Eles perceberam antes de serem vistos.

    Não foi um som específico, nem um movimento claro. Foi uma alteração no espaço — aquela sensação incômoda de que o caminho à frente já não estava vazio, mesmo quando os olhos insistiam em confirmar o contrário.

    Caelus diminuiu o passo.

    Lia notou imediatamente. Não perguntou. Apenas levou a mão à faca, não como ameaça, mas como confirmação de que ainda tinha algo sólido ao alcance.

    Barnabé continuou andando por dois passos a mais antes de entender. Parou, olhou em volta.

    “Quantos?” murmurou.

    Caelus inclinou levemente a cabeça. Não estava contando corpos. Estava sentindo intenções — um exercício novo, imperfeito, como usar um músculo que havia passado tempo demais atrofiado.

    “Poucos,” disse. “Mas atentos.”

    O caminho estreito serpenteava entre pedras e arbustos baixos, seco demais para a estação. A poeira levantava fácil sob os pés, denunciando qualquer movimento descuidado. O céu estava limpo demais. Azul demais. Como se o mundo estivesse fazendo força para parecer normal.

    Eles avançaram mais alguns metros antes que o primeiro se mostrasse.

    Um homem jovem, magro, com roupas simples demais para a viagem que claramente havia feito. Surgiu da lateral do caminho, sem pressa, como quem já estava ali há algum tempo e apenas aguardava o momento certo para existir.

    “Bom dia,” disse.

    Lia parou imediatamente à frente de Caelus.

    “Não estamos vendendo nada,” respondeu.

    O homem sorriu — não um sorriso largo, mas o tipo curto, controlado, que se usa quando não se quer parecer ameaça nem súplica.

    “Eu sei,” disse. “Também não vim comprar.”

    Barnabé deu um passo para o lado, ampliando o campo de visão. Seus olhos encontraram outros dois, mais atrás, parcialmente ocultos pelas pedras. Não tentavam se esconder de verdade. Queriam ser vistos — mas não primeiro.

    “Então por que veio?” perguntou Caelus.

    A voz saiu firme, apesar da fadiga que ainda se acumulava sob cada palavra.

    O homem inclinou a cabeça, avaliando-o com cuidado excessivo. Havia reconhecimento ali. Não devoção. Não medo. Algo mais funcional.

    “Porque o senhor tocou aquele homem ontem.”

    Caelus fechou os olhos por um instante.

    “Não o senhor,” corrigiu. “Aquele homem.”

    O jovem assentiu. “Claro.”

    Não soou convencido.

    “E por que isso importa a você?” perguntou Lia.

    O homem abriu as mãos. Não em rendição — em exposição. Mostrou que não carregava armas visíveis.

    “Porque não foi como disseram.”

    Barnabé franziu o cenho. “Como disseram o quê?”

    “Que ele correu,” respondeu o homem. “Que gritou. Que caiu de joelhos e chorou.”

    Ele respirou fundo.

    “Eu estava lá. Ele só… levantou a perna. Como quem testa algo esquecido.”

    O silêncio que se seguiu foi pesado.

    Caelus abriu os olhos novamente.

    “Então você veio corrigir a história?” perguntou.

    “Não,” disse o homem. “Vim confirmar.”

    Lia soltou um riso seco. “Confirmar o quê?”

    “Que não foi sorte,” respondeu ele. “Nem truque.”

    “E se foi?” Barnabé perguntou.

    O homem deu de ombros. “Então não muda nada.”

    Caelus inclinou levemente a cabeça. “Explique.”

    O jovem respirou fundo, como quem organiza algo que já pensou muitas vezes.

    “Se foi sorte, ela escolheu aquele momento. Aquele toque. Aquele homem. Isso já é estranho o suficiente.” Ele olhou diretamente para Caelus. “E se foi truque… então é o truque mais caro que já vi. Porque o senhor parecia pagar por ele.”

    A frase atingiu algo preciso.

    Lia percebeu. Seus olhos se estreitaram.

    “Você observou demais,” disse.

    “Eu observo tudo demais,” respondeu o homem. “É o que faço quando não tenho outra coisa.”

    Caelus deu um passo à frente. Sentiu o cansaço imediato responder, mas ignorou.

    “Qual é o seu nome?” perguntou.

    “Ezra.”

    “Ezra,” repetiu Caelus. “Você não devia nos seguir.”

    Ezra assentiu. “Eu sei.”

    “E mesmo assim está aqui.”

    “Sim.”

    Lia soltou o ar devagar. “Esse é o problema,” murmurou.

    Caelus observou os outros dois mais atrás. Um homem mais velho, olhos atentos, mãos escondidas nas mangas largas. Uma mulher, jovem, postura rígida, como quem aprendeu cedo a não confiar em nada que promete.

    “Eles também viram?” perguntou Caelus.

    Ezra hesitou. Depois assentiu. “O suficiente.”

    “E o que esperam?” perguntou Lia.

    A mulher respondeu antes que Ezra pudesse fazê-lo. Sua voz era firme, quase dura.

    “Nada.”

    O silêncio que se seguiu foi diferente.

    Barnabé se aproximou um pouco mais. “Nada?”

    “Não viemos pedir cura,” ela disse. “Nem sinal. Nem palavra.”

    “Então por que estão andando atrás de nós?” perguntou Lia.

    A mulher manteve o olhar fixo em Caelus. “Porque o mundo muda quando alguém faz algo sem pedir nada em troca.”

    Caelus sentiu a Criação se agitar levemente, não em resposta à frase, mas à forma como foi dita. Não havia reverência ali. Havia análise.

    “E vocês pretendem fazer o quê com isso?” perguntou.

    Ezra respondeu, cuidadoso: “Ainda não sabemos.”

    Lia deu um passo à frente. “Então descubram longe de nós.”

    O homem mais velho, que até então permanecera em silêncio, finalmente falou. Sua voz era baixa, rouca.

    “Já estamos longe de tudo,” disse. “Vocês só parecem menos perdidos.”

    A frase não era acusação. Nem elogio.

    Era constatação.

    Caelus sentiu algo se ajustar dentro de si. Não como dor. Como peso redistribuído.

    “Não nos sigam,” disse novamente.

    Ezra assentiu com sinceridade desconfortável. “Não vamos.”

    “Mentira,” disse Lia.

    Ezra sorriu de novo — pequeno, honesto. “Talvez.”

    Eles se separaram ali.

    Não com despedidas formais. Não com promessas.

    Ezra e os outros se afastaram pelo caminho lateral, andando com a calma deliberada de quem não está sendo expulso — apenas reposicionado.

    Lia observou até que desapareceram completamente entre as pedras.

    “Isso está começando,” disse.

    Barnabé engoliu em seco. “O quê?”

    “Isso,” ela respondeu, apontando com o queixo para o nada. “Gente que não pede. Que só observa. Que decide depois.”

    Caelus permaneceu em silêncio por um tempo mais longo do que o habitual.

    “Eles reconheceram,” disse por fim.

    “Reconheceram o quê?” Barnabé perguntou.

    “Que não sou solução,” respondeu Caelus. “Mas sou fator.”

    Lia fechou os olhos brevemente. “Isso é pior.”

    Eles caminharam por horas depois disso, evitando vilas maiores, passando por trilhas mal usadas, dormindo pouco e mal. O mundo parecia mais atento — não hostil, mas alerta, como um animal que percebe mudança no vento antes de identificar o cheiro.

    No final da tarde, pararam perto de um curso d’água raso. Não para descansar, mas para reorganizar.

    Barnabé lavava as mãos com movimentos repetitivos demais. Lia afiava a faca sem necessidade real. Caelus observava a corrente fraca, tentando não pensar na forma como a Criação reagia a tudo agora — atrasada, fragmentada, como se cada gesto tivesse que atravessar camadas extras antes de produzir efeito.

    “Eles vão voltar,” Barnabé disse.

    “Sim,” respondeu Lia.

    “E outros virão.”

    “Sim.”

    Barnabé olhou para Caelus. “Você sabia que isso ia acontecer.”

    “Eu sabia que podia,” respondeu. “Não que seria assim.”

    “Como é ‘assim’?” Barnabé insistiu.

    Caelus demorou a responder.

    “Não como fé,” disse por fim. “Nem como medo.”

    Lia assentiu lentamente. “Como curiosidade estratégica.”

    “Isso existe?” Barnabé perguntou.

    “Roma chama isso de vigilância,” Lia respondeu. “Templos chamam de discernimento. Pessoas comuns chamam de bom senso tardio.”

    Caelus se ajoelhou perto da água. Tocou-a levemente. Não para alterar. Apenas sentir.

    “Eles não querem milagre,” disse. “Querem entender o custo.”

    Barnabé se aproximou. “E você?”

    Caelus fechou os olhos.

    “Eu quero diminuir,” respondeu. “Mas o mundo só enxerga escala.”

    Naquela noite, não foram os mesmos três.

    Foram cinco.

    Eles não se aproximaram todos de uma vez. Surgiram em intervalos, como se tivessem combinado não parecer grupo — o que, ironicamente, os tornava ainda mais evidentes.

    Um deles era criança. Não mais que doze anos. Sentou-se numa pedra a uma distância respeitosa, fingindo não olhar diretamente.

    Outro trazia um pano enrolado no braço, manchado de sangue antigo.

    Lia levantou-se imediatamente.

    “Não,” disse alto. “Aqui não.”

    Um homem de meia-idade respondeu, calmo demais. “Não viemos pedir.”

    “Então vão embora,” ela disse.

    “Queremos ouvir,” ele respondeu.

    Barnabé respirou fundo. “Ouvir o quê?”

    “Vocês,” disse o homem. “Não ele.”

    Caelus permaneceu sentado.

    Lia hesitou. “Por quê?”

    “Porque ele não fala,” respondeu o homem. “E vocês falam quando ele se cala.”

    A frase a atingiu como um golpe leve, mas preciso.

    Ela se recompôs rápido. “Isso não é convite.”

    “Não,” concordou o homem. “É observação.”

    Caelus levantou-se com cuidado. Sentiu o cansaço responder, mas não ceder.

    “Se ficarem,” disse, “não haverá gesto.”

    O homem assentiu. “Não esperamos.”

    A criança inclinou a cabeça, curiosa.

    A mulher com o pano no braço finalmente falou: “Ele não vai tocar ninguém?”

    “Não,” respondeu Caelus.

    Ela assentiu. “Então tudo bem.”

    Lia soltou o ar em descrença.

    Eles ficaram.

    Não se aproximaram demais. Não fizeram perguntas diretas. Apenas ouviram o som da água, o vento leve, os movimentos pequenos do grupo.

    A presença deles não exigia resposta.

    E isso, de alguma forma, era o que mais desgastava.

    Caelus sentiu algo novo surgir — não pressão para agir, mas uma expectativa diferente, mais silenciosa. Não pediam intervenção. Pediam continuidade.

    Quando amanheceu, eles se foram.

    Sem aviso. Sem agradecimento.

    Deixaram apenas rastros confusos na terra úmida e uma sensação persistente de que algo havia sido confirmado.

    “Eles vão contar,” Barnabé disse.

    “Não como milagre,” Lia respondeu. “Como padrão.”

    Caelus fechou os olhos.

    “E padrões,” murmurou, “são mais perigosos que promessas.”

    Ele se virou para o caminho à frente.

    O mundo já não esperava dele um ato grandioso.

    Esperava coerência.

    E isso exigia mais do que poder.

    Exigia permanência.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota