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    A Cidade Prisão, um lugar onde os gritos do vento gelado competiam com os gritos de homens desesperados.

    Ruas estavam desertas, cobertas por uma fina camada de gelo que brilhava sob a luz pálida da lua. As paredes das construções de pedra estavam cobertas de neve, e o ar gélido cortava como lâminas afiadas. Era um lugar inóspito, onde até mesmo os corvos hesitavam em pousar.

    No coração dessa desolação, um grande anfiteatro improvisado havia sido erguido, um símbolo de opulência e decadência em meio à miséria. No centro, um octógono cercado por grades de ferro onde prisioneiros se enfrentavam em lutas brutais, suas vidas reduzidas a mero entretenimento.

    Lá, no topo da arena, Thornick exibia um sorriso satisfeito, os olhos brilhando com a euforia da vitória, enquanto as mulheres em seu colo riam e sussurravam elogios ao seu ouvido.

    Ele estava sentado em uma cadeira de veludo vermelho, em suas mãos, um charuto grosso que ele fumava com prazer.

    As mulheres, com vestidos de seda que pareciam fora de lugar naquela terra gelada, estavam sentadas em seu colo, sussurrando-lhe palavras ao ouvido e rindo de suas piadas.

    Lá embaixo, no octógono, dois prisioneiros se atracavam ferozmente.

    Seus corpos estavam cobertos de hematomas e cortes, o sangue manchando o gelo no chão.

    A plateia ao redor rugia de entusiasmo, torcendo e berrando, a adrenalina coletiva aquecendo o ar gélido. Um dos combatentes, um homem musculoso com uma cicatriz que atravessava seu rosto, desferiu um golpe poderoso que fez seu oponente cambalear.

    O outro prisioneiro, mais magro, com olhos selvagens, tentou resistir, mas foi derrubado com um soco que o fez desabar no chão.

    A plateia foi à loucura, e Thornick comemorou com as mulheres em seu colo.

    — Eu sabia que ele venceria, eu sabia!

    No meio da multidão, Nath deslizou a mão dentro do casaco, retirando um relógio de bolso com precisão.

    Com um olhar furtivo, posicionou o artefato sob o banco, o tic-tac se misturando ao som distante da luta.

    Ela observava a cena com uma aparente indiferença, um pirulito pendendo da boca, óculos escuros em seus olhos e uma touca em sua cabeça.

    O som da luta continuava ecoando pela arena, os gritos de dor e vitória misturando-se ao vento gelado que soprava impiedosamente.

    — Certo, hora de ir.

    Nath se afastou da arena, cada passo medido com a precisão de um dançarino em uma coreografia assassina, evitando os olhares frenéticos da multidão.

    O relógio que ela deixara para trás tiquetaqueava, marcando o tempo com uma calma cruel. Então, em um instante ensurdecedor, ele explodiu, espalhando vísceras e fragmentos de ossos por todo o lugar.

    Booom!

    O estrondo da explosão foi seguido por uma chuva de sangue que manchou o gelo da arena. O caos explodiu como um mar de rostos aterrorizados e corpos em pânico, a multidão berrando em desespero.

    Thornick, com olhos arregalados, observou em horror à cena sangrenta, sua mente processando o que havia acabado de acontecer.

    Nath, com um movimento rápido, quebrou a coleira em volta de seu pescoço. Seus olhos fixaram-se onde Thornick estava, seu semblante calmo, diferente do caos ao redor.

    Ela ergueu a mão e pequenas estacas de gelo começaram a se formar na ponta de seus dedos, afiadas como balas.

    Swish! Swish! Swish!

    As estacas foram disparadas com precisão, perfurando o coração das duas mulheres ao lado de Thornick. Elas soltaram gritos sufocados, seus corpos contorcendo-se antes de caírem no chão, sangue tingindo suas vestes luxuosas.

    — Atrás dela! — berrou Thornick, sua voz carregada de desespero e fúria. — Foi Somlec! Aquela é a vadia! Somlec tentou me matar!

    Nath desapareceu na multidão em pânico, seu corpo movendo-se como uma sombra, evitando mãos e olhares que buscavam capturá-la.

    O som das sirenes da cidade-prisão começou a ecoar.

    Longe dali, em um canto obscuro, Morgana e Somlec ouviram o alarme. Aquele era o sinal.

    Num movimento brusco, arrebentaram suas coleiras.

    Crash! Crash!

    Somlec olhou para Morgana, seus olhos duros como aço.

    — Precisamos de cinco dias para poder lutar com perfeição. Não podemos ser pegos até lá — disse Somlec, sua voz firme.

    — O diretor é meu! — respondeu Morgana, com uma firmeza igual.

    — Certo. Provavelmente não nos veremos até o fim dos cinco dias — acrescentou Somlec, já se preparando para partir. — Se for pega, os guardas irão espancá-la até a morte e essa conversa nunca aconteceu.

    Morgana assentiu novamente, e Somlec se afastou, fundindo-se a escuridão como um espectro.

    — Beleza! — Ela começou a se alongar. — Cinco dias batendo em gente, isso é mesmo um sonho! Com Eriphere segura, eu não preciso me preocupar. Aí vou eu!

    [Alguns dias atrás.]

    Haldor avançava pela mata com passos ágeis, cada movimento um reflexo de precisão e controle. A respiração ritmada e os golpes rápidos faziam com que os bandidos caíssem um a um, incapazes de acompanhar sua dança mortal.

    As espadas dos bandidos cortavam o ar ao seu redor, mas ele desviava e rebatia com uma destreza impressionante. Quando o último deles desabou no chão, Haldor guardou sua espada com um movimento fluido.

    — Podem sair — ele disse.

    Dos arbustos surgiram sua irmã Yalanue e a mãe dela, Lymseia. Yalanue olhou ao redor, os olhos arregalados de preocupação.

    — Está tudo bem? — perguntou ela.

    — Sim — respondeu Haldor, com um leve sorriso. — Estamos seguros.

    Lymseia, ainda ofegante pela corrida, aproximou-se. — Quanto tempo falta para chegarmos a Runyra?

    Haldor abriu o mapa no chão, analisando os pontos de referência ao redor. Ele conferiu cada detalhe com cuidado antes de responder. — Ainda faltam alguns dias.

    Lymseia suspirou. — Foi difícil contornar o exército vermelho, agora parece que a cada meio quilômetro há um grupo de bandidos nos esperando.

    Dobrando o mapa, Haldor ergueu-se. — Papai sempre me disse que o continente era hostil, mas fui surpreendido. Vamos, precisamos encontrar um cavalo.

    — Acham que ele vai nos ouvir? — indagou Yalanue.

    — O rei de Runyra? — disse Haldor. — Não sei, mas é o que o papai disse a você, não é? Papai sempre foi sábio, se ele acredita que esse homem pode nos ajudar, então significa que ele pode. Vamos.


    A viagem deles continuou de forma pacífica, as tensões do encontro anterior dissipando-se na tranquilidade da floresta.

    Eles caminhavam juntos, Haldor sempre atento a qualquer sinal de perigo. O sol filtrava-se pelas copas das árvores, criando um jogo de luzes que dançavam no chão gramado.

    Yalanue e Lymseia conversavam suavemente, suas vozes misturando-se com os sons da natureza.

    O canto dos pássaros e o farfalhar das folhas ao vento criavam uma melodia relaxante que acompanhava seus passos.

    Haldor liderava o caminho, sempre verificando o mapa e os pontos de referência. Ele se certificava de que estavam na direção certa, enquanto mantinha a guarda alta.

    O peso da responsabilidade sobre seus ombros era grande, mas ele estava determinado a levar sua família em segurança até Runyra.

    Durante as noites, eles montavam acampamento em clareiras protegidas, com Haldor sempre de vigia.

    Estrelas brilhavam intensamente no céu, oferecendo um espetáculo de luz que trazia um certo conforto em meio à incerteza da jornada. Yalanue e Lymseia dormiam tranquilas, confiando na vigilância do filho mais honrado do rei.

    A cada dia que passava, a distância até Runyra diminuía, e Haldor sentia-se mais confiante, sabendo que estava mais perto de cumprir os desejos do pai.


    Haldor avistou as vilas ao longe, sinais de civilização após dias de jornada. Ele sentiu um misto de alívio e surpresa ao perceber que as ruas estavam vazias. Ao se aproximarem, notou um grupo de homens conversando animadamente.

    — O comércio está horrível — dizia um deles, a voz carregada de frustração.

    — Você acha que é por causa do rei mestiço? As pessoas estão dizendo que os deuses estão nos castigando por isso — disse outro, com um tom de desdém.

    — Com certeza — respondeu o primeiro homem. — A cidade encheu de orcs e elfos. Deviam ser todos expulsos.

    Haldor, Yalanue e Lymseia ajustaram rapidamente suas capas, escondendo as orelhas pontudas. Yalanue olhou para o irmão, preocupada.

    — Runyra é mesmo tão segura como dizem os boatos? — perguntou ela em um sussurro.

    — Tem que ser — respondeu Haldor. — É a nossa última esperança.


    Finalmente, chegaram aos portões de Runyra.

    Para sua surpresa, não havia guardas fazendo a segurança. A cidade estava estranhamente silenciosa, com as residências fechadas. De vez em quando, portas se abriam e corpos eram retirados de dentro das casas, uma visão desoladora.

    Haldor conduziu sua família até a porta do palácio, onde um guarda os interceptou.

    — Quem são vocês? — perguntou o guarda, avaliando-os com desconfiança.

    Haldor mostrou o brasão da Ilha das Brumas, falando com autoridade. — Sou filho do rei das brumas e exijo falar com vossa majestade Colin.

    O guarda os analisou por um momento antes de acenar com a cabeça. — Sigam-me.

    Eles foram conduzidos por corredores silenciosos cheios de quadros grandiosos até uma sala onde foram instruídos a aguardar.

    O guarda saiu e foi ao encontro de Tuly, informando-o sobre a chegada dos herdeiros das Ilhas das Brumas.

    — Vou avisar o rei — disse Tuly, afastando-se e aproximando-se de outro guarda, discretamente colocando uma moeda em seu bolso. — Sabe o que fazer.

    O guarda se afastou imediatamente.

    No quarto, Haldor começou a caminhar, examinando os quadros que adornavam as paredes, retratos do rei e da família real. De repente, o som de vidro quebrando chamou sua atenção.

    Scrash!

    Um homem encapuzado surgiu pela janela, uma adaga em punho. Haldor reagiu instintivamente, sacando sua espada e rebatendo uma flecha que se cravou na porta atrás dele.

    Ting!

    Outros três encapuzados apareceram, suas intenções claramente hostis. Um deles falou, a voz fria como o inverno. — Vocês não deveriam ter ido tão longe de casa, bastardos!

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