Capítulo 98: O Torneio Prometido
O sol caminhou entre as nuvens, despedindo-se do leste até cumprimentar o oeste, e assim deu permissão para a lua governar a noite.
Naquele dia, o anoitecer terminou ainda mais rápido do que começou, não por ser um evento incomum, mas sim porque a lua não queria imperar naquele dia.
Dessa forma, o sol retornou mais brilhante do que nunca, iluminando até mesmo o quarto de Ônix, ainda que a cortina tentasse o impedir de alguma forma.
A luz apalpou os olhos do garoto até que ele começasse a acordar. Não demorou muito para que os olhos universais se abrissem a esse mundo novamente.
No primeiro instante, nada disse, tampouco pensou, apenas existiu, só foi raciocinar sobre algo segundos depois, quando percebeu que estava acordado.
“Me sinto leve…”
O conforto abraçava-o por inteiro, desde o calor agradável do edredom até a cama tão macia quanto algodão, tudo estava trabalhando para agradá-lo.
No entanto, uma sensação se sobrepôs às outras: zelo. Por algum motivo, sentia-se tão protegido quanto amado, e só foi entender isso ao olhar para o lado.
Lá estava Andressa: ainda com o rosto afundado no chão. As pálpebras e os cílios se encontravam avermelhados, um pouco inchados e sensíveis ao toque.
O lugar onde ela repousava o rosto encontrava-se um pouco molhado, como se algumas gotas de chuva tivessem banhado aquele canto em específico.
Ônix observou-a por um momento, abstendo-se de pensamentos, dando espaço somente às ações que vieram logo a seguir, começando pelo seu levantar.
Não foi algo rápido, tampouco lento, apenas cuidadoso o suficiente para não fazer barulho algum, e assim seguiu até que saísse da cama.
Logo depois, arrastou o edredom até que ele fosse para o canto do colchão, e só depois caminhou até a Andressa, apoiando-a em seus braços com delicadeza.
Assim, a pôs para descansar na cama e a cobriu com o edredom. Em seguida, caminhou em direção à porta e saiu de lá tão silencioso quanto uma sombra.
Não tinha muito um rumo para seguir, todos ainda estavam dormindo. Tudo o que ele fez após foi escovar os dentes e ir para a cozinha sentar-se em uma das oito cadeiras.
Os pensamentos pareciam não surgir, não havia muito o que pensar ou questionar, apenas lembrar de tudo o que passou até agora, incluindo a batalha recente.
Enquanto perdia-se em desvaneios, não percebia as partículas azuladas surgirem de pouco a pouco, até que o “sistema de jogo” aparecesse na sua frente.
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Parece que você conseguiu, fico feliz por você.
Os olhos universais ergueram-se sem pressa até se encontrarem com aquele sistema. Não havia surpresa em seu olhar, muito pelo contrário, era como se ele já soubesse que isso aconteceria.
— O que você… quer dessa vez?
A pergunta saiu tão desesperançosa quanto vazia. O que o aguardava era mais um desafio impossível de lidar? Ou até mesmo algo mais doloroso do que isso?
S̸͉̻̀͝i̵͕̍̈̈s̶͖̣̏̾t̶̮͆̋̈́e̷̘̟̼̒͒ḿ̸̠̕͝a̴̧̯̔͐̄ͅ ̶̝̒̂d̶̨̛̄e̵̲͆̒J̴̺̹̰͒́̎o̷̟͈̟̍͆g̵̖̗͛̿͛o̶̯̘͋͠
Nada, eu não vim aqui pedir coisa alguma, apenas te dizer que a sua verdadeira história começa só agora. Tem interesse em me ouvir?
As pálpebras ergueram-se levemente, e um pequeno e sutil brilho surgiu em seu olhar. Dessa vez, não disse nada, apenas acenou com a cabeça.
S̸͉̻̀͝i̵͕̍̈̈s̶͖̣̏̾t̶̮͆̋̈́e̷̘̟̼̒͒ḿ̸̠̕͝a̴̧̯̔͐̄ͅ ̶̝̒̂d̶̨̛̄e̵̲͆̒J̴̺̹̰͒́̎o̷̟͈̟̍͆g̵̖̗͛̿͛o̶̯̘͋͠
Agora que você concluiu todos os requisitos, um torneio vai acontecer em breve. Como recompensa, você pode pedir o que quiser, desde que vença, e isso inclui o que você mais deseja desde que reviveu nesse universo.
Uma realização dos desejos sem restrições é tudo o que ele poderia desejar desse mundo. Dessa forma, continuou prestando atenção nas palavras do sistema.
S̸͉̻̀͝i̵͕̍̈̈s̶͖̣̏̾t̶̮͆̋̈́e̷̘̟̼̒͒ḿ̸̠̕͝a̴̧̯̔͐̄ͅ ̶̝̒̂d̶̨̛̄e̵̲͆̒J̴̺̹̰͒́̎o̷̟͈̟̍͆g̵̖̗͛̿͛o̶̯̘͋͠
A localização já está no seu mapa, e somente nove pessoas participarão dele. Tá tudo bem, não se preocupe, a nona pessoa é tão gentil quanto agitada, garanto que não vai te atrapalhar em nada.
Após dizer tudo o que queria, começou a desaparecer tão sutilmente quanto veio. Poucos instantes antes de sumir, deixou seu último recado:
S̸͉̻̀͝i̵͕̍̈̈s̶͖̣̏̾t̶̮͆̋̈́e̷̘̟̼̒͒ḿ̸̠̕͝a̴̧̯̔͐̄ͅ ̶̝̒̂d̶̨̛̄e̵̲͆̒J̴̺̹̰͒́̎o̷̟͈̟̍͆g̵̖̗͛̿͛o̶̯̘͋͠
Tá tudo bem, eu te garanto que vai ficar tudo bem, nada nesse mundo é por acaso ou em vão.
E assim se foi, deixando o silêncio tomar seu lugar. Agora, a mente de Ônix não é somente um mar de lembranças desconfortáveis, mas sim um pequeno lago de esperança.
“Espero que tudo acabe agora…”
Permaneceu assim por alguns segundos, até que o tédio começasse a incomodá-lo. Não demorou muito para que se levantasse, caminhando até a geladeira.
Lá, pegou o que tinha disponível e foi ao fogão preparar comida não só para ele, mas também aos sete companheiros desacordados no conforto da cama.
Um bom tempo se passou desde então. O cheiro agradável do tempero caminhou às narinas de cada um deles, pouco a pouco despertando-os do sono.
Alguns minutos se passaram, e os pratos já estavam na mesa. Tirando o de Ônix, o restante estava protegido com um pano para que as moscas não atrapalhassem.
Após esse momento, não foi de demora alguma para que passos se aproximassem da cozinha, e não teve mistério algum; o olhar escarlate entregava quem era.
Assim que chegou, Saito escolheu uma cadeira próxima a de seu irmão e sentou-se, retirando o pano e pegando o talher não muito depois.
— Muito obrigado.
Ônix observou-o levemente confuso, mas o “De nada” saiu naturalmente. Durante poucos segundos, um breve silêncio rondou ambos.
— Você pretende fazer alguma outra coisa, Ônix?
A voz de Saito tinha um leve tempero de determinação, sabe? Não sei muito como explicar, mas é um tom leve que disfarça a chama que ele tem em sentir-se obrigado a ser forte e protetor.
— Ah, tem, tem sim…
Ônix ergueu o pescoço ao céu, como se observasse as estrelas atrás do telhado que as escondia. Logo depois, concluiu sua fala anterior:
— Temos que ir em um torneio, vencer ele e receber alguma coisa.
Não houve tempo para raciocínio, tampouco considerar o perigo. Ao ouvir que é algo que eles têm que fazer, Saito disse sem um pingo de hesitação:
— Eu vou.
Seu olhar brilhava mais do que nunca, e a cicatriz liberava algumas brasas em tom dourado. Não há mais espaço para a falha, tampouco fraqueza.
— A gente vai ganhar esse torneio como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Mesmo não estando no lugar dele, Ônix sentia aquela energia que cansou-se das falhas e dos arrependimentos, dando espaço somente à vitória.
— Claro!
E assim, respondeu com um leve sorriso abraçado em poucas risadas, e logo depois voltou a comer, sem sentir um pingo de preocupação dessa vez.
Com o passar do tempo, mais e mais dos seus amigos acordavam e iam para a cozinha, até que quase todos estivessem lá, menos Andressa.
A conversa fluía naturalmente e, mesmo após uma vitória amarga, todos tentavam agir com leveza. Um dos assuntos aleatórios foi elogiar a comida de Ônix.
Não demorou muito para que chegasse no tópico do torneio. Ao contrário do que ele esperava, eles pareciam mais empolgados do que deveriam.
Se for parar para pensar, isso é basicamente um passeio, não? Nove pessoas, e oito serão eles, é como se fosse uma recompensa pelo esforço deles.
Ônix não tinha pensado nessa perspectiva e, sem que percebesse, estava na mesma onda de empolgação deles, até mesmo mais um sorriso foi feito.
Ainda que houvesse um oceano de escuridão em seu coração, luz, de pouco a pouco, dava olá para essas trevas, não por mérito próprio, mas sim porque, agora, ele tinha algo para chamar de família.
Mesmo que seu desejo não fosse realizado, estava começando a aceitar que ver cada um dos seus amigos sorrindo era agradável demais.
E assim permaneceu até que terminasse seu prato, e não só ele, todos os outros também; no entanto, Andressa ainda não havia levantado para comer.
Nessas condições, Ônix levantou-se e pegou o prato dela, dizendo que iria ver se estava acordada e, se estivesse, entregaria o seu café da manhã.
Não demorou nem um pouco para que chegasse e abrisse a porta. Lá estava ela: deitada, com as costas viradas para a porta, mas os olhos estavam abertos.
Ergueu-se assim que ouviu o rangido e, assim que viu que era Ônix, forçou um singelo sorriso como se estivesse tudo bem, e disse logo em seguida:
— Oi!
Ônix respondeu o cumprimento com outro “Oi”, e logo depois ofereceu a ela o café da manhã que havia feito, que estava tão cheiroso quanto quentinho.
— Obrigada! Foi você quem fez?
Dessa vez, o sorriso que surgiu foi genuíno, e as mãos não hesitaram em aceitar o prato. O garoto respondeu que sim, e vê-la sorrindo arrancou um leve sorriso seu.
Enquanto comia, agradecia mais uma vez e dizia que estava muito bom. Ele, com vergonha e um pouco de timidez em ser elogiado, agradeceu um pouquinho.
— Enfim… Vou indo, tá? Vou fechar a porta, então bom descanso.
Foi o que disse enquanto movia a mão para a maçaneta; e era o que realmente faria, se Andressa não segurasse sua mão, dizendo logo em seguida:
— Espera… Espera um pouquinho, por favor.
Ônix observou-a um pouco confuso, mas aceitou o pedido sem questionar muita coisa. Logo depois, ela deu alguns tapinhas na cama, convidando-o.
— Podemos conversar um pouco sobre algo?
Próximo capítulo: A Humana mais Forte Viva.

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