Capítulo 29: Mundo comum
O professor de filosofia era o mais legal. Nathan adorava as aulas dele. O motivo? Bem, é fácil de explicar: quando um adolescente roqueiro, que se acha o diferentão, encontra um senhor de meia-idade que usa uma camisa do Darkside of The Moon, a identificação é instantânea.
Além de ser um veterano do rock, o professor Lucas “Layer” de Melo tinha uma banda. Era um trio, e os outros dois membros também eram professores. Um deles era Léo, de História, e outro era Leandro, de sociologia. Três pirados que davam dor de cabeça para a direção.
Três pirados que estavam ali, diante do quadro branco.
— Então, garotada — começou Lucas, ajeitando o cabelão desarrumado. — A aula de hoje vai ser diferente. Como vocês podem ver, o Léo e o Leandro estarão conosco.
— Contra a nossa vontade — falou o de História.
— A sua vontade — retrucou o de sociologia.
Risadinhas vieram do fundo da sala.
— Garanto que essa não vai ser tão chata — disse Leandro, se escorando no quadro.
— Estar aqui é chato, cara. Ninguém gosta de ir pra escola — reclamou Léo, coçando as costas da mão.
— O tema de hoje é Radicalismo Estético — continuou Lucas, escrevendo esse nome no quadro.
Todos os alunos se debruçaram sobre as carteiras, exceto por Nathan.
— Alguém tem alguma ideia do que pode ser?
Ele sabia quem sabia.
— Alguém?
— Eu poderia falar sobre os muitos sentidos que esse termo tem — falou Nathan, animando-se. — Mas, neste caso, a gente poderia dizer que radicalismo seria um movimento radical.
— Tipo um backflip? — indagou um aluno, e outros riram.
Até Nathan entrou na onda, se divertindo com os outros. Quase esqueceu o que aconteceu no dia anterior.
— Ué, eu curto skate…
— Eu também. Mas, não. Um movimento, no nosso contexto, se refere a um grupo de pessoas que se unem por causa de uma ideia — explicou ele, se levantando. — E não apenas se unem, eles fazem coisas diferentemente ligadas a essa ideia.
— Tipo o skate? — insistiu o mesmo aluno.
— Tipo o skate. O skate não é só a prancha com rodas. Skate são as pessoas que andam de skate, fazem grafite, escutam skatepunk, vestem roupas largas… é uma cultura, basicamente.
“Esse cara é nerd pra caralho.” Foi o que pensaram os colegas.
— O radicalismo estético que o professor falou, creio eu, seria um movimento cuja radicalidade é estética.
— Como assim?
— Pois é, né… — murmurou Nathan, coçando a nuca. — Estética tem a ver com aparência.
— Tipo procedimento estético? — arriscou uma colega, passando gloss.
— Tipo isso. Estético se refere às aparências. Nesse caso, quando eu digo “radicalismo estético”, estou dizendo que o meu jeito de ser radical é só pose.
Os professores bateram palmas, enquanto os alunos fizeram murmúrios de compreensão.
— Acertei?
— Que cê acha? — riu o professor Lucas, alisando a barba. — Cara, tu tem um computador nesse teu cabeção aí.
— Ele devia dar aula no meu lugar — disse o professor Léo, sorrindo. — Eu te daria uns cem reais por semana.
— Espero que um dia ele arranje uma namorada — falou Leandro, arrancando risinhos das meninas. — Sejam gentis com ele.
Ei, coé.
Nathan sentiu o rosto esquentar aos poucos.
— Mas ele tá certo. É basicamente isso. Você é um cara cheio de certezas, fala delas como se fossem verdades divinas, mas apenas da boca pra fora.
— Você não acredita nenhum pouco no que diz — continuou Léo, ainda em seu tom cansado. — Só fala porque parece legal dizer. Porque tem outras que falam a mesma coisa.
— Ou você realmente acredita nisso, mas não tem base nenhuma — ajudou Lucas, abrindo os braços. — Tem uns exemplos disso, Tipo um cristão fervoroso que não leu a bíblia, um roqueiro truzão que idolatra Chuck Berry.
— E só ouviu Johnny B. Good.
Um otaku, que se diz otaku, que defende que o Dragon Ball Clássico é masterpiece, mas nunca viu. Um gamer que diz, com unhas e dentes, que “esse é o dark souls dos jogos de tiro”, mas nunca jogou Dark Souls.
— É a pose. A expressão apaixonada de uma crença que você mesmo não consegue sustentar.
Isso era o radicalismo estético.
— E vocês devem estar se perguntando…
— “Por que vamos estudar isso?” — atuou Léo, fazendo falsete.
— Porque isso é um assunto que a Filosofia, a História e a Sociologia, tem em comum — afirmou Lucas, escrevendo o nome das disciplinas e interligando-as ao termo. — Na filosofia, estuda-se o radicalismo estético enquanto ideologia.
Na História, enquanto recorrência. Na sociologia, enquanto movimento social.
— Isso aconteceu aqui na escola, aliás. Vocês lembram?
Os alunos se entreolharam, finalmente interessados. Muitos balançaram as cabeças, não lembrando de nada. Nem o garoto CDF da turma, o Nathan, conseguiu pensar em algo.
— Ano passado…? — E deu um olhar para os outros dois. Eles assentiram. — Isso. Ano passado, o Julinho, do nono ano A, brigou com o Marcos da turma B.
“Aaaaaaah!” Disseram os alunos.
— Vocês lembram o motivo?
— O Marcos pegou a mina do Júlio! — falou um dos colegas, agitado. — Foi daora pra cacete! Paw, pow. Porradal sinistro!
— Sinistro, né… — riu Lucas. — Pois é. E vocês lembram como a briga terminou?
Diversas mãos se levantaram, mas o professou deu a vez ao Eduardo, que sentava ao lado de Nathan.
— Você tava lá, né?
— Sim, eu vi pessoalmente. O Marcos encurralou o Júlio na parede, dando cada socão na cara dele — enquanto lembrava, encenava a briga com um alvo invisível. — Aí, do nada, o Kaique, lá do sexto B, apareceu por trás dele e deu um chutão na costa do Marcos.
O pessoal exclamou, engajados com a lembrança.
— Aí os dois se juntaram pra bater nele, e o senhor apareceu logo depois, parando a briga.
— Foi isso mesmo — disse Lucas, desconfortável. — Eu levei os dois para a diretoria.
— Mas não foi só isso que aconteceu — falou Léo, como se a memória daquela semana ainda lhe desse fadiga.
— Foi uma época bem doída — concordou Leandro.
O professor Lucas olhou para cada um.
— Isso repercurtiu entre todos vocês. Menos você — disse ele, encarando Nathan. — Você chegou aqui esse ano, então não tinha como saber.
Ele caminhou pela sala, passando por cada fileira.
— Mesmo todos sabendo que o Marcos havia pego a namoradinha do Júlio, boa parte de vocês ficou do lado dele — continuou Lucas, estudando as expressões de cada aluno. — Por que? Porque Júlio e Kaíque, da perspectiva de vocês, foram covardes.
— Mas não foram? — perguntou um dos meninos.
— Pois é. Marcos foi atacado por trás, e a briga virou dois contra um! — disse outro.
Um golpe na retaguarda. Covardia…
Nathan riu, de cabeça baixa.
Que coisa, não?
— Pois é. Engraçado, não? É moralmente aceitável que Júlio fosse tirar satisfação.
— Ele não ia deixar barato — riu Léo, balançando a cabeça.
— Mas é inaceitável, e até mais revoltante, que Júlio tenha tido ajuda na briga. Foi desleal. Faltou cavalheirismo, né?
Para eles, a ajuda de Kaique foi trapaça.
A minha ajuda foi trapaça.
Nathan achou irônico algo assim ter acontecido.
— Teria sido melhor, para vocês, que Júlio tivesse sido espancado pelo Marcos. Afinal, antes apanhar com honra do que vencer trapaceando, né?
— E vocês queriam pegar o Júlio — falou Leandro, repassando os acontecimentos. — Muitos de vocês disseram que o garoto merecia punição, pra compensar o Marcos.
— Não aconteceu nada — afirmou Léo, entrando na diversão. — Ninguém moveu um dedo por isso, ainda que acreditassem que deviam ter feito algo. E acabou que todo mundo esqueceu.
— Se não tivéssemos mencionado — continuou Lucas, sorrindo. — Isso teria ficado no porão da mente de vocês. Eu lembro que o Matheus, aqui…
E pôs a mão no ombro do garoto chamado Matheus, que pegou um susto.
— …Foi um dos que mais falava sobre isso, na época. Disse que ia meter a porrada no Júlio.
— Não, senhor, eu…
— Relaxa, eu não tô te cobrando.
Nada disso.
— Tô exemplificando um conceito. E muitos de vocês, que nem conheciam os dois, entraram na brincadeira. Tava todo mundo falando, era um assunto em alta, era legal para iniciar conversas e fazer amigos.
Um movimento inteligente.
— No final, a coisa esfriou, e o Júlio agora tá no ensino médio. O Marcos? Repetiu o nono ano. Não aconteceu nada e feijoada.
— Mas enquanto falavam disso… — falou Léo, pondo as mãos na mesa. — Eu lembro. Falavam com gosto. Os mais quietos aqui, inclusive, falavam que uma beleza.
— Pareciam periquitos na mangueira — brincou Leandro.
— Participar na minha aula, que é bom? Nada. Bacana demais.
O clima ficou meio tenso, e só depois o trio de professores notou.
— Bom, faltam dez minutos pra merenda. Podem ir.
E, ao contrário dos outros dias, os alunos foram saindo aos poucos. Falvam pouco, e baixo. Seria vergonha?
— Exageramos?
— Acho que não, professor — disse Nathan, saindo.
Eu acho que não.

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