Capítulo XXXV (35) - Plano de Invasão
— Então, você quer saber meu plano? — perguntei, com uma ponta de ironia.
Mei enxugou o resto das lágrimas com as costas da mão e permaneceu em silêncio.
Inclinei levemente a cabeça para frente.
— No momento, eu estou pensando em desembarcar na ilha, atrair Hua Yuling Kai para uma batalha em campo aberto, e depois matar todos.
— To-todos? — gaguejou ela.
— Não posso deixar testemunhas. É arriscado demais, e ao mesmo tempo, a opção furtiva está fora de cogitação. — Estiquei os braços. — Então, vamos atacar com tudo.
Mei balançou a cabeça, em negação, os olhos arregalados.
— Isso é loucura! Somos dois! Dois contra toda a guarda da cidade, os membros da seita! — Ela se sentou no leito. — Não, não… você pode ter vencido Hua Yuling Jin, mas era um duelo, e agora, você vai estar em território inimigo! Para ter alguma chance, você teria que estar, no mínimo, na etapa de Fundação do Núcleo…
Ela parou no meio da frase, ao refletir sobre suas próprias palavras.
— Como você pretende derrotá-los? Ou você é um louco completo, ou realmente tem um poder oculto… Qual é o seu poder?
Não deveria falar sobre isso, não deveria. Contudo, ela já havia visto uma pequena parcela do meu poder e sabia mais do que deveria sobre mim. Uma explicação superficial não teria muitos riscos no futuro próximo.
— Cartas.
Retirei o baralho do interior do casaco e o mostrei.
— Cartas? — Mei franziu o cenho. — O que você quer dizer com isso?
— Cartas, um baralho. Não sabe o que é isso?
— É claro que eu sei, é que os bêbados usam para se embriagar mais. — Ela cruzou os braços e assumiu uma expressão meio emburrada.
— Quê? — exclamei imediatamente com a afirmação dela. — Não, como assim?
— Ela acha que são cartas de vinho — explicou Lefkó.
— Tipo aquelas que servem em restaurantes chiques?
— Claro que não! — Lefkó deu um pequeno tapa na minha nuca com a ponta da cauda.
Mei ficou congelada por um instante. Então apontou para meu pescoço.
— O que é ela?
— Você já não me perguntou isso? — Cocei a cabeça.
— E você não respondeu.
— Essa é Lefkó. Uma quimera metamorfa com habilidades de veneno da memória.
— Quimera? Mas ela não é uma cobra?
— Não. Ela está na forma de cobra. É diferente.
Ela colocou dois dedos no nariz, olhou para baixo, um tanto frustrada.
— E você quer que eu acredite nisso?
— Não, não me importo se você me acha um mentiroso. — Dei de ombros, ao embaralhar as cartas, e depois guardá-las novamente no meu casaco. — Vamos logo para a parte importante. Qual será a nossa estratégia?
Mei levantou o olhar.
— Você acabou de dizer que pretende matar todo mundo.
— Sim, e daí? Isso não me impede de criar um plano. Mas, se você quiser improvisar, eu improviso sem problemas nenhum.
Ela ficou em silêncio. O olhar desceu até o colo, onde os dedos apertavam o tecido verde do vestido.
— Preciso de algumas informações — falei, ao me aproximar dela. — O que você sabe sobre a ilha?
Mei respirou fundo.
— Bem… acho que não tenho muito a dizer. A ilha é dividida em quatro áreas, separadas por muralhas e portões sucessivos. Todas milenares. É impossível para um mortal atravessá-las à força. Se o que você diz for verdade, meu tio deve estar sendo mantido na prisão da ilha, uma torre na encosta norte, perto dos penhascos.
— Certo… — Comecei a andar pensativo pelo quarto. — Além do porto, existe alguma outra área possível para nós desembarcarmos?
Ela hesitou por um momento. Entretanto, após encontrar meu olhar sério, ela decidiu falar sobre, com a voz um tanto vacilante:
— Existe uma pequena praia numa baía natural. Fica escondida atrás de uma passagem por uma caverna. Eu ia lá às vezes com Hua Yuling Xiuying, quando éramos pequenas.
Finalmente, essa era uma informação realmente útil.
— Por favor, explique melhor — pedi, com genuíno interesse no que Mei poderia me dizer.
— É uma praia de areia branca e fina. As ondas são calmas, quase sempre tranquilas.
Inclinei levemente a cabeça.
— Parece bom demais para ser verdade. Qual é a armadilha?
Mei mordeu o lábio.
— A parte norte da ilha é toda cercada por rochedos pontiagudos, e as tempestades de Shuǐ Tiān Mén criam ondas enormes naquela região. É impossível qualquer embarcação navegar com segurança por ali.
— Nenhuma? Certeza?
Ela assentiu.
— Vamos supor que consigamos desembarcar nessa praia, você conseguirá libertar Jiahao?
— Não! Você é louco!
Suspirei. Parecia que aquele era o único adjetivo que ela tinha para mim.
— Por qual motivo você acha que não consegue?
— Eles certamente colocaram muitos guardas. Não vou conseguir.
Balancei a cabeça.
— Duvido muito. Hua Yuling Kai acha que estamos fugindo. Isso significa que a ilha deve estar relativamente desguarnecida, enquanto a maioria dos membros da seita foi enviada atrás de nós.
— Então qual é o seu plano?
— Eu entro pelo porto e chamo toda a atenção. Enquanto isso, você desembarca nessa praia e solta Jiahao. Simples.
— Simples? — A voz dela subiu um tom. — Você realmente acha que consegue lutar sozinho contra toda a guarda da cidade?
Balancei a cabeça em afirmação.
Mei suspirou profundamente. E sem me olhar nos olhos, ela me perguntou:
— Aquilo no porto, foi você, não foi?
— Tecnicamente.
— Isso é um sim?
— Digamos que foi uma das minhas habilidades, carta número zero, o Louco, receptáculo da habilidade “Mestre das Marionetes” — expliquei para ela, enquanto uma fina corrente de névoa escapava da manga do meu casaco e se dissipava no ar.
— Qual é sua raiz espiritual? — Mei se impressionou com a pequena demonstração.
Fiquei em silêncio, sem entender o questionamento.
— Não me diga que você também não tem uma raiz espiritual?
Eu sorri debochado, sem responder à pergunta.
— Então, você não tem Dantian, raízes espirituais ou meridianos? Nenhum fluxo de Qi? Como você pretende lutar? — Ela começou a balbuciar baixo e negava a ideia com um balançar de cabeça. — Mas eu vi… eu vi você lutar contra Hua Yuling Jin, e você usou alguma arte marcial estranha! Eu tenho certeza!
Cocei a bochecha, e permaneci quieto.
— Como você derrotou ele? Foi uma dessas suas “cartas”? — falou ela. Era perceptível um certo desprezo nas suas palavras para se referir às minhas habilidades.
— Parabéns, você acertou. Quer um prêmio? — Encostei as costas na parede, e levei as mãos para trás da minha cabeça. — Mais alguma dúvida?
— Muitas.
— Uma pena que não vou respondê-las agora. Então, o que acha do meu plano?
Ela não hesitou em seus pensamentos sinceros.
— Suicídio. Não vai dar certo.
— Vamos lá, explique, por favor — perguntei, com genuíno interesse em seus motivos.
Mei cruzou os braços.
— Primeiro: como você pretende que eu desembarque na parte norte da ilha? Segundo: você não vai conseguir distrair todos eles sozinho.
Abri um meio sorriso.
— E quem disse que eu vou lutar sozinho?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você e a sua besta mágica?
— Lefkó vai com você.
— Como? — As duas falaram quase ao mesmo tempo.
— É melhor assim. Lefkó pode te dar suporte, além de garantir uma rota de fuga se algo der errado.
— Se ela vai comigo…
— Eu tenho um exército, não vou atacar sozinho — interrompi, antes de ela me questionar.
Ela soltou uma risada curta, incrédula.
— Ah, claro. E onde exatamente está esse seu exército?
Fiz um sinal de silêncio, ao colocar o dedo indicador na minha boca.
— Vai ser uma pequena surpresa.
— Não confio em você.
Inclinei levemente a cabeça.
— Tivemos toda essa conversa só para você me dizer isso?
Ela respirou fundo.
— Eu não confio nos seus motivos. Mas vou aceitar o seu plano. Não por você… pelo meu tio.
Um meio sorriso surgiu no canto da minha boca.
— Ótimo. Então nos vemos no porto — falei, com uma pequena continência de dois dedos.
Girei a maçaneta e comecei a abrir a porta.
— Aonde você vai?
Olhei por cima do ombro.
— Antes de tudo, preciso reunir algumas informações. Descanse um pouco, quando estiver pronta, venha.
Ao fechar a porta e sair para o corredor, eu escutei um pequeno gemido, seguido por um choro, do lado de dentro do quarto.
— Você não precisa dela, pra que incluí-la no plano? — indagou Lefkó, enquanto nós dois nos distanciávamos do cômodo.
— Ela precisa se sentir um pouco útil.
Fui sincero, se eu podia ajudar, sem atrapalhar os meus planos gerais, então, eu ia retribuir a hospitalidade que recebi da família dela. Nada mais do que uma troca de favores, pelo menos era isso que eu pensava.

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