Capítulo 165: Quanto mais bela for a flor, mais afiada serão seus espinhos. (Parte 2.)
Ken, encontrando o olhar frio e questionador de Crystalline por ter parado seu ataque, falou com calma.
“Você não pode matar ele.”
“…”
Depois das palavras de Ken, os dois ficaram um bom tempo apenas se encarando, esperando que um lado cedesse. O ar ao redor foi ficando tenso e pesado, criando uma atmosfera tão sufocante que tornava as pessoas ao redor difícil de respirar.
“…”
Até que Crystalline retirou calmamente a espada da mão de Ken, jogou-a no chão, se virou e caminhou na direção oposta.
“…”
Ken ficou um tempo olhando para suas costas enquanto ela se afastava, um sentimento estranho surgindo em seu coração, mas logo, seu olhar caiu sobre o jovem ajoelhado no chão, e sua expressão tornou-se feroz, franzindo a testa enquanto olhava para ele com frieza.
“!”
No momento em que os olhos do primo de Aela se encontraram com o olho de Ken, sua espinha tremeu terrivelmente, tornando-o difícil de respirar.
Ken, vendo que o sangue não parava de espirrar de seu ombro e sua pele ficava cada vez mais pálida pela falta de sangue, se agachou na sua frente, e com a ponta dos dedos atingiu os pontos de acupuntura no ombro, contraindo os vasos sanguíneos e assim impedindo que o sangue continuasse a jorrar.
A expressão de dor e desespero havia suavizado um pouco, mas ainda não se sentia aliviado, pois a pessoa à sua frente também não tinha uma boa expressão enquanto olhava para ele.
“!?”
Foi então que Ken de repente agarrou firmemente seu rosto pelas bochechas, fixando seu olhar para ele mesmo, e falou, com seu tom de voz frio de gelar.
“Você só tem duas opções. Primeiro, responder a todas as minhas perguntas, e podes viver. Segunda, ficar em silêncio e esperar morrer lentamente por perda de sangue.”
O corpo de Beldin tremeu diante das palavras de Ken, percebendo que ele estava falando muito sério. O olho de Ken era negro como a meia noite e profunda como o abismo, e mesma assim era frio e perigoso, assim como os olhos cintilantes de Crystalline.
Então, sem escolha, ele balançou a cabeça em concordância.
“Por qual motivo vocês vieram aqui?”
Perguntou Ken.
“…E-eu…”
A voz de Beldin saía fraca e rouca, como se estivesse usando todas as suas forças apenas para pronunciar estas simples palavras. Mas ele sabia que a pessoa a sua frente pouco se importava com sua situação, e se ele não continuasse falando, realmente seria morto.
Ele queria viver, mesmo que um de seus braços tenha sido cortado, ele ainda podia ser recolocado de volta no lugar diante de um bom médico. Então, ele continuou a forçar a voz sair de sua boca e continuou.
“Vim…para criar uma espada.”
Terminou ele.
“…”
O olhar de Ken estava fixo em seus olhos, como se estivesse em busca de qualquer tipo de mentira, e como não encontrou, continuou.
“Alguém mandou você?”
“…Não…”
“…”
Mais uma vez Ken não viu mentira, o que achou estranho.
Na mente de Ken, sua aparição até aqui não podia ser descrita como uma simples coincidência. Alguém claramente o havia indicado para vir aqui, talvez o traidor do condado, mas a pessoa a sua frente parecia completamente não saber.
Então, Ken pensou em outra pergunta e fez.
“Alguém o convenceu a visitar o mestre Tornard?”
“?”
Diante a pergunta de Ken, os olhos de Baldin se arregalaram ligeiramente, o que finalmente satisfez a Ken.
Já é sabido que Tornard não estava recebendo nenhum visitante há quase um ano, negando os pedidos de até mesmo nobres de famílias influentes. Então, porque o filho de um baronato, que mesmo que tenha ligações com Skarsgard, viriam até aqui?
Mas vendo a surpresa do homem, claramente indicava que
nem ele sabia que havia sido manipulado para vir até aqui.
Então, o olhar de Ken caiu no corpo do líder dos guerreiros e perguntou.
“Foi ele quem te incentivou a vir até aqui?”
“?”
O olhar de Baldin ficou ainda mais surpreso, como se Ken estivesse lendo sua mente, e neste preciso momento Ken havia virado o rosto para encontrar seus olhos surpresos.
‘Então foi realmente seu guarda quem o incentivou. Isto é incomodo.’
Ken começou a achar que talvez o guarda fosse o verdadeiro causador porque desde que chegaram ele sempre queria falar em primeiro lugar, como se estivesse acima do próprio jovem mestre.
“Você sabe com quem ele falou antes de te incentivar a vir até aqui?”
“…”
Diante da pergunta de Ken, Baldin não conseguia responder, seu rosto estava ficando cada vez mais pálido e seu corpo cada vez mais fraco enquanto seus olhos estavam ficando cada vez mais sombrios, como se fosse desmaiar a qualquer momento.
“Responda.”
Disse Ken friamente.
Com isto, ele começou a se forçar ainda mais, como medo de irritar a Ken e ser morto por ele. Então ele forçou as palavras na ponta de sua língua e falou entre dentes.
“N…não… eu…não queria vir…mas por causa de sua insistência…fiquei ganancioso e finalmente vim até aqui. Realmente…não sei de mais nada…”
“…”
Mais uma vez percebendo que ele não estava mentindo, Ken não tinha mais nada para perguntar. Com um golpe de karaté, Ken atingiu a nuca de seu pescoço e ele caiu inconsciente no chão.
Mas no momento seguinte, seu olhar mudou de direção, olhando para um canto de uma oficina, percebendo que alguém os observava enquanto tentava esconder sua presença.
“…”
Ken percebeu a muito que estavam sendo observados, mas não se preocupou em investigar. Na verdade, simplesmente ignorou o homem, levantou-se e se dirigiu na direção das mulheres.
§§§§
Ao anoitecer, Aela já havia trago de volta Ken e Crystalline para o castelo, enquanto ela mesma resolvia os assuntos de Baldin e seus guerreiros mortos, afinal, mesmo que foram eles quem tenha começado o conflito, ele ainda era um nobre e seu próprio primo, então teria que tratar de assuntos burocráticos.
Mas como seu tio ainda estava em seu baronato e seu filho estava sozinho no condado, ele foi mantido preso em seu quarto, sem direito de sair.
O fato de Ken e Crystalline, que não têm títulos, terem tocado em um nobre era considerado um ato ilegal, mas se considerar que eles atuaram para defender um dos herdeiros de Skardgard, Aela, a punição pode ser evitada.
Ken estava em seu quarto designado no condado, sentado na beirada da enorme janela enquanto olhava para as luas sobre o céu noturno.
Em seguida, Ken olhou para a palma de sua mão esquerda, onde estava um pequeno corte causado pela espada que Crystalline segurava.
“…”
Aquela cena começou a passar pela sua mente. Normalmente, uma espada normal não seria capaz de cortar sua pele que era tão resistente quanto o próprio aço.
Mas acontece que esta espada estava nas mãos de Crystalline, que era uma espadachim com extrema habilidade, afinal, alguém do nível de Crystalline é até capaz de transformar um simples graveto em uma espada.
Mesmo sem usar sua aura, ela detinha de uma extrema força física. Embora sua força física não se comparasse com a de Ken, mesmo com seu núcleo de mana, pode se dizer que estava muito acima da média de pessoas com núcleo de mana, mesmo entre os de famílias prestigiosas.
Mas naquele momento em que a lâmina da espada estava prestes a atingir a palma da mão de Ken, se Crystalline não tivesse se apercebido de sua presença e reduzido a intenção da espada sobre a espada, o ferimento em sua mão teria sido mais grave, podendo até ser inutilizado durante alguns dias.
O ferimento de agora era um pouco sério, mas na manhã seguinte já estaria completamente curado depois de uma noite de sono.
Com estes pensamentos na mente, Ken cerrou o punho e simplesmente deixou este assunto de lado.
*Toc, toc, toc.*
“?”
Mas foi neste momento em que houveram batidas na porta, leves mas audíveis, o que o surpreendeu, já que não havia ouvido passos nem sentido a presença de ninguém se aproximando, o que significava que a pessoa na porta era alguém com extrema habilidade em ocultação.
Mas neste condado, repleto de guerreiros brutos, não se podia encontrar pessoas com estes tipos de habilidade, então só havia uma hipótese.
Assim como Ken esperava, assim que chegou na porta e o abriu, encontrou um par de olhos azuis, cintilantes como pedras de safira e penetrantes de Crystalline o encarando, como se já estivesse olhando para ele através da porta antes mesmo de abrir.
“…”
“…”
Os dois ficaram se encarando durante um bom tempo, sem piscar ou desviar, tentando ler as emoções um do outro durante um bom tempo, até que Ken inclinou para o lado e falou.
“Você vai entrar?”
“…”
Crystalline não respondeu, não aceitando nem negando. Mas depois de um largo momento, ela entrou no quarto com passos leves, andou até um sofá que se encontrava no centro do quarto e se sentou.
“…”
Ken estava em silêncio enquanto a olhava se acomodando no quarto como se fosse seu, mas logo fechou a porta, andou até ela e também se sentou ao seu lado do sofá, mas com uma distância de duas pessoas.
“…”
“…”
Os dois mais uma vez caíram em um silêncio profundo, se houvesse um terceiro entre eles, certamente sentiria como se o ar estivesse dez vezes mais pesado, dificultando sua respiração.
Depois de um longo silêncio ensurdecedor, o olhar de Crystalline pousou sobre a mão esquerda de Ken, olhando fixamente para a cicatriz que ela mesma havia causado após Ken ter parado seu ataque.
“?”
Ken ficou um pouco surpreso quando ela se aproximou para mais perto dele a ponto dos ombros de ambos se tocarem e pegou sua mão, levando ao seu colo.
Mas a próxima ação dela o deixou ainda mais surpreso.
“Desculpe.”
“!”
Um sentimento de surpresa invadiu Ken enquanto seu olho se arregalou, como se estivesse duvidando do que acabara de ouvir, fazendo-o olhar com surpresa para Crystalline.
Embora ele estivesse curioso sobre a visita de Crystalline, ele jamais imaginou que ela teria vindo se desculpar, mesmo que ela estivesse se sentindo culpada, afinal, é este tipo de sensação que ela transmite.
Uma pessoa extremamente orgulhosa que não se curva para ninguém a menos que seja absolutamente necessário. Em outro caso, a pessoa teria que ser de absoluta importância para ela ter que admitir seu erro pro-ativamente, o que deixou Ken ainda mais confuso.
‘Será que eu sou importante para ela?’
Pensou Ken.
Ele queria perguntar diretamente, mas por alguma razão as palavras ficaram presas em sua garganta, e pela primeira vez depois de muito tempo Ken teve um sentimento que a muito não tinha.
Hesitação, e talvez o próprio medo.
Ele não sabia o porquê, mas tinha medo de fazer esta pergunta. Se Crystalline dissesse que ele não era tão importante, então seu medo não teria sentido, embora talvez iria se sentir desapontado.
Mas e se ela disser que se importa? O que ele faria com isso? Ele já havia jurado a si mesmo que não colocaria mais ninguém em seu coração, já que seu mesmo coração se rejeitava a reconhecer outras pessoas.
Mas com Crystalline era diferente, mesmo com sua personalidade distante e difícil de se envolver, nunca mais havia se sentido tão próximo com alguém desde que conheceu o Sr. Bertolt e sua esposa, as únicas pessoas que cuidaram dele desde que chegou neste mundo.
Mas acontece que mesmo com sua falta de emoções, ele ainda era humano. Suas emoções não haviam desaparecido, simplesmente estavam escondidas na profundeza de seu ser.
Crystalline, percebendo a surpresa no olhar de Ken, fez seu coração balançar um pouco, fazendo seus lábios se erguerem quase que imperspectivamente, sem que ela mesma se apercebesse.
Era a primeira vez que ela via uma expressão de total surpresa no rosto de Ken, nem mesmo quando ela o beijou diretamente pela primeira vez, Ken esteve tão surpreso, mas pelo simples fato de ela ter se desculpado, o fez reagir como se o mundo fosse cair.
Vendo isso, ela percebeu que Ken realmente a conhecia muito bem, mesmo que tenham se conhecido em menos de um mês, assim como ela conhecia certas peculiaridades dele.
Então, depois de ter se desculpado, Crystalline de repente pegou a mão.
“?…”
Ken ficou ligeiramente surpreso, mas ficou em silêncio enquanto assistia Crystalline que segurava sua mão com as duas mãos. A mão esquerda segurava as costas de sua mão, enquanto a direita acariciava segurava sua palma.
No momento seguinte, um brilho verde começou a surgir na palma da mão de Crystalline, e uma comissão começou a envolver a mão de Ken.
‘Isto é…’
Ken começou a olhar com interesse para aquela luz verde, mágica e familiar. Era praticamente uma magia de cura sem círculo mágico.
Magos capazes de utilizar magia de cura são extremamente raros, não é algo que se aprenda, é preciso nascer com o dom, além deles apenas sacerdotes e crentes em deuses são capazes de realizar curas.
“…”
Vendo isso, memórias passadas e dolorosas começaram a surgir na mente de Ken. Ele se lembrou daquela pequena maga que conheceu nos primeiros dias que foi invocado neste mundo, aquela expressão gentil dela ao tentar ativar aquela magia de cura enquanto olhava para ela.
E também a cena trágica daquela noite, quando foi acusado de tentativa de estupro e que foi obrigado a fugir daquela mansão, sendo humilhado e acusado publicamente.
Ao se lembrar daquelas memórias, a mão de Ken ficou imperspetivamente rígida.
“…”
Crystalline, tendo percebido a mudança de emoção de Ken através de seus músculos tensos, acariciou com mais suavidade a mão de Ken, o que o fez sair de seu transe e olhar para Crystalline que tentava curar seu ferimento.
Vendo isso, Ken não pode deixar de falar.
“Não adianta, por causa do meu corpo que rejeita magia, será difícil conseguir curar o ferimento.”
Mas Crystalline, como se tivesse ouvido algo insignificante, falou.
“Não te preocupes, eu só preciso continuar ingerindo magia de cura incessantemente, cedo ou tarde será curado.”
“…”
Com as palavras de Crystalline, Ken não falou mais nada e simplesmente deixou Crystalline fazer o seu trabalho.
Então, no meio do quarto ligeiramente escuro, iluminado apenas pelas pequenas luminárias internas e pelas luas cintilantes, Ken e Crystalline continuaram neste ambiente estranho, mas também aconchegante.

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