificuldade em meio aos destroços de aço à frente. Roy e Shane.
Notando aquilo, o mascarado poupou suas próximas palavras, aproveitando de um pequeno vacilo de Slezzy: um desvio de olhar.
Ao perceber que havia se colocado numa posição vulnerável, Slezzy direcionou seu olhar para os capangas outra vez. Porém, mesmo para apenas alguns segundos, já era um pouco tarde.
Duas violentas e rápidas conjurações, compostas por ventos que se cruzavam a cada metro percorrido, haviam sido desferidas por Corvo.
No mesmo relance, o garoto percebeu que aquele homem havia utilizado de duas peças exóticas e triangulares, compostas por metal, as segurando de maneira rígida e brutal, enquanto lhe observava através da máscara de detalhes dourados.
Sem mais tempo, só restou a Slezzy utilizar uma de suas artimanhas: a Barreira de Défteros. E assim a conjurou.
A barreira esverdeada bloqueou todo o centro daquele poder, mas mesmo assim não foi suficiente para cessá-lo por completo.
O restante dos violentos ventos atingiu os agentes que estavam atrás do jovem, arremessando-os para longe, e até mesmo o carro-forte, que foi recolocado em sua posição inicial logo após tal impacto, facilitando assim a saída dos demais.
Os capangas aproveitaram o tempo ganho para escalarem, com auxílio de magia, um muro não tão alto ao lado, pulando para além da construção em seguida.
Sem pensar duas vezes, furiosamente, Slezzy arrancou a arma de gancho de sua cintura e iniciou uma perseguição, entre um longo beco mal iluminado e sujo.
Saltando entre os obstáculos do longo beco, mesmo com auxílio de poderes, os mafiosos não eram tão rápidos quanto o jovem que utilizava do tal dispositivo.
Quando o veloz jovem estava a apenas alguns metros de distância para alcançá-los, o líder dos capangas interrompeu seus rápidos passos para desferir, mais uma vez, uma onda de ventos em sua direção, através de suas lâminas triangulares.
Em um rápido reflexo, Slezzy foi obrigado a conjurar várias rajadas alaranjadas contra aquele poder, visto que, ao seu julgamento, a sua clássica barreira não seria suficiente para interrompê-lo com segurança desta vez
À lateral do beco, aproveitando a tal distração, os fugitivos escalaram até o topo de um prédio metálico, com talvez quatro andares. Dali, uma calorosa fuga estava prestes a se iniciar.
Slezzy capotou sobre o chão sujo do beco, ainda com os punhos quentes devido às conjurações. As partes da calça que cobriam seus joelhos se empoçaram com a água suja que corria ali.
Ouvindo o barulho de saltos sobre os telhados dos prédios ao lado, o garoto socou raivosamente o chão enxarcado, provocando uma pequena faísca sobre a atmosfera, berrando:
— DROGA! — Ele puxou novamente da cintura a arma de gancho, apontando-a e logo a disparando contra uma grande estrutura à frente, na suposta direção de onde os criminosos haviam acabado de escapar.
Sobre as telhas ríspidas e as varandas vazias daqueles prédios, que eram muito próximos uns aos outros, os criminosos saltavam, com o objetivo de despistar toda a força militar que escoltava Enion, agora capturado e sobre os braços do capanga musculoso.
Nos variados quarteirões, o número de prédios era extenso, o que demandava um grande esforço para que fugissem com êxito. Logo, Corvo e os dois comparsas, ainda em rápida velocidade, se surpreenderam com uma conjuração amarelada e muito brilhante, que não havia lhes acertado por pouco.
Slezzy, utilizando do seu mecanismo de rápida movimentação entre os prédios metálicos, passou a manipular diversas vezes o Raio de Éktos na mesma direção.
Curiosamente, algumas pessoas observavam toda aquela cena pelas suas janelas, confusas. Elas tentavam gravar algum trecho do conflito, mas as figuras de preto se movimentavam rapidamente à frente de seus aparelhos.
Os raios de Slezzy estavam prestes a atingir um dos fugitivos, que não haviam esboçado nenhuma reação até se encurralarem. Aquilo forçou Corvo a tomar uma atitude. Em rápida velocidade, o vilão cessou os passos sobre os telhados, fazendo com que o jovem se abalasse por alguns segundos.
Mesmo que desentendidos, os outros capangas apenas prosseguiram com a fuga.
“Então… você vai se sacrificar!?” pensou o garoto, a apenas alguns metros de alcançar o homem de costas para si. Com apenas fúria em seus pensamentos e as mãos sedentas por justiça, ele iniciou uma brilhante conjuração, encarando desta vez o longo cabelo do mafioso, agora perfeitamente visível, mas foi surpreendido.
Corvo rotacionou o seu corpo, colocando-se a encarar o jovem, lançando contra ele uma espécie de tornado, composto por quase todo o vento que rodeava aquela batalha, de uma maneira completamente inesperada.
A exatos três metros de apanhar o vilão, Slezzy foi forçado a utilizar dos seus punhos brilhantes para se defender, cruzando-os à frente de sua cabeça, enquanto encolhia institivamente o abdômen. Logo mais, uma enorme explosão se formou.
Passado apenas um segundo, desnorteado e com o corpo trêmulo, Slezzy estava com o corpo suspenso sobre um vão, com seu pescoço sobre as mãos do Corvo.
Ligeiramente, ignorando todas as dores devido à forte adrenalina, Slezzy passou a segurar a grossa mão de Corvo, tentando impedi-lo de lhe sufocar. Relanceando rapidamente para baixo, ele notou que se fosse largado estaria prestes a cair sobre um beco profundo, a mais de quinze metros de altura do alto do prédio.
Corvo reparou que os aliados de Slezzy estavam, mesmo que de longe, prestes a chegar ao local. Logo, recebendo um olhar recíproco e furioso, ele lhe encarou, confrontando-o com a sua voz abafada:
— Por que você não se acalma, moleque? Não acha que ainda é muito cedo para cumprir sua última promessa, Slezzy Kaliman? — Após tais palavras, Corvo recuou seu braço, canalizando uma extrema força, e logo depois arremessou o corpo do jovem contra uma das janelas do prédio à frente, sobre o vão abaixo.
Desesperado, ainda tentando se agarrar a alguma coisa no ar, a última cena vista por Slezzy, antes de colidir com uma grande janela de vidro, foi a nítida cor dos olhos daquele vilão através de sua máscara: um cativante azul-oceano.
A seguir, o vidro que compunha uma das grandes janelas do prédio se estilhaçou por completo com o impacto do jovem, que se debulhou sobre o chão empoeirado de um dos andares ali.
O garoto desacordou lentamente enquanto seus ouvidos zumbiam.
*
Com as pálpebras estremecidas e uma forte dor na coluna, o corpo de Slezzy se reanimava pouco a pouco, ao mesmo tempo que ele ouvia o barulho de um escalar sobre a janela quebrada daquele corredor.
O irritante zumbido de seu ouvido cessou de repente.
O garoto rastejou sobre o chão, chegando a espirrar duas vezes antes de apoiar suas costas sobre a parede rachada do local. Era um prédio de classe média, mas muito malcuidado.
Logo, o som de uma enorme explosão ecoou longe dali. A única coisa que podia se passar na mente do jovem era o carro-forte que os havia levado até ali. Aquilo o causou uma grande preocupação, que logo se dispersou pelo adentrar de uma nova pessoa ao corredor. A mesma pessoa que havia escalado tal janela.
Mesmo com a visão um pouco embaçada, o jovem Slezzy não teve dúvidas de que aquele era na verdade Shane.
O garoto espadachim caminhou rapidamente ao seu encontro.
Outro militar escalou a mesma janela, tomando cuidados para que não se cortasse com os vidros estilhaçados ali.
Uma das portas do corredor se abriu. Um senhor ranzinza, com uma enorme e assustadora barba, se impôs sobre o corredor, extremamente curioso. Com um tom mal-educado, ele confrontou os jovens do fim do corredor:
— EI! VOCÊS AÍ… — Seu berro foi interrompido por um violento esbarrão em seu ombro esquerdo, que estava à ponta do corredor. O ranzinza, raivoso, estava pronto para revidar, até checar a estrutura muscular do homem de preto e de cabelo alaranjando, além de uma braçadeira de “Capitão” sobre tal estampa. Era Roy.
— Qual é… a desgraça… — dizia o Capitão, aumentando seu tom de voz à cada passo dado na direção de Slezzy. Seu olhar furioso era bem nítido. — …da maldita REGRA PRINCIPAL!?
Roy chegou a estapear o garoto apoiado sobre a coluna, o jogando até próximo de outra janela do corredor.
Shane, imóvel e ao lado do militar, apenas os observava.
— Não… utilizar… nenhum dos nossos poderes… em público… — respondeu o jovem, entre murmúrios.
— Então… me responda, Slezzy… Por que diabos você utilizou esses malditos poderes enquanto perseguia aquele maldito?
— Eu não podia deixar que… ele escapasse mais uma vez… Capitão…
— E olhe só! Ele acabou de escapar com os outros capangas e ainda raptou o maldito Enion, CARALHO! Você ignorou todas as vidas do nosso esquadrão, que poderiam terem sido ceifadas se a explosão do carro-forte tivesse sido pior, a troco da sua ideia idiota de os perseguir… colocando em risco toda a sua merda de identidade e os seus poderes…!
— Se for assim… — Slezzy decidiu revidar, enquanto se contorcia devido à sua dor. — Jamais os pegaremos! Jamais vamos estar à altura desses criminosos, caso tenhamos que os combater com limites! Veja bem, Capitão Roy! Eles capturaram Enion como se estivessem tirando o doce de uma criança!
— EU ESTOU POUCO ME LIXANDO PRO ENION! — Roy assustou Slezzy.
— Han!?
— Quando sofremos o acidente… você acha que a minha primeira preocupação era a vida daquele criminoso?
Slezzy engoliu em seco. Ele pensou em refutá-lo, mas apenas se manteve num profundo silêncio.
— Mesmo que a situação esteja um pouco crítica… e mais pessoas suspeitem do Mundo dos Demônios… Mesmo que aqueles malditos tenham escapado… No fim, nada disso realmente importa, desde que a nossa equipe esteja bem! — dizia Roy, firmemente. — Enquanto essa cidade estiver de pé, você poderá arranjar quantos inimigos quiser, todos os santos dias… Slezzy. Mas aqueles, verdadeiramente fieis aos que estão ao seu lado, não acho que vai ter sorte de encontrar tantos por aí.
O Capitão se virou, caminhando de volta a janela. Shane o acompanhou.
— Repense seus atos. Caso queira realmente comandar um dos esquadrões com maior potencial da FMA, vai precisar — concluiu o Roy.
Antes de alcançarem a janela quebrada, o Capitão e Shane perceberam que o tal homem ranzinza lhes observava com um claro olhar de medo. Logo, o menino de cabelos negros lhe confrontou seriamente:
— Caso eu ouça qualquer boato… qualquer notícia… qualquer fofoca… sobre o que acabou de acontecer aqui… Pode ter certeza que não vou poupar esforços em lhe procurar até arrancar o seu pescoço. — O velho concordou, acenando com sua cabeça tremulamente. — Ótimo.
Após se recuperar um pouco, Slezzy se reergueu, ainda com os braços apoiados sobre as paredes. Antes de limpar a poeira de sua roupa, ele visualizou a saída dos militares, que saltavam sobre a janela estilhaçada.
Roy abandonou o local rapidamente.
Shane decidiu encarar o garoto ferido por alguns segundos. Depois, sacou a sua arma de gancho, saltando em seguida.
Slezzy, agora pensativo, passou a observar a janela detrás de si, meditando sobre as falas do Capitão.


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