Quase se debruçando entre as barracas de uma extensa feira de compras no fim da Região Sul, um jovem de aparência japonesa e encapuzado era perseguido por vários policiais que tentavam o cercar.

       O fugitivo despistava com facilidade cada um dos agentes do NCC, graças a sua enorme criatividade e suas habilidades de Parkour.

       Num rápido deslize, o jovem acertou um chute colocado no meio do peitoral de um dos policiais, o arremessando contra o andaime que sustentava a estrutura das feiras improvisadas.

       Aproveitando do agente atordoado sobre o chão, o jovem rapidamente o utilizou como apoio para que alcançasse o topo daquela estrutura. Suas habilidades ágeis de locomoção impressionaram a todos que presenciavam a tal perseguição.

       — O FUGITIVO ESTÁ ESCAPANDO! ELE ESCALOU O TOPO DA FEIRA E SALTOU ATÉ AQUELE PRÉDIO! — gritou um agente que se aproximava do andaime que se bambeava.

       No prédio ao lado, o jovem escalava sobre as varandas com extrema facilidade, sem nenhuma vontade de parar, até adentrar um dos mais altos andares através de uma janela aberta.

       Em um escritório vazio e completamente organizado, ele caminhava enquanto bisbilhotava os objetos, móveis e todo o tipo de bugiganga dali.

       No fim do andar, o jovem solicitou a vinda do elevador do prédio ao apertar um botão prateado. Audaciosamente, ele ainda passou a mão sobre o próprio moletom preto a fim de conferir se ele havia se sujado.

       Com o barulho fino e encantador da chegada do elevador àquele andar e o abrir das portas do mesmo, o jovem foi surpreendido por uma presença icônica dentro da mesma maquinaria:

       — Surpresa, Mark! — Sanches o golpeou com um forte soco no meio do nariz, forçando-o a recuar rapidamente para trás com os olhos fechados.

       — Seu… desgraçado! — Estranhamente, o corpo do fugitivo foi tomado por uma volta de vapor quente. Sua face se escureceu e seus olhos se amarelaram. Aquilo com certeza não era nada humano. — O que você faz nesse fim de mundo? Você foi rebaixado por acaso!?

       Agora reconhecido, Mark não se preocupou em zombar do Agente.

       Depois da mudança repentina daquele corpo, Sanches concluiu na mesma hora de que o jovem se tratava de um mentoreado.

       — Eu não sou uma pulga como você, que sai saltando de prédios em prédios por todas as Regiões da cidade. E, pelo visto, você não parece se preocupar nem um pouco em revelar os seus poderes.

       — É que… geralmente… aqueles que os presenciam não sobrevivem para contar muitas histórias por aí.

       — Oh! É mesmo? E o que você faz exatamente… além de expelir essa fumaça e fazer uma cara de bravo?

       Mark violentamente avançou na direção de Sanches, com apenas quatro passos à frente, saltando até o seu alvo.

       Imediatamente, o Agente sacou sua clássica pistola prateada, disparando contra Mark, porém o jovem o surpreendeu ao se defender, no mesmo segundo, com duas asas negras, do mesmo tom de seu moletom, que saíram de repente das suas costas, protegendo-o dos projéteis da arma de Sanches.

       Mark se ajoelhou no chão, ainda com as asas à frente de seu peitoral, a pequenos metros de alcançar o Agente. Elas não haviam sido sequer perfuradas.

       As asas de Mark haviam ricocheteado os projéteis de aço para o teto, que tremeu após os conter.

       — Asas!? Em que tipo de classe você se enfiou? — Sanches, bastante surpreso, tentava compreender o poder do jovem.

       — Haha! — Mark o observou por cima das asas. — É isso que você quer saber antes de morrer?

       Mark reposicionou suas asas para trás, preparando para avançar novamente até Sanches, que ainda nem havia se preocupado em recarregar sua arma.

       — Hum… Eu apostaria que ele gostaria de saber mais sobre isso do que eu… — Sanches apontou para cima.

       O fugitivo relanceou seu olhar naquela direção, mas já era tarde demais.

       Slezzy havia perfurado o concreto que recobria o teto, utilizando do seu Raio de Éktos para alcançar o corpo de Mark.

       Não sobrou qualquer espaço de tempo para que o jovem reagisse perante tal raio dourado, tendo o seu corpo pressionado contra o chão do mesmo andar, que logo depois também foi perfurado.

       Slezzy perfurou cada camada de concreto, entre todos os andares do prédio, com auxílio do raio dourado, empurrando o corpo de Mark contra cada pedaço de chão, até alcançar o térreo, colidindo-se contra o piso do primeiro andar.

       Mark não reagia aos socos sequenciados de Slezzy contra o seu rosto. Enraivado desta vez, ele conjurou uma enorme energia neblinosa que forçou o seu mais novo inimigo a se distanciar. A tal neblina era fedorenta e aparentemente tóxica.

       — Que merda é essa? Quantos poderes você tem? — Slezzy retrucou.

       De pé e com sangue em seu rosto, Mark finalmente pôde encará-lo: só um garoto de roupas pretas, com traços brancos, que escondia o rosto com uma máscara.

       — Então, agora estão formando heróis mascarados nessa droga de cidade? — o repudiou, recuperando o fôlego.

       Atrás de Slezzy estava a porta principal do prédio, que dava acesso direto à uma das últimas rodovias que cercavam os limites da cidade de Maple.

       — Acredite, eu não uso essa merda apenas pelo disfarce. Eu mal consigo respirar quando me esforço muito, mas acho que vai sobrar muito fôlego ainda pra mim.

       — Ah, é? — As asas de Mark ressurgiram novamente, agora energizadas e com garras em suas pontas. Ele sorria macabramente. — Você já voou, garoto?

       — Han?

       — Eu garanto que você vai respirar direitinho! — O jovem disparou contra Slezzy, apontando suas asas.

       O garoto mascarado se impressionou ao ver que Mark havia retirado os pés do chão. A partir dali, com olhares diabólicos, o fugitivo estava realmente voando.

       Subestimando seu inimigo, Slezzy conjurou a Barreira de Défteros apenas com uma mão, que logo se quebrou com o corte afiado das garras das asas.

       Pela primeira vez em toda a sua jornada pelo Mundo dos Demônios, a Barreira de Défteros fora perfurada como se nada ali houvesse.

       Completamente indefeso, Slezzy foi agarrado violentamente pelo fugitivo, que atravessou a porta principal de vidro, quebrando-a.

       Sobre a rodovia à frente, Mark voou numa velocidade anormal, provocando um acidente entre os veículos que a atravessavam.

       De um dos mais altos andares do prédio anterior, Sanches pôde ouvir o barulho do incidente.

       Após a rodovia, numa floresta repleta de enormes árvores, Mark arremessou o corpo de seu adversário contra uma rocha.

       O impacto das costas de Slezzy com a tal pedra foi absurdamente dolorosa. Seu corpo quase se desligou por completo. Graças aos seus poderes, Slezzy conseguiu se colocar de pé, manipulando todo o corpo dolorido, mas logo se desequilibrou pela fraqueza ignorável.

       Na descida de um pequeno morro da floresta, Slezzy se capotou completamente entre as rígidas árvores, se machucando ainda mais a cada metro percorrido. Mark o observava, rindo, enquanto voava em baixo nível.

       Ao chegar no que parecia um pequeno covil, cercado por uma baixa grama, ele tentou se reerguer de todas as formas, chegando a se ajoelhar, apoiado com o braço num pedaço de madeira, mas não obteve nenhum sucesso.

       Mark o rodeou, cessando seu voo e colocando os pés sobre aquele chão macio.

       Slezzy notou que as árvores daquele campo eram entrelaçadas por fitas grossas e avermelhadas. Aquilo claramente indiciava algum sinal.

       — Qual é a maneira mais inútil que alguém pode morrer, garotinho? — Mark agarrou o pescoço de Slezzy por trás, puxando a gola de sua camisa.

       — Vai… se ferrar… — O garoto estava tão fraco que mal conseguia se esforçar para dizer alguma palavra.

       — É exatamente assim! Sem poder se defender, sem propósito. Completamente destruído. Este é o seu fim, seu desgraçado — O fugitivo pôde escutar os barulhos das sirenes dos carros dos policiais sobre a rodovia.

       Os agentes estavam prestes a adentrar a floresta para caçá-lo.

       Mark tentou arrancar a máscara de Slezzy, mas antes que o fizesse, dois disparos o acertaram em cheio na sua perna direita.

       O mentoreado se protegeu rapidamente em uma das árvores, mesmo mancando.

       Sanches os havia encontrado.

       Ainda com sua pistola apontada para a árvore em que Mark se escondia, Sanches correu até Slezzy, que estava ajoelhado e gravemente ferido.

       — Garoto, não consegue se levantar? — Ele removeu a máscara de Slezzy para facilitar a sua respiração.

       Mark utilizou do mesmo artifício em que havia conjurado anteriormente naquele prédio: A Neblina de Éktos. Dessa vez, a tal manipulação era densa e bem pesada, chegando a causar enjoos e náuseas nos primeiros instantes em que Sanches havia a inalado. Aquilo forçou Sanches a se distanciar do corpo de Slezzy, se protegendo entre as árvores entrelaçadas por fitas.

       — Mark! Nós podemos resolver isso de outra maneira! Dentro de cinco ou seis minutos, todos aqueles policiais vão nos rastrear! O perímetro está cercado! Você não tem saída… e sabe muito bem do risco que esse lugar nos traz!

       — Eu não vou cair em mais nenhum de seus truques. Suas palavras me enojam, Sanches. Você é exatamente como o seu demônio, uma maldita de uma serpente em carne e osso!

       Com o aproximar da névoa, Sanches tossiu repetidamente, revelando o local ao qual se abrigava.

       Em pouco tempo, Mark surpreendeu o Agente, atacando-o por trás, tentando-o empurrar com as garras de suas asas. Em um rápido reflexo, Sanches disparou as outras quatro balas do compartimento de sua pistola, acertando apenas uma, bem no abdômen do fugitivo.

       Mesmo baleado, Mark entrou numa disputa física com o Agente, o empurrando para além das tais árvores. Sanches estava notoriamente assustado com a situação.

       — Já visitei aquele inferno uma vez… e não tenho medo de voltar pra lá… desde que eu te leve junto, seu…

       Mark recebeu um forte golpe em suas costas, forçando-o a largar Sanches para que pudesse se defender.

       Agora desmascarado, Slezzy havia utilizado de alguma artimanha para alcançar seu inimigo e o arremessar com o peso do próprio corpo até depois das árvores.

       — SLEZZY… NÃO! — Foram as últimas palavras de Sanches, antes que Slezzy e Mark recebessem o choque incomum de uma espécie de parede invisível.

       Derrubado sobre o chão, assim como os outros dois, Sanches passou a observar o jovem, com os olhos lacrimejantes e a mão estendida sobre a grama macia, pois, durante o único segundo em que Slezzy o salvara, ele havia tentado o agarrar.  

       — Slezzy… — O agente lamentava.

       Ainda era possível visualizar os traços da travessia corpos dos jovens na parede invisível, que logo começou a se restaurar, se “escondendo” novamente.

       Mark se levantou lentamente. Ele encarou Sanches com os olhos recobertos de sangue. O seu corpo se desintegrava lentamente, virando cinzas.

       — Uau! Eu não esperava um sacrifício como esse! Parece que a pequena cria se provou. Será uma honra ter uma alma tão nova… naquele lugar imundo, outra vez.

       — Agente… Sanches!? — Slezzy se reergueu, ao lado de Mark. Estranhamente, seu corpo dissipava uma energia de faíscas vermelhas e visivelmente energizantes. — Você está bem?

       — Han? — Sanches se impressionou, assim como Mark.

       — O QUE!? — O fugitivo se estremeceu, observando o corpo do garoto.

       Slezzy estava intacto. Suas feridas haviam desaparecido. Era como se as faíscas fossem algo divino. Suas pupilas estavam dilatadas e avermelhadas.

       — Como…? — Foi a primeira vez que Sanches havia sentido algo próximo do medo diante daquele garoto. A sua mente havia se bagunçado por completo. Nada fazia sentido.

       — Por que… você não está… morrendo!? — falou Mark. Suas mãos já haviam desaparecido.

       Sanches se colocou de pé, tentando compreender a situação. Logo, ele recebeu os olhares de Mark, tomados por terror:

       — Sanches… POR QUE ELE NÃO ESTÁ MORRENDO!? — Mark se revoltou. Ele girou seu corpo para que tentasse agarrar o pescoço de Slezzy, mas seus pés perderam o equilíbrio devido ao desmanche demorado de seu corpo em cinzas. — Quem… Quem é você, caralho!?

       Com os olhares transcendidos, Slezzy observou a morte do fugitivo bem na sua frente. Aquela cena se marcara para sempre nas suas memórias: o corpo de Mark se juntando às partículas de ar em meio ao seu olhar desentendido.

       A neblina se esvaiu por completo. Mark já não estava mais ali.

       As faíscas que rodeavam Slezzy se paralisavam aos poucos. O garoto voltava à realidade paralelamente. Os passos dos policiais que desciam o morro terroso da floresta ficaram audíveis de repente.

       Sanches e Slezzy se encararam como dois desconhecidos que estavam prestes a tomar qualquer atitude precipitada.

       Em poucos segundos, um agente de fardas azuis, responsável pela ação policial, se aproximou do Agente mais velho, questionando-o:

       — O que houve aqui? Vocês o capturaram!?

       Adotando uma postura séria para se disfarçar, Sanches o respondeu, ainda com os olhos grudados em Slezzy:

       — Nós… não conseguimos alcançá-lo. O perdemos de vista quando ele começou a escalar os galhos das árvores e… se afundar pela floresta afora…

       — Agente Sanches… — O policial o encarou. — …está me dizendo que aquele japonês conseguiu despistar um dos melhores policiais da cidade e um Agente da FMA… e depois saiu por aí… escalando como um macaco por essas árvores?

       — É o que parece.

       Com os punhos estremecidos, o tal policial caminhou até encarar o garoto. Ele estranhou a sua afeição, mas não se importou tanto.

       — ESCUTEM AQUI! — O policial chamou a atenção de todos os seus parceiros que já haviam descido o morro. — VAMOS CERCAR TODO ESSE MONTE DE MATO ATÉ PEGARMOS AQUELE DESGRAÇADO! Vamos alertar as cidades vizinhas sobre a nossa operação. Na primeira oportunidade, não hesitem em matá-lo.

       Com a cabeça erguida, os policias passaram por Slezzy, se enfiando no meio da floresta obscura, enquanto o responsável pela operação tornou a subir o morro de terra, provocando Sanches com risadas de deboche.

       Sozinhos, Slezzy e Sanches tornaram a se encarar. O sol se punha naquele exato momento, escondendo a verdadeira tonalidade da face do jovem.

       Logo, Sanches interrompeu o silêncio perturbador:

       — Temos muito o que conversar, garoto.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota