O silêncio que caiu sobre a arena não era natural.

    Era pesado. Denso. Como se o próprio ar estivesse aguardando algo que não deveria acontecer.

    No centro da arena, Noah Kraus ergueu lentamente as mãos. As duas mini-foices esqueléticas ainda pulsavam com aquela aura roxa de morte — sombras líquidas escorrendo pelas lâminas, como se a própria arma estivesse viva.

    Então ele abriu a mão.

    As foices não caíram.

    Elas se desfizeram.

    Partículas negras começaram a se soltar das lâminas, virando poeira sombria que flutuava no ar como cinzas de um incêndio invisível. Em poucos segundos, não restava absolutamente nada.

    A arma mítica… havia simplesmente desaparecido.

    Um murmúrio percorreu a arquibancada.

    — Ele… guardou?
    — Não… aquilo virou pó…
    — Que tipo de magia é essa?!

    Noah estalou os dedos lentamente e fechou os punhos.

    — Para essa luta ser justa… — ele disse, em tom calmo — eu vou usar só isso aqui.

    Levantou os punhos.

    O estádio inteiro congelou.

    — Ele tá brincando… — alguém sussurrou.
    — Lutar contra um assassino Rank B+… de mãos vazias?!
    — Ele é insano?!

    Hans, na lateral da arena, apertou o punho com força.

    Por que você não acaba logo com isso, Noah…?
    Você já poderia ter vencido…

    Felix sentiu o sangue ferver.

    As veias elétricas sob sua pele pulsavam em azul intenso. Seus músculos ainda estavam inchados pela Técnica do Raio da Monstrificação, e o ar ao redor de seu corpo estalava com descargas intermitentes.

    Ele deu um passo à frente.

    — Você está me insultando… — rosnou. — Eu ativei uma técnica que pode destruir quarteirões inteiros… e você guarda suas armas?

    Noah apenas inclinou levemente a cabeça.

    — Não é um insulto.
    — É uma escolha.

    Felix cerrou os dentes.

    — Então lute a sério, Ceifador. — Ele abriu os braços e eletricidade explodiu ao redor. — Ou você vai sofrer as consequências.

    Noah caminhou lentamente para frente, os passos ecoando pela areia da arena.

    — Eu luto a sério… — ele disse. — Com uma condição.

    Felix estreitou os olhos.

    — Qual?

    Noah ergueu o olhar, e por um breve instante…
    algo antigo, frio e infinito brilhou dentro de suas pupilas.

    — Se você conseguir me acertar um golpe que tire sangue…
    — eu paro de brincar.

    Um silêncio mortal caiu.

    — Ele tá… provocando?
    — Ele quer deixar o Felix acertar primeiro?!
    — Isso é loucura!

    Felix sorriu — um sorriso torto, elétrico, quase selvagem.

    — Então eu vou te fazer sangrar… — disse ele, e seus pés rasparam o chão.

    O ar explodiu.

    Felix avançou em um borrão azul.

    A areia da arena foi arrancada do chão, e uma trilha de faíscas marcou o caminho do assassino enquanto ele fechava a distância como um relâmpago humano.

    Noah não recuou.

    Não desviou.

    Ele apenas ergueu o braço.

    O punho fechou no ar.

    — Agora… — murmurou.

    A luta recomeçava.

    E desta vez…
    não era mais um jogo.

    Mas algo muito mais perigoso estava prestes a nascer.

    O impacto não veio primeiro.

    Veio o som.

    Um estalo profundo, como se o próprio céu tivesse sido rachado ao meio, ecoou por toda a arena quando o punho de Noah cortou o ar.

    BOOOM—!

    Uma muralha invisível explodiu à frente dele.

    A areia do chão foi arrancada como se um furacão tivesse passado, formando uma cratera de quase três metros de largura. O vento gerado pelo soco jogou espectadores das primeiras fileiras para trás, e bandeiras nos mastros se rasgaram como papel molhado.

    — O… o ar…
    — ELE QUEBROU O AR?!

    Felix sentiu o choque atravessar seu corpo antes mesmo de perceber o golpe.

    Ele se lançou para o lado por puro instinto. Mesmo assim, o impacto invisível passou a centímetros de seu torso e rasgou sua capa ao meio, lançando o tecido em fragmentos pelo campo.

    Se eu tivesse demorado meio segundo…
    Eu estaria morto.

    Noah abaixou lentamente o braço, observando a distorção que ainda tremulava no espaço à sua frente — o ar estava literalmente ondulando, como a superfície de um lago após uma pedra ser arremessada.

    — Isso não é força… — murmurou um dos magos. — Isso é violação física da realidade…

    Hans sentiu um frio descer pela espinha.

    Ele está quebrando as leis do mundo… só com o corpo.

    Felix pousou rolando, os joelhos marcando sulcos profundos na areia. Ele respirava pesado, mas seus olhos estavam em chamas — não de medo, mas de fome de combate.

    — Então é assim… — ele sorriu. — Agora eu entendo.

    Ele abriu os braços.

    O trovão explodiu.

    Descargas elétricas rasgaram o céu acima da arena, convergindo diretamente para o corpo de Felix. Relâmpagos se conectaram ao seu peito, às pernas, aos ombros — entrando dentro dele.

    O cheiro de ozônio queimou o ar.

    Seus músculos se expandiram, veias saltaram como cabos de aço, e rachaduras elétricas se espalharam por sua pele.

    — RAIO DA MONSTRIFICAÇÃO:
    — FORMA DE COMBATE — GARRAS DO TROVÃO!

    Das mãos de Felix, a eletricidade se solidificou.

    Garras longas, curvas, brilhando em azul vivo, surgiram como extensões do próprio osso. Elas estalavam, cortavam o ar e emitiam um som agudo, como lâminas afiadas vibrando.

    — Ele criou… lâminas de raio?!
    — Aquilo é uma técnica de guerra, não de teste!

    Felix cravou os pés no chão.

    — Você quer sentir um golpe que tire seu sangue?
    — Então prepare-se.

    Ele desapareceu.

    Noah girou o corpo por reflexo.

    CRAAASH—!

    As garras atingiram seu ombro em cheio.

    Faíscas explodiram, a arena tremeu e um clarão cegou todos por um segundo.

    — ACERTOU!
    — ELE ACERTOU!

    Quando a luz cessou, todos prenderam a respiração.

    Noah estava de pé.

    Imóvel.

    A camisa estava chamuscada.

    A pele… intacta.

    Nem um arranhão.

    Nenhuma gota de sangue.

    Felix recuou dois passos, incrédulo.

    — O quê…?

    Ele encarou suas próprias mãos, ainda envoltas em eletricidade, depois voltou os olhos para Noah.

    — Eu… acertei em cheio…

    Noah olhou para o próprio ombro, passou os dedos lentamente pelo local atingido e depois levantou o olhar.

    — Bom golpe.

    O sorriso que surgiu em seu rosto era calmo…
    e absolutamente aterrador.

    Então ele avançou.

    Não correu.

    Ele apenas pisou.

    O chão explodiu.

    No segundo seguinte, Felix sentiu algo esmagar o ar ao redor de seu peito — um impacto invisível o arremessou para trás como um projétil, fazendo seu corpo ricochetear pela arena antes de deslizar, abrindo um rastro profundo na areia.

    — Ele… nem tocou…
    — FOI A PRESSÃO DO SOCO!

    Felix se levantou ofegante.

    Mas não caiu.

    A eletricidade voltou a se espalhar por seu corpo.

    Ele tocou o próprio peito, e a energia percorreu seus músculos de dentro para fora.

    Estímulo neural forçado. Regeneração acelerada. Reforço muscular.

    — Ele… está se curando com o próprio raio… — murmurou um curador.

    Os músculos de Felix se tornaram ainda maiores.

    Seus olhos brilharam em azul incandescente.

    — Então… — ele sussurrou, com um sorriso selvagem — isso vai ser divertido.

    Ele ergueu as garras, agora ainda mais longas, e o ar começou a vibrar ao redor dele.

    Noah, por sua vez, apenas inclinou levemente a cabeça.

    — Continue tentando.

    A arena inteira sabia.

    A luta…
    estava apenas entrando em seu verdadeiro início.

    Mas…

    Algo estava errado.

    Não era medo.
    Não era choque.
    Não era apenas espanto.

    A arquibancada começou a sentir desconforto.

    Alguns espectadores franziram a testa. Outros se inclinaram para frente. Um dos magos veteranos da Scarface levou a mão ao peito, como se tentasse ouvir algo que ninguém mais escutava.

    — Vocês… — murmurou ele — estão sentindo isso também?

    Hans estreitou os olhos.

    Noah estava parado no centro da arena, observando Felix reunir ainda mais eletricidade ao redor do corpo.

    Mas… o Ceifador parecia… diferente.

    Seu corpo tremia.

    Não como quem sente medo.

    Mas como quem segura dor.

    Por um breve segundo, Noah cerrou o maxilar.

    Depois soltou lentamente o ar pelos lábios.

    — Ele… está sentindo dor? — alguém cochichou.
    — Mas o Felix mal consegue tocá-lo…

    Uma aura roxa, quase invisível, começou a se expandir ao redor de Noah. Não era violenta. Não explodia.

    Ela crescia.

    Como uma sombra viva, pulsando em ondas suaves que iam ficando mais largas, mais densas… mais antigas.

    — A aura dele está… aumentando… — murmurou Liselotte, a necromante.

    Felix também percebeu.

    — Você tá escondendo alguma coisa, Ceifador… — rosnou. — Seu corpo não tá reagindo como alguém que só está lutando aqui.

    Noah não respondeu.

    Ele levou discretamente a mão ao peito por um instante.

    Uma pontada atravessou seu corpo.

    Não vinha da arena.

    Vinha de muito longe.

    Algumas horas antes

    Noah estava em sua nova moradia, sentado na cama, olhando para o teto.

    A sala estava silenciosa.

    — Sistema — ele murmurou.

    [Sim, Jogador Noah Kraus.]

    — Meus mortos… — ele hesitou — eles podem cumprir missões para mim enquanto eu não estou presente?

    Houve uma breve pausa.

    [Sim.]

    [Mortos invocados podem cumprir missões simples de limpeza, caça e extermínio de entidades sem comandantes.]

    [Experiência, memórias e novos mortos adquiridos serão transferidos diretamente ao Jogador.]

    Noah fechou lentamente os olhos.

    — Mesmo… se eu estiver lutando em outro lugar?

    [Sim.]

    [As memórias e heranças serão transmitidas automaticamente.]

    Ele respirou fundo.

    — Então… não importa onde eu esteja…

    [Seu exército nunca para.]

    Presente

    Um arrepio percorreu a espinha de Hans.

    Noah cerrou os dentes por um instante.

    Uma imagem atravessou sua mente como um relâmpago:

    — Um goblin sendo decapitado em uma estrada florestal.
    — Um lobo infernal sendo esmagado por sombras.
    — Um grupo de bandidos sendo rasgado por garras negras.

    Cada morte vinha com um impacto invisível em seu cérebro.

    Cada morte trazia memórias, sensações, gritos, medo, desespero.

    Cada morte…
    era absorvida por Noah.

    Ele inspirou lentamente.

    Sua aura roxa cresceu mais um passo.

    Felix franziu a testa.

    — Você tá ficando mais pesado… — murmurou. — O ar ao seu redor… tá ficando mais denso…

    Um dos feiticeiros engoliu em seco.

    — Não é densidade mágica… — ele sussurrou. — É presença de morte.

    Noah abriu lentamente os olhos.

    Seu olhar estava mais frio.

    Mais profundo.

    Mais… antigo.

    Ele ergueu o punho.

    — Vamos continuar, Felix.

    Felix sorriu, mas dessa vez havia um traço de tensão em seus olhos.

    — Então você também está crescendo durante a luta…

    A arena começou a sentir.

    Não era só força.

    Não era só poder.

    Era a sensação de que…algo que nunca dorme estava marchando pelo mundo.

    E Noah…
    era apenas o centro desse exército invisível.

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