Índice de Capítulo

    Na árvore com raízes grandes sobre o solo, Rubi se mantém sentada. Os olhos fechados e o papel no colo, cheio de marcas pretas e anotações. A cauda dela está quieta, jogada pela raiz como um cipó sem vida. 

    A diaba, apesar de fisicamente estar ali, mantém todo o seu foco em outra parte da floresta. A visão se mantém ininterrupta em algum corvo que voa pela mata. 

    Byron e a Yrah permanecem por perto, vigilantes, porém sem se dirigirem à succubus, mantendo-se a alguma distância para não atrapalhá-la.

    “Por quanto tempo ela vai ficar assim?”, a raposa pergunta, bem baixinho, sentada em outra raiz da árvore. A cauda felpuda erguida e balançando de um lado para o outro como um metrônomo.

    “Pelo tempo que for necessário”, Byron responde, ao lado, escorado com as costas na raiz e os braços cruzados. “Ela só irá parar quando encontrar o que quer ou se perceber que aquilo não trará os resultados que ela quer.”

    A raposa abaixa a cabeça, deitando-a sobre as patas dianteiras. “Entendi”, diz ela. A cauda ainda se movimenta, curiosa, com o olhar voltado para a diaba.

    O dia segue com pássaros mágicos, pretos como fumaça, voando entre as árvores. Cortando a floresta de um ponto a outro, subsequentemente. As únicas pausas que Rubi faz são nos momentos em que um corvo deixa a área de busca e ela o substitui por um novo.

    O sol desliza pelo céu, passando para o entardecer, e mesmo quando o anoitecer chega, a diaba mantém sua busca. 

    A luz da lua se mistura à penumbra da floresta e, apesar do ambiente mais escuro, os corvos ainda transmitem sua visão para Rubi, porém em uma forma mais limitada, fazendo-a enxergar a maior parte da floresta em preto e branco, em um raio consideravelmente menor.

    Próximo ao grupo, insetos começam a cantar entre as raízes e o som das aves da noite ecoa entre as copas. 

    A raposa ainda a observa, cheia de curiosidade. Então, volta a atenção a Byron. “Ela não vai parar?”, ela questiona. “Já está bem escuro.”

    “Demônios também têm um certo nível de visão noturna e, até onde sei, esse sentido também se estende pela magia dela”, explica o demônio. 

    “Ah, certo”, diz a raposa, voltando a olhar para a diaba. 

    Qual o motivo de ela estar fazendo tanto esforço nisso?, ela se indaga pensativa e curiosa.

    “Por que vocês estão aqui?”, Yrah questiona, soando distante e até um pouco perdida. 

    Byron curva uma sobrancelha. “Creio que isso você já sabe”, ele pontua, desconfiado. “Queremos dar um jeito nas aves que estão vagando pela floresta.”

    “Mas qual o intuito disso?”, Yrah pergunta, com a voz baixa, mas firme, como se juntasse coragem enquanto fala. “Vocês parecem feitos de magia sombria. Sei que aqui não é um ambiente legal para vocês. Com esse poder todo, vocês não são só exploradores. Até fizeram um acordo para me ajudar… então… o que tem nessa terra que vale tanto esforço?”

    Byron solta um riso, breve como uma respiração, mas afiado como uma espada se chocando com outra. 

    Um calafrio percorre Yrah da nuca à cauda. Seu olhar se arregala, dando-se conta de para quem acaba de exigir uma resposta. 

    “Eu não…”, ela começa, o tom de arrependimento resvalando.

    Mas o demônio logo a interrompe. “Tudo bem”, diz ele, com a voz surpreendentemente calma. “Não irei lhe dar detalhes do que planejamos sem a permissão da senhorita. Isso não é algo que tenha relação com você.”

    Yrah abaixa a cabeça, a cauda caída, com o semblante compungido. “Eu…”

    “Mas…”, fala Byron, cortando-a novamente. “Há algo que posso adiantar sobre o motivo de estarmos aqui.”

    A vulpina o olha com as orelhas erguidas, prestando atenção. 

    Byron sorri. “É apenas uma oportunidade que surgiu. Um capricho dela”, responde o demônio, com a atenção focada em Rubi.

    A raposa pisca, perplexa. Ela chacoalha a cabeça, sem entender. “O quê?”

    “De fato, planejamos algo grande. Mas há verdade em seu questionamento. Essa terra é árdua para nós. Se estivéssemos agindo em um ambiente menos feroz, provavelmente conseguiríamos resultados similares com bem menos esforço.”

    “Mas então, por quê?”, insiste Yrah, incapaz de calar a curiosidade.

    Byron lança seu olhar severo na raposa. “Se você agora tem a chance de continuar viva, é só porque a senhorita quer”, ele afirma, mas sua voz soa como uma advertência velada. Depois, volta seu olhar para a diaba. “Poucos demônios arriscariam entrar nesta terra para aproveitar a oportunidade que ela viu. E menos ainda chegariam tão longe quanto nós chegamos.”

    O olhar de Yrah volta para Rubi, estática e silenciosa sobre a raiz, mergulhada na visão de seus corvos.

    A raposa fica com a boca entreaberta, o semblante tomado pela perplexidade. Só porque ela quer… O pensamento desliza por sua mente, carregado de um fascínio inquieto e uma curiosidade que roça o medo.

    E a região volta quieta, apenas com os ruídos da noite e as eventuais conjurações da diaba interrompendo o silêncio absoluto. 

    Quando o sol raia no horizonte, Byron está fazendo outra patrulha pela área e Yrah cochila enrolada em si mesma, deitada na raiz, ao lado de Rubi. 

    De repente, um ruído repentino ecoa, surpreendendo o demônio e a raposa. “Achei algo!”, grita Rubi ainda de olhos fechados, causando um alarde entre seu grupo. 

    Perante o susto, os pelos da raposa se eriçam e, em um reflexo natural, ela pula, caindo da raiz entre as folhas no chão. 

    Byron corre até ela. “Finalmente encontrou onde pode estar o nosso alvo?”

    Rubi exibe um sorriso confiante. “Sim, possivelmente”, ela afirma, ainda com os olhos fechados. 

    Longe dali, o corvo da diaba passa por uma região ainda mais densa da floresta. Próximo a ele, um grupo de cinco aves, composto unicamente de garras-cinzas altas. 

    Algumas delas sentadas e outras devorando pedaços de carne fresca. 

    Atrás delas, uma árvore similar à que Rubi está sentada, alta e com raízes grossas sobre o solo. Porém, duas vezes mais alta, com o dobro de raízes espalhadas pelos arredores e, ao invés de uma moita crescendo colada a ela, há quatro espalhadas. 

    “Tem que ser aqui”, Rubi afirma, abrindo as pálpebras, retornando à própria visão. “Encontrei esse lugar na madrugada, mas quis esperar ter mais luz para ver melhor.”

    Yrah salta de volta para o lado da diaba. “Chegou a ver o senhor delas?”, ela pergunta. 

    “Não. Mas lá é muito bem protegido por garras-cinzas e tem bem mais possíveis ninhos do que qualquer árvore que encontrei antes”, Rubi responde.

    Não tem outro lugar com mais cara de lar do chefão do que lá, ela constata. 

    Byron posiciona sua espada sobre o ombro. “Quando iremos para lá?”, ele pergunta, confiante e decidido, com a voz ansiando um combate. 

    “É um pouco afastado, mas não diria que é longe daqui”, a diaba responde. “Se formos por agora, podemos chegar lá hoje à tarde.”

    Yrah se aproxima, coloca as patas dianteiras sobre as coxas de Rubi e se ergue, apoiada nela. “Ei. Não sei quantas aves você viu, mas se tem mais de um ninho, pode ter certeza de que vão sair mais aves de lá de dentro”, ela adverte. 

    Diante do aviso, Rubi fecha o olhar, ficando pensativa por alguns instantes. “Então… vamos ter uma batalha com muitos inimigos”, ela comenta. 

    E a maioria deles vai ser garras-cinzas. Um combate com muitos números não é o meu forte e o Byron não se dá muito bem contra esse tipo de inimigo, a diaba analisa. Sem contar que tenho que pensar no que fazer com a Yrah enquanto lutamos. Levar ela junto, sem saber o que o inimigo faz, pode terminar muito mal.

    Enquanto pensa, Rubi deixa seu papel e o lápis improvisado de lado e, em seguida, pega a raposa e a coloca sobre o colo, começando a acariciá-la. 

    “Não vai ser um combate fácil”, diz a diaba. “Mas enquanto eu procurava, já estava pensando numa estratégia para usarmos aqui. Só vamos precisar acertar alguns detalhes.”

    “Por onde começamos?”, Byron pergunta, carregado de entusiasmo.

    Antes de responder, um sorriso afiado como uma espada aparece no rosto de Rubi. “Bem… lembra-se de quando falamos de testar os limites da coroa da ganância?”

    Como se fosse contagiado, o mesmo sorriso carregado de confiança aparece em Byron. “Perfeitamente”, responde ele.

    Yrah os observa quieta, sentadinha sobre as coxas de Rubi, levemente intimidada pelos sorrisos que os diabos esboçam. Eles são um pouco estranhos às vezes, ela pensa. 

    “Antes de tudo, tem algo crucial que eu preciso testar antes”, diz Rubi, voltando seu olhar para a pequena raposa. 

    Yrah treme, sentindo um calafrio familiar ao ser encarada por aqueles olhos amarelados que com certeza almejam algo dela.

    “Pra nossa sorte… temos a nossa pequena amiguinha para nos ajudar com isso”, diz Rubi.

    Byron também a encara. “Sorte a nossa, não é?”

    A raposa engole seco, sendo admirada como um prato na mesa. “Ein?”

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