Capítulo 4 – O Sinal e o Silêncio
O desafio de Malaquias pairou sobre a praça, cristalino e mortal. Cada alma presente, do mais humilde mendigo ao Prefeito romano que observava de um terraço sombreado, compreendeu a perfeição da armadilha. A bandeira vermelha da Águia, um ponto de cor arrogante no alto do Praetorium, tornou-se o foco de dezenas de milhares de olhares. Era o símbolo de sua subjugação, a ferida aberta em seu orgulho nacional. E Caelus fora desafiado a limpá-la com fogo divino.
Malaquias sorriu, um sorriso fino e vitorioso. Ele se virou ligeiramente, certificando-se de que os outros sacerdotes e os capitães dos Leões do Templo vissem seu triunfo. Ele havia encurralado o leão da Galileia.
Caelus, no entanto, não olhou para a bandeira. Seu olhar, que antes se voltara para o céu, agora descia lentamente, passando por cima das cabeças da multidão, por cima de Lia e Barnabé na base da escadaria, até encontrar os olhos de Malaquias novamente. A tristeza havia desaparecido. A dor se fora. Em seu lugar havia algo que Malaquias nunca tinha visto antes: uma piedade fria e terrível.
“Vocês não entendem o que pedem”, disse Caelus, a voz baixa, mas carregando um peso que fez o ar parecer mais espesso. “O Pai não é um cão de guerra para ser assobiado por homens vaidosos. O poder Dele não é um espetáculo para satisfazer sua sede de sangue.” Ele deu um passo em direção a Malaquias, e o Sumo Sacerdote recuou instintivamente, um movimento que não passou despercebido pela multidão.
“Você quer um sinal?”, continuou Caelus, erguendo a mão, não para o céu, mas apontando o dedo diretamente para o peito de Malaquias, para o peitoral de ouro e pedras preciosas. “Você quer uma demonstração do poder de Deus? Olhe para sua Casa, Sumo Sacerdote. Olhe para o seu coração.”
E então, o som começou.
Não foi um trovão. Não foi um grito. Foi uma única nota musical. Pura, impossivelmente clara, parecia não vir de um único lugar, mas de todos os lugares ao mesmo tempo. Era um som que tinha forma e peso, uma nota que vibrava não nos tímpanos, mas nos ossos, nos dentes, no âmago de cada ser vivo na praça. Todo o barulho da cidade, cada sussurro, cada tosse, cada choro de bebê, foi silenciado, engolido por aquela nota única e ressonante.
A multidão levou as mãos aos ouvidos, não por dor, mas por puro espanto. Os legionários olhavam ao redor, confusos, os seus rostos duros e disciplinados marcados pela incerteza.
Então, a luz veio.
Uma coluna de luz branca e ofuscante desceu do céu claro, sem nuvens. Não era a luz dourada e cálida que curara o menino. Era uma luz branca, fria e absoluta, tão intensa que parecia um buraco no tecido do céu. E não atingiu Caelus. Não atingiu o Praetorium.
Atingiu o coração do Templo. Passou pelo telhado do santuário como se fosse fumaça, e mergulhou diretamente no lugar que nenhum homem, exceto o Sumo Sacerdote, uma vez por ano, ousava entrar: o Santo dos Santos.
Não houve explosão. Não houve som de destruição. A única coisa que se ouviu foi a nota única que continuava a vibrar, crescendo em intensidade.
E então, o Templo começou a chorar.
Das bordas do telhado de ouro maciço, das calhas e gárgulas, o metal começou a derreter. Não em chamas, mas liquefazendo-se como cera, escorrendo pelas paredes de mármore branco em rios de ouro líquido, como lágrimas douradas de uma divindade angustiada. As gravuras intrincadas, os símbolos do zodíaco e os querubins que adornavam a fachada, o trabalho de gerações de artesãos, começaram a se alisar, a se apagar sob um calor invisível, como se uma mão divina estivesse limpando a lousa, apagando o trabalho ornamentado dos homens e restaurando a pureza da pedra.
“Não!”, gritou Malaquias, o rosto se contorcendo em horror e descrença.
Mas o sinal não era apenas para o prédio.
A luz que havia mergulhado no Templo agora irrompeu de dentro para fora, vazando por cada janela, cada porta, cada fresta. Uma luz branca e purificadora. E quando essa luz tocou os sacerdotes no alto da escadaria, eles gritaram.
Gritaram como se estivessem em chamas.
As vestes finas de linho de Malaquias começaram a soltar fumaça, não porque estivessem queimando, mas como se a santidade da luz estivesse incinerando a corrupção impregnada no tecido. O peitoral de ouro em seu peito ficou incandescente, e as doze pedras preciosas, representando as doze tribos, racharam uma a uma com estalos audíveis.
Crack! Crack! Crack!
Malaquias caiu de joelhos, berrando, a pele de seu rosto e mãos avermelhando-se e empolando como se pressionada contra uma bigorna quente. A pureza de Deus, para um homem de alma impura, era o mais terrível dos venenos. Os outros sacerdotes ao seu redor sofreram destinos semelhantes, contorcendo-se no chão, as suas vestes fumegando, os seus gritos de agonia se misturando à nota ressonante que ainda preenchia o mundo.
Caelus estava no meio de tudo, de braços abertos, a cabeça jogada para trás. Ele era o canal, o epicentro. A luz branca do Templo se curvava para ele, fluindo através dele. E o preço era terrível. Sua pele começou a brilhar de dentro para fora, e finas linhas de luz, como rachaduras em uma jarra de porcelana, apareceram em seus braços, em seu pescoço, em seu rosto. O poder que passava por ele era grande demais para o recipiente mortal. Ele estava se quebrando.
Então, tão subitamente quanto começou, tudo parou.
A nota desapareceu, deixando um silêncio total e ensurdecedor. A coluna de luz se retraiu para o céu e sumiu. O ouro parou de escorrer. O brilho dentro do Templo se apagou.
E Caelus caiu. Seu corpo desabou no mármore como uma marionete cujas cordas foram cortadas, inerte.
Por um longo segundo, a praça inteira ficou congelada, um quadro de horror e espanto. A multidão, os soldados, os sacerdotes sobreviventes… todos paralisados.
E então o inferno se abriu.
O silêncio foi quebrado por um único grito, e depois por mil, dez mil. Foi uma explosão de histeria coletiva. O pânico e o fervor religioso se fundiram em uma força destrutiva. Algumas pessoas, aterrorizadas, começaram a correr, a empurrar, a pisotear, tentando fugir do lugar do julgamento. Outras, tomadas por uma adoração fanática, começaram a correr em direção à escadaria, gritando o nome de Caelus, tentando alcançar o homem que havia humilhado o Templo e chamado Deus.
“Peguem-no! Ele é um demônio!”, berrou um dos sacerdotes menos feridos, apontando para o corpo caído de Caelus. Os Leões do Templo, que haviam ficado paralisados de terror, olharam para seu Sumo Sacerdote se contorcendo e para seu Templo profanado, e a sua confusão se transformou em fúria assassina.
“Salve o Profeta! Ele é o verdadeiro Filho de Deus!”, gritou uma voz da multidão, e uma onda de pessoas tentou formar uma barreira humana.
A praça se transformou em um caos de corpos, um redemoinho de violência, medo e fé.
“Legionários! Segurar a linha! Não ataquem! Segurar a linha!”, a voz de um centurião romano berrou, tentando manter a disciplina em meio ao caos sobrenatural.
No terraço, o Prefeito Valerius olhou para a cena, o rosto pálido pela primeira vez desde que chegara à Judeia. “O que… em nome de Plutão… foi isso?”, ele murmurou para si mesmo. Ele pegou a taça de vinho, mas a mão tremia tanto que ele a largou, o vinho tinto se espalhando no chão de mármore como sangue. Ele entendia de cerco, de política, de assassinato. Disso, ele não entendia nada. Aquele poder não fora direcionado a ele. Fora uma purga interna. Sua mente pragmática entrou em curto-circuito. E essa hesitação salvou inúmeras vidas. Ele não deu a ordem para atirar.
Na base da escadaria, a realidade atingiu Lia como um soco. O choque do milagre deu lugar à clareza gélida do campo de batalha. Caelus estava caído. Vulnerável. A ordem dele ecoou em sua mente: proteja as sementes. Mas o instinto dela gritava outra coisa: salve a fonte.
“Barnabé!”, ela gritou, agarrando o braço do jovem, que estava de joelhos, chorando e rindo ao mesmo tempo, o rosto virado para o Templo desfigurado. “Barnabé, olhe pra mim!”
Ele a olhou, os olhos vazios de compreensão.
“Corra! Vá para o esconderijo combinado, no Bairro dos Tecelões! Reúna os outros! Não pare por nada! Agora!”, ela o sacudiu com força.
O choque em seus olhos deu lugar a um pingo de clareza. Ele assentiu, se levantou e mergulhou na multidão caótica, movendo-se na direção oposta ao Templo.
Agora, Lia estava sozinha. Seu alvo: o corpo caído de Caelus, a cinquenta metros de distância, subindo uma escadaria que se tornara uma zona de guerra. Os Leões do Templo, com espadas em punho, começavam a descer, seus rostos contorcidos de ódio. A maré de adoradores fanáticos tentava subir, encontrando as espadas dos guardas.
Lia sacou seu punhal. Ela não tentou lutar contra a onda. Ela se moveu com ela, usando os corpos como cobertura, ágil como uma enguia. Ela subiu a escada, não em linha reta, mas em zigue-zague. Um guarda do Templo se virou para ela, o rosto uma máscara de fúria. A lâmina dele desceu. Lia se abaixou, girou, e a ponta de seu punhal encontrou a junta desprotegida na parte de trás do joelho dele. Ele gritou e caiu. Ela não parou para olhar.
Outro veio em sua direção. Desta vez, ela não lutou. Ela agarrou um dos adoradores frenéticos ao seu lado e o empurrou na direção do guarda, usando o caos como sua arma e seu escudo.
Ela alcançou o patamar. O cheiro de ozônio e metal queimado era avassalador. Os sacerdotes feridos se arrastavam para longe. Malaquias estava sendo amparado por dois guardas, o rosto uma ruína de pele queimada, os olhos cheios de um ódio tão puro que era quase divino em sua intensidade. Seus olhos encontraram os de Lia, e depois os do corpo caído de Caelus.
“Matem-no!”, ele sibilou através de lábios rachados e sangrentos. “Tragam-me a cabeça do demônio da Galileia!”
Lia chegou a Caelus. Ela se ajoelhou, o punhal pronto para defender. Ele estava inconsciente, a respiração fraca e superficial. As linhas de luz em sua pele haviam desaparecido, mas seu corpo estava febril ao toque, e um pequeno filete de sangue escorria de seu ouvido. O preço do sinal.
Dois Leões do Templo avançaram sobre ela, as espadas levantadas para o golpe final.
Lia se preparou para morrer.
De repente, um grito de guerra gutural ecoou da base da escadaria, e uma chuva de pedras e pedaços de madeira atingiu os guardas do Templo. Uma parte da multidão, os trabalhadores do porto, os pedreiros, os marginalizados, se armaram com o que encontraram e iniciaram um contra-ataque desesperado. Era um motim em grande escala.
A distração foi tudo que Lia precisava. Ela embainhou o punhal, passou os braços por baixo do corpo inerte de Caelus e o ergueu sobre os ombros em uma técnica de resgate que aprendera em algum lugar de seu passado sombrio. Ele era mais pesado do que parecia.
Com um gemido de esforço, ignorando a dor em suas costas, ela começou a descer, aproveitando o caos que seus novos aliados improvisados haviam criado. Cada passo era uma agonia, o peso de Caelus ameaçando derrubá-la.
Ela olhou para baixo, para a praça que se tornara um inferno. O motim se espalhava. Os legionários romanos, finalmente recebendo ordens, avançavam em formação de tartaruga, não para atacar, mas para conter, suas espadas curtas começando a fazer seu trabalho mortal nas bordas do caos.
Lia estava presa. Presa entre a fúria do Templo acima, a anarquia da multidão abaixo, e a disciplina mortal de Roma se fechando sobre todos eles.
Ela segurou o corpo de Caelus com mais força, o rosto dele pálido e ensanguentado contra seu ombro. “Eu não vou deixar você morrer, seu idiota teimoso”, ela murmurou para o homem inconsciente, a voz um misto de promessa e oração. “Eu não vou.”
E com o mundo desabando ao seu redor, ela continuou a descer, cada degrau um pequeno passo em direção a um futuro incerto e sangrento.

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