O planejamento não veio como uma revelação.

    Não houve luz, nem ordem clara, nem voz interior ditando caminhos. Veio como cansaço organizado. Como a necessidade de colocar limites onde antes só havia impulso.

    Caelus abriu os olhos.

    A câmara continuava a mesma — pedra crua, ar frio, a presença constante da água infiltrando-se pelas paredes. Nada havia mudado no mundo externo desde que fechara os olhos. Ainda assim, algo dentro dele havia se deslocado, como uma peça mal encaixada que finalmente aceitara sua posição defeituosa.

    Ele respirou com cuidado.

    Cada inspiração precisava ser negociada. O corpo aceitava o ar, mas cobrava por isso. Não com dor aguda, mas com uma resistência persistente, como se a própria carne tivesse aprendido a desconfiar do que vinha de dentro.

    Lia percebeu o movimento antes mesmo que ele falasse.

    “Não tenta levantar,” disse. Não foi um pedido.

    “Não vou,” respondeu Caelus. A voz saiu baixa, mas estável.

    Barnabé observava em silêncio. Havia algo diferente em seu olhar — não medo, não exatamente. Era uma espécie de atenção tensa, como a de alguém que já não sabe onde termina a fé e começa a vigília.

    “Você falou em planejar,” ele disse por fim. “O que isso significa?”

    Caelus demorou a responder. Não por hesitação, mas porque a pergunta exigia precisão.

    “Significa parar de reagir,” disse. “E começar a escolher.”

    Lia inclinou a cabeça, avaliando. “Escolher o quê?”

    “O custo,” ele respondeu. “Antes que ele escolha por nós.”

    Houve um silêncio curto, denso.

    “Você está dizendo que vai… fazer menos?” Barnabé perguntou.

    “Estou dizendo que vou fazer diferente.”

    Lia soltou um suspiro controlado. “Isso é vago demais pra me tranquilizar.”

    Caelus virou o rosto com esforço, encarando-a. “Nada do que eu disser agora vai.”

    Ela sustentou o olhar. Não havia desafio ali. Apenas realidade.

    “Então fala mesmo assim.”

    Ele fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, havia algo novo neles — não poder, não autoridade. Deliberação.

    “O que aconteceu no Templo não pode se repetir,” disse. “Não daquela forma.”

    “Porque quase te matou?” Barnabé arriscou.

    “Porque matou outras coisas antes disso,” respondeu Caelus. “Coisas que eu não vi. Que não medi.”

    Lia apoiou a faca no chão. O gesto era pequeno, mas carregado de intenção.

    “Você não controla como o mundo reage,” disse. “Nunca controlou.”

    “Eu sei.” Ele respirou fundo, sentindo o peso da frase atravessar o peito. “Mas posso controlar onde coloco o pé.”

    Barnabé franziu a testa. “Isso é um recuo?”

    “Não,” disse Caelus. “É uma contenção.”

    A palavra ficou suspensa, estranha, quase inadequada vinda dele.

    “Você sempre disse que não podia segurar,” Barnabé lembrou. “Que a criação exigia passagem.”

    “Exige,” respondeu Caelus. “Mas não exige espetáculo.”

    Lia deixou escapar uma risada curta. “Tenta explicar isso pra cidade.”

    Como se evocada pela frase, um ruído distante atravessou a pedra. Não passos. Vozes. Abafadas, múltiplas, carregadas de uma excitação nervosa que só surge quando as pessoas não sabem se estão caçando ou sendo caçadas.

    Barnabé se aproximou da entrada estreita da câmara, ouvindo com atenção.

    “Eles estão falando seu nome,” disse. “Não todos. Mas o suficiente.”

    Caelus fechou os olhos novamente. O nome não pesava como antes. Agora era apenas mais um vetor de consequência.

    “Eles vão falar,” disse. “Mesmo que eu desapareça.”

    “Então desaparece,” Lia sugeriu. “Por um tempo. Saímos da cidade hoje à noite.”

    Barnabé virou-se rápido. “E deixar todo mundo acreditando que—”

    “Que ele fugiu?” Lia interrompeu. “Melhor do que deixar todo mundo morrer tentando encontrá-lo.”

    Caelus abriu os olhos. O teto pareceu mais distante do que antes.

    “Não posso sumir,” disse. “Mas posso deslocar.”

    “Isso quer dizer o quê?” Lia perguntou.

    “Quer dizer sair do centro,” explicou. “Parar de ser o ponto onde tudo converge.”

    Barnabé balançou a cabeça lentamente. “As pessoas não seguem lógica. Elas seguem sinais.”

    “Então não darei sinais,” disse Caelus.

    Lia arqueou uma sobrancelha. “Você é literalmente um sinal andando.”

    “Então preciso aprender a andar sem acender o chão.”

    A frase soou estranha até para ele. Mas era verdadeira.

    Ele tentou se mover novamente, desta vez com mais cuidado. Sentou-se, apoiando-se na parede fria. O mundo oscilou, mas permaneceu inteiro.

    Lia se levantou num instante, pronta para segurá-lo. Quando percebeu que ele não cairia, recuou um passo.

    “Isso não vai durar,” ela disse. “Você sabe.”

    “Eu sei.”

    “Então o que acontece quando durar ainda menos?”

    Caelus não respondeu de imediato. Havia perguntas que não pediam resposta — apenas reconhecimento.

    “Você vai precisar de pessoas,” Barnabé disse com cautela. “Não seguidores. Pessoas.”

    Lia cruzou os braços. “Isso é perigoso.”

    “Tudo é,” Caelus respondeu. “Mas agir sozinho se tornou insustentável.”

    A palavra caiu com peso. Insustentável. Não como fraqueza, mas como limite estrutural.

    Barnabé respirou fundo. “Eu fico.”

    Lia olhou para ele. “Isso não foi um convite.”

    “Eu sei,” Barnabé respondeu. “Mas é uma decisão.”

    Caelus observou os dois. Algo nele — aquela consciência fria que começara a se formar — registrou o momento como irreversível.

    “Então precisamos de regras,” disse.

    Lia soltou uma risada seca. “Agora ele quer regras.”

    “Poucas,” Caelus corrigiu. “Mas rígidas.”

    Ele ergueu a mão com dificuldade. Os dedos ainda tremiam, mas o gesto era firme.

    “Primeira,” disse. “Nenhum milagre que não resolva um problema imediato e concreto.”

    Barnabé assentiu lentamente.

    “Segunda,” continuou. “Nenhuma demonstração pública.”

    Lia fez uma careta. “Isso vai ser complicado.”

    “Terceira,” disse Caelus. “Se houver escolha entre salvar muitos ou salvar um… eu vou escolher conscientemente.”

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    “E como vai decidir?” Barnabé perguntou.

    Caelus fechou os olhos.

    “Não sei ainda,” disse. “Mas não fingirei mais que toda escolha é boa.”

    Lia desviou o olhar. Havia algo ali que ela não queria nomear.

    Do lado de fora, as vozes se aproximaram um pouco mais. Não estavam procurando ainda. Estavam comentando. Medindo.

    “O mundo não vai esperar você ficar pronto,” Lia disse.

    Caelus abriu os olhos uma última vez naquela noite.

    “Eu sei,” respondeu. “Por isso não posso mais agir como se ele fosse paciente.”

    Ele recostou a cabeça na pedra fria. O corpo protestou, mas cedeu.

    A cidade acima respirava mal.

    E, pela primeira vez, Caelus não pensou em como mudá-la — mas em como atravessá-la sem quebrá-la de novo.

    O plano ainda era incompleto. Frágil. Cheio de falhas previsíveis.

    Mas era um começo.

    E, naquele momento, começar já era um risco calculado.

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