O fedor era uma entidade viva no Beco do Salitre. Uma muralha invisível construída com o cheiro de dejetos humanos e animais cozinhando sob o sol impiedoso, a podridão doce e enjoativa de peixe vindo do porto e, por baixo de tudo, o aroma metálico da pobreza, da doença e do desespero. O ar, denso e ondulante de calor, agarrava-se à garganta, obrigando a respiração a ser um ato consciente e desagradável. As paredes de adobe das casas tortas pareciam suar uma sujeira antiga, e nas sombras ralas, a miséria tinha um rosto, um corpo, uma voz.

    No centro daquele pequeno inferno, um círculo de silêncio se formara. Era um vácuo antinatural no burburinho constante da cidade de Kaelon, uma clareira feita não por respeito, mas por medo e uma curiosidade mórbida.

    No coração desse círculo, um homem estava ajoelhado.

    Seu nome era Caelus.

    Ele não era um gigante, nem tinha os ombros largos de um guerreiro. Seus cabelos, de um castanho escuro e revolto, caíam-lhe sobre a testa suada, grudando-se na pele bronzeada pelo sol da Galileia, sua terra natal. Suas vestes eram as de um trabalhador: uma túnica simples de linho cru, gasta nos cotovelos, e sandálias de couro cujas tiras testemunhavam longas caminhadas. Ele poderia ser confundido com qualquer carpinteiro ou pedreiro da cidade, não fosse por seus olhos. Eram de um castanho tão profundo que pareciam absorver a luz, e neles, uma tempestade de tristeza e poder insondável se agitava.

    Seu olhar estava cravado na figura minúscula deitada sobre um monte de trapos imundos. Um menino, de talvez sete ou oito anos. Sua pele tinha a cor cinzenta da cinza molhada, esticada sobre os ossos de uma forma que revelava cada contorno do esqueleto. Seus lábios de um azul doentio estavam rachados, e sua respiração era um chiado agudo e úmido, o som de pulmões se enchendo de morte. Febre do Pântano, em seu estágio final. Uma sentença executada.

    A mãe do garoto, uma mulher magra com o desespero gravado em cada linha do rosto, estava encolhida contra a parede, as unhas cravadas nos próprios braços. Seus soluços haviam secado horas atrás, restando apenas um gemido baixo e animal, uma ninar fúnebre para o filho ainda vivo.

    A multidão que se espremia nas entradas do beco e se debruçava nas janelas acima era um mosaico de Kaelon. Vendedores de peixe com as mãos sujas de escamas, prostitutas observando de portas escuras com um cinismo cansado, crianças maltrapilhas com olhos enormes e curiosos, e mercadores mais abastados, parados a uma distância segura, como se a miséria fosse contagiosa. E entre eles, invisíveis para a maioria, estavam os observadores. As Serpentes do Templo, homens de aparência comum cuja quietude era uma ameaça, e os informantes de Roma, cujos olhos não viam um milagre ou uma tragédia, mas um potencial problema para a ordem pública, um número a ser relatado. Um par de legionários romanos, armaduras polidas contrastando absurdamente com a sujeira, estava postado no fim do beco, as mãos apoiadas nos gládios, os rostos impassíveis expressando tédio e desprezo.

    “Eles querem que eu falhe”, o pensamento de Caelus era calmo, uma pedra lisa no fundo de um rio turbulento de sensações. A torrente de esperança da multidão pesava sobre seus ombros como uma montanha. O fedor do beco era um ataque físico. A dor da mãe era uma faca em seu peito. E o olhar frio e calculista dos espiões era como gelo em sua espinha. “Malaquias quer que eu falhe para provar que sou uma fraude. Roma quer que eu falhe porque milagres dão esperança, e esperança é o primeiro passo para a rebelião. E eu… Pai… eu só queria que este menino vivesse.”

    Havia nele um profundo cansaço. Não do corpo, mas da alma. O fardo de ser o que era. Um canal para o infinito. Um oceano de poder divino forçado através da frágil torneira de um corpo humano.

    Ele ergueu a mão direita, os dedos longos e calejados. Não tremiam. Ele se aproximou do peito arqueado do menino. O ar estalou com a expectativa. O chiado do garoto era o único som.

    Caelus fechou os olhos. Não para buscar poder dentro de si, mas para se render ao poder que o habitava. Era uma abertura, uma fratura deliberada em sua alma.

    E a força veio.

    Não era uma luz suave. Era um rio de fogo líquido, a essência do Deus Vivo, a força que acendia sóis e forjava galáxias, sendo canalizada através de seu braço. A dor era excruciante, um fogo que queimava de dentro para fora. Caelus cerrou os dentes com força, uma veia saltando em sua têmpora. Um suor frio e abundante brotou em sua testa, o protesto de sua carne mortal contra a invasão da divindade.

    Da ponta de seus dedos, uma luz dourada vazou.

    Não era uma luz emprestada, era uma luz pura. Tão intensa que, por um instante, o sol inclemente do meio-dia pareceu uma vela pálida. A luz não iluminou o menino; ela o consumiu. Penetrou na pele cinzenta, nos pulmões cheios de fluido, nos ossos frágeis. O fedor do beco foi aniquilado, substituído pelo cheiro de ozônio, de terra molhada pela chuva e de pão recém-assado.

    O chiado do garoto parou abruptamente.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto, mais aterrorizante que o som da morte. A mãe soltou um grito estrangulado, caindo de joelhos, o rosto enterrado nas mãos.

    “Agora não”, a ordem não foi um pensamento de Caelus, mas uma ressonância que vibrou através dele. A vontade do Deus Vivo. “Volte. Assuma seu lugar na Canção da Vida.”

    Crack!

    Um estalo audível, como um galho seco quebrando. O peito do menino estufou com uma inspiração violenta, um som alto, claro, quase ganancioso, o som da vida reafirmando seu domínio. Seus olhos se abriram de repente. Não mais turvos e sem vida, mas claros como água de nascente, brilhando com um terror reverente. A cor inundou seu rosto em uma onda, o cinza doentio sendo lavado por um tom saudável de pele bronzeada. Ele se sentou, ofegante, tossindo um último resquício de doença, e seus olhos encontraram os de Caelus.

    Um suspiro coletivo, como uma única onda, varreu a multidão, seguido por uma explosão de gritos e murmúrios.

    “Pelos deuses! Ele o trouxe de volta!”

    “Eu vi! Eu vi a luz!”

    “É o Messias! O Profeta da Galileia!”

    A mãe, paralisada por um instante, finalmente se moveu, rastejando até o filho, tocando seu rosto, seus braços, como se não pudesse acreditar. As lágrimas voltaram, mas agora eram lágrimas de alegria delirante, enquanto ela o abraçava com uma força que quase o sufocava.

    A luz na mão de Caelus se extinguiu, deixando para trás uma sensação de vazio e frio. O mundo girou violentamente, e ele teve que se apoiar na parede de adobe para não cair. O preço fora pago. A dor em seu braço era um eco da fornalha que o atravessara, e uma dor de cabeça lancinante martelava suas têmporas. O mundo parecia dessaturado, como se a cor tivesse sido drenada não apenas dele, mas de tudo ao seu redor.

    A multidão, liberta do feitiço, avançou. Mãos ávidas se estenderam, querendo tocar sua túnica, seu braço, qualquer parte dele, como se a santidade fosse um bem que pudesse ser roubado.

    “Toque minha filha! Ela tem a febre!”

    “Senhor! Meus olhos! Eu não vejo!”

    Era uma maré de desespero e egoísmo prestes a devorá-lo vivo. Antes que pudessem alcançá-lo, uma figura ágil e compacta se interpôs entre ele e eles.

    “Pra trás! Chega! Deem espaço pra ele passar!”

    A voz era de Lia. Baixa, prática, mas com um fio de aço que fez os mais próximos recuarem instintivamente. Seu cabelo escuro estava preso em uma trança apertada, e seus olhos negros, rápidos e inteligentes, varreram a multidão, avaliando cada ameaça em potencial. Ela usava roupas de couro tingido de escuro sobre linho, e o cabo polido de um punhal era visível em seu cinto. Ninguém queria testar a rapidez de suas mãos.

    Ela se virou para Caelus, e a dureza em seu rosto se desfez em preocupação genuína. “Caelus? Ei. Fala comigo. Tá inteiro?”

    Ele apenas assentiu, a cabeça pesada demais para um movimento mais elaborado. “Preciso… sair daqui”, murmurou, a voz rouca, quase inaudível. “Os olhos… estão por toda parte.”

    Lia seguiu seu olhar sutil. Em um telhado, a silhueta de um homem se agachou e desapareceu. Atrás da multidão, um dos legionários murmurava algo para um civil que imediatamente se afastou na direção do Praetorium.

    “As Serpentes de Malaquias e os corvos de Valerius”, ela cuspiu, o desdém evidente. “Nunca perdem um show.” Ela passou o braço dele sobre seus ombros, suportando parte de seu peso. “Vamos. Conheço um caminho.”

    Enquanto ela o guiava com uma eficiência brutal, mas discreta, para a saída oposta, o som de moedas caindo em uma tigela de madeira os alcançou. Era Barnabé. Jovem, de rosto honesto e olhos que brilhavam com uma fé pura e inabalável que preocupava tanto Lia quanto a confortava. Ele sorria para as pessoas que, agora que a chance de tocar em Caelus havia passado, contentavam-se em doar uma moeda em troca do milagre que testemunharam.

    “Barnabé…”, Caelus gemeu, desaprovando.

    “As pessoas querem dar, Caelus”, disse Lia, sem diminuir o passo. “É mais fácil para elas dar uma moeda do que a própria vida. E nós precisamos de pão. Precisamos de um novo esconderijo. Este aqui já queimou. E precisamos de espadas. Em breve, a fé não será suficiente.”

    Caelus estremeceu com a palavra. Espadas. Outro fardo. Outro título que o povo e as circunstâncias lhe impunham. Curandeiro. Profeta. E agora, cada vez mais, o murmúrio que o assustava mais do que qualquer outro: o Rei-Guerreiro prometido, o Juiz que libertaria seu povo do jugo de ferro de Roma. O milagre no beco não fora apenas um ato de compaixão. Tinha sido o som de uma trombeta de guerra.

    A câmara do Sumo Sacerdote Malaquias era um oásis de silêncio e mármore frio, um contraste abissal com o calor e a imundície do Beco do Salitre. O ar era perfumado com incenso de olíbano. Malaquias, um homem de setenta anos cuja postura ereta desmentia sua idade, alisou a frente de suas vestes de linho branco bordadas a ouro, um gesto que ele repetia quando estava profundamente perturbado. Seu rosto, uma máscara de rugas finas e autoridade ancestral, estava voltado para a janela arqueada que dava para os pátios imaculados do Templo.

    “Relate”, ele ordenou, a voz baixa e ressonante.

    A Serpente, um homem cujo nome ninguém no Templo sabia, estava em pé nas sombras, tão imóvel que parecia fazer parte da parede.

    “O Galileu foi bem-sucedido, Sumo Sacerdote. A cura foi completa. O menino estava morto, ou tão perto que não faz diferença. Eu mesmo verifiquei o corpo antes do evento. Não foi truque.”

    Malaquias se virou lentamente, e seus olhos, aninhados sob sobrancelhas brancas e espessas, eram como lascas de obsidiana. “A manifestação. Descreva-a.”

    “Luz dourada, Sumo Sacerdote. Intensa. Violenta. Não parecia com nada que nossos rituais produzem. Era… primordial. Selvagem. E o custo para ele foi visível. Exaustão extrema. Dor. Quase desmaiou.”

    Um brilho de satisfação surgiu nos olhos de Malaquias. “Então ele sangra. Ele é finito.” Ele caminhou pela sala, os dedos entrelaçados atrás das costas. “Esta heresia está crescendo como um câncer. O povo o chama de Messias. Ele profana a santidade de Deus com essa magia de charlatão.”

    “O povo não a vê como profanação, Sumo Sacerdote. Eles a veem como esperança. E os romanos a veem como um problema. O centurião no local enviou um relatório urgente ao Prefeito Valerius. A palavra ‘sedicioso’ foi usada.”

    Malaquias parou, um sorriso fino e cruel tocando seus lábios. “Bom. Deixe os cães romanos rosnarem. Eles são úteis, às vezes.” Ele se aproximou do espião, a voz baixando para uma conspiração. “Este Caelus é um fogo de palha. Brilha intensamente, mas se consome rápido. Ele se gasta a cada milagre. Precisamos forçá-lo a se queimar por completo, publicamente.”

    “O que o Sumo Sacerdote ordena?”

    “Ele se esconde nas sombras, nos becos imundos onde seu poder parece maior. Vamos arrastá-lo para a luz. Minha luz. A luz da Lei e da Tradição.” Uma nova intensidade ardia nos olhos de Malaquias. “Envie uma mensagem. Um desafio formal. Um debate teológico, aqui, nos degraus do Grande Templo, diante de toda a cidade. Vamos confrontá-lo não com espadas, mas com a Palavra de Deus. Vamos amarrá-lo em nós de doutrina e lógica. Vamos expor sua ignorância de Galileu.”

    “Ele pode recusar”, sibilou a Serpente.

    “Ele não vai”, retrucou Malaquias, com uma certeza absoluta. “Sua arrogância e a pressão de seus seguidores não o permitirão. Ele virá. E quando ele estiver no meu palco, cercado por meu povo e minha autoridade… eu lhe darei um desafio que sua magia selvagem não poderá cumprir. E quando ele falhar, o mesmo povo que hoje o aclama o apedrejará como o blasfemo que ele é.”

    “E se ele não falhar?”, o pensamento não dito pairou no ar por um instante, antes de ser esmagado pela fé inabalável de Malaquias em sua própria retidão. Para ele, Caelus era a desordem, e ele era o guardião da ordem.

    No quarto abafado acima da padaria, o cheiro de pão fresco lutava contra o cheiro de suor e medo. Caelus estava sentado em um banquinho baixo, a cabeça entre as mãos, o tremor pós-milagre ainda sacudindo seu corpo. A palidez sob seu bronzeado era chocante.

    Lia pressionou um pano úmido em sua nuca. “Eu te disse, Caelus. Foi muito. A multidão, os espiões… você não pode continuar se expondo assim. Cada vez que você faz isso, um pedaço de você vai embora.”

    “Era uma criança, Lia”, ele murmurou, a voz abafada pelas mãos.

    “Existem mil crianças morrendo em Kaelon! Você não pode salvar todas elas! Não assim!” Sua voz era dura, mas suas mãos eram gentis. “Você é inútil para elas se estiver morto.”

    A porta se abriu e Barnabé entrou, o rosto radiante, segurando a pequena bolsa de couro de doações como se fosse um tesouro sagrado. “Mestre! Você viu? Eles acreditam! Nós temos o suficiente para comprar comida para uma semana, talvez mais!”

    O contraste entre a fé radiante de Barnabé e a realidade sombria da condição de Caelus era doloroso. Caelus levantou a cabeça, e a dor em seus olhos fez Barnabé parar, o sorriso murchando.

    “Eles não acreditam em Deus, Barnabé”, disse Caelus, a voz cansada. “Eles acreditam no espetáculo. Eles pagaram por um show. E o preço disso…” Ele olhou para suas próprias mãos, que ainda tremiam. “…é quase alto demais.”

    Antes que Barnabé pudesse responder, uma batida firme e autoritária soou na porta. Em um instante, Lia estava de pé, empurrando Caelus para trás dela e desembainhando seu punhal em um único movimento fluido. O brilho da fé de Barnabé foi substituído por puro terror.

    “Quem é?”, Lia perguntou, a voz baixa e letal.

    “Um mensageiro do Templo”, veio a resposta formal do outro lado da porta de madeira fina. “Trago um convite do Sumo Sacerdote Malaquias… para o profeta da Galileia.”

    Um silêncio tenso caiu sobre o quarto. O cheiro de pão parecia distante agora, substituído pelo cheiro de uma armadilha sendo montada. Lia olhou para Caelus, um “não” claro em seus olhos.

    Caelus se levantou lentamente, usando a parede como apoio. A exaustão ainda estava lá, mas algo mais começou a arder por baixo dela. Uma resolução fria, dura como o aço forjado na guerra. Ele caminhou até a porta, passando por Lia.

    “Abra”, ele disse.

    Hesitante, ela obedeceu, mantendo o punhal pronto. Um acólito do Templo, jovem e arrogante, estava parado no corredor, segurando um rolo de papiro com um selo de cera vermelha.

    “O Sumo Sacerdote Malaquias convida o pregador Caelus para um debate público sobre a natureza da Lei e dos Profetas”, o acólito recitou de memória, a voz cheia de desdém mal disfarçado. “O fórum será os degraus do Grande Templo, daqui a três dias. Para que toda Kaelon possa testemunhar a verdade.”

    Ele estendeu o pergaminho.

    “Não”, sussurrou Lia atrás de Caelus.

    Caelus ignorou-a. Ignorou o pergaminho. Ele olhou diretamente nos olhos do acólito, e o jovem, acostumado com a deferência e o medo, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Os olhos de Caelus não eram de um carpinteiro da Galileia. Eram os olhos de algo muito, muito mais antigo.

    “Diga a Malaquias”, começou Caelus, sua voz recuperando a força, mas agora com um timbre metálico que fazia o ar vibrar. “Que eu estarei lá.”

    O acólito recuou um passo.

    “Diga a ele para preparar o palco”, continuou Caelus, dando um passo à frente, para fora do quarto, fazendo o jovem recuar ainda mais. Um sorriso que não continha humor, apenas uma promessa sombria, tocou seus lábios. “Ele acha que me arrastará para a luz dele. Mas ele está enganado. Eu trarei a minha. Diga ao seu mestre que não haverá debate.”

    A confusão e o medo eram visíveis no rosto do acólito. “O-o que haverá, então?”

    Caelus se inclinou, sua voz caindo para um sussurro que era mais ameaçador do que qualquer grito. “Um julgamento.”

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