— Estamos sem.

    Seu rosto fora esmagado contra a grama.

    — Então, assim…

    Ele rolou pelo chão.

    — …Só se você puder…

    E quando achou que ia parar, um chute o levantou no ar.

    — …Você pode ir lá comprar?

    No estômago, no peito, nas coxas, nos ombros, na testa, nas bochechas. Nada escapou dos punhos daquele homem.

    — O que foi?

    Ele só queria comprar pão. Havia acabado de acordar, e seus pais lhe pediram isso. Era só mais um domingo, desses que passam batido.

    — O que foi? Pra onde foi aquela pose toda?

    Mas aquele homem não deixaria assim.

    Ele foi o único que não aceitou deixar as coisas como estavam. Aquele homem, que nem mesmo um homem era, não estava satisfeito. Nenhum pouco contente. Nathan, ao seu ver, era um fracasso como herói.

    O que aconteceu? Ei, vamos lá!

    Ele o agarrou pela gola da camisa.

    Tá se segurando, é isso?

    Que merda você quer de mim?

    A vista queria sumir. O cérebro queria perder a consciência, mas os socos de Sera o impediram.

    Vamos, herói! Mostre o seu poder!

    Foi largado no chão. Em seguida, seu abdômen sofreu chutes impiedosos, que fizeram Nathan quicar pelo campo como uma bola de futebol. Sera corria, e chutava. Corria e chutava. Não obstante, pegou o garoto pelos e cabelos e enfiou sua cabeça no lago.

    Merda! Socorro, Socorro, Socorro… SOCORRO!

    Ele se debateu. Água entrava em seus ouvidos, e um zunido atravessou sua mente. Seus pulmões foram se enchendo de líquido, e ele não conseguiu evitar engolir água. Se afogou.

    — Suwouwourro!

    — Que foi? Ah, eu não estou entendendo… —falou Sera, tirando o rosto dele do lago. — Pode falar mais alto? É falta de educação falar de boca cheia, sabia?

    — SOCORRO!

    E foi levado de volta ao lago.

    — ALGUÉM!

    — Vamos, heróizinho. Nenhuma ideia? Não bolou nenhuma outra grande estrategia? — debochou Sera, rindo-se dele. — Ora, ora, ora! Parece que você não sabe pensar sob pressão!

    Quem é esse cara, meu Deus?!

    Não fazia sentido. Era unilateral. Nathan não sabia quem era esse homem. Por que merecia uma surra? O que ele fez de tão errado? O que justificaria aquela violência toda?!

    O oxigênio voltou aos pulmões, depois de ser jogado na grama novamente. Tossiu, vomitou água e bile, incapaz de raciocinar. Seu corpo, dolorido como estava, não oferecia a minha chance de se levantar e sair correndo.

    — Lamentável.

    O quê?

    — Lamentável. Que fracote… — vendo-o de cima, Sera pôs as mãos na cintura e balançou a cabeça. — Os fracos… sempre os mais covardes, né? E eu pensando que pelo menos seria divertido…

    Não queria se sujar. Sera vestia um roupão azul — seu favorito —, com uma fita amarela amarrando-o na cintura. Seu rosto era suave, mas os olhos ardiam em ira, como fogo-fátuo. Seus cabelos eram grandes, desgrenhados, em um tom suave de bege.

    — Você deve estar se perguntando…

    Nathan tremeu por inteiro.

    — “Por que você tá fazendo isso comigo?” Né? Como se você fosse inocente…

    O garoto fechou o punho, e se pôs de pé. O que mais ele poderia fazer?

    — Oi, oi… eu não gostei disso. Não me olhe assim!

    Nathan tinha um semblante abatido. Não via qualquer esperança de sair vivo dali. Aquele homem era simplesmente um monstro. Se fosse da vontade dele, Nathan morreria ali mesmo, sem oferecer resistência.

    — Oi… é sério? Nós nem começamos de fato…

    Se eu não disser nada, ele não vai se enfurecer.

    Sera se aproximou.

    Se eu não fizer nada, ele pode se cansar de mim.

    — Patético.

    Diga o que quiser.

    — Você é… decepcionante.

    Ele queria algo de mim?

    — Não que eu não esperasse algo assim… — E pôs a mão na cabeça. — O homem que atacou o inimigo pela retaguarda…

    Espera…

    — Devia ser um covarde.

    É disso que ele tá falando?

    — Sabe, eu até perdi a vontade… — Deu as costas para Nathan, que lutava para ficar de pé. — É sério que te chamam de “herói”? Além de trapaceiro, é um fracotinho sem cura!

    Mas eu nunca quis…

    — Um merdinha desses…

    — Eu não pedi por…

    BAM!

    Tudo ficou negro para Nathan. Da perspectiva de Sera, o garoto saiu voando pelo campo com um único soco…

    — E vocês ainda esperam que ele vença alguém como ela, né? — perguntou Sera, para ninguém em específico.

    ———

    — Filho, filho!

    — Meu Deus, filho! O que aconteceu?

    Mãe, pai?

    — Tá tudo bem?

    — Levantou rápido demais?

    Eu… eu não morri?

    — Amor, coloca ele na mesa…

    O mundo foi ganhando cores. As paredes brancas da cozinha, contrastando com o negro do piso, foram as primeiras coisas que Nathan conseguiu distinguir. Os armários entraram em foco, e a geladeira ao lado dele voltou a fazer barulho.

    Seu pai, um homem de cabelos castanhos e barba por fazer, dava tapinhas no rosto dele.

    — Filho?

    — Pai, eu…

    Sentiu a garganta pesar. A voz quase embargou. Sentiu as lágrimas virem, mas fez um esforço tremendo para não derramá-las.

    — Um, um — balançou a cabeça, se levantando. — Eu tô bem. É sério, eu tô bem.

    — Mas tu…

    — Mas você desmaiou, amor… — falou a mãe, pálida como vela.

    Não tô sentindo dor alguma. Será que fui curado ao ser mandado de volta? Mas quando eu fui invocado daquela vez… a tontura, em decorrência do remédio, ainda fazia efeito em mim.

    — Mozinho?

    É, não sei o que rolou.

    — Nathan?

    — Eu vou lá, mãe… — E a abraçou. — Vou lá comprar pão.

    Fitou o pai e, correndo, saiu de casa.

    Então você não gostou dos meus métodos, né?

    Já que era assim…

    Eu não vou fazer mais porra nenhuma, então!

    ———

    — VOCÊ O MATOU?!

    — VOCÊ TEM PROBLEMA?!

    — QUE PORRA DE DEUS VOCÊ É?!

    — ESTAMOS SEM UM HERÓI, AGORA?!

    Ah, que saco. Agora todo mundo vai dizer que eu tô errado.

    — SERA, SEU IDIOTA!

    — IMBECIL!

    — ASNO, JUMENTO!

    É sério isso?

    Mesmo longe do mundo dele, aquele garoto ainda era um incômodo para Sera. Um garoto insignificante, eleito a herói? E um garoto idiota, ainda por cima. Idiota, impotente e arrogante…

    O Deus da Guerra precisava ensinar um pouco de cavalheirismo àquele herói esquisito. E é assim que me agradecem?

    Por ele, que se danasse aquele garoto.

    Não precisamos de covardes nesse mundo.

    Não, mesmo.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota