Capítulo IX- Novato
Capítulo IX
A última coisa que me lembro de ter visto antes de desmaiar foram muitos soldados entrando na biblioteca enquanto gritavam. Acordei no que parecia ser uma cama de hospital. Em volta dela havia uma grande lona, que não me deixava ver nada ao redor. Quando tentei me levantar, senti como se tivesse sido amassado por um rolo compressor. Para piorar, um dos meus braços estava preso a uma das pernas da cama por meio de uma corrente.
De repente, a lona ao meu redor foi puxada por mãos extremamente delicadas. Por trás dela, vi novamente a garota da outra noite. Seus olhos verdes refletiam a luz que entrava pelas janelas. Quando percebeu que eu a estava olhando, fechou a lona imediatamente, e consegui ouvir seus passos se afastando rapidamente.
Alguns instantes depois, um médico apareceu. Sem me dar chance de abrir a boca, ele começou a falar:
— Olha só, se não é o nosso pequeno herói. Você foi muito corajoso em enfrentar aqueles bandidos. Vou avisar o senhor Matheus que você acordou.
Ele saiu da sala tão rápido quanto entrou.
Quando finalmente consegui raciocinar, me lembrei do que havia acontecido naquela noite: da luta contra Matheus, da igreja, da Rosê e da traição de Rosa. Mas quem eram aqueles “bandidos” de que o médico havia falado? E, mais ainda, por que ele tinha me chamado de herói?
Ouvi passos se aproximando novamente. Quando puxaram a lona, lá estava Matheus. Agora, com a luz do dia, eu conseguia vê-lo muito melhor. Ele era alto, tinha um cavanhaque e os cabelos curtos. Bastava olhar para ele para que eu tivesse pequenos flashes daquela noite; eles vinham acompanhados de dores de cabeça extremas.
— Você finalmente acordou, heróizinho… Doutor, pode nos dar licença, por favor? — disse ele, sorrindo para o médico.
— Claro, senhor Matheus — respondeu o doutor, enquanto saía da sala.
Matheus voltou o olhar para mim.
— Você parece bem, garoto. Ainda mais para alguém que apanhou tanto. Foram seis dias dormindo, sabia? — disse ele, enquanto sua expressão mudava para uma de deboche.
— Qual é a desse papo de herói? — eu disse, enquanto o encarava com o rosto mais ameaçador possível. Olhar para ele ainda me irritava muito; lembrar do que ele disse me fazia querer arrancar seu rosto fora.
— Calma aí, valentão. Eu vim em paz dessa vez. Como você sabe, você foi usado pela Rose. Acho que você se lembra disso, se eu não causei nenhum trauma grave na sua cabeça — disse ele, enquanto gesticulava com as mãos de uma forma tão relaxada que aquilo mais parecia uma conversa casual.
— Bom… continuando, eu tenho uma proposta para você. Por mais que eu não goste de gente do seu tipo, eu gosto ainda mais de pessoas fortes e com bom potencial. E, como acordei caridoso hoje, eu estou a fim de te deixar viver. É claro que isso vai ter um custo. Sobre a noite da semana passada, todos aqui acreditam que você era um agente meu disfarçado, que se infiltrou no meio de bandidos para conseguir informações e depois me salvou quando eles me atacaram à noite, mas nós dois sabemos que não foi esse o ocorrido. Vou te dar duas opções: a partir de hoje você trabalha para mim, segue minhas ordens, eu decido quando você come, bebe, dorme e até caga… ou podemos fazer da forma clássica, onde eu desminto toda a história, a igreja te leva e te executa publicamente como exemplo. E aí, o que vai ser? — ele esticou a mão para que eu a apertasse.
Eu levantei a cabeça e, olhando nos olhos dele, dei um tapa em sua mão.
— Tudo bem, então, já que é isso o que você quer — disse ele, dando de ombros e se virando para ir embora.
— Calma aí, eu não disse que recusava.
Ele se virou novamente para mim, me olhando.
— Vou ser bem direto com você: se eu tiver a chance, eu quero e vou te matar. Não por conta da história da Rose, mas porque você é um merda pretensioso. Mas eu sou consciente o suficiente para saber que morrer agora não é uma opção. Ainda existem coisas que eu tenho que fazer. Minha contraproposta para você é: eu ajudo a igreja e cumpro as missões que você me passar, mas eu não vou me submeter a ninguém.
— HAHAHAHA, tudo bem, garoto, eu aceito os seus termos, mas vou deixar bem claro… — a mesma aura fria daquela noite começou a tomar todo o lugar. Meu corpo tremia com o frio, que fez até um copo de água ali começar a congelar. — Se você tentar alguma coisa, EU MESMO MATO VOCÊ.— Depois da ameaça preocupante o tom dele mudou novamente para algo amistoso— Mas é isso, logo o doutor vai te liberar daqui e vamos ter uma leve burocracia. Até mais, Serpente.
Quando ele saiu, o doutor — que eu suspeito estar esperando do lado de fora — entrou na sala novamente com uma prancheta. Ele me falou que eu já estava quase totalmente recuperado e que poderia voltar à ação, mas com todas aquelas baboseiras médicas comuns. Junto dele estava uma garota de cabelos e olhos extremamente pretos. Ela usava um uniforme da igreja, mas tinha um jeito muito desleixado para uma soldada.
— E aí, eu sou a Maria, mas pode me chamar de Duda! O senhor Matheus pediu para eu te guiar aqui.
— Ok — concordei com a cabeça e comecei a seguir ela enquanto saíamos da área médica.
Conforme andávamos, eu observava tudo à minha volta. Todo o corredor era lotado de janelas; lá fora, eu conseguia ver várias guaritas com guardas, um lugar que parecia ser um depósito de armas. Havia soldados andando a cavalo e alguns correndo enquanto cantavam hinos de guerra.
— Você não é muito de falar, né? Eu soube do que você fez, é bem impressionante, ainda mais que você parece ter no máximo a minha idade. Ah, e também você nem me falou seu nome, qual é?
— É Miguel.
— É um prazer, Miguel! Posso te fazer uma pergunta?
Eu sinceramente não estava nem um pouco a fim de fazer amizade com qualquer pessoa daquele lugar, mas eu precisava do máximo de informações possível para poder sair dali o quanto antes.
— Claro, o que é?
— Como foi lutar ao lado do senhor Matheus? Imagino o quão incrível deve ser lutar junto com ele. Ele é tão forte, ainda mais que ele disse que te escolheu para fazer a missão de se infiltrar no meio dos bandidos para ele — disse ela, enquanto olhava meio vagamente para cima.
Não foi difícil perceber que os olhos dela sempre brilhavam quando ela falava do Matheus, o que para mim só reforçava o quão bom era aquele desgraçado em fingir ser alguém bom.
— Realmente foi bem incrível, ele era bem mais forte do que eu esperava — eu disse, enquanto me lembrava da luta e fazia a cara de admirado mais convincente possível. — Posso te fazer uma pergunta também?
— Claro.
— Sempre que você fala do Matheus, seus olhos parecem brilhar. Por que você gosta tanto dele?
No momento em que disse aquilo, seu rosto corou imediatamente e ela evitou fazer contato visual.
O rosto da Duda continuou corado por alguns segundos.
— Ah… não é nada demais — disse, desviando o olhar e coçando a nuca. — Eu só acho ele incrível, sabe? Quer dizer… ele é um herói, não é?
A pergunta veio meio incerta, quase buscando validação.
Eu apenas assenti com a cabeça.
Ela pareceu relaxar com isso e voltou a andar, puxando o caminho pelo corredor. E eu fui seguindo atrás dela.
Conforme fomos andando, fui entendendo melhor aquele lugar. O ar era carregado de vozes, passos apressados e diversos oficiais — ou algo assim — gritando com os soldados. Pelas janelas, via grupos treinando formação, outros correndo em volta do pátio, alguns praticando combate corpo a corpo enquanto os instrutores os observavam.
Depois de alguns minutos, chegamos à frente de uma grande casa. Duda empurrou uma porta larga de metal.
— Aqui é o alojamento do pelotão 7.
O lugar era grande, amplo, com fileiras de beliches de ambos os lados. Havia gente sentada conversando, outros organizando equipamentos, alguns deitados, rindo alto. Assim que entramos, alguns olhares se voltaram para mim.
— Galera — disse Duda, batendo palmas uma vez — esse é o Miguel. Ele vai ficar com a gente a partir de agora.
Um garoto moreno, magro demais para alguém daquele lugar, foi o primeiro a se aproximar. Ele tinha um sorriso largo demais para um ambiente militar.
— Então você é o famosinho — disse, animado. — Sou o Jorge, prazer.
Um pouco atrás dele, um cara bem mais alto se levantou. Branco, largo de ombros, braços que pareciam troncos. Ele me encarou por um instante antes de sorrir de forma tranquila.
— E aí, cara, tudo tranquilo? — apertou uma das minhas mãos e me deu um abraço de cumprimento. — Eu sou o Kainan, é um prazer.
Outro garoto, moreno e muito magro — mais até que o Jorge — mas com um olhar mais esperto e um nariz estranhamente grande, se aproximou logo depois.
— Renan — falou rápido. — Tudo suave? Só de olhar já sei que você vai virar meu parceiro.
Por fim, encostada em um dos beliches, estava uma garota de cabelos cacheados. Alta. Forte. Quando me viu, ela desceu da beliche dando quase uma pirueta.
— E aí, sou a Mariane.
Duda voltou a falar, chamando a atenção de todos.
— A partir de agora, a gente é uma unidade. Come junto, treina junto, dorme junto. Missão errada de um, sobra pra todo mundo. Banheiros separados, claro, mas fora isso… é tudo coletivo.
Ela apontou para um beliche vazio.
— Esse é o seu.
Um soldado passou distribuindo os uniformes da igreja. Peguei o meu, o tecido pesado, um escudo com uma maça costurado no peito. Aquele uniforme me trazia todo tipo de lembrança ruim.
Enquanto Duda falava sobre horários e regras, me aproximei dela de canto.
— E minhas coisas? — perguntei baixo. — A lança.
Ela arregalou os olhos.
— Você já tinha uma arma? — disse, surpresa. — Normalmente a gente só recebe depois…
Ela pensou por um segundo.
— Bom… faz sentido. Você já foi para uma missão. Mas relaxa, ninguém recebeu arma ainda.
Eu concordei enquanto acabava de arrumar a minha bota nova.
Depois disso, ela voltou a fazer o tour, andando novamente. Passei a prestar ainda mais atenção em tudo: posições, entradas, quem observava quem.
Por fim, atravessamos um portão aberto.
Do outro lado, um enorme campo se estendia, com arquibancadas de pedra ao redor. No centro, várias áreas delimitadas onde pessoas treinavam combate umas contra as outras usando seus espectros e armas. Em um canto, suportes cheios de réplicas: espadas de madeira, lanças de treino e todo tipo de arma.
O som de metal batendo em madeira ecoava por todo o lugar.
Duda abriu um sorriso.
— Centro de treinamento de combate. É a parte legal daqui.
Eu fiquei parado por um instante, impressionado com tudo aquilo.

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