Capítulo 9 — O Milagre Menor
O silêncio não era completo, mas era disciplinado.
Dentro da casa meio colapsada, os sons se organizavam de forma previsível: o vento entrando pelas fendas da parede norte, o estalo ocasional da madeira velha cedendo ao próprio peso, a respiração irregular de Caelus tentando não chamar atenção para si mesma. Tudo fora isso parecia excessivo. Desnecessário.
Lia estava sentada perto da entrada, de costas para a luz que entrava oblíqua pelo vão da porta quebrada. Mantinha os olhos atentos, mas não tensos — o tipo de vigilância que não espera ataque imediato, apenas a aproximação lenta de algo inevitável.
Barnabé mexia em um pequeno saco de pano, contando provisões com cuidado exagerado, como se o número pudesse se alterar se não fosse confirmado mais de uma vez.
Caelus permanecia imóvel.
Não dormia.
A Criação estava quieta dentro dele, o que não significava descanso. Significava contenção ativa. Um estado novo, desconfortável, semelhante a manter o punho cerrado por tempo demais: não dói no início, mas cobra cada segundo adicional.
Ele abriu os olhos.
A luz da manhã parecia mais dura do que deveria. Não pela intensidade, mas pela definição. As bordas das coisas estavam excessivamente nítidas, como se o mundo tivesse sido afiado durante a noite.
“Quanto tempo ficamos aqui?” perguntou.
Barnabé ergueu a cabeça. “Pouco.”
“Tempo suficiente para alguém perceber,” Lia corrigiu.
Caelus assentiu. “Então precisamos nos mover de novo.”
Lia se levantou. “Não agora.”
Ele a encarou. “Por quê?”
“Porque agora é quando as pessoas começam a chegar.”
Barnabé franziu a testa. “Chegar onde?”
“Em todo lugar,” ela respondeu. “É assim que funciona. Depois do medo vem a curiosidade. Depois da curiosidade, a esperança mal colocada.”
Como para confirmar suas palavras, passos soaram do lado de fora. Não muitos. Dois pares, talvez três. Não eram apressados. Não tentavam ser silenciosos.
“Eles sabem,” Barnabé murmurou.
“Não sabem,” Lia corrigiu. “Suspeitam.”
A diferença era crucial.
Caelus fechou os olhos por um momento, não para buscar poder, mas para organizar intenção. Não queria agir. Precisava garantir que, se agisse, fosse por algo que não pudesse ser resolvido de outra forma.
Os passos pararam diante da casa.
Uma voz masculina chamou, hesitante: “Há alguém aí?”
Lia olhou para Caelus. Esperou um sinal. Não veio.
Ela respondeu: “Sim.”
Houve um breve silêncio, seguido por murmúrios abafados. Então, a mesma voz voltou, agora mais firme.
“Podemos entrar?”
“Não,” Lia respondeu.
Outro silêncio. Mais longo.
Então passos recuaram — apenas o suficiente para demonstrar respeito. Não o bastante para ir embora.
“Tem um homem aqui,” disse a voz. “Ele está… mal.”
Caelus abriu os olhos.
Lia fechou os dela por um instante, como quem aceita um problema inevitável.
“Mal como?” perguntou.
“Não anda direito,” respondeu o homem. “A perna não obedece. Já tentamos tudo.”
Barnabé se aproximou devagar. “Tentaram o quê?”
“Horas,” disse a voz. “Promessas. Dinheiro. Rezar.”
Caelus sentiu a Criação se mover levemente, como água tocada por um objeto distante.
Ele se levantou.
Lia virou-se imediatamente. “Não.”
“Não vou fazer nada,” disse ele.
“Você não controla isso,” ela respondeu.
“Eu sei,” disse Caelus. “Mas posso escolher onde.”
Ele caminhou até a entrada. O esforço era visível agora — não pela dor, mas pela lentidão deliberada, como se cada passo precisasse de confirmação interna.
Do lado de fora, três pessoas esperavam. Dois homens e uma mulher. O homem mais velho apoiava-se no braço do outro. A perna direita arrastava-se, inútil, deixando um rastro irregular na poeira.
Quando viu Caelus, seus olhos se arregalaram — não em êxtase, mas em reconhecimento desconfortável.
“É ele,” murmurou a mulher.
Caelus observou-os por um instante. Não havia ali devoção. Apenas cansaço acumulado.
“Por que trouxeram-no até aqui?” perguntou.
O homem mais jovem respondeu rápido demais: “Porque disseram que—”
“Não,” interrompeu Caelus. “Por que você?”
A pergunta desestabilizou o grupo.
O homem hesitou. Olhou para o mais velho, depois para a mulher.
“Porque ele não aguenta mais,” disse por fim.
Caelus assentiu.
“Entrem,” disse.
Lia se enrijeceu, mas deu espaço.
—
O homem foi colocado sentado contra a parede interna. Suava frio. A perna imóvel parecia pertencer a outro corpo, desconectada, indiferente à vontade.
Caelus se ajoelhou diante dele com cuidado. Sentiu a fisgada imediata no peito, ignorou.
“Desde quando?” perguntou.
“Meses,” respondeu o homem mais velho. “Um dia acordei assim.”
“Dor?”
“Não,” disse ele. “Só… ausência.”
Caelus pousou a mão sobre o joelho afetado. Não chamou a Criação. Apenas observou.
Ali não havia destruição recente. Nenhuma ferida aberta. Era um silêncio interno — nervos que haviam desistido de insistir.
A Criação respondeu com uma tensão leve, quase educada. Como se dissesse: isto é pequeno.
Caelus respirou fundo.
“Isso não vai ser como esperam,” disse.
A mulher assentiu rápido. “Não precisa ser. Só… um pouco melhor.”
Lia observava tudo de braços cruzados. Barnabé permanecia imóvel, atento.
Caelus fechou os olhos.
Ele não fez crescer nada. Não refez estruturas. Não reorganizou sistemas.
Apenas tocou.
A Criação fluiu de forma mínima, quase imperceptível — um realinhamento discreto, como ajustar uma corda desafinada sem trocar o instrumento.
O homem inspirou fundo de repente.
“Espera,” murmurou.
A perna se moveu.
Não com força. Não com graça. Apenas obedeceu.
O homem soltou um som estranho — meio riso, meio choro. Tentou mover de novo. Funcionou.
A mulher levou as mãos ao rosto. O homem mais jovem caiu de joelhos imediatamente.
Caelus retirou a mão.
Ele sentiu o custo quase imediatamente — não como dor intensa, mas como um apagamento localizado, um cansaço concentrado que se espalhou pelo braço e subiu até o ombro.
Ele permaneceu ajoelhado, respirando com cuidado.
“Não corram,” disse. “Não gritem.”
Eles tentaram obedecer.
—
Foi inútil.
Quando deixaram a casa, tentando manter a compostura, já eram diferentes. Andavam rápido demais. Falavam baixo demais. O tipo de comportamento que chama atenção.
Lia observava da porta, os olhos frios.
“Milagre pequeno,” ela disse. “Desastre previsível.”
Barnabé engoliu em seco. “Ele precisava.”
“Todo mundo precisa,” ela respondeu.
Caelus recostou-se na parede, sentindo o mundo se reorganizar ao redor do gesto mínimo. Não em resposta ao que fez — mas ao fato de tê-lo feito.
Horas depois, começaram a ouvir histórias.
Primeiro sussurros. Depois versões.
— Ele tocou e a perna voltou inteira.
— Ele falou palavras antigas.
— O homem correu.
— O homem caiu morto e voltou.
Cada relato pior que o anterior.
Caelus escutava em silêncio.
“O menor milagre,” murmurou, “é sempre o mais distorcido.”
Barnabé sentou-se ao lado dele. “Eles precisam exagerar.”
“Não,” Caelus respondeu. “Eles precisam justificar.”
Lia pegou a faca novamente. “Então vamos sair antes que justifiquem mais.”
Caelus assentiu. Mas algo dentro dele se ajustava com atraso.
O gesto fora pequeno.
A reação, não.
E, pela primeira vez, ele compreendeu plenamente que o problema não era a escala do milagre.
Era o fato de que qualquer ação divina, por menor que fosse, criava uma dívida narrativa que o mundo cobraria com juros.
O silêncio não era neutro.
Mas o milagre menor também não.
E o caminho à frente começava a se estreitar de verdade.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.