Dedico este conto a Pixel (in memoriam). Espero que você goste, amigo.

    Quarto escuro. Pedaços de biscuit por todo lado, e um leve cheiro de tinta no ar. Ele estava no centro, diante da cama, sentado no chão. Em seus dedos, uma estatueta. Ela era uma garota. Uma empregada, na verdade.

    Uma maid dos cabelos prateados e olhos azuis feito o céu claro. O uniforme, cheio de babados, tinha um laço verde ao redor do pescoço. A saia era longa, de cor negra. Um avental branco caía sobre ela. 

    Sua pele, mesmo de biscuit, tinha um aspecto macio. Quase pele humana, quase uma carne pálida. Haviam garfos entre os seus dedos, e suas mãos se juntavam num xis. Exótico, para quem via de fora.

    Belo, para ele.

    E veio, enfim, a última passada. A pincelada final. Depois de uma longa noite de verão, ele terminou a criação. Ergueu-a diante de si, admirando-a. Será que ela ia gostar? Não ia saber. O esforço investido não superou a timidez.

    — É do novo anime que o senhor está vendo? Posso ver?

    Tomando um susto, Junta tremeu dos pés à cabeça. De todas as pessoas, aquela era a única que não deveria ver a boneca. Em hipótese alguma deveria vê-la. Ele colou o objeto bem junto ao corpo, escondendo-o na barriga.

    — Junta-sama?

    — Ah, sim, mas ficou ruim. Vou fazer outra, aí te mostro — respondeu ele, torcendo para que funcionasse.

    — Tudo bem — disse a garota, convicta. — Junta-sama, a sua irmã, minha senhora, esqueceu o almoço.

    “Esqueceu, foi?”

    — Ela esqueceu o almoço.

    — Entendi. Normal… — murmurou, estranhando. — Precisa de algo?

    — Ela esqueceu o almoço.

    — Eu sei, mas… 

    — Ela esqueceu o almoço.

    — E-Eu já ouvi — disse ele, a voz tremendo. 

    Ele não se virou para trás Talvez ela ainda mantivesse aquele olhar. O rosto passivo. A expressão de paisagem de sempre. Porém, havia uma nota de insistência em sua voz.

    — Yozoi?

    — Ela esqueceu o almoço, então… — Seus passos recuaram para fora do quarto. — Vou prepará-lo na cozinha.

    E se retirou.

    “O que foi isso?”

    Franziu a testa. O que ela queria, agora que foi embora, pareceu óbvio. Se sentiu tolo. 

    “Ela queria que eu fosse junto.”

    Por que? Não que estar junto dela fosse ruim. Pelo contrário, seria maravilhoso. Ele fazia de tudo para ter um tempo com Yozoi Sakura, sua empregada favorita. A única garota da idade dele naquela mansão.

    Mas, aquela escola… 

    “Não…”

    Sem chance. Ele não ia pisar lá. Não depois do que descobriu. Depois que soube daquelas coisas, tramas que envolviam a diretora, ele se recusou. Não ia se envolver. Aquele sonho não tinha nada a ver com ele.

    “Nadinha…”

    — É, mas você não vai deixar passar, né? Uma chance dessas, uma oportunidade de ficar sozinho com Yozoi Sakura… nunca que você perderia algo assim, né?

    Aquela voz!

    — Né, Junta-sama?

    — Senhorita Gunfire… 

    E se virou. A mulher, alta como um poste, era dona de curtos cabelos lilases. Seus dedos eram longos. Seus olhos, em contrapartida, eram pequenos. Mínimos e perigosos.

    — Você tem razão — disse ele, abaixando a cabeça.

    — E hoje, justo hoje… você não daria essa mancada, né?

    — Hoje? O que tem…?

    E não houve resposta. Ela sorriu, e seguiu pelo corredor. Curioso, Junta coçou os cabelos. O que ela quis dizer? Era um dia especial? Se fosse uma data importante, que ele deveria lembrar, estava frito.

    Ele era ruim de memória.

    Fisgado pela curiosidade, ele saltou e correu para fora. Como se esperasse por ele, Elisa estava parada ao lado da porta do quarto. Exibia um sorriso satisfeito ao vê-lo. 

    — Se você esqueceu, eu vou deixar passar — falou ela, testando a reação do garoto. — Aceite isso como um presente. Você sabe que dia é hoje, Junta-sama?

    — Não, eu não… 

    — Happy Birthday, to you… Happy Birthday, to you… 

    “Será que…?”

    — Happy birthday to you! Happy Birthday…to… 

    Era isso?

    Her… 

    — Hã, Gunfire-san, eu… 

    — Mou, Junta-sama — Ela balançou a cabeça, fingida. — Como você é lerdo!

    — Perdão, eu realmente não entendi!

    Um suspiro escapou dela.

    — Se você puder… 

    — Escondendo-se no quarto, alimentado duas vezes ao dia, bebendo pouca água e se afastando de qualquer forma de luz… — contou ela nos dedos. — Você daria um bom jabuti, Junta-sama! Mas os jabutis ainda tomam sol… 

    — Gunfire-san… 

    — Da sua amada, Junta-sama. Hoje é o dia em que sua alma-gêmea veio ao mundo. 

    Era isso? Foi como se uma pedra caísse num lago, perturbando a superfície. Era tão óbvio assim? O aniversário de Sakura… ele realmente esqueceu disso? E ainda dizia gostar dela! Se arrependimentos matassem, nem mil deles bastariam!

    Gunfire coçou o queixo. Os olhos, risonhos, apreciavam o desespero na face do garoto.

    — Se você for rápido, Junta-sama… 

    Ele nem esperou ela terminar. Voltou para o quarto, e o som de gavetas batendo e roupas caindo veio dele. A empregada riu.

    — Como é bom não precisar de maquiagem, né?

    Com a sensação de ter feito um bom trabalho, Elisa Gunfire caminhou satisfeita.

    — — — 

    Dois minutos foram o suficiente.

    A porta bateu contra a parede, e um vulto de terno cortou o vento. As outras empregadas, levando sustos aqui e ali, viram o jovem mestre correr desesperado. Alguns segundos depois, avistou a cozinha. 

    Quase deu um encontrão com… 

    — Au… — gemeu a garota. — Junta-sama?

    Yozoi Sakura. A empregada dos cabelos prateados. A garota dos olhos azuis como a tarde. A La Belle de Jour de avental e rendas. A mulher que roubou um coração.

    — Você está com a farda, Junta-sama… 

    — É que eu ainda sou um estudante, sabe? — apressou-se ele, explicando. — Seria problemático se me vissem sem ela!

    — Ah, sim… 

    Curta. A resposta foi pequena, mas ele notou. Um canto dos lábios dela se ergueu. Um micro-sorriso de Yozoi Sakura. Um fenômeno entre os fenômenos. A raridade das raridades.

    — Estou aos seus cuidados, então, Junta-sama.

    E fez uma reverência.

    — O senhor está com a sua varinha?

    — Estou… — E meteu a mão no bolso. Sentindo algo, retirou e mostrou para ela. Era um pedaço de madeira, quase um galho.

    — O feitiço, Junta-sama… 

    — Feitiço?

    “Que feitiço?”

    Sakura fechou o punho e o levou à boca, escondendo o riso. Junta sentiu as bochechas esquentarem. Esqueceu outra coisa? Quantas coisas ele deveria lembrar? Antes que fizesse qualquer pergunta, alguém havia tocado seus ombros.

    — Acho que você não se lembra, Junta-sama, mas a Academia de Magia Sakai… Bem, ela não é como as outras.

    Cabelos de cor lilás surgiram de trás dele.

    — Não há como chegar lá sem o feitiço. Vocês, estudantes, aprendem logo no primeiro dia. Você tem sido terrivelmente negligente com seus estudos, pelo que vejo… 

    — Não seja tão dura com Junta-sama, Elisa — interveio Sakura, pegando as mãos do jovem mestre. — Ele tem dificuldade em atividades que envolvem decorar coisas. Mentes criativas não gostam de decoreba… 

    “Yozoi…?!”

    — …Não é, Junta-sama? — indagou ela, sorrindo. 

    — Namorem de uma vez… — falou Elisa, em voz baixa. — Muito bem. De qualquer forma, Junko-sama também esquece o feitiço. Todo. Santo. Dia. Ela sempre volta ao escritório, quando isso acontece.

    E olhou para cima, como se pudesse vê-lo dali.

    — Acho que você deveria começar por lá, Junta-sama. Ela deve ter alguma coisa que a faça lembrar dele. Alguma coisa óbvia, eu acho. 

    Pensou um pouco, mas nada lhe veio às ideias.

    — Não deve ser difícil encontrar. Afinal, seria contra-intuitivo fazer um lembrete fácil de esquecer, né?

    “Não que eu duvide de você, irmãzinha.”

    — Vamos esperar você aqui.

    — Boa sorte, Junta-sama — disse Yozoi, acariciando as mãos dele.

    Percebendo que as segurou por tempo demais, a jovem empregada corou e soltou, como quem larga um ferro quente. Ela e o garoto, rubros, desviaram o olhar. Pigarreando alto, Junta correu para as escadas. 

    Enquanto seguia o rumo do escritório da irmã, Junta voltava das nuvens.

    — Os dedos de Yozoi-san… que macios!

    Estavam tão, mas tão feliz, que levou alguns segundos para notar que estava no chão. De volta à terra firme, ele sentiu os braços e os joelhos latejarem. Foi como levar uma rasteira. Erguendo-se, olhou para trás.

    Estava a alguns passos do escritório. Diante da porta, um boneco gigante, do tamanho de uma pessoa, fazia a guarda. A posição do pé, que viu logo depois, denunciou que ele foi o responsável pela sua queda.

    — Eu sou Sakai Junta — apresentou-se o garoto. — Irmão mais novo de Sakai Junko. Exijo que me deixe entrar.

    Em resposta, o manequim balançou a cabeça.

    “Essa coisa…”

    — …Tem consciência?

    Não que um manequim de madeira fosse impedi-lo.

    — Sinto muito por isso! — Sacou a varinha do bolso. — Asilárap!

    Não houve reação. O boneco, congelado no ato de correr, caiu de testa no chão. Havia perdido todo o movimento, como se tivesse morrido.

    Sem mais delongas, Junta passou por cima dele e entrou no escritório. Como esperado de sua irmã, o lugar era terrivelmente organizado. Livros de magia rúnica, numa só fileira, tomos de magia rápida, em outra.

    Cristais azuis, amarelos e vermelhos, espalhados em cada canto, encheram-se de brilho quando Junta passou. Deviam reagir ao mana dos magos. Sentiu calafrios, quando pensou qual seria a função deles.

    Parando diante da mesa, não demorou para achar o que veio buscar. Grudado na capa do diário, bem no centro do tampo, um post-it guardava o feitiço. Havia um bloco de post-its logo ao lado.

    Pegando um deles, o garoto anotou o feitiço e guardou no bolso.

    “Fácil demais!”

    Comemorando com uma dancinha, desceu as escadas. Gunfire e Yozoi o esperavam no hall.

    — Conseguiu?

    — Sim! — E tirou o papelzinho do bolso. — Foi até que fácil.

    — Certo… — prosseguiu Gunfire, receosa. — Bom, é como qualquer outro feitiço. Pegue sua varinha e entoe.

    — Tá bom… 

    Ele quase fez isso, mas Yozoi o interrompeu.

    — Ela precisa tocar em você — disse Gunfire, sorrindo com malícia.

    Instintivamente, eles deram as mãos. 

    — Heh, se acostumaram rápido com isso… 

    — Bem, é, eu, é… — gaguejou Junta.

    — Vamos, Junta-sama! — disse Yozoi, corada.

    Apontando a varinha para si mesmo, ele falou:

    — Laedi Odnum odolp me to… 

    Um furacão negro os cercou num instante!

    Arap emével!

    O rodopio foi rápido. Nem sentiram o vento ou a tontura. O furacão passou num piscar de olhos, e logo se viram diante um prédio. Uma construção enorme. Pessoas, da mesma forma que eles,  saíam de furacões negros.

    Todos eram estudantes da Academia de Magia Sakai!

    — Conseguimos, Junta-sama! — disse Yozoi. 

    Olhando para ela, ele finalmente percebeu que ela tinha um potinho em uma das mãos. Devia ser o almoço da irmã dele. 

    — Você está bem, Junta-sama? Esse lugar… você não gosta muito dele.

    — Estou, não se preocupe.

    E apressaram o passo. Olhou para a direita, onde ficava a torre do relógio, e viu que eram 11:40. Vinte minutos para a entrega da comida.

    “Dá tempo…”

    Foi um pensamento inocente.

    — Mas o que é isso?

    — Essas coisas… 

    — Bonecos?

    — Mas que merda?!

    — Olha por onde anda, idiota!

    Uma onda de protestos veio dos estudantes. Os da frente, os de trás e dos lados. Todos estavam reclamando. Junta ficou em alerta. Quando pensou em perguntar sobre o que estava acontecendo… 

    O motivo apareceu pessoalmente.

    — Um manequim?

    — Você sabe o que é isso, Junta-sama? — perguntou Yozoi, alarmada.

    — Ele guardava o escritório, mas eu lancei um… 

    Mais. Mais bonecos de madeira, vivos como gente, surgiram entre os alunos. Não demorou para que cercassem Junta e a garota. Eram réplicas idênticas do manequim do escritório de Junko.

    Emboscada!

    — Yozoi-san… 

    — Nem precisa dizer, Junta-sama!

    E garfos surgiram entre os dedos dela. Numa velocidade inumana, os talheres alvejaram as testas dos bonecos. Em seguida, cada um foi atingido com uma joelhada no abdômen. 

    “Caramba!”

    Não querendo ficar para trás, Junta sacou a varinha e apontou para si mesmo.

    — Az-rof! 

    E uma luz amarelada envolveu o corpo dele. Sentindo-se mais leve, o garoto avançou contra os outros bonecos. Cada soco explodiu na cabeça de um coitado, jorrando farpas de madeira por todos os lados.

    Um chute partiu um manequim em dois, uma cotovelada explodiu um tórax. Se fossem pessoas, aquilo seria um banho de sangue. Sentiu-se num jogo de hack n slash, matando inimigos a rodo.

    Porém, a diversão não era para sempre. O brilho foi diminuindo, e ele voltou a sentir o peso de seus braços e pernas. O feitiço estava acabando. Quando explodiu o último do seu lado, levou as mãos à cintura.

    Pensou que tinham acabado com todos.

    — Você está bem, Yozoi-san? — perguntou, virando-se para trás.

    — Sim, Junta-sama!

    Quando prestou atenção, viu um monte. Uma pilha de corpos de madeira. 

    “Assustador, Yozoi-san…”

    — Agora nós podemos… 

    Em câmera lenta, ele viu aquilo pular do monte. O último dos bonecos avançava, descendo a pilha, com um punho fechado, mirando as costas de Yozoi. Antes que Junta soubesse o que estava fazendo, viu-se levando um soco.

    O feitiço acabou.

    — Junta-sama!

    Ele levou o golpe no rosto. Sentiu a consciẽncia oscilar. Tonto, lutando para não apagar, viu a garota explodindo o inimigo com um chute. 

    — Meu Deus, você está bem?

    Ela o tomou nos braços, como se ele fosse uma princesa. O garoto sentiu a fraqueza tomar conta, e amoleceu. Quando fechou os olhos, tudo ficou preto. 

    — — — 

    Sentiu tapinhas na bochecha. Não doíam, mas ele entendeu o recado. Sua vista não estava girando, nem sentia dor no rosto. Magia de cura. Yozoi era boa com ela. Devia tê-lo curado, enquanto ele estava inconsciente.

    Inclusive, notou que o seu queixo repousava no ombro dela. Fez o possível para manter a voz firme.

    — Eu apaguei por quanto tempo?

    — Três minutos.

    Quem respondeu foi um aluno. Um dos que estavam na multidão. Junta não sabia quem ele era, mas percebeu que estava feliz.

    — Você nos salvou, cara. Você e a sua empregada. Em nome dos alunos, eu te agradeço.

    Ele se curvou, e o restante fez o mesmo. Junta sentiu o rosto esquentar.

    — Eu sou Minoru Adas, o presidente do conselho estudantil.

    “Presidente?!”

    — Aquele feitiço… foi impressionante, devo admitir. Nem eu conheço ele. 

    — Haha, normal. Foi invenção da minha irmã — disse Junta, saindo do abraço de Yozoi. — Demorei pra dominá-lo. Nunca pensei que fosse ser útil.

    — Todo feitiço é útil, Sakai Junta. De qualquer forma… — Minoru voltou-se para a multidão. — Eu preciso ir. Até mais.

    Dispersando os estudantes, Minoru Adas entrou na academia. A paz foi restaurada. Junta sentiu o peso de um olhar, e virou-se para ela. Yozoi o observava atentamente, preocupada.

    — Você está bem, Junta-sama? Eu deixei passar algum hematoma?

    — Não, eu tô bem. É sério, não precisa me olhar assim — ergueu as mãos em rendição. — Eu não vou morrer. Foi apenas um soco.

    — Você não sabia se aquele manequim era diferente. Se ele tinha alguma magia no punho, ou maldição. Você… 

    Deu dois passos, encurtando a distância entre eles. Seus narizes estavam tão próximos que um podia sentir a respiração do outro.

    — …Você é tão impulsivo, Junta-sama.

    — Bem, é… 

    — Mas é isso que eu adoro em você.

    E o beijou na bochecha. 

    —  Vamos ver a Junko-sama? — perguntou, para mudar de assunto.

    Ele viu seu rosto avermelhado, mas seguiu a dança. Assentiu, e entraram, de fato, na academia.

    Passaram pelo corredor central, que era tão longo quanto uma rua. Viram uma escada e, seguindo a memória frágil de Junta, subiram. No terceiro andar, logo à direita, havia uma porta com a placa “diretoria” na frente.

    Eles bateram, mas ninguém respondeu. Na segunda batida, a porta se abriu sozinha.

    — Devemos entrar? — indagou Yozoi.

    — Creio que sim. Já que viemos até aqui… 

    — Faz sentido.

    E entraram. A sala era, sem exagero, idêntica ao escritório de Junko possuía na mansão. As mesmas estantes, com os mesmos livros. Até as pedras coloridas, que pairavam no ar, eram iguais. Assim como da última vez, esses cristais voadores ganharam luz.  

    Na bancada, o nome da diretora — Sakai Junko — estampava um calendário.

    “Minha irmã… onde você está, hein?”

    Ignorando sua ausência, sorriu para Yozoi.

    — Tudo certo?

    — Tudo certo. O almoço ainda está quente. Espero que ela goste… 

    — Ela vai, sim. Acredite, ela odeia o almoço daqui.

    Agora que a comida estava entregue, podiam voltar para casa. Se possível, queria sair o mais rápido dali. Aquele livro, o maldito livro de sua irmã, estava sobre a mesa. Aquelas páginas, os textos que o fizeram perder noites de sono… estavam ali, como se não fosse nada.

    “O Estudo em Azul… Deus, como eu tento esquecê-lo.”

    E como tentava! Mas aquelas palavras, as descrições! 

    Testamos em duendes e fadas, anões e elfos negros. Nenhum deles atingiu a meta. Nenhum deles ficou entre a vida e a morte. Todos morreram imediatamente. Será que eu sou a única que sobreviveu a esse feitiço?

    O maldito livro de anotações de Sakai Junko, Laedi Odnum o erbos, que seu irmão mais novo, Sakai Junta, leu quando tinha onze anos. O caderno que, para ele, mais pareciam confissões de crimes… 

    “Do que estudos de magia!”

    — Junta-sama? 

    Yozoi Sakura o trouxe de volta dos devaneios.

    — Você… 

    — Vamos, esse lugar me dá calafrios.

    E a pegou pela mão. Saíram com rapidez, e desceram as escadas.

    A pressa deu frutos, e logo estavam no térreo. Junta suava frio. Lembrar daquele livro, para ele, era como um coelho recordar o rosto de um caçador. Seu coração acelerou. Aquele medo, que pensou ter superado, ameaçou voltar.

    Mas o aperto em sua mão o fez sorrir.

    — Junta-sama, você… 

    Bam!

    Antes que ele pudesse ouvir o que Yozoi diria, Junta saiu voando pelo corredor. Não, seria melhor dizer, na verdade, que fora arremessado. Ele cruzou toda a extensão do caminho, incapaz de entender o que aconteceu.

    Quando o chão se aproximou, o corpo dele saiu rolando. Rolou, rolou e rolou, até que acertou um grupo de estudantes na entrada da Academia.

     — Mas que droga?

    — O que foi isso?

    — É o cara de hoje mais cedo!

    O reconheceram. No entanto, ele não tinha tempo para reclamar disso.

    — É um daqueles bonecos!

    — Mas esse… 

    — Esse aí é preto, né?

    Tentando manter a consciência, Junta ouvia as vozes deles.

    — Esse aí tem… 

    — Isso é um canhão?!

    — Ele tem um canhão no lugar do braço?!

    “Porra…”

    Um dos garotos o ajudou a se levantar. Balançando a cabeça, Junta se recompôs. Sacou a varinha, e focou no adversário.

    “Desgraçado…”

    Seria idêntico aos outros manequins, se não fosse negro. No lugar do braço direito, havia uma espécie de cano. Um canhão, como os garotos disseram, mas com uma luz rosada em torno da boca.

    “Um círculo mágico de…”

    …Filtração de mana.

    Aquilo devia sugar a energia do ambiente, tornando a magia algo possível para um ser inanimado. Quem inventou aquilo deveria ser um gênio.

    — Me diga… a mão esquerda. Ela é muito fina, né? Ou eu fiquei míope, depois da queda? — indagou Junta.

    — Não, ela realmente é muito fina.

    — Sim, tipo um graveto — disse outro aluno.

    Como se fosse uma varinha.

    “Ah, nem fudendo!”

    Era simples a lógica por trás. A mão direita, com o Círculo Mágico de Filtração de Mana, sugava a energia necessária para que a esquerda, que era a varinha, executasse um feitiço.

    — Ele tá vindo pra cá.

    O boneco preto caminhava lentamente, mirando a “mão” esquerda contra Junta. A direita brilhou. E, em seguida, uma luz vermelha acendeu na varinha.

    — Ei… isso é o que eu tô pensando que é?

    Junta gostava de fazer perguntas retóricas.

    — É, é exatamente isso.

    — Exatamente o quê?! — perguntou um dos alunos, desesperado.

    — O Feitiço Indefensável. 

    A Morte Súbita!

    — O Etrom Atibus! 

    — O ETROM O QUÊ?!

    Na história da magia, apenas um feitiço não tinha defesa. Não via contra-feitiço, nem amuletos, vestes ou escudos, que barrassem o maldito Etrom Atibus. A última coisa que um alvo dele via, diziam as lendas, era um feixe vermelho.

    E o alvo, dessa vez, era Junta.

    — Se afastem — ordenou ele.

    Os garotos saíram de perto. Alguns caíram no caminho.

    — Se é assim que vai ser… 

    Ergueu a sua própria varinha.

    — …Então eu vou te mostrar uma coisa.

    Mirando contra o boneco, um brilho vermelho surgiu na varinha de Junta.

    — Você não é o único capaz disso, imbecil!

    De longe, Yozoi Sakura finalmente havia atravessado o corredor mágico da academia. Ela descobriu, tarde demais, que o corredor aumenta de tamanho quando você corre nele. Era uma medida disciplinar bem inconveniente. 

    O que ela viu, quando parou diante dos portões, foi o espaço aberto no gigantesco jardim da academia. Luzes vermelhas queimavam em duas varinhas, que se puseram uma contra a outra. Mesmo de longe, ela viu que um dos duelistas era o seu jovem mestre.

    — JUNTA-SAMA!

    Mas ele não ia ouvir.

    — Se eu estiver certo… — murmurou ele, apertando os olhos. O poder dos feitiços gerava ventanias no lugar. — Se eu estiver certo, eu não vou morrer.

    Quando as luzes vermelhas se tornaram esferas, ele cerrou os dentes e gritou:

    — ETROM!

    “SAKURA!”

    — AAAAAAH… TI, BUS!

    Foi como ver o tiro de um canhão. Projéteis vermelhos cortaram o espaço e, quando se encontraram, explodiram num clarão escarlate. O do boneco queria matar Junta, e o de Junta, o boneco. 

    Mas a colisão os impediu, forçando a mudança de alvo de ambas as partes. Etrom Atibus contra Etrom Atibus. Um consumiu o outro, e não sobrou nada de nenhum dos dois. A ventania se desfez, como se nunca tivesse existido.

    — Revita-sed!

    Uma voz veio de trás de Yozoi, que estremeceu. O boneco preto, que ainda erguia a varinha, caiu duro no chão.

    — Oi, oi, oi. Então foram vocês, hã? Eu devia saber. O meu irmãozinho e a namoradinha dele. B1 e B2. Vocês gostam de causar, hã?

    Era uma mulher alta, de cabelos presos num rabo de cavalo. Seu rosto era anguloso, e seus olhos eram grandes. Uma expressão carrancuda marcava o seu semblante.

    — O frango estava uma delícia, Yozoi — disse Sakai Junko, passando pela garota.

    — Obrigada, senhora!

    E seguiu o rumo da passarela. Os estudantes, atordoados, ficaram ainda mais nervosos. A diretora estava entre eles. Conforme andava, o salto batia no concreto. Mas ela não olhava para nenhum deles.

    Sua atenção estava nele.

    — Meu irmãozinho. Meu doce irmãozinho…

    Ela o abraçou. Junta, mesmo cansado, não escondeu o quanto o gesto o deixou apavorado. A irmã o apertou com força, como se quisesse confirmar que ele estava ali.

    — Me perdoe. Eu esqueci completamente disso. Os cristais no meu escritório reagem a qualquer um. Qualquer um que eu não dei a permissão de entrar.

    — Então… 

    — Os manequins? São os guardas. Eles ganham vida quando os cristais acendem. 

    “Então aquilo era uma armadilha?!”

    — Eu sinto muito, mesmo. Mas, veja… 

    Ela o soltou, apenas o suficiente para vê-lo nos olhos.

    — …Você executou brilhantemente o Etrom Atibus. Você tem talento.

    — Hehe, nem tanto… 

    — Ah, e antes que eu me esqueça… 

    Ela se afastou de vez, e tirou uma caixinha do ar. Havia um lacinho em volta dela. Era um presente de aniversário.

    — Tome. Eu sei que você fez pra Yozoi. A Elisa me contou, haha!

    “Maldita Elisa!”

    — Vocẽ pôs seu coração nisso. Ela certamente vai gostar, a Yozoi.

    — Farei isso… — disse ele, jogando a toalha.

    Passos apressados chegaram até eles. Era a dita cuja.

    — Yozoi-san?

    — Junta!

    E ele recebeu uma nova rodada de abraços. 

    — Pombinhos… — murmurou Junko.

    Enquanto ouvia o seu irmão entoar o feitiço On-roter, que manda a pessoa de volta para casa, a diretora coçou a cabeça. 

    “Esse Junta… ele ainda me olha estranho.”

    E ela sabia o motivo.

    “O meu livro…”

    Tinha que ser isso.

    “Ele com certeza leu.”

    E não pôde deixar de sorrir.

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