Índice de Capítulo

    A carroça avançava devagar pela estrada de terra. As rodas rangiam em um ritmo constante, quase preguiçoso. O cavalo soltava vapor pelas narinas, incomodado com o frio da manhã.

    Aisha estava sentada na beirada, uma perna pendendo para fora, a outra dobrada sobre o banco. A armadura leve já não era a mesma de quando saíram de Cervalhion. Couro riscado. Pequenas manchas de sangue seco espalhadas pelas mangas. O tecido escurecido pelo uso constante.

    O cabelo escuro, preso alto, deixava escapar fios soltos que dançavam no vento.

    Ela girava uma adaga curta entre os dedos.

    — Sempre sobra pra mim matar as bestas.

    Kael segurava as rédeas com uma das mãos; a outra descansava relaxada na lateral da carroça. As roupas dele permaneciam quase intactas. Túnica escura limpa, tecido firme, botas apenas marcadas pela poeira da estrada.

    O cabelo preto caía alinhado sobre a testa, como se nem o vento ousasse bagunçá-lo.

    — O quê? Queria que eu fosse lutar toda vez? — respondeu, sem olhar para ela.

    O tom era leve. Familiar.

    Aisha estreitou os olhos.

    — Não é isso.

    — Tá. É exatamente isso.

    Ela se virou de frente para ele.

    — Eu só queria ver você lutando um pouco.

    Kael deixou escapar um riso baixo.

    — Espere nunca precisar ver.

    Um meio sorriso curvou o canto da boca dele.

    Ela revirou os olhos, mas o próprio sorriso veio antes que pudesse impedir.

    O vento soprou mais forte.

    Aisha trocou a adaga pela espada curta, girando-a entre os dedos com naturalidade.

    — Ainda está pensando no que falei?

    O sorriso dele diminuiu, mas não desapareceu de imediato.

    — Um pouco.

    — Eu já te contei tudo.

    — Eu sei.

    Ela inclinou a cabeça.

    — Você acredita em mim?

    Kael ajustou levemente a postura na carroça.

    — Você me convenceu quando começou a descrever o limbo.

    — Então por que ficou agindo como se não acreditasse?

    Ele agitou as rédeas de leve.

    — Só estava te zoando um pouco.

    Ela fez menção de protestar, mas ele já estava olhando para a estrada outra vez.

    Anos defendendo o leste.
    Apenas bestas.
    Sempre bestas.

    Nenhum sinal de gente tentando atravessar.

    Deviam existir apenas bestas além da barreira.

    Mas se não fosse o caso…

    Se existissem pessoas além dela…

    O pensamento ficou suspenso.

    Aisha inclinou o corpo para frente, os olhos fixos na mata que contornava os campos.

    — Está muito quieto.

    O cavalo diminuiu o ritmo por conta própria.

    Nenhum pássaro cruzava o céu.
    Nenhum som distante de machado.
    Nenhuma voz.
    Nenhum metal batendo.

    A curva da colina escondia a vila logo adiante.

    A carroça contornou a colina.

    A vila surgiu abaixo.

    Pequena. Rural. Construções de madeira erguidas sobre chão de terra batida, dispostas em formato oval. No centro, o poço antigo marcava o coração do lugar, cercado por um círculo irregular de pegadas endurecidas pelo tempo.

    As casas se voltavam para dentro, como se todas vigiassem umas às outras.

    Próxima ao poço erguia-se a maior construção da vila.

    Base de pedra, paredes de madeira reforçada. O jardim lateral ainda delimitado por pequenas cercas.

    Nada se movia.

    Portas fechadas. Algumas abertas.

    Nenhuma fumaça saindo das chaminés.

    — Isso é estranho — Aisha desceu da carroça antes que ela parasse por completo. — Pode ter sido um ataque?

    As botas tocaram o chão seco.

    Kael também desceu.

    O vento atravessava o oval da vila levantando poeira fina pelo centro, passando pelo poço, subindo pelas fachadas de madeira. Um pano esquecido no varal balançava devagar.

    Ele caminhou até a primeira casa.

    Empurrou a porta.

    A mesa estava posta. Uma caneca caída ao lado da cadeira. Pão ainda sobre o prato.

    Nenhuma marca de garra.

    Nenhum móvel quebrado.

    Nenhum sangue.

    Ele saiu.

    — Não acho que tenha sido um ataque.

    Aisha olhava para a rua vazia.

    Kael analisou o chão. A terra estava intacta. Sem sinais de confronto. Sem pegadas em desordem.

    — Pode ter sido evacuação — ela sugeriu. — Talvez tenham recebido o aviso sobre as bestas.

    Kael não respondeu.

    Virou-se e seguiu pela rua lateral.

    A casa grande ficava no fim do caminho.

    O jardim permanecia de pé. As pequenas estacas delimitando a horta ainda alinhadas. Uma bola de pano esquecida perto da cerca.

    Ele parou diante da porta.

    Empurrou.

    A madeira rangeu ao abrir.

    O interior estava limpo.

    O salão principal era amplo, sustentado por vigas grossas apoiadas sobre base de pedra. Uma lareira grande ocupava a parede do fundo. Bancos longos cercavam uma mesa extensa, marcada por cortes de faca e queimaduras antigas.

    Nenhuma poeira acumulada.

    Nenhum sinal de luta.

    Aisha entrou devagar.

    À esquerda, uma estante improvisada ocupava quase toda a parede. Livros empilhados de forma irregular. Alguns abertos, outros com pedaços de tecido marcando páginas.

    Ela passou os dedos pelas lombadas.

    — Eles gostavam de ler.

    Kael caminhou até a cozinha.

    Panelas penduradas. Tigelas organizadas. Um saco de grãos aberto sobre a bancada.

    Intacto.

    Ele fechou o saco e o guardou na dispensa.

    Aisha seguiu pelo corredor lateral.

    O primeiro quarto tinha três camas pequenas. Dois cobertores dobrados com cuidado; o terceiro ainda estendido até a armação. Um boneco de madeira repousava sobre o travesseiro.

    Ela entrou no segundo.

    Mais camas.

    Espadas de treino encostadas na parede.

    Todas ali.

    O terceiro quarto era menor.

    A cama ficava junto à janela fechada. Sobre a mesa, um mapa antigo aberto, preso por uma adaga cravada na madeira. Marcas vermelhas circulavam regiões distantes.

    Kael abriu a janela.

    O vento entrou devagar.

    Aisha tocou o encosto da cadeira.

    — Essa é sua casa.

    Ele permaneceu parado na porta.

    — Era.

    Ela observou o mapa.

    — É grande demais pra uma vila pequena.

    Ele entrou no quarto.

    — Eles precisavam de espaço.

    Aisha voltou ao corredor. Entre os livros, pequenos entalhes de madeira — animais mal-acabados, mãos inexperientes tentando forma.

    — Você ensinava eles aqui?

    Kael pegou uma espada de treino. Pesou-a na mão.

    — Tentava.

    O vento moveu levemente o mapa sobre a mesa.

    Aisha retornou ao salão.

    A mesa grande. Os bancos. As marcas de uso.

    Vida interrompida.

    — Talvez tenham saído às pressas.

    Kael saiu do quarto.

    O olhar percorreu o salão inteiro.

    Nenhuma arrumação para partida.
    Nenhum objeto essencial levado.
    Nenhum vestígio de despedida.

    — Espero que sim.

    Ele caminhou até a porta.

    Aisha o seguiu.

    Do lado de fora, o poço permanecia imóvel no centro do oval da vila.

    Kael não olhou para trás.

    Seguiu até a carroça.

    Ajoelhou-se ao lado da roda traseira. Passou a mão sob a madeira inferior, pressionando um ponto específico.

    Um compartimento oculto se abriu com um estalo baixo.

    Ele retirou duas peças alongadas, escuras, veios avermelhados desenhados pela superfície.

    Encaixou as partes.

    A mana se acumulou na palma da mão.

    O ar ondulou com calor.

    As extremidades se fundiram sob o brilho vermelho-amarelado. O metal selou a junção em um único eixo perfeito.

    Quando o fogo se dissipou, a lança estava inteira.

    Kael a girou uma vez.

    O som cortou o ar vazio da vila.

    Desta vez, o silêncio pareceu recuar.

    Kael parou diante do poço.

    A borda de pedra estava intacta. Nenhuma rachadura. Nenhuma marca visível.

    Ele passou a mão pela superfície fria.

    — Se fosse ataque… — murmurou, mais para si do que para Aisha — eles saberiam onde se esconder.

    Aisha observou.

    — Onde?

    Kael não respondeu.

    Retirou um pedaço de madeira da carroça. A chama surgiu na ponta dos dedos, pequena, controlada. Ele encostou o fogo na madeira até que ela começasse a arder.

    Inclinou-se e soltou.

    A tocha improvisada desceu girando.

    A luz revelou as paredes internas do poço.

    Pedra.

    Pedra.

    Pedra.

    Escuro demais.

    A chama tocou a água e se apagou num estalo abafado.

    A escuridão engoliu tudo novamente.

    Aisha franziu o cenho.

    — Que estranho… normalmente dá pra ver o fundo de um poço.

    Kael manteve os olhos no breu.

    — Eu construí esse para que não vissem.

    Ele fincou a lança no chão ao lado da borda, firme o suficiente para sustentar peso.

    Estendeu a mão.

    — A adaga.

    Aisha entregou.

    Kael subiu na borda e saltou.

    O impacto na água ecoou oco pelas paredes de pedra.

    Lá embaixo, o frio subiu pelo corpo dele instantaneamente.

    A escuridão ali embaixo era diferente da superfície mais espessa.

    Ele emergiu devagar, respirando baixo para não amplificar o som.

    Tateou a parede interna.

    Pedra regular.

    Depois irregular.

    Os dedos encontraram uma fenda quase invisível.

    Ele mergulhou.

    A passagem era estreita e completamente submersa. Pedra raspando nos ombros. A água fria comprimindo o peito.

    Então a abertura.

    Kael emergiu em um espaço fechado.

    O teto era baixo. O ar ali era úmido, denso, com cheiro de pedra e mofo.

    Ele caminhou calmamente para fora da água.

    Uma escadaria talhada na rocha subia em espiral curta até uma porta de metal.

    Grossa.

    Reforçada.

    Como a entrada de um bunker.

    Kael subiu devagar.

    Antes mesmo de tocar a porta, viu.

    Manchas escuras espalhadas pelo metal.

    Secas.

    Sangue.

    Não respingos caóticos.

    Marcas arrastadas.

    Como se alguém tivesse apoiado o corpo ali.

    A respiração dele ficou mais controlada.

    A porta não possuía maçaneta externa. Era feita para ser trancada por dentro e permanecer selada. A ideia era simples: uma vez fechada, ninguém do lado de fora entraria.

    Mas ele não confiava apenas na teoria.

    Havia uma falha intencional no desenho.

    Caso houvesse uma necessidade.

    Kael bateu na porta.

    Uma vez.

    O som ecoou pelo espaço de pedra.

    Esperou.

    Silêncio.

    Bateu novamente.

    — Abram.

    Nada.

    Nenhum movimento. Nenhuma resposta.

    Kael encostou a testa brevemente no metal frio.

    Depois posicionou as mãos nas laterais, sobre as dobradiças embutidas.

    Concentrou mana.

    O calor começou baixo, quase invisível. A superfície metálica escureceu sob a temperatura crescente.

    O cheiro de ferro aquecido tomou o ar.

    Ele manteve a pressão. Por longos segundos.

    Então ouviu.

    Um estalo interno.

    Algo cedendo.

    Mais calor.

    Outro som, uma fissura partindo por dentro.

    Kael segurou a borda e puxou.

    O metal resistiu por um instante.

    Depois cedeu.

    A porta abriu para dentro.

    O espaço era amplo.

    Maior do que o exterior sugeria.

    Pedra reforçada. Suportes de madeira. Prateleiras organizadas ao longo das paredes. Barris de água lacrados. Sacos de grãos. Cestos de raízes secas.

    Em uma área mais úmida, pequenos canteiros improvisados onde cogumelos comestíveis cresciam sob luz refletida por cristais incrustados na parede.

    Era um abrigo feito para durar.

    Trinta pessoas caberiam ali com espaço suficiente para dormir, se mover, esperar.

    O ar estava parado.

    Pesado.

    E silencioso demais.

    Kael deu um passo.

    Depois outro.

    — Crianças. — Ele chamou olhando os arredores.

    Nenhum movimento.

    Foi quando ele viu.

    No centro do espaço.

    Caída sobre a pedra.

    O corpo estava de lado.

    Os cabelos espalhados pelo chão.

    Abaixo dela, uma poça escura já seca, impregnada na pedra.

    A túnica rasgada na altura do abdômen.

    Kael parou.

    O abrigo que ele construiu para proteger.

    Agora era uma tumba.

    Ele se aproximou do corpo.

    Ajoelhou-se.

    A perfuração atravessara o abdômen de lado. O tecido ao redor estava rasgado, mas não por garras, era um golpe direto, profundo.

    Sangue seco marcava o trajeto desde a entrada do abrigo até onde ela caiu.

    Ela conseguiu entrar.

    Conseguiu fechar a porta.

    Kael seguiu o rastro com os olhos.

    A trilha começava próxima à escada.

    Ela pulou no poço já ferida.

    Cada passo mais pesado que o anterior.

    Ele tocou o metal da porta por dentro.

    As marcas estavam do lado externo.

    O aço havia sido pressionado para dentro.

    Algo tentou arrombar.

    Com força suficiente para deformar metal reforçado.

    Mas não conseguiu.

    Ela selou a entrada.

    E pagou o preço depois.

    Kael ficou imóvel por um instante.

    Não havia marcas de combate ali dentro.

    Nenhum sinal de invasão.

    O abrigo cumpriu sua função.

    Mas… tarde demais para ela.

    Ele se levantou.

    Caminhou pelo espaço devagar.

    Barris fechados. Sacos intactos. Cogumelos ainda crescendo.

    Vida planejada para durar semanas.

    Ele parou, deixando apenas o som da respiração tomar o ambiente.

    E então…

    Um som.

    Baixo.

    Madeira raspando.

    Kael virou o rosto.

    O ruído vinha da área dos barris.

    Ele se moveu sem pressa.

    Parando diante da pilha.

    Esperou.

    O som veio de novo. Pequeno. Controlado demais para ser acaso.

    Ele tocou o primeiro barril.

    Vazio.

    O segundo.

    Nada.

    No terceiro, a tampa estava levemente desalinhada.

    Quase invisível.

    Kael segurou a borda e levantou devagar.

    Dois olhos o encararam da escuridão.

    A menina estava encolhida lá dentro, os joelhos contra o peito, o corpo rígido de tanto tempo imóvel.

    Ela abriu a boca.

    Nenhum som saiu.

    Ela o reconheceu.

    O medo nos olhos vacilou.

    Kael agachou-se.

    A mão dele parou um instante antes de tocar os cabelos dela.

    — Helena — Falou baixo — Estou aqui.

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