O rugido da cidade era uma besta viva, um som composto de milhares de vozes, passos e corações batendo em uníssono ansioso. Era a trilha sonora de um evento histórico se formando, e ecoava pelas paredes do pequeno quarto sobre a padaria, fazendo o próprio ar vibrar.

    Lia estava parada junto à porta, a postura tensa de um predador antes do salto. Seu olhar estava fixo em Caelus, analisando cada movimento, cada respiração. Ela havia trocado suas roupas de viagem por uma túnica escura e funcional, desprovida de qualquer adorno que pudesse prender ou fazer barulho. Sob a túnica, duas facas de arremesso estavam seguras em bainhas em seus antebraços, e o punhal familiar descansava em seu cinto, o cabo de couro gasto pelo uso constante. Sua preparação não era para um debate; era para uma batalha.

    Barnabé, em contraste, estava ajoelhado em um canto, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Seus lábios se moviam em uma prece silenciosa e fervorosa, os olhos fechados com uma fé tão pura que chegava a ser dolorosa de se ver. Ele não se preparava para a violência, mas para a revelação, para a vindicação divina do homem que ele seguia como um deus.

    Caelus estava no centro do quarto, indiferente à tensão ao seu redor. Ele havia se lavado no pequeno lavatório, a água fria ajudando a aguçar seus sentidos e a afastar os últimos vestígios da fraqueza que se apegara a ele. Ele vestia a mesma túnica simples de trabalhador da Galileia, um ato deliberado. Ele não iria ao Templo como um profeta autoproclamado ou um rei insurgente, mas como um homem do povo, um carpinteiro. Sua autoridade, se é que tinha alguma, não viria de suas roupas.

    Ele se virou para Lia. “Está na hora”, disse ele, a voz calma, mas ressoando com a mesma finalidade do toque de um sino.

    “É loucura, Caelus”, ela respondeu, a voz baixa, o último apelo de sua razão prática. “Há pelo menos quatro esquadras de legionários a caminho do Templo. Vi os reflexos dos elmos dos telhados. Os guardas do Templo estão armados com espadas longas, não bastões cerimoniais. Eles não esperam palavras, esperam sangue.”

    “O Pai não me enviou para me esconder”, ele disse simplesmente. Ele se aproximou dela e, para sua surpresa, colocou as mãos em seus ombros. O toque era firme, reconfortante. Ele a olhou diretamente nos olhos, e por um instante, a tempestade em seus próprios olhos se acalmou. “Lia. Seu trabalho hoje não é me proteger. É proteger Barnabé. E os outros que acreditam. Se as coisas derem errado… se eu cair… você tem que tirá-los da cidade. Você entende? Eles são as sementes. Você é a guardiã.”

    Lágrimas de fúria e frustração brotaram nos olhos de Lia, mas ela as conteve. Era a ordem que ela mais temia, mas era uma ordem. Ela assentiu, a mandíbula travada. “As sementes precisarão de um solo seguro. Kaelon será um deserto depois disso.”

    “O Pai proverá”, ele disse. A frase, que soaria como um clichê vazio da boca de qualquer outra pessoa, carregava um peso de certeza que a silenciou.

    Ele então se virou para Barnabé. “Levante-se, irmão.”

    Barnabé se levantou, os olhos marejados de fervor. “Mestre. Eu estou pronto para morrer ao seu lado.”

    Caelus sorriu, um sorriso genuíno, mas triste. “Ninguém precisa morrer hoje, Barnabé. Apenas testemunhar. Mantenha os olhos e o coração abertos. Não importa o que aconteça… não importa o que você veja… lembre-se do menino no beco. Lembre-se da luz. Ancore sua fé nisso, não no que os homens farão hoje.”

    Ele deu um passo em direção à porta. Lia, resistindo ao instinto de barrar seu caminho, abriu-a. E juntos, os três saíram para encontrar seu destino, descendo a escada estreita e empoeirada para o calor e o barulho de uma cidade à beira da combustão.

    O padeiro, um homem musculoso e calvo, estava parado junto ao seu forno, as mãos cobertas de farinha. Ele os vira, o medo e a reverência lutando em seu rosto. Ele não disse nada, apenas fez um gesto de bênção com a mão enfarinhada antes de se virar rapidamente para o trabalho, não querendo se envolver mais do que já estava.

    Sair para a rua foi como mergulhar de cabeça em um mar revolto. O ar estava denso com o cheiro de suor, poeira e uma eletricidade palpável. Quase ninguém estava trabalhando. As lojas estavam fechadas, as bancas de mercado, vazias. Rios de pessoas fluíam em uma única direção, subindo as colinas em direção ao Templo, que se erguia sobre a cidade como uma montanha de mármore branco e ouro, cintilando sob o sol da manhã.

    Quando Caelus apareceu, um murmúrio se espalhou pela multidão próxima.

    “É ele! O Galileu!”

    “Ele está indo!”

    As pessoas abriram caminho. Alguns se afastaram com medo, outros se aproximaram, tentando tocar a barra de sua túnica. Muitas faces mostravam esperança e adoração. Outras, desprezo e ódio.

    “Blasfemo!”, gritou um homem com a barba e as vestes de um fariseu.

    “Libertador!”, gritou uma mulher magra, segurando o filho nos braços.

    Lia andava na frente, com os ombros para trás, os olhos varrendo cada rosto, cada telhado, cada beco. Ela era uma loba guiando seu bem mais precioso através de uma floresta cheia de caçadores. Barnabé vinha logo atrás de Caelus, o rosto pálido, mas os olhos firmes, tentando absorver e memorizar cada detalhe daquele dia.

    Caelus parecia não notar nada disso. Ele caminhava com um passo firme e regular, os olhos fixos na grande escadaria do Templo que agora se tornava visível, uma cascata de mármore branco subindo em direção ao céu. Ele não olhava para as pessoas, não respondia aos gritos. Ele estava em um lugar diferente, um lugar de silêncio e foco, mesmo no meio daquele pandemônio.

    Quanto mais se aproximavam, mais densa ficava a multidão e mais opressiva a atmosfera. A praça em frente ao Templo era um mar de humanidade. Dezenas de milhares de pessoas se espremiam, um corpo coletivo pulsando com emoção. Os que não conseguiram um lugar no chão lotavam os telhados das construções vizinhas, as figuras pequenas e escuras recortadas contra o céu azul.

    A presença romana era esmagadora, embora tentasse ser discreta. Em cada interseção estratégica, centuriões observavam, as plumas de crina de cavalo em seus elmos balançando ao vento. Fileiras de legionários com seus escudos retangulares e pilums formavam cordões para manter as principais vias de acesso abertas. Nos telhados, Lia podia ver o brilho ocasional de um elmo de metal. Os arqueiros auxiliares sírios estavam em posição. Roma estava preparada não para um debate, mas para um massacre.

    No topo da vasta escadaria, em frente aos portões de bronze maciço do santuário interno, a elite do Templo esperava. Malaquias estava no centro, suas vestes de Sumo Sacerdote eram de um branco ofuscante, com um peitoral de ouro e doze pedras preciosas que brilhavam sob o sol. Ele parecia um rei em seu trono. Ao seu redor estavam os anciãos do Sinédrio, rostos severos e barbas brancas, e flanqueando-os estavam os Leões do Templo, os guardas de elite, com couraças de bronze polido e elmos que brilhavam.

    Era um quadro de poder absoluto e intransigente.

    Quando Caelus chegou à base da escadaria, um silêncio caiu sobre a praça. O rugido da multidão se transformou em um murmúrio baixo e depois em um silêncio expectante e pesado. Dezenas de milhares de pares de olhos se fixaram na solitária figura em trajes de trabalhador, parada diante da montanha de poder do Templo.

    Caelus parou. Ele olhou para cima, para a longa subida, para as figuras arrogantes que o esperavam no topo.

    A voz de Malaquias soou, amplificada por uma acústica cuidadosamente projetada e pelo silêncio repentino. Era uma voz de poder, acostumada a ser obedecida.

    “Caelus da Galileia! Você veio! Ousou trazer sua heresia e suas magias de aldeia para os degraus sagrados da Casa de Deus!”

    Caelus não respondeu. Ele simplesmente colocou o pé no primeiro degrau.

    Tec. O som de sua sandália de couro tocando o mármore foi o único som na praça.

    Ele começou a subir.

    Devagar. Deliberadamente. Cada passo um ato de desafio. Não havia pressa, nem hesitação. Apenas um avanço lento e inexorável.

    Lia e Barnabé pararam na base da escadaria, como Caelus lhes ordenara. Ela cruzou os braços, a mão direita a centímetros do cabo do punhal, os músculos tensos. Barnabé apenas observava, a respiração presa na garganta.

    Malaquias assistiu à subida, um sorriso de escárnio no rosto. Ele deixou que o drama se construísse. Deixou que a imagem do solitário e insignificante Galileu subindo para enfrentar o poder estabelecido do Templo se gravasse na mente de todos. Cada degrau que Caelus subia parecia aumentar a tensão na praça em um grau insuportável. As pessoas se inclinavam para frente, prendendo a respiração. Os legionários romanos seguravam suas armas com mais força.

    Caelus subiu dez degraus. Vinte. Trinta. O sol estava forte agora, batendo em suas costas, fazendo-o parecer uma silhueta escura contra o mármore branco ofuscante.

    Quando ele estava na metade do caminho, Malaquias ergueu os braços, um gesto teatral para a multidão.

    “Povo de Kaelon! Testemunhem a arrogância deste homem! Ele vem à nossa cidade, cura com feitiçaria, semeia a discórdia e desafia a ordem de Deus! E hoje, ele prometeu um ‘julgamento’!” Ele riu, um som de desprezo que ecoou pela praça. “Ele, um homem, vem para julgar os ungidos de Deus! Que blasfêmia! Que loucura!”

    Um murmúrio de concordância e indignação percorreu parte da multidão.

    “Mas nós, em nossa misericórdia, daremos a ele a chance de se arrepender!”, continuou Malaquias. “Primeiro, vamos ouvir seu assim chamado ‘julgamento’. Vamos deixar que ele se enforque com suas próprias palavras! E então, daremos a ele um teste final. Um desafio simples para provar se seu poder vem de Deus ou dos demônios que habitam o deserto!”

    Caelus continuou a subir, impávido, como se Malaquias não tivesse falado. Cada passo era metódico, rítmico.

    Finalmente, ele alcançou o último degrau. Ele parou a poucos metros de Malaquias, no vasto patamar no topo da escadaria. Agora, ele estava no mesmo nível deles, o mar de rostos da multidão se estendendo abaixo dele. O silêncio era absoluto. Até o vento parecia ter parado de soprar.

    Caelus olhou para Malaquias. Seus olhos não continham raiva, nem medo. Apenas uma tristeza infinita.

    “Caelus da Galileia”, disse Malaquias, a voz pingando veneno. “O palco é seu. Faça seu ‘julgamento’. Condene-nos. Mostre a todos a profundidade de sua loucura.”

    Caelus não olhou para os outros sacerdotes. Não olhou para os guardas. Seus olhos estavam fixos em Malaquias. Ele permaneceu em silêncio por um longo momento. Então, ele falou. Sua voz não era alta, mas na quietude sobrenatural, cada palavra viajou claramente até os confins da praça.

    “Eu não vim julgar você, Malaquias, Filho de Amoz.”

    A resposta pegou Malaquias de surpresa. A multidão murmurou, confusa.

    “Eu vim lamentar por você”, continuou Caelus, a voz carregada de uma dor genuína. “Eu vim chorar pela Casa de meu Pai, que você transformou em um covil de ladrões e em um castelo de arrogância.”

    Ele ergueu a mão, não para Malaquias, mas apontando para o Templo atrás dele, para os portões de bronze, para as paredes douradas.

    “Você se veste de ouro, mas seu coração é de pedra. Você recita a Lei, mas esqueceu a Misericórdia. Você faz sacrifícios de animais, mas seu maior sacrifício é o povo sofredor que você despreza. Você construiu esta casa para adorar a si mesmo, não a Deus.”

    Cada palavra era como um golpe de martelo, preciso, devastador.

    “Isso é o seu julgamento?”, zombou Malaquias, recuperando-se, embora um tom de vermelho estivesse subindo por seu pescoço. “Insultos e clichês de um demagogo de rua?”

    Caelus baixou a mão. “Não. Esse é o seu pecado. O julgamento… é este.”

    E então, Caelus fez algo que ninguém esperava. Ele não gritou. Ele não invocou fogo do céu. Ele se virou de costas para Malaquias e para o Templo, e encarou a multidão lá embaixo. Ele abriu os braços. E chorou.

    Não eram soluços barulhentos, mas lágrimas silenciosas que escorriam por seu rosto empoeirado, brilhando sob o sol. Eram as lágrimas de um deus chorando por sua criação perdida. O som de seu luto, embora silencioso, pareceu ecoar na alma de cada pessoa na praça.

    “Oh, Kaelon, Kaelon!”, ele clamou, a voz quebrada de angústia. “Cidade que apedreja seus profetas e fecha a porta para sua própria salvação! Quantas vezes eu quis reunir seus filhos como uma galinha reúne seus pintinhos sob as asas, e vocês não quiseram!”

    A multidão estava paralisada, hipnotizada por aquela demonstração de dor crua e incompreensível.

    Malaquias ficou momentaneamente sem palavras, sua fúria lutando contra a confusão. O roteiro dele havia sido rasgado.

    “Chega deste teatro!”, ele finalmente rosnou. “Se você é o Filho de Deus, prove! Pare de chorar como uma mulher e aja como um rei! Eu lhe dou um desafio!”

    Malaquias apontou com um dedo trêmulo para o oeste, para a colina onde o Praetorium de Valerius se erguia, um bloco de poder arrogante, a bandeira vermelha com a águia de ferro da Legião ondulando ao vento.

    “Seu Deus é o Senhor dos Exércitos, não é? O Deus da guerra que nos deu esta terra? Então ordene a Ele! Destrua o símbolo da nossa vergonha! Chame por fogo dos céus e queime aquele estandarte imundo da Águia de Roma! Faça isso, aqui e agora, e todos nós nos curvaremos a você como o Messias!”

    A armadilha estava armada. O desafio fora lançado. O silêncio na praça era tão profundo que se podia ouvir o farfalhar da bandeira romana ao longe. Todos os olhos, de plebeus a legionários, se voltaram para Caelus.

    Falhar, e ele era uma fraude. Recusar, e ele era um covarde. Ter sucesso, e ele declarava guerra aberta contra o maior império que o mundo já conhecera.

    Caelus parou de chorar. Ele lentamente enxugou as lágrimas com as costas da mão. Ele se virou para Malaquias, e a tristeza em seus olhos havia sido substituída por algo novo. Algo terrível. Um poder que começava a transbordar.

    Ele não olhou para o estandarte romano. Ele olhou para o céu.

    “Geração tola e adúltera”, ele sussurrou, a voz baixa, mas carregada de trovão. “Vocês pedem um sinal… e um sinal lhes será dado.”

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