Algumas semanas se passaram, e sigo sem qualquer resposta sobre onde vim parar. Desde que despertei da escuridão, tudo o que vejo é um quarto tomado por mofo, com teias de aranha cobrindo as paredes e um telhado de palha tão gasto que parece prestes a ruir. Poderia ser um devaneio, uma ilusão forjada pelos deuses… mas há algo na textura do ar, na densidade do silêncio, que me diz: isto é real. E o mais duro dos fatos logo se impõe — renasci. Reencarnei no corpo de um infante.

    Tem ideia do quão abominável é isso? Ser incapaz de controlar os próprios braços, as próprias pernas, preso às necessidades mais básicas, completamente indefeso? Os salões de tormento do submundo parecem uma piada perto desta humilhação.

    O pior de tudo é que me recordo de absolutamente tudo. De Zendrut, das batalhas, do gosto amargo da morte. Até o instante exato em que minha vida se esvaiu ainda pulsa em minha memória. Já tentei me arremessar inúmeras vezes do berço improvisado — galhos trançados e musgo seco — apenas para ver se o impacto me despertaria deste pesadelo. Nada.

    Nestes dias, ou melhor, semanas, saio com frequência nos braços — ou melhor, nas costas — da mulher que hoje me chama de filho. Se devo chamá-la de mãe, ainda não sei. Talvez seja cedo demais. Ou talvez meu espírito apenas se recuse a aceitar o destino. Já percebi, no entanto, que mesmo depois da morte, continuo com a sorte de um condenado. Nem mesmo me concederam o alento de nascer entre nobres ou senhores de terras. Não. Fui jogado no ventre da miséria, reencarnado em um vilarejo esquecido, onde as casas mal têm paredes, e o chão, de terra batida, levanta poeira a cada brisa mais forte.

    Algumas moradias sequer possuem telhados. Outras, são apenas pedaços de madeira cobertos por panos gastos, tentando, em vão, proteger do sol escaldante ou do frio cortante das madrugadas. Minha nova mãe, Lúcia — nome simples para alguém tão… peculiar — me carrega preso nas costas com um pedaço de tecido puído, amarrado com engenho. Assim mantém as mãos livres para carregar cestos ou colher raízes. Astuta, admito.

    Mas Lúcia… ah, Lúcia é um espetáculo à parte. Uma das mulheres mais belas que já vi — e digo isso com o peso de que já vi milhares. Seus cabelos são longos como as noites sem lua, negros como o breu. E os olhos… os olhos brilham em vermelho carmesim sob a luz do sol, lembrando o sangue fresco derramado no campo de guerra. Tranquilos e ferozes ao mesmo tempo.

    Se há algo que a estraga — e isso digo com toda a franqueza de um velho guerreiro — é sua língua solta. Nunca vi criatura que falasse tanto. Dia após dia, despeja sobre mim histórias sobre ervas medicinais, contos de reis e maldições, lendas de criaturas ancestrais, nomes de plantas que nem os druidas ousariam pronunciar.

    — Veja ali, meu pequeno — diz, apontando com o dedo firme para um castelo longínquo, empoleirado sobre um morro alto. — É onde repousa o trono do rei do Império. Belo, não?

    Belo? Seus olhos são belos. Como eu queria dizer isso. Mas, claro, ela não tem como saber que este bebê a entende melhor do que gostaria.

    E então veio o momento fatídico: a escolha do nome. Ah, os deuses sabem como ela hesitou! Rodava na cama, murmurava nomes, suspirava, recitava combinações impronunciáveis. Oadel, Ruthlin, Aldhe, Ronry, Lacan… parecia mais um feitiço do que um batismo. Juro que roguei, não sei a qual divindade, mas roguei por um nome digno, simples, aceitável. E por algum milagre — ou piedade divina — ela enfim se decidiu.

    Luke. Esse é o meu nome agora. Luke. E, para ser honesto, não soa mal. Simples, direto. Combina com este pequeno corpo no qual estou preso. E sejamos justos… com uma mãe como Lúcia, não haveria como este filho não ser, no mínimo, encantador.

    A genética do meu pai talvez? Não sei dizer. Nunca o vi. Provavelmente está morto. Olhando ao redor, para a situação em que essas pessoas vivem, é uma hipótese plausível. A noite chega mais rápido do que eu gostaria. E com ela, vem um sono avassalador. Outra desvantagem desse… corpo diminuto. Melhor não entrar em detalhes agora.

    — Minha criança, quer ouvir uma história?

    Tento expressar um sorriso largo, o máximo que minha fisionomia atual permite. Se ela entender, ótimo. Porque a verdade é que qualquer coisa que me ajude a entender este lugar me interessa — e muito.

    — Tudo começou há muito tempo, antes de acontecer a Grande Guerra Mítica… — diz, enquanto me cobre com um pedaço de tecido grosseiro e acaricia meus cabelos negros e curtos com um sorriso encantador.

    Guerra mítica. Essas palavras me prendem. Eu também morri em uma guerra, uma de proporções que só um verdadeiro inferno poderia reproduzir. Seria possível? Este lugar… poderia ser Zendrut? O mundo de onde vim? Mas aquela criatura disse que eu não poderia retornar para lá… Ela mentiu? Mas não demora muito para minha esperança se esvair. Ouço quase toda a história, e nada se parece com o que conheci.

    Lúcia conta sobre Hades, expulso da câmara dos deuses pelos próprios irmãos. Tomado pela inveja, selado no submundo, ele passou anos arquitetando sua vingança. Um a um, buscou os deuses, emboscando-os em suas moradas e tomando seus egos — artefatos de poder inigualável. O plano era simples: reunir os egos, aniquilar o restante da câmara e, por fim, reclamar o mundo para si.

    A batalha final foi nos céus. Lúcia fala como se tivesse acontecido ontem. Diz que se viam cometas caindo do firmamento, pedaços das moradas celestes se desfazendo como barro rachado. Zeus fugiu no último instante. E Hades, insatisfeito, emergiu no mundo mortal para ceifar o que mais valorizavam os deuses: a humanidade.

    Depois disso, minha consciência se apaga. Só me lembro de acordar ao som dos pássaros e dos beijos suaves de Lúcia sobre minha testa. O sol entra pelas frestas do teto e ilumina seus cabelos negros enquanto ela me embala nos braços, como em um sonho.

    Saímos pela manhã, como de costume. Mas hoje há mais pessoas pelas ruas — se é que se pode chamar essas passagens de ruas. Um homem passa por nós com um moicano baixo e uma espada quase do tamanho do próprio corpo presa às costas.

    Normal? Isso é normal?

    Em Zendrut, um civil que andasse armado em público era detido por dez dias para refletir sobre seus atos. Aqui, as armas parecem tão comuns quanto os trapos nas costas do povo. O que pensam os governantes deste mundo? E se esse sujeito resolver matar alguém no meio da estrada? Terei de conversar com esse povo… quando puder falar. Pensamentos perfeitamente sensatos, diga-se de passagem.

    O vento sopra com força, levantando redemoinhos de poeira. É então que vejo uma criança à frente erguer um pequeno pedaço de terra, moldando-o em uma parede diante de nós com um simples movimento das mãos.

    Lúcia para. Seus olhos se fixam na menina, encantados. Eu também fico. Então aqui existe magia. Então aqui existe magia. Se um dia disse que sou azarado, não me lembro. A verdade é que fui um mago de certa força em minha vida passada. Não o mais poderoso, é claro — os Três Grandes Escudos do Rei estavam além de qualquer comparação —, mas havia quem ousasse me comparar a eles.

    Meu núcleo mágico, no entanto, estagnou. Não importava o quanto treinasse, o quanto sacrificasse… não evoluía. Fiquei preso no mesmo nível até minha morte. Mas minha morte foi diante de Delgron. Isso, por si só, já diz muito sobre meu poder.

    Nesse momento, juro mais uma vez que serei mais poderoso do que antes. Farei coisas que jamais poderia como Arial Blake. Superarei os Três Escudos de Zendrut. Eles salvaram Yuhai da destruição total? Pois bem, protegerei este mundo inteiro. Conseguiram derrotar alguém que me fez sentir o desespero após o juramento que fiz quando criança? Serei o pior tormento que meus inimigos enfrentarão quando me levantar da cama.

    (…)

    Três anos se passam, e, meu Deus, é um completo inferno. Chego à beira da loucura, a ponto de pensar, por um momento, em pular de cabeça de meu berço e pôr fim à minha existência trágica. Ter a mente madura e estar preso em um corpo tão limitado é a pior das torturas.

    O tempo passa a passos lentos. Lembro-me de que o melhor dia, talvez o único que valeu a pena até agora, foi quando corri de Lúcia pela manhã. Eu mal havia acordado, e ela me balançava, me jogava para o alto, me apertava e me abraçava como se o amanhã não fosse real, quase me fazendo desmaiar de tanto afeto.

    Porém, enquanto corria de seus próprios abraços, acabei esbarrando na velha estante de livros dela. Eu tinha apenas dois anos e sequer cogitava a possibilidade de pegar um daqueles livros. Mas quando um caiu bem diante de mim, meus olhos brilharam como diamantes ao sol.

    Não só pude entender a língua, como também fui capaz de ler a escrita. Era uma linguagem repleta de símbolos e letras estranhas, mas, por incrível que pareça, tornou-se mais fácil ler aquelas palavras desconhecidas do que aprender a andar novamente.

    Lúcia, ao perceber que não me machucara, foi para a cozinha preparar alguma coisa. Aproveitei o momento para mergulhar nas páginas do livro, curioso para descobrir do que se tratava aquele tomo com capa de couro sem título.

    Na primeira página, encontrei um mapa com várias informações, e, acima dele, o nome “Continente de Kraykro”. Havia vilas espalhadas por todos os cantos, uma enorme geleira atrás de Dream, uma cidade que ficava a um dia de viagem, um reino chamado Rosorga, localizado em montanhas, e uma imensa muralha bloqueando a entrada, além de outro reino chamado Oredhel, que ficava rodeado por uma floresta densa e uma névoa?! Dasgud parecia estar no meio de uma região desértica.

    “Poucas pessoas sabem disso, mas antigamente Dream era apenas uma pequena cidade chamada Kratas, governada por um homem que mantinha as famílias oprimidas e à mercê do medo. Em sua grande casa, no centro da cidade, tinha um trono de ouro que mandou construir para que as pessoas se lembrassem de que ele estava no poder. Lacsara Tryger e Ardroy Brastho decidiram causar uma pequena rebelião, matando o homem e tomando o poder.”

    “Após isso, Dream foi fundada pelos dois, e assim nasceu um grande império sendo construído aos poucos. Boatos antigos dizem que a família Tryger não foi escolhida pelo povo para se tornar regentes do trono de ouro, mas sim que Ardroy Brastho o escolheu como rei.”

    “Rosorga, mais conhecido como reino dos anões, existe desde tempos antigos, ninguém sabe ao certo quando foi fundado, apenas o alto escalão tem acesso a essa informação. Foi construída uma muralha em volta de todo o território. Caso alguém entre sem permissão, é sentenciado à morte sem julgamento.”

    Credo, essa segurança toda para que exatamente? Eles vivem em uma grande ditadura por acaso? Eu que não queria estar em um lugar desses.

    “Um dos locais mais incríveis que qualquer outra pessoa poderia ter visto com os próprios olhos seria Oredhel. Embora seja difícil a entrada de humanos devido aos constantes desentendimentos entre as raças, quem foi sabe que Oredhel é um colírio para os olhos. As casas, os animais que vivem dentro da floresta, a paisagem em si, tudo é simplesmente magnífico. Fui beneficiado com essa grande honra de poder ver o famoso lar dos elfos, e, caso esteja pensando em como é, te digo para pensar muito mais além, é belo.”

    Interessante, mas por que parece que a floresta está sendo rodeada por uma neblina? Seria algum tipo de segurança contra invasores? É bem provável que seja isso. Agora…

    “Dasgud, seja o que for, mantenha distância deste lugar. Dasgud não é um reino, mas sim um local cheio de ódio, morte e dor. Homens selvagens o habitam, bárbaros. Homens sem escrúpulos, sem respeito ou misericórdia. Caso encontre um, reze para que esteja sozinho, embora isso quase sempre não aconteça. Nenhum aventureiro, mago ou mercenário tem coragem de ir neste lugar. Isso pode ser chamado de covardia, porém são apenas inteligentes.”

    Queria ler o resto, mas todas as outras páginas estavam arrancadas ou rabiscadas, apenas um nome era visível: “Balfallne”, nada mais além disso.

    Em três longos anos, aprendi muitas coisas sobre este novo mundo. Devido ao meu estado deplorável, o máximo que podia fazer era estudar livros, muitos livros. Nesse meio tempo, comecei a levantar cedo todos os dias, seguindo a antiga rotina de treino que meu mestre Ekóz me ensinara. Ele era um espadachim de nível comparável aos Três Escudos de Yuhai. Perguntei-lhe várias vezes por que ele não se juntaria a Yuhai, e a resposta era sempre a mesma: “O rei Layry é a própria ruína de Yuhai. Não me juntarei a alguém assim…”

    Ele foi um bom homem. Certamente, seus ensinamentos me seriam úteis em outro mundo. Atrás de casa, havia um pequeno espaço, um quintal. Eu o utilizava como sala de treino, fazendo pequenas sessões de flexões e abdominais. No início, mal conseguia fazer quatro flexões e cinco abdominais, mas, com o tempo, fui melhorando. Para uma criança de apenas três anos, isso era algo fora do comum.

    Após alguns meses, consegui aumentar o número de repetições e fui melhorando cada vez mais. Lúcia nunca tentou me impedir. Pelo contrário, seus olhos brilhavam tanto quanto os meus quando descobri que podia ler.

    Com três anos, de vez em quando, saía escondido para caçar algum animal pequeno para a nossa refeição. No dia anterior, consegui caçar um coelho. Quando cheguei em casa com ele, Lúcia ficou bastante feliz, mas também me repreendeu.

    — Então… você está me dizendo que um coelho simplesmente saiu da floresta e veio até você? — ela perguntou, desconfiada.

    — Po-pode dizer que sim… — Claro que menti. Como explicaria para ela que eu, uma criança de três anos, fui até a floresta para caçar alguma coisa? Isso seria impossível.

    — Escute, Luke. A floresta é um lugar perigoso para uma criança da sua idade. — Ela passou a mão em meus cabelos e os bagunçou carinhosamente. — Da próxima vez que fizer algo tão arriscado, não minta para mim. — A ênfase em sua voz fez meu estômago apertar.

    Acredito que, no fundo, ela sabe que não sou uma criança normal. Sério, faço coisas que, na minha idade, qualquer um consideraria… esquisito. Depois da nossa conversa “saudável” do dia anterior, prometi a mim mesmo que não entraria muito a fundo na floresta.

    Enquanto comíamos, tive a insensatez de querer fazer uma pergunta que estava martelando minha mente desde que descobri que nesse mundo existe magia. Fiquei observando-a por alguns segundos, comendo lentamente, desviando o olhar entre o prato e o rosto dela.

    — Mãe, posso te fazer uma pergunta? — Um frio na barriga veio no mesmo instante. O fato era que eu não sabia o porquê de ter tanto medo dessa mulher. Seria um instinto de filho ter medo da própria mãe desde o nascimento? Nunca saberei a resposta para isso.

    — Uhum… — Ela não se deu ao trabalho de engolir a coxa do coelho antes de responder.

    — Com quantos anos ocorre o despertar?

    — Bem… normalmente, uma criança desperta aos nove anos.

    — É possível despertar antes?

    — Em casos raros, sim. Algumas crianças “gênias” despertam aos sete.

    O quão raro é uma criança despertar aos sete? Uma em cem? Mil? Isso é complicado. Mas a pergunta seguinte, a mais importante, estava prestes a sair.

    — Mais uma coisa… É possível… forçar o despertar?

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