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    Naquele mesmo dia, mais cedo, Abigor tinha despertado antes de seu confrade demoníaco.

    Ele e Belfegor tinham enganado o Cavaleiro da Morte com um plano simples: um Elixir de Semi Morte, feito à base de Cicuta Infernalis e Cianeto. Forte o bastante para reduzir os batimentos cardíacos de um demônio a ponto dele parecer morto; mas não o bastante para matá-lo de verdade. Injetam um pouco de poder mágico e voilá! Pareciam mortos sem de fato estarem.

    Ele se levantou.

    Lançou para o Belfegor inconsciente um olhar de superioridade.

    Abigor sabia que não poderia confiar nele, portanto, trair antes de ser traído era a melhor estratégia.

    Mas isso não era por mero capricho, naturalmente. Tinha uma razão.

    Abigor foi até o cadáver de Peste, que iniciava o processo de decomposição, e meteu a mão em seu plexo solar. Afundou os dedos naquela carne amolecida e de cheiro forte, até tocar os ossos de sua coluna vertebral.

    Assim que sentiu aqueles ossos nos dedos, segurou-os firmemente e os apertou, até senti-los se partindo.

    Abigor, então, puxou sua mão de volta, trazendo consigo alguns debris de ossos, sangue enegrecido e restos do conteúdo espinhal.

    Cantarolando uma canção alegre, entrou no prédio, desceu o elevador e chegou até aquela porta de aço.

    No painel do scanner, ele depositou os restos biológicos do Cavaleiro da Peste.

    “Material genético compatível” foi o som que a porta emitiu, numa voz robótica, então ela estalou e começou a se abrir.

    O ar frio bateu em seu rosto.

    A sala estava inteiramente congelada. A fonte da baixa temperatura vinha de cristais elementais mágicos presos ao teto e aparelhos de ar-condicionado.

    No centro, havia uma grande estrutura de vidro que subia até o teto e, como um grande aquário, armazenava água. Na superfície, cristais de gelo boiavam.

    Submerso na água gelada, havia fios e mais fios, cabos ligados a placas-mães  do tamanho de televisões, empilhadas uma em cima da outra, com o espaço de centímetros entre uma e outra. E elas produziam tanto calor que faziam a água borbulhar, fervendo, em volta delas.

    Os cabos se projetaram para fora da estrutura de vidro, onde, no seco, se ligavam a um computador.

    Abigor se aproximou. Tirou um pendrive do bolso e conectou no computador.

    Só precisava disso. 

    Construir toda a estrutura seria fácil se tivesse aqueles dados em mãos.

    Ele sorriu, vitorioso.

    Com um computador quântico, ele poderia hackear qualquer sistema do mundo.

    Depois disso, só precisou trancar tudo de volta e retornar para seu lugar de antes, onde esperaria Belfegor acordar para dar início a segunda parte do plano.


    Irina estava incrédula, olhando aquela pilastra de fogo que se erguia dos escombros do prédio.

    Seu cérebro humano ainda não tinha processado direito que aconteceu.

    Ela deveria estar ali, carbonizada junto do concreto e do aço, mas não estava.

    Renato, ao seu lado, segurou sua mão.

    — Está tudo bem — disse ele.

    Ela direcionou para ele um olhar assombrado, como o de alguém que acabou de ver um fantasma.

    — Nós devíamos… devíamos… estar mortos! 

    — Não precisa me agradecer! — disse Belfegor, batendo a poeira da própria camisa.

    — Você nos tirou de lá bem a tempo… — murmurou Irina.

    — Sim. Assim como você, eu também percebi. A nossa diferença é que eu consegui tirar vocês dois de lá bem a tempo. Se não fosse por mim, estariam mortos.

    — Obrigada — disse ela, franzindo o cenho. Sua voz saiu fraca, quase inaudível. Pela primeira vez em muito tempo, ela realmente achou que fosse morrer. E morrer, para ela, significava perder todos os momentos bons que ainda planejava ter com seu irmão.

    — Já disse que não precisa agradecer. — Belfegor ainda tentava limpar sua camiseta da fuligem.

    — Mesmo assim obrigado — retrucou Renato.

    Belfegor curvou os lábios.

    — De nada, então. Espero que se lembre de minha lealdade, quando decidir os rumos do mundo.

    — Que comovente! — disse Abigor, se aproximando enquanto batia palmas. — Encheu meus olhos de lágrimas.

    — Abigor, você…

    — Ora, não me olhe assim, Belfegor. Eu também tive a sorte de sair a tempo. Não por causa de sua ajuda, naturalmente. Uma armadilha feita pelo próprio Peste? Quem poderia imaginar?! Tenho certeza que nem mesmo eu… ou você… sobreviveríamos. Infelizmente, aquilo que eu tanto queria foi destruído na explosão, então não tenho mais motivos para permanecer por aqui. Se me dão licença, tenho assuntos a tratar.

    — Espere!

    — Sim, primata?

    — Tem mais uma coisa! A filha do Kazov!

    — Kazov? Filha? Não sei do que está falando, senhor Renato. Talvez devesse clarear minha memória.

    — Kazov, o reptiliano! Ele lutou contra mim na Tercina.

    — Ah, sim. — Abigor fez a expressão de alguém que se lembrou de alguma coisa deplorável, indigna de atenção. Algo entre o nojo e a piedade. — Aquele Kazov.

    — Na última vez que estive no Inferno, encontrei o filho dele. Ele me disse que você chantageou o Kazov para lutar contra mim.

    Abigor levou a mão ao queixo, pensativo.

    — Hum… isso pode ter acontecido. — Ele sorriu. — Faz bem meu estilo.

    — O garoto reptiliano disse que você sequestrou ele e a irmã menor dele, e que no final, não libertou a irmã. Disse que você só libertou ele porque Kazov não me venceu na luta, e que a menina ficaria desaparecida para sempre.

    Abigor esboçou um sorriso.

    — Eu posso ter feito algo assim.

    — Eu quero saber onde está a menina!

    Abigor ergueu uma sobrancelha.

    — Por quê? Desde quando sente… empatia… por seres tão… irrelevantes?

    — Não é da sua conta! Apenas me diga onde a garota está! Onde guardou ela?

    Abigor ficou um tempo encarando Renato, analisando suas expressões faciais, até que finalmente explodiu em gargalhada.

    — Primata, aquela garota não existe. Eu a inventei.

    — O que quer dizer?

    — Quero dizer que eu achei que usar apenas um filho para chantagem seria muito pouco.  Pensei que o Kazov não se sentiria adequadamente motivado, então eu inventei uma segunda filha. Usei algumas magias de controle mental para falsificar memórias sobre ela, implantei amor, carinho, fiz ele se apegar a alguém que nem existe! Sabe, nem é tão difícil assim! Só precisei de… alguma ajuda, é claro.

    — Belfegor!

    — Sim?

    — Isso seria possível?

    — Seria sim, Renato. Eu até já vi o Abigor fazer isso antes. Não seria a primeira vez.

    — Viu? — Abigor abriu um sorriso. — Seu demônio de estimação confirma o que eu digo.

    — Tem alguma maneira de desfazer?

    — As falsas memórias? Oh, claro que não! Criar memórias não é difícil. Os próprios neurônios se encarregam de fazer as conexões adequadas. Mas desfazer… É pior do que tentar contar os átomos de todas as estrelas do universo. Gastaria toda uma eternidade, e ainda assim faltaria tempo

    O silêncio de Renato foi interrompido por Belfegor.

    — Gostaria que o matasse, senhor Renato?

    — Não precisa. Ainda não.

    Renato ainda tinha alguns planos.

    — Irina, vamos embora.

    O garoto abriu as asas de sombras e partiu, levando sua irmã consigo.

    Os dois demônios ficaram parados, de pé, apenas observado os dois sumirem no horizonte.

    — Sabe, Belfegor, às vezes eu acho que você se importa mesmo com esse humano.

    — Você não entenderia. Não se importa com nada.

    — Eu me importo com uma coisa, sim. — A voz de Abigor saiu estranhamente contemplativa.

    — Sabe, Abigor, você mente muito mal.

    — Ah, é? — Abigor sorriu.

    — Sim. Sua voz muda. Fica um semitom mais aguda no final das frases. É sua voz inconsciente para mentiras. Qualquer ouvido atento notaria.

    — E você fala isso porque é um demônio do ar, que compreende profundamente as vibrações sonoras, não é mesmo? — A voz de Abigor carregava certo veneno, haja vista que o elemento natural de Belfegor era a terra.

    Belfegor deu de ombros.

    — Quantas vezes já jogamos poker juntos?

    — Umas duas centenas.

    — E quantas vezes você ganhou no blefe?

    — 85.

    — Seu saldo de mentiras comigo está baixo.

    — Talvez. Você realmente me decifrou, Belfegor! Parabéns por isso! Mal posso esperar para jogarmos poker novamente! — Respondeu Abigor, com a voz perfeitamente afinada um semitom acima de seu tom natural, abriu as asas e saiu voando

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