A chuva cai com fúria, pesada e impiedosa, transformando o solo em um manto escorregadio de lama e sangue. O ar vibra com o cheiro metálico da morte. Em meio aos destroços da batalha, rostos pálidos e olhos esvaziados de esperança encaram o nada — moldados pelo terror, pela perda e pela certeza de que nada será como antes.

    Corpos dilacerados jazem espalhados como bonecos quebrados. A lama encharcada de sangue é a única testemunha do preço pago. Delgron, o deus da Ruína, o flagelo de Zendrut, foi finalmente derrotado. Mas com que custo?

    Estou caído. A lama fria se mistura ao meu próprio sangue enquanto meus sentidos se esvaem, um a um. Sempre lutei para proteger os que amava… para cumprir a promessa da vingança. Agora, tudo o que resta sou eu, à beira do esquecimento, prestes a mergulhar no sono eterno.

    Alguém se aproxima — braços delicados, porém firmes, me envolvem com urgência. Mesmo com os ouvidos tomados por zumbidos, reconheço o som abafado de um choro contido. Seu corpo treme, mas não é por medo. É por mim.

    Freya.

    Os cabelos loiros, trançados com precisão quase sagrada, repousam sobre os ombros marcados pela guerra. Os olhos — azuis como o céu antes da tempestade — me encaram com uma dor que me atravessa mais que qualquer lâmina. A armadura dourada que veste reluz, mesmo sob o céu cinzento, e suas asas brancas — agora sujas de lama e sangue — ainda emanam uma beleza intocada. Sua espada repousa cravada ao meu lado, como se o próprio destino tivesse selado aquele momento.

    — Não… não você… — ela murmura, com a voz embargada. — Você prometeu… você disse que voltaria.

    Minha visão se desfaz em vultos. Ao redor, vejo figuras se ajoelhando, formando um círculo de desespero e reverência. Gritam algo em uníssono — um lamento? Um cântico? — mas para mim, tudo parece distante… desconexo… como ecos de um mundo que já não me pertence.

    — Me desculpe… Freya. — Minha voz é apenas um sussurro áspero, entrecortado pelo gosto amargo do sangue que preenche minha garganta. Falar tornou-se um esforço hercúleo. Cada palavra arranca um pedaço de mim.

    Ela aperta minha mão com força, os olhos marejados, lágrimas se misturando à chuva em seu rosto. Tenta dizer algo, mas os lábios dela tremem. Ela me puxa contra o peito como se pudesse impedir que eu fosse… como se amor bastasse para vencer a morte.

    Mas o mundo silencia. Tudo silencia.

    O vento gelado acaricia minha pele moribunda, e a chuva continua, insistente, dissolvendo a fronteira entre lama e sangue. O cheiro dos mortos me envolve, e suas presenças invisíveis parecem me chamar. Tudo está tão frio.

    Aos poucos, a consciência se dissolve… como brasa sendo engolida pelo vento. Me vejo sendo arrastado rumo a uma vastidão de sombras, onde tudo é silêncio e esquecimento. Meu único arrependimento? Não ter arrancado o coração de Delgron com minhas próprias mãos.

    Tanto ódio, tantos anos… e, no fim, fui apenas mais um corpo na lama, mais um nome apagado pelo tempo. Que belo juramento o de uma criança — ingênuo, tolo… inútil. Se eu ao menos tivesse sido forte como Freya, astuto como Damari ou implacável como Rahjin, talvez pudesse ter feito a diferença. Talvez ainda estivesse respirando o ar corrompido de Zendrut.

    Mas agora, só resta esse lugar.

    Um não-lugar.

    Um breu espesso, onde minha consciência vaga como névoa à deriva. Não há dor, nem corpo, nem chão. Apenas a sensação sufocante de estar preso em um limbo eterno. É como acordar no meio de uma paralisia do sono com um Hailith salivando sobre você — garras de bronze cravejadas nas laterais da cama, dentes pontiagudos de prata babando em expectativa. E claro, aquele maldito rabo de osso… indo direto para o seu olho esquerdo, só para saborear como petisco.

    Mas enfim… papo para outra hora.

    Aqui, onde o tempo não se move e o espaço não tem forma, o primeiro som que rompe o silêncio absoluto é um assobio — distante, dissonante, quase melódico. Após um instante de paz falsa, ele retorna… mais próximo. Mais nítido.

    — Ora… — diz uma voz que não deveria existir. — Um humano… perdido por aqui. — Aguda e dissonante, soa como se três homens de vozes graves falassem em uníssono, criando um timbre perturbador.

    Um estalo de dedos reverbera como um trovão abafado, e a escuridão começa a se desfazer. Aos poucos, o vazio dá lugar a um branco absoluto, ofuscante, sem céu ou chão — um plano infindável, frio e indiferente.

    — Uma alma extraviada nas bordas do vazio — diz a voz outra vez, agora sussurrando por todos os lados ao mesmo tempo. — Que intrigante… como isso é possível?

    Ela desaparece, mas ainda parece respirar dentro do próprio espaço. Adiante, uma mancha escura rasga o branco imaculado. Um borrão que caminha lentamente em minha direção, expandindo uma sombra monstruosa a cada passo. Vem cantarolando uma canção torta, repleta de notas longas e sons que fazem a pele arrepiar — como se cada sílaba tivesse sido moldada para corromper o silêncio. É um som que já ouvi antes, entre gritos e aço frio, nas trincheiras da guerra. Algo que se instala nos ossos e não vai embora.

    Ao fitá-lo, entendo: aquilo é morte. Não como conceito. Mas como entidade. Presença. Sentença.

    — Como isso aconteceu? — A criatura pergunta, mesmo distante. Mas sua voz… sua voz ecoa ao lado do meu ouvido, como um sussurro íntimo demais para não ser real.

    — Quem… — Tento perguntar, mas minha voz vacila, engasgada em um silêncio denso como óleo. Ergo uma sobrancelha, cauteloso, enquanto tento decifrar aquela figura à distância. — Quem é…

    — Quem sou eu? Onde você está? — A criatura completa antes que eu possa terminar. Suas palavras ecoam como aço raspando em pedra. — Perguntas comuns… repetidas à exaustão pelas almas que se perdem neste lugar.

    Em um piscar de olhos — não, menos que isso — ela está diante de mim. Não caminha. Apenas surge, como se o tempo entre os passos tivesse sido arrancado da existência. Sua forma parece instável, composta por estilhaços flutuantes que se quebram e se recompõem sem parar, como vidro sendo destruído e forjado eternamente.

    — Mas… — continua — já faz muito tempo desde o último. Muito tempo mesmo.

    Seus olhos não brilham. Não têm cor, nem expressão. Apenas fendas ocas com pálpebras brancas, tão vazias quanto este plano que me engole. E, mesmo assim, sinto que ele me enxerga por dentro, como se visse não apenas o que fui… mas tudo o que poderia ter sido.

    — Humano… quem é você?

    As palavras reverberam com violência, repulsivas, como se minha alma tentasse se encolher ao ouvi-las. A voz dele é feita de ecos, camadas de tons impossíveis, como se o próprio espaço falasse comigo.

    Ele estende a mão. Longa, fina, com dedos encurvados terminando em unhas afiadas, negras como carvão antigo. Com uma lentidão solene, encosta a ponta do indicador na minha testa. E então tudo desaba.

    Minha vida se desenrola diante de mim em um só fôlego — infância, promessas feitas sob o luar de Zendrut, risos esquecidos, batalhas vencidas e perdidas, rostos que amei, traí, defendi. Cada escolha, cada arrependimento. Tudo se transforma em um fluxo desordenado de lembranças queimando como páginas de um livro jogado ao fogo.

    — Impressionante… Arial Blake. — A criatura pronuncia meu nome com um prazer quase cruel. Sua boca se abre em um sorriso antinatural, largo demais, como se sua carne não obedecesse às regras da criação.

    Um arrepio percorre minha espinha — ou o que resta dela. Sua presença me afoga, mais pesada que a de Freya em seu auge, mais ameaçadora que a lâmina de Damari ou a fúria de Rahjin. Eles eram os três escudos de Yuhai, os guardiões reais que enfrentaram monstros e reis-dragões sem pestanejar.

    Mas isso… isso é diferente.

    Só senti algo parecido uma vez. Quando encarei os olhos de Delgron, o deus da ruína. E mesmo ele — o demônio que consumiu reinos inteiros com um sopro — não chegava nem perto daquilo que está agora diante de mim.

    A criatura permanece imóvel, ainda com o dedo estendido. O toque sumiu, mas o calor — ou melhor, a marca que deixou — permanece latejando em minha testa como se tivesse gravado meu nome na carne da alma.

    — Arial Blake… — ela repete, quase como se estivesse saboreando o som. — Filho da guerra, nascido sob o eclipse de sangue. Jurou vingança antes mesmo de aprender a segurar uma espada.

    Ela se aproxima mais, embora já estivesse a poucos centímetros. Seu rosto se divide em fragmentos minúsculos, como uma máscara rachada por dentro, e cada rachadura brilha por um breve segundo com memórias minhas — cenas, vozes, gritos — tudo aquilo que eu acreditava ter deixado no mundo dos vivos.

    — Você não devia estar aqui.

    — Como assim? — pergunto, a voz mais firme agora, mesmo sem saber se sou eu quem está falando… ou apenas pensando.

    — Seu destino foi alterado. Uma peça movida antes da hora. Um final escrito com pressa.

    Ela caminha em círculos, ou pelo menos sua sombra faz isso — é impossível saber se seu corpo de fato se move ou apenas dança com a luz ausente.

    — Alguém interferiu — diz, mais para si do que para mim. — E por isso… você caiu aqui, no limiar entre mundos. — A criatura então para. Os olhos ocos me observam com uma atenção que pesa, como se ela estivesse prestes a fazer uma escolha. — O que foi? — Leva a mão acima da cabeça. — Como? O oráculo está dizendo ser este… humano? — O jeito que a criatura fala me causa uma pequena raiva, mas o que posso fazer? Nada, claro. Designa um olhar repleto de desdenho, então continua: — Aquele humano que portava uma foice maior que o próprio corpo tinha muito mais capacidade do que…

    Parece estar discutindo com algo — ou alguém. A propósito, acredito que a pessoa a que ele se refere seja Rahjin, que morreu lutando contra Delgron. Se for ele, tenho que concordar que era realmente melhor que eu, seja lá pro que for.

    Após um longo tempo discutindo com o vento e fazendo expressões horripilantes, olha-me intrigado.

    — Haah… — suspira, parece tão pesado que posso sentir o ar mudando à minha volta —, muito bem. — A criatura cruza os braços, como se estivesse se fundindo ao seu corpo, e diz: — Escute atentamente. Não desaponte o oráculo. Caso o faça…, não preciso dizer o que vai acontecer, né? — Termina o belo discurso com um sorriso engraçado, mas posso jurar que, se eu disser apenas um mísero A, estarei morto… de novo. — O oráculo disse que há uma dívida… um fio de propósito que ainda te prende ao plano dos vivos. E isso… — ela toca novamente o peito etéreo onde deveria estar meu coração — …me permite oferecer algo.

    — Um pacto? — pergunto, sentindo a familiaridade amarga desse tipo de acordo.

    — Não. Pior.

    Ela sorri de novo, e dessa vez vejo algo por trás do sorriso. Uma muralha de almas presas, girando lentamente dentro da boca que não devia conter coisa alguma. Cada alma sussurra, implora, canta — e tudo ao mesmo tempo.

    — É uma chance. Não um presente. Não uma bênção. Uma chance, Arial Blake, de voltar. Mas não como você era. Não com o que era seu.

    O vazio ao redor estremece, como se a própria existência estivesse prestes a se partir em duas. A criatura observa minha alma com um interesse crescente, como um colecionador que encontra uma peça única e ainda não sabe onde colocá-la.

    — Você não pertence mais ao seu mundo — diz, a voz vibrando entre o tempo e o espaço. — Zendrut está fechado para você. Seu ciclo ali foi encerrado… ainda que incompleto.

    Ela se inclina levemente, e uma fenda rasga o branco infinito atrás de si, revelando um rasgo escuro como o âmago de uma estrela morta. Ventos que não deviam existir sopram de lá, carregando aromas que nunca senti antes — ferro, cinza, flores estranhas, sangue fresco.

    — Mas há outro lugar. Um mundo onde o destino ainda está sendo escrito. Onde forças antigas se movem sem saber o que despertam. — A chama negra entre os dedos dela cresce, até se transformar em uma espiral viva, pulsante, como um pequeno vórtice. — E algo lá… me chamou. Algo instável. Algo que precisa de você.

    — Por que eu? — pergunto, com a boca seca, mesmo sem corpo.

    — Porque sua alma… não está quebrada. Está incompleta. E mundos assim não precisam de heróis: precisam de rachaduras. Fendas. Fraturas como você. — Ela então me encara profundamente, e pela primeira vez sua voz parece… gentil. — Lá, você poderá lutar. Lá, poderá descobrir quem o tirou do seu destino. E talvez… possa escolher um novo. Ou morrer tentando. Este é o único caminho. O limiar entre mundos aceita você… por enquanto.

    Estendo a mão, hesitante, e sinto a espiral negra e azul tocar meus dedos. Um calor cortante percorre meu braço, sobe até minha mente, e então…

    Tudo some.

    Quando atravesso, uma luz intensa explode diante dos meus olhos — como se mil sóis colidissem dentro do meu crânio. Meus ouvidos são invadidos por sons agudos, dissonantes, como se o universo inteiro gritasse em idiomas que não fui feito pra entender. Tento falar. Gritar. Pedir por socorro. Mas tudo o que consigo fazer… é chorar.

    Lágrimas escorrem por um rosto que não reconheço. Meus músculos não respondem como antes. Tudo é frágil, pequeno, descoordenado. Silhuetas embaçadas se formam à minha frente, sombras de pessoas — ou algo parecido com pessoas. Vozes abafadas ressoam como ecos submersos, até que, por fim, uma frase atravessa o caos:

    — Parabéns, senhora Lúcia — diz a voz de uma mulher, calorosa, como se estivesse anunciando a chegada de algo belo.

    Minha visão clareia aos poucos, e o primeiro rosto que vejo é o de uma velha — uma senhora enrugada, com cabelos brancos embolados como algodão mofado. Suas roupas parecem ter sido esquecidas num campo de batalha. Estão rasgadas, sujas, e há algo no olhar dela… algo quebrado, mas sereno.

    Ao lado dela, um homem de meia-idade. Barba desgrenhada até o peito, olhos fundos, e um cheiro que me dá vontade de voltar para a morte. Sério, é como se ele tivesse brigado com um porco, perdido, e se recusado a tomar banho desde então.

    “Que droga é essa?” penso, piscando devagar, tentando entender se aquilo tudo é um pesadelo, um delírio, ou algum tipo de punição divina.

    Tento me levantar, instintivamente, mas o corpo não me obedece. Parece feito de algodão molhado, e a gravidade… a maldita gravidade me empurra contra algo absurdamente macio, como se eu estivesse deitado num ninho de nuvens ou em algum tipo de berço acolchoado. Viro o corpo com dificuldade, apenas para ver… mãos. Pequenas. Minhas mãos. E quando digo pequenas, quero dizer do tamanho de um coelho recém-nascido.

    Fico paralisado.

    “Que porra…?”

    “Que diacho…?”

    Essas são as únicas palavras que consigo pensar enquanto encaro aqueles dedinhos minúsculos como se fossem… eu não sei nem o que dizer. Foi assim que começou meu primeiro dia nesta nova vida. Com luz demais, cheiro de gente que não toma banho e o aterrador conhecimento de que renasci em um corpo de bebê. Sim. Bebê.

    A vida, aparentemente, ainda não terminou de brincar comigo.

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