Ele abriu os olhos. Olhando ao redor, a primeira coisa que o cumprimentou foi o teto branco levemente familiar. 

    Do canto do olho, ele viu um vulto lilás se afastando devagar. Sua visão demorou um pouco pra focar, como quem dorme por muitas horas. 

    Não conseguia olhar direito para o próprio corpo, então precisou se sentar. Os braços fraquejaram, mas com teimosia conseguiu.

    — Sora! 

    O menino loiro do seu lado pulou da cadeira.

    — Senhorita Helene, o Sora acordou! — ele disse.

    Sora piscou repetidamente os olhos. Enquanto fazia, finalmente o vulto branco e lilás tomaram forma. 

    — Sora, que bom que acordou. Como se sente? — A doutora levou as costas de sua mão até a testa dele. A súbita aproximação fez subir um perfume suave de lavanda que suas narinas agradeceram.

    — Eu…acho que tô legal. 

    Helene abriu um pequeno sorriso. 

    — É, vejo que está mesmo. Você é um bom menino, mas mesmo que seja esforçado, não exagere — disse a mulher, levando a mão até o próprio rosto — Vindo para a enfermaria duas vezes no mesmo dia…sei que foi pelo teste, mas tente não se esforçar demais, viu? 

    Os pensamentos de Sora se perderam quando assim ela tocou no seu rosto. Por um momento sentiu suas bochechas queimarem, esquecendo-se de algo que precisava perguntar. 

    — A-ah, é mesmo! Álli, que horas são?! — Sora deu um pequeno pulo na cama.

    — Ah, horas, é, hm, eu perdi a noção do tempo… — o loiro respondeu, abaixando o olhar. 

    — É quase uma da tarde. Sora, você ficou desacordado por uma hora. Álli estava tão preocupado, mesmo eu o tranquilizando dizendo que você iria acordar logo. 

    Álli suspirou e levou a mão até o rosto. 

    — U-uma hora?! Caramba! — Sora tentou se levantar da cama, mas suas pernas não o deixaram. 

    — Nem pense, mocinho. Você ainda vai ficar aqui por mais um tempo. Precisamos ter certeza de que não deixamos passar nada. — Helene empurrou o garoto de volta a deitar na cama com um dedo na sua testa. Sora lutou, erguendo o tronco e se sentou de novo.

    — Mas…!! Eu preciso saber o resultado! — Sora se forçou a sentar de novo. Já estava a tirar o lençol de cima da cama quando Álli estendeu a mão sobre o seu braço.

    Quando Sora encontrou o olhar do outro, pôde ver pesar. 

    O silêncio veio sem ser convidado e reinou, engolindo Álli como uma onda impetuosa que o não deixaria respirar. Antes que se afogasse, entretanto, o silêncio foi quebrado por um tremor nas mãos de Sora e um soluço. Álli sentiu o cair gelado de uma gota salgada na sua pele.

    — Eu sei. Eu… já sei — Sora abaixou a cabeça. Focados nas suas próprias mãos, seus olhos tentavam encontrar o que mais de valor elas conseguiram segurar — Eu consegui dar o troco na Yunni, cumpri a minha promessa, mas…eu perdi.

    As palavras saíram meio quebradas, trêmulas, assim como os fechados sobre o cobertor pouco molhado. Batendo-os contra as próprias pernas, ele conseguiu fazê-los parar de tremer, mas por mais que tentasse o mesmo não era possível de ser feito com as suas lágrimas. 

    — Ah…! — Puxou o ar. Repetidas vezes mais, ele bateu os punhos contra as pernas. Contra a sua vontade, o soluço aumentava — Isso é tão…frustrante…!!

    O pesar no olhar do amigo e a preocupação sentida, ou o aroma de lavanda da mulher, não seriam capazes de por si próprios, tal como o vento, levar embora aquela amargura. 

    [ • • • ]

    — Primeiramente, parabéns. Para muitos, essa foi a primeira vez em que entraram em situação de combate, então… — disse Falcon, de frente para a arquibancada cheia de alunos. Ele segurava um envelope fechado em suas mãos.

    Sora era um dos que escutava, sentado na arquibancada. Seus olhos pairavam nas mãos ásperas que, à força, tentaram criar seu próprio caminho naquele mesmo dia.

    — Então por que a gente lutou uns com os outros ao invés de sermos testados contra os inspetores? — disse um aluno no meio de outros.

    Sora levantou o olhar. Os olhos da cor do céu foram postos sobre a imagem do professor barbudo retirando de seu manto uma insígnia que sempre ficava ali. 

    — Erguer seus punhos e lutar. Fazer isso não é fácil. — Ele pegou a insígnia decorada com duas asas de pássaro cruzadas uma à outra e a fechou em seu punho, como se quisesse abraçá-la; trazê-la para mais perto de seu peito. — Certamente seria mais fácil se fossem testados pela equipe de professores, entretanto… Dessa forma, aqueles que perderam não conheceriam a frustração da derrota.

    Sora arregalou os olhos. Antes que percebesse, estava apertando seus punhos. Mas ele não desviou o olhar, não poderia, pois aquele homem cuja boca se escondia na barba o fitava de forma discreta. Mesmo que o menino não pudesse ver direito, o homem parecia estar sorrindo. A voz rouca do homem conseguia soar como trovão, mas naquele momento, pra ele era pacífica. 

    — Essa frustração. Se quiserem seguir lutando, jamais se esqueçam dela. Mantenham-na bem próxima do peito. A amargura da derrota será o seu impulso, para que não permitam que aconteça novamente. 

    “Pra que não aconteça de novo!”, pensou Sora, firmando os dois punhos. Ele assentiu a cabeça para o professor, ou talvez tenha sido para si mesmo, para jurar não se esquecer dessa sensação e daquele dia vermelho. “Sim! É por isso que vou ficar mais forte!”

    — Muito bem, agora anunciarei os resultados do exame! Em ordem decrescente, seu nome será anunciado, junto da quantidade de pontos e respectiva posição — disse o professor, levantando a voz. 

    Todos deram lugar ao silêncio. 

    Álli, logo ao lado de Sora, olhou fixamente para o telão no centro da arena. Ele não era o único. Naquele momento o telão se tornou como uma chama que atrai mariposas.

    Todas as cabeças dos alunos para ali olharam. Cerravam seus punhos. Engoliam em seco. Mordiam os lábios. 

    22° lugar: Meri Kanerva

    20° lugar: Janita Nyman

    17° lugar: Kerttu Letinen

    14° lugar: Álli 

    Sora voltou o olhar para Álli. 

    — Tá tudo bem. Eu praticamente não lutei — o amigo sorriu de canto — mas pra você, ainda tem chance.

    O placar continuou.

    Cada nome era seguido de murmúrios, gritos de ânimo e gritos de tristeza.

    Passando pelas posições, Sora não percebeu que havia prendido a própria respiração. 

    Alguns alunos já haviam largado o conforto das cadeiras e estavam de pé, com mãos juntas.

    “Os cinco melhores avaliados no exame receberão um encontro particular com Mestre Yke.” 

    As palavras ditas por Falcon no começo do dia tomavam conta da mente de todos os alunos. Uma audiência com Yke, o “Lâmina Pura”. A maior oportunidade para alavancar a carreira estava ao alcance deles. 

    6° lugar: Sora Akatsuki.

    Ao alcance de alguns.

    Os lábios de Sora tentaram dar à luz a um sorriso. Não funcionou bem, Álli sabia que não. 

    O primeiro lugar já era esperado, não foi uma surpresa para ninguém.

    1° lugar: Yunni Heartz.

    Sora respirou fundo. O ar entrou e saiu pelas suas narinas com tal força que se fez audível. Suas duas mãos bateram repetidas vezes contra o próprio rosto. 

    Eles não disseram nada um para o outro.

    Álli apenas repousou sua mão no ombro do garoto, que respondeu com um sorriso bem melhor disfarçado. 

    Delta, um dos técnicos de segurança, aproximou-se do professor com uma mão cobrindo a boca. O professor ergueu uma sombrancelha, tanto que quase encostou no próprio cabelo.

    Os murmúrios dos alunos continuaram.

    Sora olhou diretamente para o professor barbado, quando ele trouxe o microfone mais para perto e limpou a garganta. 

    As palavras ali proferidas, fizeram nascer uma pausa, um breve silêncio, acompanhado de olhos arregalados, sobrancelhas erguidas, bocas abertas.

    — Caros alunos. Tivemos uma correção. 

    Por infrações severas no código do estudante…Yunni Heartz perdeu sua colocação. Ela está oficialmente desclassificada no exame

    O homem não teve piedade. 

    Apenas entregou a mensagem de forma firme e direta, como era costumeiro com o tom de sua voz. 

    Sora e Álli se olharam. 

    Enquanto o caos nascia como conversas altas, no mesmo prédio, na sala do diretor, a garota ruiva sentava à frente da mesa, encarando o homem de uniforme azul com olhos afiados. 

    — Você certamente sabe mais sobre isso, certo, Heartz?

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