Capítulo 2 - Mas que caralhos...
Até o momento, meu nome é Theodore. E minha mãe estava viva.
Tem algo que não bate, desde que eu acordei, Halo disse que um homem grande pediu para eu cuidar dela. Se minha mãe é essa mulher, porque ele não mandou ela cuidar de nós dois?
Será que ela havia me abandonado?
Eu não tinha as respostas. Haha, como se eu tivesse resposta para alguma coisa.
Meu peito estava dormente, parecia que havia pequenos insetos rodeando ele. Ergui minha mão em sua direção, ela começou a congelar.
— Eu não sei em que confusão você se meteu meu bem, mas parece que você contraiu uma rara doença. A morte branca.
— Morte Branca? — Repeti, me ajeitando na cama.
— Sim, é normal algumas criaturas de grande porte a contrariem, mas é raro em humanos. Aos poucos seu coração vai perdendo a eficiência, os batimentos vão diminuindo junto da temperatura, ela não se espalha para o resto do corpo ou é contagiosa.
Droga, aquela pena, seria possível que aquele frango avantajado tivesse sido o causador dessa doença?
— Eu vou morrer?
Não que já não tivesse morrido uma vez.
— Meu filho, acha mesmo que uma mãe deixaria o sangue do seu sangue morrer? Tome a sopa, antes que ela esfrie.
Sua voz tremeu, e uma lágrima escorreu respingando na pequena tigela, vaporosa.
— É tempero?
— Como assim… — ela secou suas olheiras e abriu um leve sorriso — Ah, sim meu filho, as lágrimas servem para salgar a mistura que você conquistou.
— Não brinca…
Assim que pus as mãos na tigela, virei tudo goela abaixo, fiz de tudo para não desperdiçar uma gota sequer, mas das rachaduras do recipiente escorregaram a quentura.
— Pimenta do reino, cebolinhas azuis, um pouco de cenouras, batata? Hmm. E no finalzinho vem aquele frescor do cheiro verde. E não poderia faltar…
Eu havia deixado o melhor para o final, então peguei o pedaço da língua do ratrator todo temperado e devorei uma só bocada.
— O pedaço de língua do Ratrator.
— Impressionante! Você conseguiu decifrar toda minha receita — Eu senti a felicidade em suas palavras, em seguida a educação de uma mãe ao dar um murro na minha cabeça — Só não esqueça de comer devagar para não engasgar, nem parece que eu te eduquei.
Então ela pegou a tigela quase limpa, e se virou indo em direção a porta, seus longos e lisos fios rubros eram lindos, uma beleza que parecia não precisar de cuidados.
— Enquanto você estiver debaixo das minhas asas, o Controle Crônico vai impedir que essa doença degenerativa avance.
Ela parou à porta e me encarou. Por um instante, parecia que compartilhávamos os mesmos olhos melados.
— Controle Crônico?
— Eu herdei a vontade da Abundância. Posso estagnar qualquer doença… desde que haja herança genética.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— E, mesmo quando não há, ainda existe um jeito. Basta ingerir algo que contenha meu ADNP.
— ADNP?
— Ácido Desoxirribonucleico Pranificado. Nossa genética. Qualquer fragmento do que somos carrega isso.
Seus olhos não desviaram dos meus.
— O meu ADNP só reage a outro ADNP… e, quando reage, se espalha. Como uma praga.
Um sorriso cansado surgiu em seu rosto.
— Uma praga do bem.
Ela se virou para sair.
— Mas você é meu filho. Não precisa se preocupar com nada disso. Agora descanse… está de barriga cheia.
Assim, ela puxou o couro amarrado — eu suponho que aquilo fosse uma porta — e partiu para fazer o que quer que fosse fazer.
Aquela mulher era… humana demais.
Por que ela precisaria me explicar seu poder, se eu já deveria saber?
A menos que… a menos que ela soubesse que eu perdi as memórias. E estivesse se aproveitando disso. Da minha fragilidade.
Mas e se eu simplesmente deixasse o fio seguir sozinho?
Procurar a Halo daria trabalho. E a bolsa… bem, ela sempre soube se virar.
Um bocejo escapou de mim, como se um pedaço de preguiça estivesse sendo exalado junto com o ar.
E se eu deixasse meus problemas para depois? Só um pouquinho.
Não faria mal algum dormir na casa de alguém que, supostamente, me conhece.
Essa cama…
Era macia demais.
A janela, reforçada com tábuas marteladas às pressas, deixava passar frestas de luz suficientes para meus olhos remelentos.
Você venceu… duende da ramela.
Venceu.
Deixa… zzz.
Quieto… zzz.
Zzz.
O que é o Fio?
Acho que é de manhã…
Também gostaria de saber onde estou.
Hmm…
Estiquei os braços até o limite da cama. As frestas de luz forçavam minhas pálpebras a ceder à lucidez. Era hora de descobrir se o possível “ontem” havia sido apenas um sonho… ou eu estava plantando bananeira na areia.
Abri os olhos devagar. Partículas de poeira flutuavam ao meu redor. Um armário caindo aos pedaços ocupava um canto, e as paredes descascadas me passavam a sensação de um abrigo largado às traças.
Então minha atenção foi fisgada pelo riscar metálico de uma faca.
Logo depois, o cheiro grosseiro do café terminou o trabalho, me puxando para fora da cama como uma armadilha bem montada.
Bem… pelo menos não era um sonho.
E se não era um sonho…
Apertei o peito com força e senti a pulsação.
Não que eu fosse médico para saber se aquilo estava certo, mas estava batendo.
Nah. Não estando congelado nem deixando minha mão dormente, já era o suficiente para não se encaixar em nenhum risco imediato.
Levantei o braço e afastei o couro que servia de porta, forçando a visão a se acostumar aos raios de sol. Quando o clarão finalmente cedeu, percebi que ela havia notado que eu acordara.
— Bom dia, minha pimentinha.
…Pimentinha?
Ah, não me chama assim.
Nah. Se eu dissesse isso, poderia acabar com o meu disfarce.
Melhor outra coisa.
— O que tem pro café?
— Oxi, café fresquinho e biscoitos fresquinhos.
Ela continuou de costas, ocupada cortando algo na pia.
Resolvi me sentar. A cadeira bambeou, mas não me impediu de alcançar os biscoitos sobre a mesa.
Secos como folha morta.
O estalo crocante ecoou entre meus dentes.
Eu gostei.
Enquanto ela servia o café, vi de relance um pedaço de casca voando — e então algo o interceptou no ar.
Pera aí.
Aquilo foi…
Uma língua?
— Como você foi parar aí, bolsa?
Aquele brincalhão estava pendurado ao lado dos aventais.
— Ele é meu lixo particular. Come tudo o que eu jogo fora. A melhor parte é que eu não preciso trocar ele.
Ela despejou os restos da tábua dentro da bolsa. A coisa se contorceu, ansiosa.
Não.
Não, pera aí…
Tripas.
Virei o rosto a tempo de não devolver o café inteiro sobre a mesa.
— Tudo bem, Theodore? — perguntou ela. — Não gostou das bolachas?
Comecei a tossir. Peguei a caneca às pressas e virei tudo de uma vez.
— Me engasguei — menti. — Mas já está tudo resolvido.
— Você pode sair e brincar lá fora, se quiser. Só não arrume confusões novamente. Sei que você é fortinho… mas o Controle Crônico tem um limite de cinquenta metros.
O suficiente para eu conseguir me esconder dela.
Aparentemente, eu já tinha informações suficientes. Agora era a hora de cutucar a raposa com vara curta.
— Você sabe onde está a Halo?
Ela me encarou, apertando a adaga com força. Pelo corte sujo, poderia muito bem ser seu utensílio de cozinha favorito.
Devo tomar cuidado.
— Aquela criança que estava com você?
Minha mãe postiça deslizou o polegar, com delicadeza quase carinhosa, sobre o orbe rubro que adornava a arma.
— É…
Esperei qualquer movimento brusco. Só esperava que a bolsa não virasse a casaca.
— Ah, não se preocupe, meu bem. Ela está no varal, esfriando. Vou esperar meu tempero ficar pronto… assim ela rende mais.
Render mais…?
Mas que caralhos.
Quase saltei do assento, tentando alcançar a bolsa. A carniceira não moveu um único músculo.
Mirei a saída mais próxima e arrombei a porta com o ombro.
Droga.
A porta já estava aberta.
Rolei pela neve por causa da força que desperdicei. Quando consegui me firmar, vi o que ela chamava de “varal”.
Três hastes de madeira fincadas no chão, moldadas em forma de cruz. As duas das extremidades estavam vazias, manchadas por rastros de sangue já congelado.
No meio…
A pequena criança albina estava crucificada.
Abaixo do nariz, a coriza escorrida havia se transformado em pequenas estalactites de gelo. Ela tremia de frio.
Pelo menos ainda estava viva.
E inteira.
— São tempos difíceis, meu filho… — disse a voz atrás de mim. — Infelizmente, para sobrevivermos, outros precisam ser sacrificados.
Eu lutei para não vomitar.
Ela estava ancorada à porta. Aquela mulher me observava com olhos rasos — o olhar de alguém que já provou o que nunca deveria ter sido degustado.
Mas que caralhos…
Eu tô fodido.

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