Capítulo 159 - Cerco a Casa-Grande
O grito ecoou pelas paredes de madeira nobre da casa-grande, misturando-se ao cheiro envelhecido de cera de abelha, ao mofo dos tapetes persas e ao odor ácido do medo que começava a impregnar o ar.
– Henrique!
A pesada porta de jacarandá escuro abriu-se com um rangido baixo, e o homem entrou, a silhueta bloqueando por um instante a luz fraca do corredor. Sua barba mal aparada, com fios grisalhos, destacava-se contra o rosto sujo de poeira e suor seco. Seus olhos, avermelhados pela falta de sono, pularam rapidamente pelos cantos do quarto – escaneando os guardas, as gemas pulsantes, o adepto imóvel – antes de se fixarem no senhor de engenho. Albuquerque permanecia de pé junto à janela cerrada por pesadas portadas de madeira, sua postura rígida, de costas, tentando disfarçar o tremor quase imperceptível que percorria suas mãos entrelaçadas atrás das costas.
O ar no ambiente estava carregado, pesado como antes de uma tempestade. Quatro guardas permaneciam imóveis como estátuas nos cantos da sala, suas armaduras de couro reforçado com placas de metal rangendo levemente a cada respiração controlada. Nos quatro cantos da sala, sobre pedestais de mármore, gemas do tamanho de punhos pulsavam com luzes intermitentes – duas emitiam uma luz branca, gemas da defesa divina, enquanto as outras duas pareciam sugar a luz para a sua escuridão eram gemas do defesa. No centro, havia uma gema do tamanho de uma jacá de uma cor rosa profunda, uma gema do estoque.
Agachado sobre um tripé de latão, um homem magro e pálido usava óculos com lentes espessas que pareciam feitas de líquido negro. Era o adepto da visão. Seus dedos finos, quase esqueléticos, ajustavam constantemente pequenas rodas dentadas no mecanismo, e ele não piscava, seus olhos dilatados por alguma poção varrendo o exterior através das paredes sólidas.
– Sim, senhor? – a voz de Henrique saiu mais áspera do que pretendia, seca da poeira da correria.
Albuquerque virou-se lentamente, como se o movimento exigisse um grande esforço. A luz filtrada pelas frestas das portadas cortava seu rosto anguloso em faixas dramáticas de claro e escuro, acentuando as rugas profundas de preocupação ao redor de sua boca fina.
– Conte-me. Como está a situação lá fora, realmente? Nada de otimismo tolo.
O capataz engoliu em seco, a sensação de areia em sua garganta.
– Acabaram de chegar mais um grupo vindo da floresta, pelo norte… – ele começou, os dedos inquietos torcendo o barrete de couro surrado que segurava. – É difícil contar com precisão, senhor, mas no total, devem ser mais de mil pessoas agora. O acampamento deles cresce como um tumor. A maioria carrega as mesmas armas que vimos no riacho, os mosquetes de repetição que cospem fogo sem parar. Mas o pior… – ele fez uma pausa, procurando as palavras. – Há centenas de adeptos entre eles, senhor. Centenas. Vi claramente a aura deles: Terra, Fogo, até alguns do Vento.
Henrique fez uma pausa mais longa, os olhos perdendo o foco por um momento ao recordar a cena caótica. Ele limpou a boca com o dorso da mão.
– E tem mais… trazem nove carroças estranhas, cobertas com lonas verdes. Debaixo delas, dá para ver tubos de metal montados sobre rodas grandes. Três deles são… enormes, senhor. Monstruosos. As rodas afundaram centímetros na terra mole. Parece que arrastaram aqueles diabos por quilômetros através da mata fechada.
Albuquerque deixou escapar um som baixo, um misto de riso abafado e rosnado de desdém.
– Aqueles pretos… esses quilombolas… realmente acham que podem tomar o que é meu? – sua voz subiu de volume, reverberando nas vigas de madeira nobre do teto. Ele deu um passo à frente, e o cheio de velho perfume e vinho porto que emanava de suas roupas contrastava com o suor dos outros. – E depois? O que pensam que acontecerá? Minha propriedade fica a uma cavalgada de um dia de Ouro Branco! É questão de horas até as tropas do governador marcharem para cá ao primeiro sinal de fumaça! – Ele apontou um dedo ossudo para a janela. – E os capitães-do-mato, Henrique! Centenas deles, espalhados pelas capitanias. Meus acordos, minhas promessas de ouro… já devem estar a caminho!
Ele respirou fundo, o peito expandindo-se sob o gibão de veludo bordado. O ar no quarto parecia cada vez mais espesso, agora carregado também do cheiro metálico das gemas pulsantes, um odor de ozônio e ferro velho.
– Henrique – continuou, forçando a voz a um tom mais contido e prático –, ordene a todos os bandeirantes e capitães-do-mato remanescentes que se preparem. Quando o ataque final começar – e começará, ele pensou –, quero cada homem em sua posição designada. Nos muros, nas janelas superiores, nos telhados.
Seus olhos, de um cinza frio como aço, estreitaram, fixando-se no capataz.
– Mas se esses mercenários inúteis falharem, se a linha externa cair… – Ele fez uma pausa significativa, baixando a voz para um sussurro carregado de ameaça. – …diga imediatamente aos meus capatazes, os Adeptos do Gelo, para erguerem a barreira principal ao redor da casa-grande. Sem hesitação. Os Adeptos da Terra farão o mesmo, selando qualquer brecha no solo. Não deixem nenhuma abertura, nenhum ponto fraco. Esta casa será uma fortaleza dentro da fortaleza.
– Entendido, senhor! Será feito! – Henrique inclinou-se levemente, um gesto automático de subserviência, antes de se virar e sair. A porta fechou-se atrás dele com um baque surdo e final, abafando momentaneamente os ruídos distantes do acampamento.
Sozinho novamente com seus guardas mudos e o adepto da visão, cujo único som era o clique suave de suas rodas dentadas, Albuquerque cruzou o quarto. Seus passos, calçados em botas de couro macio, ecoaram com solenidade no assoalho de ipê encerado. Na parede leste, entre mapas desbotados da capitania e retratos de antepassados de expressão severa, seu arco repousava em suportes de bronze polido. Não era um arco comum de caça. Era uma obra de arte sinistra, feito de uma madeira escuro e flexível, com três gemas incrustradas na empunhadura que brilhavam com uma luz fraca e interior – uma de Visão, uma do Assassino e uma do Vento.
Ele parou diante da grande mesa de trabalho de carvalho, suas mãos pairando sobre a gaveta central trancada. Com uma chave minúscula que tirou de uma corrente no pescoço, abriu-a. Lá dentro, sobre um forro de veludo azul-marinho, repousavam dezenas de flechas. Não eram flechas comuns. Cada uma, do ferrão afiado como uma agulha às penas perfeitamente cortadas, era uma obra de artesania mortal. E na base de cada uma, uma pequena tríade de gemas minúsculas, do tamanho de grãos de arroz, estava incrustada, combinando poderes de maneira única.
“Eles devem achar que sou um aristocrata decadente”, o pensamento surgiu, frio e claro em sua mente, enquanto seus dedos acariciavam as penas macias de gavião. “Que dependo de um único truque, de uma flecha especial guiada por magia. Que sou previsível.” Seus lábios se curvaram em um sorriso sem humor. “Mas tenho trinta e sete. Trinta e sete oportunidades de matar qualquer comandante, qualquer líder, qualquer peça importante que ousar se mostrar no campo de batalha. Trinta e sete segredos.”
Seu olhar desviou-se, pousando no retrato em miniatura em uma moldura de prata sobre a mesa – sua esposa, de expressão serena, e os três filhos, com roupas de festa, pintados durante sua última e custosa visita à Areia Branca. Um aperto súbito e familiar apertou seu peito.
“Uma pena que João tenha insistido em ir à cidade com a mãe e as irmãs para o casamento da prima, se não ele poderia estar aqui me ajudando… mas é melhor assim. Estão protegidos. Longe deste… fedor de guerra.” O fedor que, mesmo através das janelas fechadas, começava a se infiltrar: cheiro de terra revolvida, de corpos suados, de medo.
Os dedos que acariciavam as flechas fecharam-se de repente em um punho tão tenso que os dedos ficaram brancos. A voz interior tornou-se um sussurro feroz e determinado. “Apesar de tudo… apesar dos números, daqueles armas ridículos… não pretendo perder. Não para nenhum preto fugitivo. Não aqui. Não em minha própria casa.”
***
Meio quilômetro ao norte, sobre um morro coberto de capim-amargoso que doía ao toque, o vento constante carregava uma mistura de odores: o cheiro terroso e úmido da mata, o odor picante de pólvora solta dos cartuchos abertos e, à distância, o cheiro mais doce e nauseante de centenas de corpos e fogueiras do acampamento.
Espectro estava deitado de bruços, seu corpo perfeitamente imóvel contra o solo frio. O rosto estava parcialmente coberto por um lenço verde-escuro manchado de terra, e seus olhos, frios e claros como pedra de rio polida, observavam atentamente através da luneta de longo alcance. Ao seu lado, em uma posição idêntica de camuflagem, Sussurro mantinha a bochecha colada à coronha de madeira de sua sniper. Seus dedos, entretanto, não paravam quietos, ajustando micrometricamente um parafuso na mira, depois acariciando o gatilho como se meditassem sua pressão.
– Movimentação nos flancos leste e oeste – murmurou Sussurro, a voz tão baixa e sibilante que mal se distinguia do sussurro do vento no capim. – Adeptos da terra e do gelo. Posicionando-se em padrão circular, espaçados, ao redor da casa-grande. – Ele afastou um olho da luneta de mira, virando ligeiramente a cabeça para Espectro. O suor fina umedecia suas têmporas. – Estão preparando barreiras defensivas. Coordenados. O que faremos? Uma investida rápida antes que se fechem?
Espectro não respondeu imediatamente. Baixou a luneta e, com movimentos precisos, puxou para mais perto o mapa de couro estendido entre eles, pesado nas bordas com pedras pequenas. Seus dedos, enluvados, tracejaram linhas invisíveis sobre os símbolos que representavam a casa-grande e o terreno.
– Barreiras – disse finalmente, o tom plano, quase desdenhoso. Ele olhou para Sussurro. – Será que será gelo espesso o suficiente para parar uma bala de mosquete. Terra compactada para bloquear uma carga de cavalaria. – Ele fez uma pausa, e um brilho de pura lógica matemática acendeu-se em seus olhos. – Mas e contra projéteis de canhão de doze libras, disparados com a carga correta? É como erguer uma cortina de seda fina para parar uma lança arremessada por um gigante.
Ele deslizou o dedo para leste em seu mapa, apontando para três símbolos de canhão desenhados a lápis.
– Ainda bem que convenci Carlos a ceder os três canhões de longo alcance. O Carlos sempre argumenta sobre logística, sobre pressa… – Espectro emitiu um som que quase poderia ser um suspiro. – Às vezes, fazer algo apressado e mal planejado, como um ataque frontal sem suporte de artilharia, acaba levando mais tempo – e mais vidas – do que parar, preparar-se adequadamente e então esmagar o problema.
Seus olhos, agora sérios, encontraram os de Sussurro, buscando não apenas compreensão, mas a confirmação tácita de um profissional para outro.
– Pelo que você descreveu do posicionamento deles… o padrão circular… já sei o que fazer. Vai gastar munição, sim. Alguns bons tiros de cada peça. – Ele franziu a testa, calculando. – Mas causará o menor número possível de baixas do nosso lado e quebrará a moral e as defesas deles de uma vez. É eficiência pura.
Sussurro assentiu lentamente, a lógica era impecável. Mas uma sombra de dúvida, produto de anos enfrentando o imprevisível da magia, passou por seu rosto camuflado.
– E se eles tiverem algo que não vimos? – ele sussurrou, seus olhos voltando a vasculhar a mansão distante. – Alguma gema secreta, de um poder que não registramos? Algum adepto escondido, um trunfo guardado para o último momento?
Espectro ficou em silêncio por alguns segundos, observando uma águia circular muito acima no céu azul-acinzentado. Finalmente, ele recolheu sua luneta com um movimento fluido e começou a se arrastar para trás, para fora da crista do morro.
– Então descobriremos no momento do impacto – respondeu, sua voz carregada de uma calma inquietante. – E adaptaremos o plano. A artilharia nos dará tempo para observar e reagir. – Ele parou e olhou por cima do ombro, seu perfil afiado contra o céu. – Mas confie na matemática, Sussurro. Balística, física, trajetórias. Elas não falham, pelo menos é o que aprendi recentemente nas aulas da escola. Pena que elas não têm emoção. – Ele fez uma pausa final, e seu tom se tornou deliberadamente contrastante. – Magia… magia consome o usuário, cansa, depende do humor, do medo, da raiva do momento. Nossos canhões? Eles só dependem de pólvera seca, ângulos precisos e cordite de boa qualidade. É uma equação. E hoje, vamos resolvê-la.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.