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Após algumas horas, no mesmo dia, numa lanchonete aparentemente tranquila e também tomada por vários clientes em suas mesas formidáveis, Slezzy bebia um tipo de milkshake num copo estiloso e feito de vidro.
Os sussurros do local o enlouqueciam lentamente, enquanto seus pensamentos sobre aquela manhã não se esvaiam de maneira nenhuma. Equilibradamente, suas emoções se continham a cada gota da bebida de chocolate coberta por chantily.
Sentado em um fino banco preto, em frente ao balcão principal, o garoto pensava intensamente, com o olhar fixado num quadro de pintura.
“Mesmo com tudo que alcançamos meses atrás… com mais da metade dessa cidade dominada, ainda assim, fomos rendidos no nosso próprio território?… Que grande merda…”
Valentina, a única garçonete do local, surpreendeu o jovem ao surgir de repente em sua frente:
— Ei! O que está acontecendo? — indagou ela, com uma voz doce.
— Han? — Slezzy quase se engasgou.
— Hum… Eu acho que nunca te vi tão concentrado… desse jeito… desde quando você passou a vir aqui durante os últimos meses… — A garçonete, timidamente, tentou ignorar o fato de que o havia assustado.
Slezzy notou que a Velhinha, chefe e a única cozinheira, lhe direcionava olhares nem um pouco agradáveis. Desviando sua vista, ele deu satisfações à garota:
— Na verdade… são apenas coisas do trabalho… isso tudo é tão novo pra mim… então, não é nada demais…!
Valentina ajeitava algumas coisas do balcão, enquanto o limpava com um pano alaranjado que sempre guardava em seu bolso. Logo, ela o respondeu:
— Ei… Slezzy — A garota decidiu focar toda a sua atenção no jovem desta vez, mesmo que os pedidos das outras mesas estivessem atrasados. — Você sabe que… eu encaro muitas expressões por aqui, durante quase todos os dias da semana, não é? E… não é difícil reconhecer um rosto decepcionado… exatamente como o seu neste momento. Você deve ter se metido em uma encrenca das feias.
— O que? — respondeu Slezzy, constrangido, mas admirado. — Uau! Parece que você não é tão boba como imaginei.
— Hum!? — Valentina não se diminuiu perante a fala do garoto. — Haha! Não é muito difícil decifrar a sua cara feia!
Slezzy decidiu colocar a bebida sobre o balcão, concentrando o olhar na garota, que naquele momento já estava com as bochechas claramente roseadas.
— Você tem razão. Desde a minha entrada na vida militar… tudo parece ter se tornado tão repentino… tão… assustador… que talvez eu não tenha me dado conta de tudo que tem acontecido. Além de lidar com a pressão de assumir o cargo de líder de um esquadrão, ainda tenho muito o que encarar… minhas falhas… minhas atitudes… para que eu finalmente “esteja pronto” ou algo do tipo…
Por mais que o nível de amizade dos dois ainda fosse raso, e que apenas haviam se cumprimentando durante algumas vezes naquele mesmo local, Slezzy não se receou ao desabafar com a garçonete.
Sem graça e ainda com os olhares do jovem voltados para si, Valentina ousou em indagá-lo mais uma vez:
— Pronto… para o que exatamente…!?
A conversa foi interrompida pelo forte golpe de um bêbado sobre aquele mesmo balcão, com seu antebraço, chamando a atenção das pessoas ao redor.
Slezzy se virou lentamente para aquele homem, estranhando-o.
— Han? — O bêbado provocou-lhe com grossas risadas logo depois, como se algo estivesse entalado em sua garganta. — Vejam só! Como um agente da FMA se comporta! É assim que você vai nos proteger…!? Com o seu chocolatinho? Pelo visto… isso é realmente o fim dos tempos.
Slezzy previu que o homem iria cuspir em sua direção e, com seu reflexo, logo o empurrou para longe. Ele havia realmente se irritado:
— Como permitem a entrada de fracassados como você por aqui?
Incrivelmente, o bêbado conseguiu se equilibrar. E não demorou muito para que ele retrucasse o garoto:
— Fracassados? Não está se confundindo com a sua laia, jovem? — Ele pausou sua fala por uns segundos, para que bebesse de uma latinha que segurava na mão esquerda. Após um breve gole, ele passou sua outra mão sobre a boca, secando-a. — Se é verdade o que está correndo por essas ruas, não vai demorar muito para que o mais novo candidato derrote o canalha do Dom Cernuno! Você verá! Ele acabará com toda a corrupção imunda que mancha essa cidade! Ele acabará com toda a soberania de merda do seu exército!
— Além de frustrado, você ainda é um ingrato!? — Slezzy sorriu brevemente, mas nada que o aliviasse da tal raiva.
— Eu jamais seria grato à egoístas, dementes, arrogantes e irresponsáveis como vocês…
Cada uma daquelas palavras causou uma fúria gradativa sobre Slezzy. Sua mão tremia devido à grande vontade de perfurá-lo com o mínimo de seus poderes. Seu psicológico foi posto à prova, dentre pensamentos de surtos e violência, além de uma extrema raiva.
A situação foi interrompida, finalmente, quando a porta principal da lanchonete se abriu, chamando novamente a atenção de todos ali.
Um agente do NCC interviu o eminente confronto.
Slezzy se confortou durante alguns segundos ao direcionar seu olhar à Sanches, já que aquele era o primeiro encontro de ambos após vários meses.
— Agente… Sanches!? — O bêbado, descrente daquela aparição tão repentina, se pôs de joelhos sobre o chão de madeira, enquanto lacrimejava. — Oh! Eu… Eu não faço a mínima ideia de como expressar…
— Calado — ordenou o agente mais velho.
A Velhinha, despreocupada com seus afazeres ou de qualquer atraso, decidiu se aproximar de Valentina.
O bêbado aproveitou a distração para se aproximar de uma das mesas.
Ao encarar seu ex-parceiro, Slezzy tentou conter seus sentimentos.
Sanches abriu um leve sorriso em seu rosto, antes de respondê-lo:
— Estou impressionado, garoto. Depois de entrar para a FMA e também receber uma proposta incrível para atuar como líder de um esquadrão… olha só onde você veio parar! Com um uniforme militar, exposto e sem qualquer equipe, no meio de uma área perigosa! Você se coloca em perigo de propósito!?
— Ah! Agora você também quer me dar uma lição de moral? — retrucou.
Slezzy nunca havia encarado aquele agente de uma forma tão desrespeitosa.
Em rápidos passos, gritando bravamente, numa tentativa de apunhalar o jovem pelas costas, o bêbado se aproximou, empunhando uma garrafa de cerveja vazia que havia acabado de roubar de uma das mesas.
Logo, Sanches não hesitou em golpear o crânio daquele homem com um chute preciso e veloz. Slezzy precisou girar seu corpo para compreender a situação.
Todas as pessoas se assustaram.
— EI! JÁ CHEGA! — A Velhinha finalmente os interviu. — Vocês três… VOCÊS ESTÃO BANIDOS DA MINHA LANCHONETE!
Assustado, Slezzy encarou a Velhinha, que quase se borbulhava de raiva.
O bêbado, sobre os pés do garoto, gemia tremulamente de dor.
— Vocês têm exatamente um minuto para sair daqui… antes que eu chame seus próprios amigos para resolverem essa merda de situação! — A Velhinha retirou um telefone do bolso do avental.
Sanches observou a chefe do restaurante por alguns segundos, antes de caminhar até o corpo do bêbado e apoiá-lo sobre seu braço direito, forçando-o a ficar de pé.
— Vamos, Slezzy.
Tenso e levemente triste, Slezzy observou Valentina enquanto Sanches cruzava a porta de saída do estabelecimento.
Não demorou muito para que o jovem também abandonasse o local.
Slezzy se surpreendeu ao alcançar a calçada que delimitava a porta principal da lanchonete: Sanches havia arremessado o corpo do bêbado até o meio do asfalto à frente.
— Escuta aqui, seu desgraçado… — Sanches, agachado, segurava o homem pelo seu curto cabelo, ainda no meio daquela rua. — Você tem noção de que acabou de tentar apunhalar um agente da FMA pelas costas? Hein!? Seu pedaço de merda. Eu juro que se eu o ver mais uma vez por aqui, não vou impedir que aquele garoto te faça sofrer até você perder todos os seus sentidos.
— Oh! Não! Eu te rogo! Mil perdões! Mil perdões! Agente Sanches!
Sanches chutou as costas do bêbado mais uma vez, antes que ele pudesse correr, mesmo que ferido, até o outro lado da rua, sumindo em seguida em meio ao final do quarteirão.
Ao se virar, o agente se assustou: Slezzy carregava um maço de cigarros em suas mãos.
— Ei, não me diga que você começou a fumar, garoto!
— O que? Não! Não é isso! Na verdade… o Enion me deu esse “presente” ainda no carro-forte, a apenas alguns segundos antes da nossa colisão… Foi tão rápido… Parecia que ele realmente sabia de algo.
— Que estranho.
— Hum? — Slezzy relanceou seu olhar. — Você quer? Sabe… eu não pretendo infectar os meus pulmões tão cedo assim.
— Na verdade não. Eu estou tentando parar já faz algum tempo.
— Sério? Que grande surpresa!
Sanches desviou completamente daquele assunto, cortando a alegria do garoto:
— Você ainda não me respondeu, Slezzy. Por acaso… você se coloca em perigo de propósito?
— Hum… eu deveria adivinhar que, a essa altura, o Capitão já deve ter fofocado com você sobre o caso de hoje mais cedo.
Sanches sorriu.
— Talvez eu me coloque em situações de risco e de perigo…, mas não por causa das minhas próprias decisões. Enquanto os militares temerem em se impor sobre Maple… mais chance daremos ao mínimo de mafiosos que ainda habitam os becos dessas malditas ruas. Pense só! No dia do ataque terrorista à escola de Rainn, quem impediu que aqueles desgraçados fizessem um desastre? Fomos nós, Sanches!
O agente mais velho o encarava seriamente.
— Entre os mais diversos agentes com anos e anos de experiência… Foi eu quem desbravou a frente dos terroristas na base do Barão II! Eu derrotei Salvador! Não está enxergando? Foram mais de quinze anos de medo entre todas as pessoas dessa cidade, que não sentiam sequer um pingo de segurança ao cruzarem essas ruas. A verdade é que… não importa o quanto os militares sejam treinados nas instituições, não importa o quanto os militares se especializem… de nada isso vai adiantar em algo se a vontade de fazer justiça for tão desigual entre nós. Então, talvez eu me coloque em perigo na maioria das vezes… por haver tão poucas mentes com o mesmo pensamento que eu.
Sanches caminhou até seu carro preto estacionado em frente à lanchonete.
— Garoto… garoto… — Sanches abriu a porta lateral do Mustang, ainda rindo levemente com um claro tom de deboche.
— O que foi?
Sanches preferiu respondê-lo, antes de adentrar seu veículo:
— Não acha que se todos os militares tivessem acesso aos mesmos poderes que você, também não teriam a mesma “sede de justiça” que você tanto diz?
— Talvez se todos os militares tivessem suas famílias ameaçadas em um ataque terrorista ao menos uma vez, eles…
Sanches fechou a porta do carro violentamente, desistindo de adentrá-lo, e logo partiu rapidamente na direção de Slezzy, cortando sua fala completamente apenas com tal atitude.
Em três segundos, o agente mais velho estava cara a cara com Slezzy.
Fazia tempo que o garoto não sentia medo perante algum militar, principalmente o próprio Sanches.
— Tá de sacanagem, garoto? Acha que a maioria daqueles militares estariam na merda desse trabalho se tivessem alguma família? Acha que eles se voluntariaram para arriscar suas vidas todos os dias como você?
— Han…?
— A FMA tem princípios completamente diferentes do que qualquer outro tipo de instituição militar. Desde quando criada, o único método para servir o exército de Maple é apenas um: ser criado e treinado na Ordem Azul.
Slezzy se espantou.
— E como você deve saber, apenas órfãos são aceitos naquela instituição. Não! Apenas crianças e adolescentes, órfãos, são aceitos ali! Tudo isso para que as vidas de merda daquelas pessoas sozinhas e tristes tenham algum propósito…, mas, você nunca foi da Ordem Azul, não é? Você deixou de lado toda a sua vida, sua própria família, tudo isso para se arriscar nessa carreira! Você escolheu isso! Eles não!
Eventos do passado passaram a dominar a mente do garoto ao mesmo tempo em que Sanches tornava a caminhar em direção ao seu carro.
O agente mais velho estava aborrecido.
— Então… por que Roy me ofereceu aquele cargo? — Slezzy insistiu.
Sanches sorriu.
Ao alcançar a maçaneta do seu carro mais uma vez, sem se virar, Sanches disse:
— A FMA dificilmente opta por recrutar pessoas que nunca tenham participado da Ordem Azul. Eles precisam de um forte motivo para isso. Criar soldados sem famílias, completamente órfãos e sem nenhuma emoção aparente, parecia até uma ideia boa há mais de quinze anos atrás…, mas você provou o contrário.
Sanches abriu a porta e finalmente encarou o jovem ao se virar.
— Mesmo com os poderes dos demônios, não é qualquer pessoa que arriscaria a própria vida, os próprios sonhos, para proteger a vida de seus aliados e combater aqueles mafiosos. Por isso Roy sugeriu a sua entrada à FMA… e também por isso ele exige o dobro da sua conduta naquele lugar. Você realmente liderou a invasão à base do Barão II… Você matou Salvador…, mas, por outro lado, seus sentimentos foram completamente afetados durante tudo isso. Sua empatia foi zerada e seu ego está tão inflado que nem mesmo as vidas dos seus companheiros de esquadrão já importam mais.
Os dois se encararam durante algum tempo.
Algumas pessoas que estavam na lanchonete os observavam através das janelas de vidro, mesmo que não ouvissem nenhuma palavra.
— Eu… eu… — Slezzy, agora envergonhado e com o olhar direcionado ao chão, tentava se expressar.
— Hum?
— Eu… quero melhorar, Sanches.
O agente mais velho sorriu. Talvez aquele fosse o único militar que conseguisse convencer o jovem teimoso.
— Vamos, entre no carro — ordenou.
Ainda cabisbaixo, Slezzy passou a caminhar até o outro lado do carro preto.
Os dois entraram no Mustang. E, como de costume, não demorou para Sanches esbanjar o rugido de seu motor ao ligar a chave de ignição.
— Não quer saber como te encontrei? — indagou Sanches, antes que partissem.
— Talvez porque… você seja o melhor agente dessa cidade? — retrucou Slezzy, rindo.
Sanches acompanhou o garoto em suas gargalhadas. Ele estava realmente feliz ao poder se reunir com seu ex-parceiro novamente.
Logo, a dupla partiu dali.


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