Índice de Capítulo

    Athemor encarava o mapa havia tempo demais.

    — Essas rotas estão erradas — disse, sem levantar a cabeça.

    O escriba à mesa pigarreou.

    — São as mesmas do último envio, meu senhor.

    — Então estão erradas há semanas.

    O Lorde não era um homem velho, mas o cansaço o fazia parecer mais.

    Cabelos castanhos já marcados de cinza nas têmporas, presos para trás por hábito militar. O rosto era anguloso, severo, cortado por uma cicatriz antiga que descia da sobrancelha esquerda até a linha do maxilar, lembrança de uma campanha que ele preferia não recordar. Vestia-se com couro escuro, manto simples, nenhum símbolo além do selo do Leste preso ao peito.

    Naquela manhã, estava sozinho na sala de mapas.

    A luz entrava pelas janelas, refletindo sobre pergaminhos abertos, contas de produção, registros de envio. As rotas do deserto estavam marcadas com tinta azul, grossas, seguras, lucrativas.

    Quando a porta se abriu, ele não levantou a cabeça, mesmo ouvindo a saudação.

    — Lorde Athemor.

    — Se não for urgente, volte mais tarde.

    Não houve resposta imediata.

    O silêncio durou tempo demais.

    Athemor ergueu o olhar.

    O homem à porta estava coberto de poeira, suor seco e algo mais escuro no colarinho. Os olhos não se fixavam em lugar nenhum.

    — Senhor… — a voz saiu fraca. — Preciso falar agora.

    Athemor franziu o cenho.

    — O que aconteceu?

    O mensageiro respirou fundo.

    — As bases fortificadas… do Leste… Sumiram.

    Athemor já estava de pé antes da frase terminar.

    — Cuidado com as palavras que escolhe.

    O homem engoliu em seco.

    — Foram destruídas senhor.

    O lorde ficou imóvel.

    Por um instante, pareceu não entender o idioma que ouvira.

    — O que?. — disse, baixo. — Isso é alguma piada?

    — Senhor—

    — Como assim foram destruidas? — repetiu, agora mais firme. — Kharun e Sal-Reth são fortalezas de contenção máxima. Muros cheios de runas de proteção. Magos de terra e guarnições completas.

    Ele caminhou até o mensageiro, parando a um palmo de distância.

    — Se isso for uma piada, vai lhe custar caro…

    O homem baixou a cabeça.

    — Eu vi os restos, senhor.

    Athemor respirou fundo, controlando a irritação.

    — Quem mais confirmou?

    — Dois condutores de tropas. Um intendente de carga. — Ele levantou os olhos. — Nenhum deles entrou nas ruínas. Não havia… como.

    Athemor virou-se bruscamente.

    — Tragam-nos. Agora.

    Minutos depois, a sala estava cheia.

    Vozes diferentes. Mas os relatos eram iguais.

    Uma fortaleza reduzida a escombros.
    A outra… desaparecida, substituída por um mar de areia instável.

    Nenhuma explicação coerente.
    Nenhuma resistência organizada.
    Nenhum sobrevivente.

    Athemor sentou-se lentamente.

    — E os laboratórios? — perguntou, quase num sussurro.

    Ninguém respondeu de imediato.

    — Os complexos de refino… — insistiu.

    — Perdidos. — disse um dos homens. — Soterrados. As câmaras colapsaram.

    A mão de Atémor tremeu sobre a mesa.

    Ele fechou os olhos.

    As rotas azuis nos mapas deixaram de ser linhas.
    Viraram cicatrizes.

    — Isso não é possível — murmurou. — Perdemos duas cidades em um dia?

    Abriu os olhos de novo, agora com algo diferente neles.

    — UM DIA?

    Medo.

    — Quanto tempo para retomar a produção?

    — Não temos certeza senhor, eles levaram a maioria dos prisioneiros, talvez consigamos reconstruir em meses… ou anos. — respondeu alguém. — Se ainda houver matéria-prima utilizável.

    O ar pareceu ficar mais pesado.

    Athemor se levantou de súbito.

    — Chamem os escrivães! — chamou. — Todos.

    A sala se encheu de movimento.

    Ele começou a ditar cartas, uma após a outra, a voz firme demais para alguém à beira do surto.

    — Aos lordes do Norte, Oeste e Sul.
    — Informem que o Leste perdeu ambas as bases fortificadas em menos de um dia.
    — Que a produção de poções, foi interrompida por tempo indeterminado.
    — Que as rotas de comercio para o deserto estão comprometidas.

    Fez uma pausa.

    — E que isso não foi uma revolta.

    O escriba ergueu a pena.

    — Como devo classificar, senhor?

    Athemor hesitou.

    Essa foi a pior parte.

    — Como guerra não declarada, com assinatura de mana da Guardiã e de uma besta de raios.

    Ele virou-se para um capitão à porta.

    — Prepare um mensageiro de confiança. O mais rápido.

    — Para onde, senhor?

    Athemor fechou os olhos por um segundo antes de responder.

    — Para Alto Lírio, temos que avisar Mael.

    Quando os abriu, o desespero já não era algo que ele tentava esconder.

    — Diga a ele que Elandor sangra.
    — Diga que nossas bases caíram.
    — E diga que, se isso não for resolvido com prioridade agora…

    A voz falhou pela primeira vez.

    — …não restará reino para proteger.

    O mensageiro saiu correndo.

    Athemor ficou sozinho outra vez.

    Diante dos mapas.
    Diante das rotas mortas.
    Diante da certeza que ele mais temia.

    Eles tinham escolhido o Leste de propósito.

    E o reino inteiro pagaria por isso


    — Não olha.

    A mulher puxou o filho pelo braço.

    — Mas, mãe…

    — Não olha.

    O garoto virou o rosto a tempo de ver os corpos pendurados antes que ela o afastasse.

    — São monstros? — perguntou, em voz baixa.

    — São perigosos — ela respondeu rápido demais. — Por isso estão presos.

    O jovem Rumbra ouviu.

    As correntes rangeram quando ele tentou se mover um pouco. Não para escapar, isso ele já sabia ser impossível, apenas para aliviar a pressão constante nos ombros.

    Ele estava suspenso dentro de uma estrutura de metal, a oito metros do solo. Correntes grossas envolviam seu tronco e braços como serpentes mortas. Os elos eram encantados, frios, isolantes.

    Os pés não tocavam o chão havia doze anos.

    Doze ciclos longos de crescimento humano. Para um Rumbra, pouco mais que um suspiro.
    Para o corpo, uma eternidade.

    A linhagem ainda estava ativa, mas fraca, instável. Isolada do solo, reagia mal. As folhas que brotavam de seus ombros eram pequenas, pálidas. A casca do torso apresentava rachaduras secas, como terra esquecida pela chuva.

    Ele não sobrevivia por escolha.

    A luz era filtrada pela copa da Árvore-Mãe e entrava pela ampla claraboia da prisão.
    Água misturada a nutrientes era borrifada duas vezes ao dia.

    E só.

    Dali, o jovem tinha uma visão ampla da cidade.

    Alto Lírio.

    A capital de Elandor.

    Ela crescia em curvas suaves, não em linhas rígidas. Pontes de madeira branca ligavam plataformas vivas moldadas ao redor de troncos antigos. Rios serpenteavam em canais cristalinos, fluindo entre raízes expostas e jardins suspensos. As construções não competiam com a floresta — rendiam-se a ela, abraçando galhos, desviando de copas, aceitando a sombra como parte da forma.

    No centro de tudo, erguia-se a Árvore-Mãe.

    O castelo não veio primeiro.
    Nasceu depois, ao redor.

    O tronco tinha mais de cem metros de diâmetro, uma coluna viva de casca ancestral cruzada por veios luminosos de mana natural. A copa era tão vasta que sua sombra cobria todo o complexo real, filtrando o sol em tons de verde. As folhas nunca caíam todas de uma vez.

    A árvore respirava com o reino.

    A cada cinco anos, florescia.

    Símbolo de prosperidade.
    Prova da bênção da terra.

    Era isso que o povo via.

    O jovem Rumbra via outra coisa.

    Todos os dias, no mesmo horário, eles vinham.

    Homens de aventais grossos e luvas reforçadas. Carroças com barris alinhados. Evitavam o toque direto. Evitavam olhar nos olhos.

    — Hoje de novo? — murmurou o Rumbra mais jovem, preso na estrutura ao lado.

    — Todo dia — respondeu o mais velho, suspenso em uma coluna de metal próxima. — Enquanto der.

    Um deles girou a válvula, baixando os corpos até a altura necessária.

    A agulha entrou.

    O mundo se afastou.

    A seiva era drenada em silêncio.

    Não queimava.
    Não cortava.
    Não feria como lâmina.

    Era pior.

    Era sentir a própria essência sendo puxada para fora em um fio contínuo, lento, sem pressa — como se o mundo sugasse algo que sempre lhe pertenceu.

    O jovem fechou os olhos.

    Não gritava mais.

    Gritar exigia energia.

    Do lado de fora, a cidade seguia viva.

    Mercadores negociavam sob lanternas naturais.
    Músicos tocavam flautas entalhadas em galhos da própria Árvore-Mãe.

    Quando a drenagem terminou, ele apagou.

    Acordou com o brilho da lua cheia iluminando seu rosto.

    À noite, quando a lua atravessava a copa, Alto Lírio parecia um sonho.

    O jovem Rumbra abriu os olhos ao sentir algo diferente.

    Não vinha da agulha.
    Nem da luz.

    Era… uma vibração.

    A mana ambiente da Árvore-Mãe oscilou por um instante quase imperceptível. Um pulso distante, profundo, como um eco atravessando o mundo.

    Algo havia se movido.

    — Tharuun-Vel… — murmurou.

    As correntes rangeram levemente.

    — Não me chame assim, Lith — sussurrou o ancião. — Esse nome pesa.

    — A floresta respondeu — insistiu Lith, a voz baixa, urgente. — Eu senti.

    O silêncio se estendeu.

    — Eu também — admitiu Tharuun-Vel, por fim. — Raem… acorde. Precisamos ficar atentos.

    — Por quê? — perguntou Raem-Thar, sonolento.

    O ancião demorou a responder.

    — Porque quando a Árvore-Mãe reage desse jeito… — disse, em tom grave — …é sinal de que algo grande está prestes a mudar.

    O vento atravessou a copa das árvores.

    E, pela primeira vez em anos, Lith sentiu esperança misturada ao medo.

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