83
Eles haviam acabado de entrar num quarteirão sombrio e vazio. Apenas algumas pessoas agasalhadas e estranhas passeavam por ali.
O frio dos limites da Região Sul era sensivelmente denso.
Slezzy tentava se aquecer com o os próprios braços. Ele ainda portava a mesma roupa que havia utilizado mais cedo na tal operação malsucedida.
— O tecido dessa roupa é tão fino assim? — Sanches debochou, enquanto mexia do painel de controle do carro com a mão direita. — Você está se tremendo!
— Parece que quem criou essa roupa preferiu o estilo do que qualquer mínimo tipo de proteção — Slezzy observava suas mangas pretas e listradas por pequenas linhas brancas. — Ao menos essa é a roupa mais chique que já vesti. Aliás, ainda estão obrigando todos os funcionários a usarem roupas sociais no NCC?
— Infelizmente sim. Desde a sua saída… as coisas não estão nada melhores.
— Como assim? — Slezzy apoiou seu antebraço sobre a janela do carro, ainda encarando as pessoas estranhas daquela área que lhe devolviam o mesmo olhar.
— Com a grande diminuição dos crimes nos últimos meses, estou praticamente cochilando quase todos os dias. A última vez que esse maldito rádio do NCC tocou — Sanches apontou para o painel. — …foi há meses atrás! Sabe, tudo isso chega a ser contraditório… A cidade passou tantos anos tentando melhorar a segurança das pessoas, contratando milhares de funcionários e investindo milhões de dólares nessa área… que agora, com a baixa demanda, a maioria chega a ser desnecessária. Tenho saudades de quando eu sentia aquela… adrenalina… todos os dias.
— Então, você quer dizer que sente saudades de quando os mafiosos…
— Não é nada disso — Sanches o interrompeu. — É só que… nada mais parece ter a mesma graça desde aqueles dias. Depois de você, não apareceu mais nenhum outro jovem que desafiasse o sistema. Aquela rotina chata, repetitiva e com muito tédio voltou a me atormentar. Parece que as coisas nunca vão progredir no NCC se alguém não fazer todo o serviço pesado sozinho.
Slezzy deu algumas gargalhadas antes de respondê-lo:
— Mas é claro! Se os funcionários e agentes daquele lugar deixassem de fofocar o dia inteiro… talvez eles fariam algo de útil. Eu achei que a redução dos crimes os encorajaria a arriscar uma vaga para o trabalho nas ruas, mas provavelmente só serviu de motivo para que eles se encubassem mais naquelas cadeiras velhas.
— Não acha estranho?
— O que? Os funcionários do NCC? Com certeza!
— Não! Não é isso. Estou falando sobre os criminosos. Em questão de meses, a maioria dos mafiosos simplesmente desapareceu, tudo isso… por causa da queda da Sociedade Nobre!? Sabe, a máfia do Barão não era responsável nem por metade dos crimes cometidos em Maple.
— Hum… você tem alguma teoria?
— Acho que, provavelmente, todos os mafiosos se aliaram. Eles não desistiriam de mais de oitenta por cento das terras que “dominaram” nos últimos dez anos a troco de nada. Tenho certeza de que algo grande está para acontecer, Slezzy.
— Sem falar das eleições!
— Exato. Tudo que conquistamos em questão de alguns meses… parece ter sido apenas uma armadilha. E, alguma hora, alguém vai ter que pagar o preço.
— Isso tem a ver com o sequestro do Enion?
— Possivelmente. Na situação crítica dos mafiosos, eles não arriscariam tantos recursos apenas para resgatá-lo por bondade.
— O que acha que vão fazer com ele?
— Coisa boa não vai ser.
*
Sanches caminhava até o portão de uma casa humilde, no final de uma rua sem saída. Ele havia acabado de estacionar o seu carro à frente da mesma propriedade.
Slezzy ainda não havia saído do veículo. Ele estava muito pensativo. O agente mais velho percebeu aquilo e decidiu verificar.
— Garoto? Por que ainda está aí? — Sanches havia se aproximado.
— Ele… Ele sabe quem eu sou… Sanches. Ele me reconheceu…
— O que?
— O Corvo! Eu o persegui na operação mais cedo. Eu juro que tentei impedi-lo…, mas… o desgraçado tinha uma força absurda! Ele chegou a citar o meu nome completo, a merda do meu nome completo… antes de me jogar até o outro prédio. Aquela maldita máscara não adiantou de nada! — Slezzy lacrimejou. — Agora, o desgraçado pode ir atrás da minha família a qualquer momento!
— Saia do carro — Sanches ordenou friamente.
— Han? — O jovem ainda enxugava os olhos.
— Eu mandei sair do carro!
Slezzy abriu a porta lentamente e logo se pôs frente a frente ao Agente, fechando a mesma apenas com o braço esquerdo.
— Eles estão seguros?
— Sim… Claro. Eu telefonei para Emmy depois da ação. Ela vai reunir a família toda na casa de Diana hoje à noite. Tenho certeza de que eles estarão seguros.
— Diana?
— É a minha mãe. Na verdade, a minha mãe adotiva… ou o que costumava ser…
Sanches apoiou a mão direita sobre o ombro direito de Slezzy:
— Você escolheu esse caminho, garoto. Você escolheu confrontar o sistema da cidade! Você escolheu desafiar a Sociedade Nobre! Você escolheu matar Salvador e se tornar uma grande figura para todos nós. Então, agora, vai precisar encarar as consequências de tudo isso. Eu não sei como você vai protegê-los e combater os mafiosos ao mesmo tempo, mas vou estar aqui o tempo todo caso precise de apoio.
Sanches sorriu e se virou, partindo para o portão da casa à frente, dizendo:
— Ei, pegue a maleta preta no porta-malas.
Slezzy se sentiu confiante. Ele passou a observar seu ex-parceiro com o mesmo olhar que o contemplava como um mestre há meses atrás.
Enquanto Slezzy ia até a parte traseira do Mustang, Sanches tocou a campainha da casa.
Segundos depois, uma voz feminina e um pouco grave ecoou pelo interfone:
— Deem o fora daqui.
— O que? Ei, calma! Nós somos…
— Eu sei quem vocês são. Eu não preciso de nenhum policial depois de tudo o que aconteceu. Caiam fora daqui, já!
Após pegar a maleta, o garoto percebeu que também havia outra de coloração esbranquiçada, também no porta-malas. Enquanto ouvia a discussão, ele caminhou até ficar lado a lado com Sanches.
— Senhora, eu não estou à mando de nenhuma organização militar ou policial. Eu venho em nome do mais novo projeto governamental de apoio militar, criado e bancado pelo empresário Yui Arnault.
— Não me importa as suas belas palavras! Não me importa a quem você serve ou não! Nada poderá mudar a droga da minha vida depois do que vocês fizeram! Eu estou pouco me lixando para…
Enraivado, Sanches decidiu interromper a fala da mulher:
— A senhora foi bonificada com uma quantia de cento e cinquenta mil dólares devido ao sacrifício honroso de seu filho durante uma das ações mais memoráveis do NCC para a história da nossa cidade. Você pode se recusar a abrir esse portão e negar de vez o bônus oferecido pelo novo projeto… ou se dispor a lidar com seu passado de uma vez por todas e seguir adiante com sua vida.
Ainda surpreso, Slezzy tentava se lembrar de quem se tratava a tal situação.
Poucos segundos se passaram e o portão, aparentemente de função automática, se abriu lentamente diante da dupla.
Em poucos passos, eles percorreram um quintal vazio, com objetos jogados às traças e de paredes que se descascavam, enquanto encararam a mesma mulher que havia acabado de se desabafar naquele interfone. Ela os observava através de uma varanda acima do quintal, sustentada por colunas amareladas, não se preocupando com a nítida raiva que demonstrava em seus olhos.
— Subam as escadas — A mulher ordenou, abandonado a varada logo depois.
Slezzy encarou o parceiro antes de avançar mais um pouco, mesmo que Sanches não tivesse hesitado em interromper seu próprio passo.
Ao subir das escadas brancas e também descascadas no final do quintal, a dupla percebeu que, a cada passo, elas pareciam estar prestes a se desmoronar a qualquer momento.
No segundo andar, eles se depararam com uma porta negra, que logo foi aberta.
Uma sala iluminada por uma única vela numa mesa de plástico foi o que a dupla recebeu após toda a sua trajetória até ali. A mulher os observava através da chama, sentada numa cadeira de madeira, que talvez fosse o único móvel do lugar ainda preservado.
Dois corredores laterais, retratos sobre as paredes que não se diferenciavam das que compunham o quintal abaixo e roupas sujas. Era o que compunha o redor da mesa de plástico.
Sem medo, Sanches se assentou sobre a mesa, encarando a mulher entre a chama da vela.
— Vai ficar aí, de pé, garoto?
Envergonhado, Slezzy logo se assentou, ainda tentando a todo instante, enxergar algo além da imensa escuridão que os cercava.
Após colocar a maleta sobre a mesa, o garoto se travou instantaneamente ao se deparar com um retrato específico à sua esquerda: a mulher diante de si abraçada à Niash, seu antigo parceiro, agora morto.
Sanches nem mesmo percebeu o tal fato e logo tomou a maleta de suas mãos, a abrindo e empurrando-a até o outro lado da mesa.
A mulher se transformou totalmente ao tocar em cada uma das primeiras notas de cem dólares que haviam ali.
Grosseiramente, Sanches se levantou da mesa:
— De fato, não há como trazer Niash ou nenhum de nossos agentes que deram suas vidas enquanto em ação. Mas, talvez possamos “amenizar” os danos que suas famílias sofreram durante todo esse processo. Você pode usar todo esse dinheiro da maneira que quiser, sem a necessidade de dar qualquer satisfação para qualquer pessoa do governo. Você pode se mudar desse inferno de cidade, seguir uma nova vida, conhecer novas pessoas. Se decida. Você é livre.
Sanches sorriu antes de caminhar até a porta negra novamente.
— Vocês nunca me contaram…
Slezzy se chocava diante de cada palavra da mulher.
— …como ele… morreu… — Ela passou a choramingar, fechando a maleta.
Sanches cogitou em se virar, mas se surpreendeu diante das palavras de Slezzy:
— Eu… Eu estava lá…
— Han!?
— Nós havíamos descoberto o local da reunião dos maiores chefes das maiores máfias de Maple. Nós os surpreendemos ao tomarmos o lugar rapidamente através de duas entradas. Eliminamos a maioria dos capangas daqueles desgraçados, mas, mesmo assim, não foi o suficiente. Uma parte deles escapou pela parte dos fundos e eu… — A cada palavra dita, a cena se se reconstruía em sua mente. — Eu decidi os perseguir.
Com olhares de espanto e ainda choramingando, a mulher o encarava.
— A questão é que… aqueles mafiosos me encurralaram. Eles ganharam muito tempo para que fugissem até outra parte do local. Eu mesmo já havia aceito que não conseguiria os impedir. Porém, tudo mudou quando Niash apareceu, bem ali, no meio do meu confronto. Ele decidiu abandonar sua posição segura e protegida no esquadrão para que pudesse me ajudar. Eu juro que… quando o vi… eu tentei avisá-lo daquele perigo, mas já era tarde demais. Com um único ato de coragem, ele se expôs e abateu cinco dos capangas que fugiam. Um segundo depois, o seu corpo já não estava mais de pé…
Slezzy escondeu sua face com a mão direita, envergonhado com a presença da mãe daquele agente.
— Me desculpe… eu não posso… Eu… eu não consigo mais ficar aqui — Slezzy se levantou e abandonou a sala escura, esbarrando no ombro de Sanches, descendo as escadas rapidamente depois.
— Quem o matou? — falou ela, olhando para Sanches.
Ainda de costas, o agente a respondeu:
— Salvador. Salvador das Sombras. Ou pelo menos era assim que o chamavam.
— Ele… está morto?
Sanches relanceou apenas seu olho direito para o rosto entristecido da mulher:
— Aquele garoto o matou.
O agente cruzou a saída da sala e partiu para a escadaria branca.
Fora da casa, Slezzy repaginava em seus pensamentos cada momento da batalha contra Salvador. Seus punhos fechados quase explodiam perante toda a sua raiva.
Com o barulho do portão automático se fechando, os passos de Sanches também incomodavam o pavio curto do garoto.
— Por que você… me trouxe aqui?
— Hum? — Sanches parecia não se importar com a raiva notória do garoto, até que algo inesperado acontecesse.
— Eu perguntei… por que você… me TROUXE AQUI? — Slezzy não conseguiu controlar toda a sua raiva, posicionando-se para golpear uma das janelas de vidro do Mustang com um forte soco.
Era questão de milissegundos para que o garoto danificasse o carro de Sanches.
Incrivelmente, o agente mais velho não demonstrou nenhuma reação física perante tal atitude.
A mão fechada de Slezzy foi interceptada pelo demônio do mesmo agente, que assumiu sua forma física instantaneamente, impedindo seu golpe.
O garoto estava tão enraivado que mal se preocupou com o fato de que Rayrack poderia ser flagrado por alguma pessoa naquela rua.
Contra a força do demônio peçonhento, restou ao garoto apenas desistir de forçar o seu punho contra o mesmo.
— Você não disse que… queria melhorar? — Enquanto ajeitava os próprios fios de seu cabelo, Sanches o provocava, contornando o carro. — Por acaso, você não consegue lidar com o próprio passado? Você vai se enfurecer assim sempre que a dor que você carrega te atormentar?
O demônio não estava mais ali.
— Han? — Enquanto ouvia o agente, Slezzy passou a observar a mão direita. O impacto do soco contra a mão de Rayrack havia lhe rendido cortes médios sobre os dedos. Ele tentava aliviar sua dor, pressionando a outra mão sobre suas feridas.
— Ter autocontrole não é uma tarefa tão fácil quanto parece, garoto. Suas ações sempre dependerão do que se passa bem… aqui! — Sanches pressionou seu dedo indicador contra a testa do jovem. — Ter a mente blindada é a principal habilidade que um mentoreado, nesse mundo, deveria aprimorar. Não ser vítima dos próprios sentimentos nas piores horas pode ser algo crucial para tomar suas decisões.
Rayrack assustou Slezzy ao assumir a forma física ao seu lado, o surpreendendo ao segurar sua mão direita. O demônio enrolou um pedaço de faixa branca sobre a metade de seus dedos, como se estivesse cuidando de seus ferimentos. Aquilo o aliviou no mesmo instante.
Sanches tornou a contornar o carro, em direção à porta dianteira do mesmo. Seu demônio desapareceu outra vez.
“Arrand Sanches… Você é realmente o único agente em que já confiei em todos esses meses. Você me auxiliou, me treinou e também já se provou leal. Então, por que ainda escondo o segredo do Medalhão Lunar?”
— Ei! Há pouco tempo você quase socou o meu carro… e agora tá com essa cara triste!? — debochou Sanches, sorrindo, ao abrir a porta dianteira. — Slezzy, você quer me contar alguma coisa?
— É… — Nenhum outro barulho ecoou na rua além da ventania que remoinha as folhas espalhadas sobre as calçadas das casas, ao mesmo tempo que Slezzy se erguia para encarar o outro agente. — É só que…
— UNIDADES DO NCC! ATENÇÃO! — Era uma voz grave, emitida através do rádio do Mustang. — Precisamos urgentemente de reforços numa perseguição na Região Sul! Especificamente no Bairro Georgia, próximo do fim da cidade! Há alguma unidade disponível!?
Sanches sorriu, como de costume, antes de convidar o jovem:
— O que acha, garoto?… Como nos velhos tempos?
Slezzy se livrou de todos aqueles sentimentos, devolvendo o mesmo sorriso logo depois.


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