Índice de Capítulo

    A madrugada ainda segurava Cervalhion quando eles desceram as escadas da hospedaria.

    As lanternas da rua lançavam círculos pálidos sobre a pedra úmida, e o ar frio abraçava o ambiente tornando o momento mais melancólico.

    Kael caminhava à frente, usando roupas leves demais para alguém que partia para o leste. Aisha vinha logo atrás, capuz baixo, os passos mais silenciosos do que o necessário.

    Ian os esperava junto à porta.

    Não usava armadura. Apenas um manto escuro e o rosto cansado de quem não dormira.

    — Vocês vão mesmo sair antes do sol? — perguntou.

    — Menos olhos — Kael respondeu, abrindo um sorriso curto. — Prefiro assim.

    Aisha ergueu o olhar para Ian. Por um instante, quis dizer algo, mas as palavras ficaram presas.

    Ian foi o primeiro a quebrar o silêncio.

    — Naira e Thamir já passaram pelo portão oeste.

    Kael assentiu.

    — Imaginei. Eles não gostam de despedidas.

    — Pois é, só espero que retornem bem — Ian completou.

    Kael apoiou o peso em uma perna só, observando-o com atenção, as olheiras os ombros tensos.

    — Sobre o caso do Freddy… — Kael disse, baixo. — O plano é bom. Frio. Funcional.

    Ian deixou escapar um riso baixo

    — Não achei que você iria aderir o apelido.

    — Fazer o que? — Kael deu de ombros — Thamir é bom dando apelidos.

    — Concordo.

    Ian esperou o “mas”.

    — Só toma cuidado para não deixar isso te custar mais do que já custou — Kael continuou. — Ganhar tempo não vale perder o que ainda te mantém humano.

    Ian soltou um ar curto pelo nariz.

    — Fique tranquilo, acho que sei até onde posso ir.

    — Acha que sabe, vou fingir que acredito — Kael respondeu, dando de ombros. — A gente aprendeu cedo que sobreviver não é o mesmo que virar uma pedra.

    Houve um silêncio breve.

    Então Kael sorriu de novo.

    — E não ouse morrer antes de a gente voltar. — Apontou para ele. — Se a expedição rolar antes de nos voltarmos é melhor não ir.

    Kael subiu na carroça dando a mão a Aisha a ajudando a subir.

    — Não vou — Ian respondeu. — Alguém precisa impedir vocês de fazerem besteira quando voltarem.

    Aisha se aproximou de Ian.

    — Você… — começou, e parou. Engoliu em seco. — Obrigada.

    Ian inclinou a cabeça, como se entendesse.

    — Volta inteira.

    Ela assentiu.

    Kael já se afastava quando Ian falou de novo:

    — Kael.

    — Hm?

    — Me faz um favor?

    — O que?

    — Pode ensinar o seu estilo de luta para ela?

    — Não, e você sabe muito bem o porque. Vou ajuda-la com o treino dela, mas apenas isso.

    — Cuida dela.

    Kael olhou para Aisha, depois de volta para Ian.

    — Eu sei.

    Pouco a pouco, as sombras os engoliram na rua que levava ao leste da cidade, ainda fechada para o dia.

    Ian permaneceu ali.


    A carruagem deixou Cervalhion para trás enquanto o céu ainda clareava. O som das rodas no caminho de terra era constante, quase hipnótico. Kael estava sentado ao lado de Aisha guiando a carroça, relaxado demais para alguém prestes a entrar em um território cheio de bestas.

    Ele observava a estrada com calma.

    — Então.. Me conta — disse, depois de um tempo. — Como você se tornou a aprendiz dele?

    A pergunta veio simples.

    Aisha piscou, pega de surpresa.

    — É… uma longa história.

    Kael sorriu, satisfeito.

    — Ótimo. Temos pelo menos três dias de viagem. — Inclinou-se um pouco para trás. — Histórias longas são as melhores. As curtas geralmente são mentiras bem ensaiadas.

    Ela soltou um riso curto, nervoso.

    — Você sempre faz isso?

    — O quê?

    — Pergunta coisas importantes como se não fossem nada.

    — Mas não perguntei nada demais — respondeu. — Mas agora eu fiquei realmente curioso.

    Aisha desviou o olhar para a paisagem. Campos ainda cobertos de névoa passavam lentamente. Ela respirou fundo.

    — Eu conheci Ian… em um desafio.

    Kael assentiu brevemente.

    — Ele apareceu no meio de algo que já tinha dado errado — ela continuou. — Eu não confiava nele. Ele não confiava em mim. — Um pequeno sorriso surgiu. — O padrão… eu acho.

    — Você é péssima contando historias sabia? — Kael comentou.

    — O que?

    — Você é péssima contando historias — Ele olhou para ela. — Conta a história direito, por exemplo, você estava fugindo do que?

    — Eu… — Ela respirou fundo enquanto ponderava — Eu estava fugindo do meu passado, me mandaram junto com um grupo para morrer fazendo o desafio de Ian.

    — Desafio de Ian?

    — É — Ela concordou de forma breve.

    Kael ficou em silêncio por alguns segundos, apenas guiando a carroça.

    — Desafio em três partes… — murmurou. — Com um sacrifício, imagino.

    Aisha assentiu.

    Um sorriso curto surgiu no canto da boca dele.

    — Então é isso.

    — Isso o quê? — ela perguntou.

    — O velho teste. — Ele balançou a cabeça. — Nosso mestre fazia algo parecido. Não para medir força… mas caráter.

    Aisha o olhou de lado.

    — E funcionava?

    — Funciona bem demais. — O sorriso desapareceu. — Principalmente para eliminar gente que só enxerga vantagem.

    Ela respirou fundo.

    — Ele me escondeu num pilar de gelo depois. Perguntou se eu queria voltar.

    — E você?

    — Disse que não.

    Kael assentiu, satisfeito.

    O silêncio voltou a se instalar.

    Então Kael falou, casualmente demais:

    — Tá. E antes disso… você vinha de onde?

    Aisha apertou as mãos.

    — Eu…

    — Se não quiser falar, tudo bem — disse ele, sem tirar os olhos da estrada. — Mas já que começou… histórias mal contadas costumam pesar depois.

    Ela fechou os olhos por um instante.

    Quando falou, a voz saiu firme demais para ser ensaiada.

    — Eu não sou daqui.

    — Daqui onde?

    — Desse continente

    A carruagem seguiu em frente.

    — Eu sou de fora… De fora da barreira.


    Maelis subiu os degraus da Torre com o passo firme de quem já conhecia cada pedra daquele lugar. O nome era mais simbólico do que literal; a estrutura fazia parte do complexo da escola de magos de Cervalhion, um núcleo de ensino, pesquisa e seleção política disfarçada de academia.

    — Mestra Maelis — cumprimentou um grupo de aprendizes ao vê-la passar.

    — Boa tarde — respondeu, sem diminuir o ritmo.

    Professores inclinaram a cabeça, alguns com respeito genuíno, outros nem tanto. Ela reconheceu todos com breves acenos, atravessando corredores de pedra clara marcados por inscrições arcanas e janelas altas que deixavam o sol da tarde entrar em faixas oblíquas.

    Ao alcançar seu andar, empurrou a porta do escritório e entrou. Fechando a porta atrás de si.

    O ambiente estava exatamente como deixara: mesa organizada, documentos empilhados, o cheiro leve de pergaminho e tinta. Maelis soltou o manto, acomodou-se na cadeira e puxou a pilha de papéis para perto. Seus dedos tocaram o primeiro relatório.

    — Jurei que iria chegar mais tarde.

    A voz soou atrás dela.

    Maelis reagiu por instinto.

    Virou-se já conjurando, o calor explodindo na palma da mão. Uma esfera de fogo rasgou o ar do escritório, rápida e precisa.

    O dono da voz desviou com um passo curto. A chama passou onde sua cabeça estivera um segundo antes.

    — Maelis—

    Ela não ouviu.

    Já avançava, reunindo mana para um segundo ataque. Antes que a conjuração se fechasse, ele cruzou a distância entre eles e segurou seu braço com força suficiente para interromper o fluxo, mas sem machucar.

    — Calma.

    Maelis tentou se soltar circulando a mana fazendo subir uma fumaça no local onde o homem a segurava, o olhar ainda duro, até que finalmente olhou.

    O rosto, os olhos, a postura.

    Era Ian.

    Por um instante, uma confusão brotou em seus olhos. Depois, a tensão se reorganizou, não sumiu, apenas mudou de forma.

    — Solta — disse ela, fria. — Agora.

    Ele obedeceu, dando meio passo para trás, as mãos visíveis.

    — Não vim te atacar.

    — Entrar no meu escritório sem aviso costuma ser o primeiro passo de quem vem — respondeu ela, mantendo a guarda erguida.

    Ian respirou fundo. Estava diferente do habitual. Usava uma blusa branca, simples, bem ajustada, e uma calça azul escura. Arrumado demais para uma emboscada.

    — Eu só… — ele hesitou por um segundo, coisa rara — Pensei em te convidar pra tomar um café comigo.

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    Maelis não abaixou a mão. Não sorriu. Não respondeu de imediato.

    — Como entrou aqui?

    — Eu só perguntei onde poderia te encontrar — Ele abaixou as mãos — E uma moça de cabelo curto que estava no castelo, ficou empolgada em me ajudar e me trouxe até aqui.

    — O que? — Ela franziu a testa claramente confusa — Quem?

    — Não sei, ela falou tanto durante o caminho que nem consegui perguntar o nome, ela ficou de voltar e avisar quando você chegasse.

    Nesse momento a porta do escritório vai se abrir.

    — Senhor Guardião, acabei de ficar saben — Ela encarou Maelis, viu as marcas de fuligem na parede. — Bom dia Senhora Maelis..

    — Foi ela — disse Ian, apontando com o queixo.

    — Alexandra… — Maelis retomou a postura mas claramente irritada — Porque você trouxe ele aqui?

    — Ué, vocês… — Ela olhou para Ian e depois para Maelis — não estão juntos?

    — Não.

    — É que… depois do baile, muita gente começou a comentar.— Ela fez um gesto vago com a mão. — Sobre a senhora… e o Guardião. E sobre o noivado com o príncipe herdeiro.

    — O que?

    — Bom… — Ian finalmente falou — Isso meio que era esperado, depois da dança.

    — Pode sair, Alexandra — disse Maelis, num tom controlado demais para ser calmo. — E feche a porta.

    Alexandra engoliu em seco, fez uma reverência apressada e saiu quase tropeçando no próprio manto. A porta se fechou com cuidado excessivo.

    — Eu disse que só queria um café — Ian falou por fim. — Mas acho que já arrumei problemas suficientes para o dia.

    Maelis soltou o ar devagar, como quem se recompõe. A fuligem na parede ainda fumegava levemente. Ela passou os dedos pelo pulso onde Ian a segurara, mais por hábito do que dor.

    — Como está a sua mão? — perguntou, finalmente.

    — Não se preocupe — respondeu ele. mostrando as mãos sem qualquer marca — Suas chamas são quentes, mas só isso.

    Ela o encarou de novo.

    — Só isso? como assim?

    — Bom — Ele se aproximou dois passos — Posso explicar melhor no café.

    — Mas nunca é só um café.

    Maelis caminhou até a mesa, apoiou as mãos na madeira e inclinou levemente a cabeça, avaliando-o como avaliaria uma proposta política.

    — Se isso é um pedido — disse — seja direto.

    Ian sustentou o olhar.

    — É um pedido.
    — De quê?
    — De alguns minutos fora dessas paredes. Sem cargos. Sem títulos.

    Ela ficou em silêncio por um instante longo demais para ser casual.

    — Um Café — disse por fim. — Um. Agradeço pela sua ajuda no baile, mas é melhor evitar repercussões indesejadas.

    Um canto quase imperceptível da boca dele se moveu. Não chegou a ser um sorriso.

    — Justo.

    A porta bateu de novo.

    — Entre — Maelis falou.

    Alexia abriu a porta devagar, o rosto pálido demais para quem apenas atravessara um corredor.

    — Mestra — disse, a voz falhando — o príncipe… o príncipe está na torre.

    O silêncio voltou, mais pesado que antes.

    — O que? Onde? — perguntou Maelis, fria.

    — No átrio inferior. Ele… — Alexia hesitou — ele perguntou por você. Disse que deseja vê-la. Agora.

    — Estranho…

    Maelis fechou os olhos por meio segundo. Só isso.

    Quando abriu, exibia um sorriso curto convencido.

    — Diga que ele pode subir. — Falou olhando para Ian, que assentiu com a cabeça.

    Alexia assentiu e saiu tão rápido quanto entrou.

    — Entendo, nessa caso podemos rem—

    — Você fica Ian, caso ainda queira tomar um café comigo. — cortou Maelis.

    Ela saiu de trás da mesa, se aproximando de Ian.

    — Só preciso de mais um favor Guardião…

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