Capítulo 7 - O Dia em que o Sangue Decidiu Destinos
O sol mal havia alcançado o ponto mais alto do céu quando os sinos de aço do Reino de Scavenger ecoaram por toda a capital. O som grave atravessava muralhas, ruas e mercados, anunciando algo mais importante do que qualquer proclamação real.
A Arena Central da Scarface estava lotada.
Centenas de pessoas ocupavam arquibancadas de pedra negra, bandeiras vermelhas e roxas tremulavam ao vento, e o cheiro de poeira, suor e expectativa se misturava no ar. O público não vinha apenas para assistir lutas. Eles vinham para presenciar o nascimento de monstros… ou o enterro de promessas.
No centro da arena, sobre uma plataforma elevada, um homem de armadura escarlate ergueu um pergaminho selado com o brasão da nova guilda.
Sua voz, ampliada por magia, explodiu pelo coliseu.
— ATENÇÃO, REINO DE SCAVENGER!
Hoje terá início o Teste de Admissão da Guilda Scarface!
Um rugido de vozes respondeu.
O narrador abriu o pergaminho, os olhos brilhando com excitação.
— Cada participante enfrentará três batalhas sorteadas.
— Quem conquistar duas vitórias garante vaga na guilda.
— Quem sofrer duas derrotas, perde qualquer direito de entrada!
Ele fez uma breve pausa.
— Vitória será reconhecida apenas por: Nocaute, Desistência… ou Morte.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Então o narrador sorriu.
— E agora… OS NOMES!
— Noah Kraus — Ceifador de Rank E!
— Rudah Hanseflick — Guerreiro de Rank D!
— Felix Sturmfang — Assassino de Rank B+!
— Albrecht Eisenwald — Cavaleiro de Rank A!
— Johann Blutmond — Mago de Rank C!
— Liselotte Krähe — Necromante de Rank B!
— Anneliese Frost — Maga de Rank C!
— Margarete Weiss — Necromante de Rank B!
— Bruno Falken — Assassino de Rank C!
— Rudolf Grimmwald — Feiticeiro de Rank C!
— Otto Morgenstern — Feiticeiro de Rank A!
— Klaus Eisenblut — Cavaleiro de Rank B!
— Leonhard Rot — Feiticeiro de Rank B!
— Matthias Kreuz — Feiticeiro de Rank B!
— Ulrich Nebel — Feiticeira de Rank C!
— Friedrich Nacht — Mago de Rank D!
Cada nome arrancava reações diferentes da multidão. Alguns eram saudados com gritos, outros com risadas, e alguns… com silêncio respeitoso.
Mas quando o nome Noah Kraus ecoou, houve murmúrios confusos.
— Rank E?
— Ele veio morrer?
— Esse é o louco da vila destruída…
Noah permanecia imóvel na fileira dos combatentes, a Foice do Rei Ossorath escondida sob um manto escuro. Seus olhos não reagiam às vozes. Ele apenas observava.
Hans, ao lado dele, engoliu seco.
O narrador então ergueu outro pergaminho.
— AGORA, AS LUTAS SORTEADAS!
Um feixe de luz dourada riscou o céu da arena, projetando as batalhas no ar.
1ª Luta
Noah Kraus (Rank E)
VS
Felix Sturmfang (Rank B+)
O coliseu explodiu em gargalhadas e gritos.
— “Isso é uma execução, não uma luta!”
Felix, um homem magro de cabelos prateados e olhar frio, estalou os dedos, faíscas elétricas saltando por seu corpo.
— Coitado… — murmurou.
Noah levantou lentamente a cabeça.
Seus olhos estavam vazios.
2ª Luta
Albrecht Eisenwald (Rank A)
VS
Rudah Hanseflick (Rank D)
Um silêncio desconfortável caiu sobre as arquibancadas.
— “Um Rank D contra um A?”
— “Ele vai ser esmagado…”
Hans respirou fundo, mas não desviou o olhar.
Algo dentro dele… tremia.
3ª Luta
Klaus Eisenblut (Rank B)
VS
Bruno Falken (Rank C)
O público aprovou com aplausos. Uma luta equilibrada.
3ª Luta
Klaus Eisenblut (Rank B)
VS
Bruno Falken (Rank C)
O público aprovou com aplausos. Uma luta equilibrada.
5ª Luta
Liselotte Krähe (Rank B)
VS
Ulrich Nebel (Rank C)
Quando o nome de Liselotte foi anunciado, vários necromantes da plateia ergueram símbolos negros em respeito.
6ª Luta
Margarete Weiss (Rank B)
VS
Anneliese Frost (Rank C)
6ª Luta
Margarete Weiss (Rank B)
VS
Anneliese Frost (Rank C)
8ª Luta
Otto Morgenstern (Rank A)
VS
Matthias Kreuz (Rank B)
Um duelo que fez os magos da capital prenderem a respiração.
O narrador fechou o pergaminho com força.
— HOJE, O SANGUE DECIDIRÁ QUEM É DIGNO!
Ele ergueu o braço.
— QUE O PRIMEIRO COMBATE SE APRESENTE!
Os portões da arena rangeram.
Felix Sturmfang caminhou para o centro, relâmpagos rastejando por sua pele como serpentes vivas.
Do outro lado, Noah deu seu primeiro passo.
O público ainda ria.
Hans, na arquibancada reservada aos candidatos, murmurou:
— Noah…
Mas então o Ceifador ergueu lentamente o capuz.
E quando seus olhos mortos encontraram os de Felix…
A risada da arena morreu.
Um arrepio percorreu centenas de espinhas ao mesmo tempo.
Porque naquele instante, sem que percebessem, todos ali sentiram a mesma coisa:
o cheiro invisível da morte.
E o verdadeiro teste… havia começado.
O centro da arena parecia menor do que realmente era.
Não porque o espaço tivesse diminuído…
Mas porque a presença de quem estava ali tornava o ar pesado.
Felix Sturmfang girava lentamente a adaga entre os dedos, faíscas elétricas estalando ao redor de sua lâmina. Seus olhos brilhavam com empolgação verdadeira — aquele tipo de brilho que só alguém viciado em perigo possuía.
Ele abriu um sorriso torto.
— Você não tem cara de Rank E… — disse, inclinando a cabeça. — Meus instintos assassinos estão gritando. Isso aqui vai ser incrível.
Noah permaneceu em silêncio.
Sem responder.
Sem sequer mudar a expressão.
Então, lentamente, ele ergueu as mãos.
E sacou suas armas.
As Duas Mini Foices Esqueléticas surgiram em seus punhos como se tivessem sido invocadas da própria sepultura. Lâminas curvas, ossos esbranquiçados misturados com veios roxos pulsantes, e uma aura de morte tão densa que parecia distorcer o ar ao redor.
O arrepio que percorreu a arena foi imediato.
— …O que é isso? — alguém murmurou.
— Isso não é arma de Rank E…
— Eu… eu senti frio na espinha…
Até mesmo os magos da Scarface trocaram olhares inquietos.
Felix piscou, mas então riu.
— Heh… agora sim.
Ele sacou sua adaga e expandiu sua energia.
CRACK!
Raios serpentearam por seu corpo, os cabelos se erguendo levemente enquanto seus pés faiscavam no chão de pedra.
O narrador ergueu o braço.
— COMBATE… INICIADO!
Felix desapareceu.
Não por magia de invisibilidade — mas por pura velocidade.
Um estrondo ecoou quando ele reapareceu à frente de Noah, sua adaga descendo em um arco mortal, seguida por mais cinco ataques consecutivos, cada um mais rápido que o anterior.
Seis cortes.
Seis ângulos diferentes.
Seis tentativas de matar.
— MORRA!
Mas Noah… apenas se moveu.
Um passo para a esquerda.
Um giro suave do tronco.
Um deslizar mínimo dos pés.
As lâminas passaram pelo vazio.
— …O quê? — alguém gritou da arquibancada.
— Ele… ele desviou de tudo?!
Felix recuou um passo, surpreso.
Noah então avançou.
Sua Mini Foice direita cortou o ar com um assobio seco.
— SHHHHKK!
A lâmina passou a milímetros do pescoço de Felix, cortando apenas alguns fios de cabelo prateado, que caíram no chão lentamente.
Felix pulou para trás, o coração disparado.
— …Se eu não tivesse desviado… — murmurou, engolindo seco.
— Isso teria sido fatal… — comentou um cavaleiro da Scarface.
Noah não parou.
Ele girou o corpo e lançou um segundo ataque, agora em um arco horizontal, baixo, mirando diretamente o abdômen.
Felix saltou por cima por puro instinto.
— ELE ESTÁ BRINCANDO COM ELE?! — alguém gritou.
No alto do pulo, Felix lançou três facas elétricas.
Noah simplesmente girou as Mini Foices em frente ao corpo, criando um escudo giratório de ossos e morte. As lâminas ricochetearam e explodiram em faíscas no ar.
— Isso… isso é ridículo! — exclamou um mago na arquibancada.
Hans, sentado entre os candidatos, apertou os punhos.
Seu coração batia forte.
Ele não está lutando sério…
Os olhos de Hans se arregalaram levemente.
Noah está… brincando com um Rank B+.
Felix avançou novamente, agora com o corpo envolto por relâmpagos, tentando um golpe direto no peito de Noah.
Noah girou o pulso.
A Mini Foice esquerda subiu em um arco perfeito.
— CLANG!
A lâmina passou tão perto do coração de Felix que o impacto do vento da foice empurrou seu corpo para trás.
Felix caiu rolando no chão, o peito subindo e descendo com dificuldade.
— Se… se ele não tivesse errado por isso… — um espectador sussurrou, medindo dois dedos. — Ele estaria morto.
Felix se levantou lentamente.
Seus olhos não tinham mais empolgação.
Tinham medo.
— …Que tipo de Rank E é você…? — ele murmurou.
Noah deu um passo à frente.
Depois outro.
O público começou a se levantar de seus assentos.
A arena inteira sentia.
Essa luta…
Não era uma disputa.
Era uma execução sendo atrasada.
E o pior…
É que o Ceifador ainda nem tinha começado de verdade.
A poeira ainda nem havia assentado por completo quando Felix ergueu o olhar.
Seu peito subia e descia rápido, o suor escorria por sua têmpora e a adaga tremia levemente em sua mão.
Noah avançava.
Sem pressa.
Sem aura explodindo.
Sem grito de guerra.
Cada passo fazia o som de suas botas ecoar como um sino fúnebre no centro da arena.
— Ele… ele não está correndo… — murmurou alguém nas arquibancadas.
— Parece que está… indo executar.
Felix rosnou e fez a eletricidade subir novamente por seus braços.
CRRRAAACK!
— NÃO ME SUBESTIME!
Ele avançou primeiro.
Seu corpo se transformou num borrão prateado e azul, um relâmpago vivo cruzando o campo. A adaga veio de cima, depois da direita, depois da esquerda — um combo mortal, rápido demais para olhos comuns acompanharem.
Noah se mexeu.
Mas agora… um pouco mais lento.
Um corte raspou sua manga.
Outro passou a centímetros de sua costela.
— ELE ACERTOU?! — alguém gritou.
— Não… mas chegou perto!
Felix sentiu.
Eu consigo…
Seu sorriso voltou, trêmulo, mas verdadeiro.
— Ah… então você sangra.
Noah girou o corpo e bloqueou o próximo ataque com uma Mini Foice, as lâminas se chocando num estalo seco.
Felix recuou um salto, respirando forte.
O equilíbrio havia mudado.
Não era mais uma humilhação.
Era uma luta.
— Agora sim… — sussurrou um cavaleiro. — Ele está reagindo.
Felix ergueu a adaga e concentrou eletricidade nos pés.
— Thunder Step!
Ele explodiu para frente, reaparecendo atrás de Noah e lançando um golpe direto nas costas.
Mas Noah girou o tronco.
Não usou a foice.
Ele fechou o punho.
E socou.
Não houve brilho.
Não houve magia.
Só o impacto.
— DOOOM!
O ar pareceu ser empurrado para fora da arena.
Felix foi lançado como um projétil, atravessando dez metros em linha reta antes de colidir com a parede da arena com um estrondo que fez o chão tremer.
— ………
Silêncio.
Poeira.
Pedras caindo lentamente.
— …Aquilo… foi um soco? — alguém sussurrou.
— Ele… ele não usou arma…
— Isso foi… força bruta?
Hans estava de pé.
Seu coração quase pulava pela garganta.
Aquilo teria matado qualquer um.
A poeira começou a baixar.
Felix estava ajoelhado, tossindo sangue no chão de pedra.
Sua adaga havia rolado para longe.
— …Hah… hah… — ele respirava como se tivesse corrido quilômetros.
Ele tentou se levantar… e caiu de novo.
— Ele… ele ainda está vivo?! — um mago arregalou os olhos.
Noah deu um passo à frente.
— Levante-se.
A voz era baixa.
Mas pesada.
Felix apertou os dentes.
— Você… — ele cuspiu sangue. — Você acha… que eu vou cair assim…?
Ele estendeu a mão para o próprio peito.
— Eu sou… Sturmfang.
A eletricidade começou a correr por suas veias.
— Neuro-Overdrive.
Raios penetraram sua pele, iluminando seus músculos por dentro, pulsando como veias de luz.
Seu corpo tremeu violentamente.
— Ele está… eletrocutando a si mesmo?! — alguém gritou horrorizado.
— Isso é loucura!
Felix gritou.
Mas não de dor.
De excitação.
Seus músculos se expandiram levemente, o suor evaporou em vapor e seus olhos brilharam em azul intenso.
Ele se levantou.
Mais rápido.
Mais firme.
— Estímulos elétricos diretos nos nervos motores… — murmurou um mago. — Ele está forçando o próprio corpo além do limite!
Felix pegou sua adaga do chão.
A lâmina agora vibrava.
— Agora… — ele sorriu, mas seus olhos tremiam de insanidade. — Vamos ver se você ainda brinca comigo.
Noah ergueu lentamente as Mini Foices.
Sua sombra parecia se alongar atrás dele.
A arena inteira prendeu o fôlego.
CRRRRAAACK!
Felix se abaixou.
Seu corpo sumiu num clarão.
E reapareceu bem diante do rosto de Noah.
— MORRA—!
A lâmina começou a descer.
E Noah…
Abriu os olhos um pouco mais.
Continua.

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