Capítulo 254 - Ōtsu (1)
O parque permanecia silencioso, embalado apenas pelo som distante do vento atravessando as copas das árvores. O céu começava a perder o azul, manchado por tons alaranjados e cinzentos, como se o dia estivesse sendo lentamente apagado.
Vini Jin continuava de pé, imóvel, o olhar ainda erguido, preso em pensamentos que não pertenciam mais àquele lugar.
— Sempre que você fica assim… — disse uma voz feminina atrás dele — …é porque está conversando com fantasmas.
Vini não se virou de imediato. Apenas respirou fundo.
— Ou lembrando de quem me ensinou a continuar andando — respondeu.
Neom aproximou-se e sentou-se no banco ao lado dele. Seu cabelo escuro balançava suavemente com o vento, e seus olhos carregavam uma mistura rara de doçura e dureza — marcas inevitáveis de quem crescera em Ōtsu.
— Pensando no seu mestre? — perguntou.
Vini assentiu lentamente.
— No Rei de Ōtsu. — Sua voz saiu baixa. — Em Raiga Kurohane.
Neom sorriu. Um sorriso sincero, quase nostálgico.
— Ele era incrível — disse. — Forte, assustador… mas nunca olhava pra gente como lixo. Em Ōtsu, isso já fazia dele algo raro.
Vini fechou a mão marcada pela cicatriz.
— Ele me tirou do chão quando ninguém mais faria isso.
Neom se levantou do banco e esticou os braços.
— Então honre isso. — Olhou para ele por cima do ombro. — Não ficando preso ao passado… mas lembrando de onde tudo começou.
As palavras dela abriram algo dentro dele.
E, sem aviso, o mundo mudou.
[Ōtsu – Anos atrás]
O cheiro de comida quente cortava o ar como uma lâmina invisível. Barracas improvisadas se alinhavam pelas ruas estreitas, vendedores gritavam ofertas, pessoas passavam apressadas demais para notar duas crianças magras observando tudo com olhos famintos.
— É aquela ali — sussurrou Neom, puxando levemente a manga rasgada de Vini. — O cara acabou de tirar os pães do forno.
Vini engoliu em seco.
— Certo… como sempre. Você corre primeiro.
— Ei, eu corro mais rápido que você — retrucou ela, inflando o peito.
— Mas eu distraio melhor — respondeu ele, com um meio sorriso.
Eles trocaram um olhar cúmplice. Não precisavam dizer mais nada.
No instante seguinte, Neom avançou como um raio, puxando dois pães ainda quentes da banca e disparando pela rua. O vendedor gritou imediatamente.
— Ei! Volta aqui, sua ladra!
Vini correu logo atrás, rindo apesar da fome que fazia o estômago doer.
— Pega eles! — alguém gritou.
O caos se instalou.
Os dois cortaram vielas, pularam sobre caixas, desviaram de pessoas. Neom gargalhava enquanto corria, apertando os pães contra o peito.
— Hoje vamos comer bem! — gritou ela.
— Continua correndo! — respondeu Vini.
Eles escalaram um muro baixo e caíram no quintal de uma casa abandonada. De lá, pularam para outra rua.
Mas então—
— Vini!
O pé de Neom escorregou. Ela caiu com força, ralando o joelho no chão áspero. Um dos pães rolou para longe.
Vini parou instantaneamente.
— Neom!
Ela tentou se levantar, mas o joelho falhou.
Passos pesados se aproximavam.
— Ali! — gritou um dos vendedores ambulantes, acompanhado por outros homens.
Vini se colocou imediatamente à frente dela, os braços abertos, o corpo pequeno tremendo, mas firme.
— Não encostem nela — disse, com a voz falha, porém determinada.
Um dos homens riu.
— Olha isso… um pirralho bancando o herói.
O primeiro golpe veio sem aviso.
Vini sentiu o impacto no rosto, o mundo girou, mas ele não caiu. Outro soco veio, depois outro. Ele caiu de joelhos, mas ainda assim abriu os braços novamente, protegendo Neom com o próprio corpo.
— Parem! — ela gritou, tentando puxá-lo.
— Cala a boca! — um deles respondeu, empurrando-a.
Quando uma mão grosseira agarrou o braço de Neom, algo dentro de Vini quebrou.
Ele avançou como um animal encurralado e mordeu com toda a força o pé do agressor.
— AHH! — o homem gritou.
Foi aí que a surra piorou.
Chutes.
Sapos.
Pontapés.
Vini não conseguia mais respirar direito. Sua visão escurecia, mas ele não soltava o braço da irmã de criação.
— Não… toca… nela… — murmurava, entre golpes.
No fim, arrancaram os pães de suas mãos, jogaram-nos longe e o empurraram contra o chão.
— Lixos — disse um deles, cuspindo perto. — Aprendam a ficar no lugar de vocês.
O mundo ficou preto.
A noite caiu sobre Ōtsu como um cobertor frio.
Vini acordou em um beco escuro, o corpo inteiro doendo. Cada respiração era uma lembrança da surra. Ele tentou se mover… e gemeu de dor.
— Vini… — uma voz suave chamou.
Ele virou o rosto.
Neom estava sentada ao lado dele, os olhos vermelhos, segurando seu braço com cuidado.
— Você acordou… — disse ela, aliviada. — Achei que você não ia mais…
Vini tentou sorrir.
— Não… — tossiu. — Eu prometi… que não ia te deixar sozinha.
Ela abaixou a cabeça, lágrimas caindo silenciosamente.
— A culpa foi minha… — sussurrou. — Se eu não tivesse caído—
— Não fala isso — ele interrompeu, com esforço.
Vini levou a mão ao bolso rasgado da calça. Seus dedos tocaram algo.
Ele arregalou levemente os olhos.
— Ei… — murmurou.
— O quê?
Com dificuldade, ele retirou um pequeno pedaço de pão amassado, sujo de poeira… mas intacto.
— Eu escondi esse aqui… antes de correr — disse, estendendo a mão. — Come.
Neom o encarou, incrédula.
— Você… guardou pra mim?
— Claro — respondeu, simples. — Você precisa comer.
Ela segurou o pão com as duas mãos e começou a chorar enquanto comia.
Vini observava em silêncio.
Naquele beco escuro, sentindo fome, dor e frio, algo se formou dentro dele.
Um pensamento claro.
Uma decisão absoluta.
“Eu vou mudar minha vida.”
Ele fechou os olhos por um instante.
“Vou te dar uma vida um milhão de vezes melhor que essa.”
Abriu-os novamente, encarando a noite de Ōtsu.
“Uma vida onde você possa comer pães todos os dias.”
No parque, anos depois, Vini Jin respirou fundo.
Neom estava ao seu lado novamente.
Ōtsu não era apenas um lugar.
Era a origem da fome…
E da promessa que moveria toda a guerra que estava por vir.
…
A noite em Ōtsu nunca era realmente silenciosa.
Mesmo quando as ruas pareciam vazias, havia sempre algo respirando nas sombras: passos distantes, discussões abafadas, o ranger de estruturas velhas prestes a ceder.
Vini permaneceu acordado por muito tempo naquele beco.
O corpo doía a ponto de cada pensamento vir acompanhado de um peso físico. Seu rosto estava inchado, o lábio rasgado pulsava, e o peito ardia sempre que respirava fundo demais. Ainda assim, ele não dormia.
Observava.
Observava a forma como Neom se encolhia contra a parede oposta, comendo devagar o resto do pão, como se temesse que o mundo pudesse arrancá-lo de suas mãos a qualquer segundo. Seus dedos tremiam levemente, e os olhos não paravam de se mover, atentos demais para alguém tão jovem.
Ōtsu ensinava isso cedo demais.
— Você devia dormir — disse ela, após algum tempo, quebrando o silêncio. A voz ainda estava fraca, mas havia firmeza nela. — Se continuar acordado assim, vai piorar.
Vini soltou um meio riso que virou tosse.
— Engraçado… — murmurou. — Sempre fui eu quem dizia isso pra você.
Neom fechou os olhos por um instante, como se aquela simples frase fosse pesada demais. Depois, aproximou-se mais, sentando-se ao lado dele, encostando o ombro no seu.
— Eu fiquei com medo — admitiu, sem olhar diretamente para ele. — Quando você caiu… quando não se mexia…
Vini engoliu em seco.
— Eu ouvi você gritando — disse. — Mesmo quando tudo ficou escuro… eu ouvi.
Ela virou o rosto para ele, surpresa.
— Então… você não desistiu?
Ele negou com a cabeça, devagar.
— Não podia. — Sua voz saiu baixa, mas sólida. — Se eu desistisse… quem ficaria com você?
Neom apertou os lábios. Por alguns segundos, pareceu lutar contra algo dentro de si. Então, finalmente, falou:
— Ōtsu não perdoa quem é fraco. — Olhou para as próprias mãos sujas. — Nem quem é bom.
Vini seguiu o olhar dela.
— Então a gente não vai ser nenhum dos dois.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Vini respirou fundo, sentindo o peito protestar.
— A gente não vai ser fraco… — começou. — Mas também não vai virar como eles.
Neom o encarou, confusa.
— Você acha mesmo que dá pra escolher isso aqui? — perguntou, abrindo os braços e apontando para o beco, para as ruas além dele, para Ōtsu inteira. — Aqui, ou você pisa… ou é pisado.
Vini fechou os punhos.
— Então eu vou aprender a pisar sem virar um monstro.
Ela ficou em silêncio.
O vento passou pelo beco, trazendo o cheiro distante de comida, misturado ao de lixo e ferrugem. Uma provocação cruel.
Neom soltou um suspiro curto.
— Você fala como se fosse fácil.
— Não é — respondeu ele. — Mas eu já decidi.
Ela o observou com mais atenção agora. Não como a criança que corria ao seu lado para roubar comida… mas como alguém tentando enxergar algo além.
— Decidiu o quê, exatamente? — perguntou.
Vini demorou a responder. As palavras precisavam nascer certas.
— Que Ōtsu não vai ser o fim da gente.
O olhar dela vacilou.
— Todo mundo que eu conheci disse isso — murmurou. — Todos acabaram mortos… ou pior.
Vini virou o rosto, encarando o céu quase invisível entre os prédios tortos.
— Então eu vou ser o primeiro a cumprir.
O silêncio voltou, pesado, quase respeitoso.
Algum tempo depois, passos ecoaram na entrada do beco.
Neom se enrijeceu instantaneamente, o corpo reagindo antes da mente. Ela puxou Vini com cuidado, tentando colocá-lo atrás dela, mesmo sabendo que era inútil.
— Fica quieto — sussurrou.
Uma sombra alta se projetou contra a parede.
— Crianças… — disse uma voz grave, calma demais para aquele lugar.
Neom sentiu o estômago gelar.
O homem saiu da escuridão lentamente. Era alto, de ombros largos, vestia um manto escuro gasto pelo tempo. O cabelo longo estava preso de forma simples, e seus olhos… seus olhos eram estranhos. Não frios. Não cruéis. Apenas atentos, como se vissem mais do que deveriam.
Vini forçou o corpo a se mover, colocando-se parcialmente à frente de Neom, mesmo mal conseguindo ficar em pé.
— Se veio terminar o serviço… — murmurou — …vai ter que passar por mim.
O homem ergueu uma sobrancelha.
— Interessante.
Ele se aproximou mais um passo. Neom apertou os dentes, pronta para correr, gritar, morder se fosse preciso.
Mas o ataque nunca veio.
Em vez disso, o homem se agachou diante deles, ficando no mesmo nível.
— Quem fez isso com você? — perguntou, olhando diretamente para Vini.
Vini hesitou.
— Pessoas de Ōtsu — respondeu, por fim.
O homem soltou um breve suspiro.
— Ōtsu cria bem seus filhos… — murmurou. — Sempre com as mãos sujas de sangue.
Neom franziu a testa.
— Vai nos entregar? — perguntou, sem rodeios. — Ou vai bater também?
O homem virou o olhar para ela. Por um segundo, Neom sentiu como se ele pudesse enxergar tudo: a fome, o medo, a raiva contida.
— Não — respondeu ele. — Se eu quisesse isso, vocês não estariam respirando agora.
Vini piscou.
— Então… por quê?
O homem se levantou lentamente.
— Porque eu vi algo raro hoje. — Olhou para Vini. — Alguém que apanha… e ainda assim protege.
Ele deu as costas, caminhando alguns passos para longe, depois parou.
— Se quiser continuar vivo neste lugar… — disse, sem se virar — …me siga amanhã, ao amanhecer. No portão leste.
Neom arregalou os olhos.
— E se não formos?
O homem sorriu de lado, um sorriso quase invisível.
— Então Ōtsu decide por vocês. E Ōtsu nunca escolhe a vida.
Ele desapareceu na escuridão.
O beco voltou a respirar sozinho.
Neom virou-se para Vini, o coração acelerado.
— Você conhece aquele homem?
Vini negou.
— Mas… — disse, sentindo algo estranho se firmar dentro do peito — …acho que ele conhece o que eu quero me tornar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Vini… — chamou, baixo.
— Hm?
— Se isso for perigoso…
Ele a encarou.
— Ōtsu já é perigosa. — Um leve sorriso surgiu, cansado, mas determinado. — Talvez seja hora de aprender a ser mais perigoso que ela.
Neom respirou fundo.
E, pela primeira vez desde que se lembrava, sentiu algo diferente da fome.
Esperança.
Naquela noite, no coração quebrado de Ōtsu, duas crianças deram o primeiro passo para deixar de apenas sobreviver.
Sem saber…
Que aquele homem era Raiga Kurohane.
E que aquele encontro selaria o nascimento de algo que o mundo, anos depois, chamaria de guerra.

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