Tudo estava acontecendo rápido demais, ninguém tinha tempo suficiente para pensar demasiado.

    Vaiola já não gritava mais, mas seu corpo tremia como se ela sentisse o mais mortal dos frios, mas aquecia feito um Barbatanas douradas. Ela se contorcia por vezes e noutras vezes tinha alguns espasmos de dor, dor essa que não parecia mais ser causada pela queimadura no ombro.

    No mar, o Barbatanas Douradas tinha retornado as águas ainda com o Chifrudo Negro  entre os dentes. A Besta Corrompida se debatia vezes sem conta, mas tudo o que conseguia era fazer mais do seu sangue preto e viscoso, feito alcatrão, vazar mais e mais até ser levado pela água fervilhante.

    O Chifrudo Negro  tentava pular para fora da água e por vezes tentava nadar para longe, mas tudo era inútil. A área abocanhada logo começou a sofrer queimaduras. O lado bom disso era que o sangue começava a ser estancado, no entanto, o ferimento ficava cada vez maior.

    No barco, Glamich deitou a sua filha num monte de redes cobertas por um pano branco e a viu toda suada, mas seus dentes se chocavam freneticamente e seu corpo tremia na mesma intensidade.

    — Dói… dói… dói… — murmurava ela, seu corpo virado de lado e todo encolhido, em posição fetal. Parecia que nem ela mesma sabia onde, ao certo, doía.

    — Temos que retornar à praia! — disse Glamich aos outros dois. Ele precisava descobrir logo o que estava acontecendo com a filha. — Vamos aproveitar enquanto eles se enfrentam.

    Tirius e Ferin não protestaram, pegaram logo em dois remos e se posicionaram em cada bordo para começar a remar.

    Os remos foram mergulhados no mar fervilhante e o barco começou a se mover, lutando contra as bolhas que eram formadas e tentavam dificultar a viagem deles.

    — CUIDADO!!! — gritou Glamich e todos se seguraram com firmeza em alguma coisa firme por alí. O Barbatanas Douradas tinha arremessado o Chifrudo Negro  contra o barco.

    BAM!

    Crak!

    O barco voltou a ser empurrado para longe pelo embate, para fora da área onde o corpo do Barbatanas Douradas conseguia aquecer.

    “O que está acontecendo? Por que uma Besta Mágica está nos atacando?”— Glamich se perguntou o que todos os outros não tinham coragem de usar palavras para questionar. Eles não tinham provocado a Besta Mágica, mas ela os atacou. —“Será que é por conta da nossa participação na morte do seu filho?”

    — Huh!? — Glamich soltou com alguma surpresa e dúvida. O corpo da Vaiola não tremia mais como antes e ela não mais se contorcia. — Vaiola… — sussurrou, mas não conseguiu mais formular nenhuma frase, quando a pequena voltou a abrir os olhos antes apertados com força. O par de íris azuis estava sendo contaminado pelo mesmo tom roxo do outro par.

    Splash!

    O som das águas sendo mexidas chamou a atenção do Glamich. Era o Chifrudo Negro  nadando a toda velocidade contra o Barbatanas douradas. A Besta Corrompida parecia recuperada.

    “Só tem um jeito de tudo isso acabar.” 

    Glamich olhou para o lado, o último arpão estava jogado no convés, perto da Vaiola. A menina estava lá deitada, mas não era mais aquela menina cheia de dor, os olhos dela estavam ferozes, olhando para o nada no céu.

    — Preparem tudo para sairmos daqui! — ordenou Glamich enquanto se curvava para pegar o arpão e cortar a corda que estava amarrada na ponta da ferramenta. — Vamos dar um basta nisso.

    Tinha uma coisa que o Glamich tinha aprendido com a sua esposa…

    Ele levantou o arpão, puxou a mão para trás e se posicionou para arremessar o arpão.

    … Sua esposa era alguém que não guardava rancores mesquinhos, alguém que esquecia fácil o que era para esquecer…

    Glamich afiou os olhos, limpou a sua mente e focou-se no enorme alvo a sua frente. O Barbatanas Douradas estava como o Chifrudo Negro , com a boca escancarada, nadando a todo vapor contra o Chifrudo.

    … Contudo, tinha uma coisa que a Lavina não perdoava por nada. Tinha uma coisa que a Lavina cobrava de forma fervorosa. Quando mexiam com a sua família, ela devolvia mil vezes pior.

    O arpão foi arremessado, ele carregava a raiva e a preocupação de um pai que não ia deixar que a sua filha se machucasse mais.

    “Você quer vingar o seu filho?”

    Swing!

    O arpão cortou o ar na mesma hora, voando mais rápido do que o Chifrudo Negro  nadava.

    “Eu quero proteger a minha.”

    O protetor ou o vingantivo? Quem ia levar a melhor naqule momento?

    A resposta não demorou a ser dada, ainda quando o Chifrudo Negro  nadava em direção àquela Besta Mágica. O Barbatanas Douradas estava tão focado na Besta Corrompida, que não viu o arpão chegar e, quando notou o objeto metálico, já era tarde demais.

    Kirkukiki!

    A Besta Mágica grunhiu de dor quando o arpão perfurou o seu olho esquerdo e entrou todo. Sangue fervente voou para todos os lados quando o Barbatanas Douradas jogou a cabeça para o alto e se agitou. A Besta Mágica só não notou que dera chances para a Besta Corrompida agir.

    O arpão não levou muito tempo até derreter dentro do barbatans douradas, virado nutriente para a Besta Mágica, logo antes do ferimento cicatrizar. Mas aquele um segundo foi tempo o suficiente para o Chifrudo Negro  pular para fora da água e cravar perfeitamente o seu chifre esquerdo nas guelras da Besta Mágica, que urrou sufocada.

    O Barbatanas Douradas se debateu até que conseguiu jogar o Chifrudo Negro  longe, mas a Besta Corrompida não deu tempo para que os ferimentos cicatrizassem. O Chifrudo voltou a nadar a toda a velocidade, seus olhos chegado a vazar um místico vapor roxo, e voltou a se lançar contra a Besta Mágica que ainda se debatia a espera dos seus ferimentos cicatrizarem.

    Mas o Barbatanas Douradas não teve tempo o suficiente, pois o chifre direito do Chifrudo Negro  cravou no seu outro olho, deixando a Besta Mágica completamente cega, antes de se debater e voltar a cravar o chifre nas guelras da Besta Mágica.

    O Barbatanas se debateu com todas as forças que ainda lhe sobravam, mas tudo o que conseguiu foi ser perfurado pelos dois chifres da Besta Corrompida, em simultâneo, nas guelras. O Barbatanas Douradas tombou na água com um Splash! e se despediu do mundo com alguns espasmos, antes de não mais reagir.

    A Besta Mágica estava morta.

    “Finalmente!”— Glamich suspirou, aliviado, em sua mente e acreditava que todos os outros estavam como ele. 

    Ele estava com os olhos no Chifrudo Negro , só o observando, mesmo já tendo alguma certeza estranha de que eram, de certa forma, aliados.

    Ele viu, e estranhou, o exato instante em que os olhos da Besta Corrompida perderam aquele brilho roxo e voltaram ao seu habitual vermelho sangue.

    Dali, o Chifrudo Negro  olhou de soslaio para o barco só por um milésimo de segundo, como se quisesse confirmar que todos estavam bem, e logo se virou e nadou para o Leste, em direção ao mar tumultuoso nas redondezas da Ilha dos Esquecidos.

    — Finalmente acab… — Os olhos do Glamich arregalaram-se cheios de pavor e preocupação. Ele olhou para a sua filha, tinha um sorriso no seu rosto, mas o sorriso sumiu no exato segundo em que ele viu lágrimas nos olhos da nanica. — VAIOLA!!!!!!!! — Aquelas não eram lágrimas comuns. Os olhos da Vaiola tinham voltado ao normal, mas ela estava vazando lágrimas de sangue.

    Naquele momento, Vaiola perdeu completamente a consciência.

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