O professor de filosofia era o mais legal. Nathan adorava as aulas dele. O motivo? Bem, é fácil de explicar: quando um adolescente roqueiro, que se acha o diferentão, encontra um senhor de meia-idade que usa uma camisa do Darkside of The Moon, a identificação é instantânea.

    Além de ser um veterano do rock, o professor Lucas “Layer” de Melo tinha uma banda. Era um trio, e os outros dois membros também eram professores. Um deles era Léo, de História, e outro era Leandro, de sociologia. Três pirados que davam dor de cabeça para a direção.

    Três pirados que estavam ali, diante do quadro branco.

    — Então, garotada — começou Lucas, ajeitando o cabelão desarrumado. — A aula de hoje vai ser diferente. Como vocês podem ver, o Léo e o Leandro estarão conosco.

    — Contra a nossa vontade — falou o de História.

    — A sua vontade — retrucou o de sociologia.

    Risadinhas vieram do fundo da sala.

    — Garanto que essa não vai ser tão chata — disse Leandro, se escorando no quadro.

    — Estar aqui é chato, cara. Ninguém gosta de ir pra escola — reclamou Léo, coçando as costas da mão.

    — O tema de hoje é Radicalismo Estético — continuou Lucas, escrevendo esse nome no quadro.

    Todos os alunos se debruçaram sobre as carteiras, exceto por Nathan.

    Alguém tem alguma ideia do que pode ser?

    Ele sabia quem sabia.

    Alguém?

    — Eu poderia falar sobre os muitos sentidos que esse termo tem — falou Nathan, animando-se. — Mas, neste caso, a gente poderia dizer que radicalismo seria um movimento radical.

    — Tipo um backflip? — indagou um aluno, e outros riram.

    Até Nathan entrou na onda, se divertindo com os outros. Quase esqueceu o que aconteceu no dia anterior.

    — Ué, eu curto skate…

    — Eu também. Mas, não. Um movimento, no nosso contexto, se refere a um grupo de pessoas que se unem por causa de uma ideia — explicou ele, se levantando. — E não apenas se unem, eles fazem coisas diferentemente ligadas a essa ideia.

    — Tipo o skate? — insistiu o mesmo aluno.

    — Tipo o skate. O skate não é só a prancha com rodas. Skate são as pessoas que andam de skate, fazem grafite, escutam skatepunk, vestem roupas largas… é uma cultura, basicamente.

    “Esse cara é nerd pra caralho.” Foi o que pensaram os colegas.

    — O radicalismo estético que o professor falou, creio eu, seria um movimento cuja radicalidade é estética.

    — Como assim?

    — Pois é, né… — murmurou Nathan, coçando a nuca. — Estética tem a ver com aparência.

    — Tipo procedimento estético? — arriscou uma colega, passando gloss.

    — Tipo isso. Estético se refere às aparências. Nesse caso, quando eu digo “radicalismo estético”, estou dizendo que o meu jeito de ser radical é só pose.

    Os professores bateram palmas, enquanto os alunos fizeram murmúrios de compreensão.

    — Acertei?

    — Que cê acha? — riu o professor Lucas, alisando a barba. — Cara, tu tem um computador nesse teu cabeção aí.

    — Ele devia dar aula no meu lugar — disse o professor Léo, sorrindo. — Eu te daria uns cem reais por semana.

    — Espero que um dia ele arranje uma namorada — falou Leandro, arrancando risinhos das meninas. — Sejam gentis com ele.

    Ei, coé.

    Nathan sentiu o rosto esquentar aos poucos.

    — Mas ele tá certo. É basicamente isso. Você é um cara cheio de certezas, fala delas como se fossem verdades divinas, mas apenas da boca pra fora.

    — Você não acredita nenhum pouco no que diz — continuou Léo, ainda em seu tom cansado. — Só fala porque parece legal dizer. Porque tem outras que falam a mesma coisa.

    — Ou você realmente acredita nisso, mas não tem base nenhuma — ajudou Lucas, abrindo os braços. — Tem uns exemplos disso, Tipo um cristão fervoroso que não leu a bíblia, um roqueiro truzão que idolatra Chuck Berry.

    — E só ouviu Johnny B. Good.

    Um otaku, que se diz otaku, que defende que o Dragon Ball Clássico é masterpiece, mas nunca viu. Um gamer que diz, com unhas e dentes, que “esse é o dark souls dos jogos de tiro”, mas nunca jogou Dark Souls.

    — É a pose. A expressão apaixonada de uma crença que você mesmo não consegue sustentar.

    Isso era o radicalismo estético.

    — E vocês devem estar se perguntando…

    — “Por que vamos estudar isso?” — atuou Léo, fazendo falsete.

    — Porque isso é um assunto que a Filosofia, a História e a Sociologia, tem em comum — afirmou Lucas, escrevendo o nome das disciplinas e interligando-as ao termo. — Na filosofia, estuda-se o radicalismo estético enquanto ideologia.

    Na História, enquanto recorrência. Na sociologia, enquanto movimento social.

    — Isso aconteceu aqui na escola, aliás. Vocês lembram?

    Os alunos se entreolharam, finalmente interessados. Muitos balançaram as cabeças, não lembrando de nada. Nem o garoto CDF da turma, o Nathan, conseguiu pensar em algo.

    — Ano passado…? — E deu um olhar para os outros dois. Eles assentiram. — Isso. Ano passado, o Julinho, do nono ano A, brigou com o Marcos da turma B.

    “Aaaaaaah!” Disseram os alunos.

    — Vocês lembram o motivo?

    — O Marcos pegou a mina do Júlio! — falou um dos colegas, agitado. — Foi daora pra cacete! Paw, pow. Porradal sinistro!

    — Sinistro, né… — riu Lucas. — Pois é. E vocês lembram como a briga terminou?

    Diversas mãos se levantaram, mas o professou deu a vez ao Eduardo, que sentava ao lado de Nathan.

    — Você tava lá, né?

    — Sim, eu vi pessoalmente. O Marcos encurralou o Júlio na parede, dando cada socão na cara dele — enquanto lembrava, encenava a briga com um alvo invisível. — Aí, do nada, o Kaique, lá do sexto B, apareceu por trás dele e deu um chutão na costa do Marcos.

    O pessoal exclamou, engajados com a lembrança.

    — Aí os dois se juntaram pra bater nele, e o senhor apareceu logo depois, parando a briga.

    — Foi isso mesmo — disse Lucas, desconfortável. — Eu levei os dois para a diretoria.

    — Mas não foi só isso que aconteceu — falou Léo, como se a memória daquela semana ainda lhe desse fadiga.

    — Foi uma época bem doída — concordou Leandro.

    O professor Lucas olhou para cada um.

    — Isso repercurtiu entre todos vocês. Menos você — disse ele, encarando Nathan. — Você chegou aqui esse ano, então não tinha como saber.

    Ele caminhou pela sala, passando por cada fileira.

    — Mesmo todos sabendo que o Marcos havia pego a namoradinha do Júlio, boa parte de vocês ficou do lado dele — continuou Lucas, estudando as expressões de cada aluno. — Por que? Porque Júlio e Kaíque, da perspectiva de vocês, foram covardes.

    — Mas não foram? — perguntou um dos meninos.

    — Pois é. Marcos foi atacado por trás, e a briga virou dois contra um! — disse outro.

    Um golpe na retaguarda. Covardia…

    Nathan riu, de cabeça baixa.

    Que coisa, não?

    — Pois é. Engraçado, não? É moralmente aceitável que Júlio fosse tirar satisfação.

    — Ele não ia deixar barato — riu Léo, balançando a cabeça.

    — Mas é inaceitável, e até mais revoltante, que Júlio tenha tido ajuda na briga. Foi desleal. Faltou cavalheirismo, né?

    Para eles, a ajuda de Kaique foi trapaça.

    A minha ajuda foi trapaça.

    Nathan achou irônico algo assim ter acontecido.

    — Teria sido melhor, para vocês, que Júlio tivesse sido espancado pelo Marcos. Afinal, antes apanhar com honra do que vencer trapaceando, né?

    — E vocês queriam pegar o Júlio — falou Leandro, repassando os acontecimentos. — Muitos de vocês disseram que o garoto merecia punição, pra compensar o Marcos.

    — Não aconteceu nada — afirmou Léo, entrando na diversão. — Ninguém moveu um dedo por isso, ainda que acreditassem que deviam ter feito algo. E acabou que todo mundo esqueceu.

    — Se não tivéssemos mencionado — continuou Lucas, sorrindo. — Isso teria ficado no porão da mente de vocês. Eu lembro que o Matheus, aqui…

    E pôs a mão no ombro do garoto chamado Matheus, que pegou um susto.

    — …Foi um dos que mais falava sobre isso, na época. Disse que ia meter a porrada no Júlio.

    — Não, senhor, eu…

    — Relaxa, eu não tô te cobrando.

    Nada disso.

    — Tô exemplificando um conceito. E muitos de vocês, que nem conheciam os dois, entraram na brincadeira. Tava todo mundo falando, era um assunto em alta, era legal para iniciar conversas e fazer amigos.

    Um movimento inteligente.

    — No final, a coisa esfriou, e o Júlio agora tá no ensino médio. O Marcos? Repetiu o nono ano. Não aconteceu nada e feijoada.

    — Mas enquanto falavam disso… — falou Léo, pondo as mãos na mesa. — Eu lembro. Falavam com gosto. Os mais quietos aqui, inclusive, falavam que uma beleza.

    — Pareciam periquitos na mangueira brincou Leandro.

    — Participar na minha aula, que é bom? Nada. Bacana demais.

    O clima ficou meio tenso, e só depois o trio de professores notou.

    — Bom, faltam dez minutos pra merenda. Podem ir.

    E, ao contrário dos outros dias, os alunos foram saindo aos poucos. Falvam pouco, e baixo. Seria vergonha?

    — Exageramos?

    — Acho que não, professor — disse Nathan, saindo.

    Eu acho que não.

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