Capítulo 3
Lúcia
Lúcia por um momento, entrou em transe. Ela ficou parada por alguns segundos, tentando raciocinar o que seu pequeno filho havia perguntado.
— Nu-nunca ouvi falar sobre algo assim… — respondeu, desviando o olhar, inquieta.
Ela sabia que a prática de forçar o despertar havia sido banida a eras por ordem do antigo rei de Dream e por decisão do conselho. Era algo que seres humanos normais não poderiam mais praticar livremente devido ao alto risco que colocava o corpo da pessoa de literalmente explodir de dentro pra fora.
Lúcia observou seu pequeno filho, a encarando com aqueles olhos vermelhos carmesim que havia puxado dela, o tom mais vívido a lembrava de seu pai, talvez a tonalidade tenha sido puxada dele. Divagando em pensamentos e voltando ao passado. Lembrando da maldição, e do homem que mais amou em vida.
Ainda se lembra da primeira vez que o segurou em seus braços. Ele tentava escapar, parecia assustado, e o desejo enorme que tinha de apertá-lo até sufocá-lo de tanta fofura, e nunca mais soltá-lo, protegê-lo e mostrar o mundo a ele.
Imaginara que olharia ao redor e ficaria espantado com as pessoas desamparadas, machucadas e famintas, mas fora surpreendida. Talvez fosse falta de discernimento por ser tão novo.
Agora, observando-o sentado à mesa, Lúcia sentia um misto de apreensão e orgulho. A cada dia ele a surpreendia mais. Com apenas cinco meses, pronunciara “mama”. Ela ficara em choque — quase o derrubara — e ainda achou que chegara a ver sua alma sair do corpo naquele instante. Com oito meses, já engatinhava pela casa inteira. Aos um ano e dois meses, andava para todos os lados. O mais impressionante, porém, era sua incrível capacidade de compreendê-la. Às vezes, parecia que conversava com um adulto.
Agora, aos três anos, tornara-se um verdadeiro pesadelo. Aproximava-se da floresta, fazia coisas perigosas, como bater nas paredes. Sério, que criança daquela idade saía batendo em paredes do nada? Pensava. Sua sorte era que ele se interessava muito pelos livros velhos da estante, embora ainda não soubesse ler. Provavelmente puxara Rahter nesse aspecto.
Alguns dias antes, apareceu todo sujo, segurando um coelho morto. Lúcia lhe dera uma bela bronca, mas não conseguia ficar realmente brava. Ele era fofo demais. E agora vinha com aquela pergunta estranha…
— Mãe… pu favô… me diga a verdade…
Lúcia sentiu o coração apertar.
Por que os olhos dele brilham tanto? Por que parece uma criaturinha angelical? Resista, Lúcia. Você é uma mulher forte. Você consegue… resistir…
— Mamãe… pu favô…
A resistência ruiu por completo.
— Tá bem, tá bem! — disse, pegando um copo com água para tentar se acalmar. — Essa é uma pergunta muito complicada, meu filho. Todos que tentaram fazer isso no passado não tiveram um bom fim.
— Então, é impossível?
— Não só impossível, como também estritamente proibido. Agora, o mais importante… onde você ouviu falar sobre isso?
— Heh… — Ele respondeu, com um sorriso tímido, claramente tentando esconder algo. — Ouvi alguns homens conversando sobre o assunto. Eles falavam alto… dava pra ouvir daqui de dentro…
Vai mentir assim, na cara dura? Fácil desse jeito? Ora, seu garotinho esperto… pensou desacreditada, com uma das sobrancelhas arqueadas e o encarando de boca aberta.
— Olha… — Lúcia pousou a mão sobre o rosto dele, acariciando seus cabelos. — Prometa que não vai tentar fazer nada perigoso…
Ele a encarou. Houve um breve silêncio. Seus olhos, tão puros, refletiam insegurança e algo mais profundo — o mesmo olhar de sempre, mas agora carregado de uma inquietação estranha. Por fim, respondeu, com a voz trêmula:
— Pro-prometo…
Lúcia tinha certeza de que ele estava mentindo. Ele sequer se esforçou para esconder a verdade. Aquilo seria mais difícil do que imaginaria. Ela teria que ficar de olho nele. O tempo todo.
Luke
Que vergonha de como me comportei hoje mais cedo. Me recuso a falar daquele jeito novamente. Não importa o que aconteça, nunca mais farei isso.
A madrugada chega. Levanto-me da cama, com o corpo gelado e uma sensação estranha no peito. Me esgueiro até a sala, sentindo o piso frio sob meus pés. Sei que prometi, mas não posso ficar parado. Meu corpo, meu espírito, minha mente — tudo me diz para ser mais forte. Mais forte do que os três escudos de Yuhai. Se isso me matar, ao menos saberei que tentei.
Esperar até os nove anos para despertar minha mana? Isso será torturante. Demorará muito mais para alcançar meus objetivos, e o que é pior, me deixará para trás, estagnado. A esgrima de Ekóz, o santo da espada, não será suficiente para me fortalecer. Preciso de algo mais. Não posso me contentar em esperar.
— Me desculpe, Lúcia… — murmuro, olhando para sua figura deitada na cama, virada para o lado oposto, de modo que não me vê. O peso da mentira que disse mais cedo ainda me aperta o peito.
O silêncio da madrugada é tranquilizador. Não há barulho de animais ou de qualquer outra coisa. Tudo está em paz, tudo foi cuidadosamente orquestrado para que este momento acontecesse. A luz suave da lua entra pela pequena abertura no telhado, iluminando a sala com uma suavidade etérea.
Ajeito o corpo na posição de lótus. Minhas costas estão eretas, as mãos repousam sobre os joelhos, e a respiração… lenta, controlada. O coração bate com força, não de medo, mas de expectativa. Já passei por isso uma vez, embora em outro corpo, em outro mundo. O processo é o mesmo — ao menos, deveria ser.
Fecho os olhos e escuto. Não os sons da casa ou da floresta, mas os sons que vêm de dentro. Meu próprio sangue correndo, o ar entrando e saindo pelas narinas, o pulsar suave do meu espírito. Em Zendrut, me ensinaram que a mana se revela primeiro ao silêncio. Ao vazio. Só quem cala o mundo consegue ouvi-la.
E então, como antes, começo a buscar o que está além de mim — o que preenche o ar, as árvores, a terra. Imagino as partículas de mana, como a poeira flutuando sob a luz do sol. Invisíveis aos olhos comuns, mas sensíveis ao toque da mente. Em Zendrut, Ekóz dizia que cada partícula era uma estrela, e o núcleo de mana era o céu que as acolhia. Ele ria quando eu tentava apressar as coisas. Dizia que a mana não obedece a vontades impacientes, mas se curva à harmonia.
Sinto o ar ao meu redor mais denso, mais… cheio. Há algo aqui. É sutil, como um fio de seda arrastado pelo vento. Tento puxá-lo com a mente, mas ele escapa, como água entre os dedos. Frustração cresce. Tento de novo. De novo. Mais uma vez.
Respiro fundo.
Lembro-me das palavras de Ekóz: “Não agarre. Convide.”
Solto a tensão dos ombros, deixo os pensamentos fluírem como um rio calmo. Visualizo meu abdômen como um vórtice, uma pequena espiral girando, sugando para dentro não o ar, mas o mundo. A mana.
E então, por um instante… sinto.
Uma fagulha. Uma pontada. Como uma centelha elétrica bem no centro do meu ser. É tênue, fraca, mas real. Meu corpo reage com um leve arrepio, como se o mundo tivesse respirado comigo.
— Está aqui… — sussurro sem abrir os olhos.
Uma partícula. Talvez duas. Lentamente, elas começam a se mover, como se atraídas por algo antigo e familiar dentro de mim. É pouco. Quase nada. Mas é o começo.
A mana desse mundo é diferente. Mais branda, mais arredia. Em Zendrut, ela parecia selvagem, cheia de vontade própria. Aqui, é quieta, tímida… mas abundante. Está por toda parte, esperando. Só que ninguém a ouve. Ninguém a chama como deve ser chamada.
A concentração exige cada gota da minha energia. O cansaço começa a se aproximar como uma névoa espessa, mas não posso parar. O vórtice no meu abdômen pulsa, ainda pequeno, instável, mas já não é só imaginação. É algo real, algo que cresce com cada partícula que convido para dentro.
Mas logo, algo me atinge.
Uma onda de exaustão, como se meu corpo tivesse sido esvaziado por dentro. A respiração falha. A cabeça pesa. As pernas… amortecidas. Se apenas esse pequeno momento, esse mísero tempo reunindo mana me deixa neste estado, o que acontecerá quando ocorrer o despertar?
Fico preocupado. Em Zendrut, isso nunca havia acontecido comigo. O processo era lento, sim, mas nunca tão… desgastante. Então só pode significar uma coisa: a mana deste mundo é mais forte. Mais densa. Mais pura. Concentrada como um néctar raro que, embora doce, envenena o corpo despreparado.
Tento abrir os olhos. O mundo gira.
Luto para ficar de pé, embora cada músculo proteste. Minhas pernas tremem e minha visão vacila. O suor escorre frio pela testa e minhas mãos parecem trêmulas demais para segurar qualquer coisa. Apoio-me na parede, deslizando por ela enquanto caminho, ou melhor, me arrasto pela casa silenciosa.
Cada passo é uma luta. Um castigo. Voltar para o quarto parece uma travessia interminável. Subir na cama, um feito heróico. E quando finalmente me deito, o corpo vence a mente — tudo se apaga.
Caio em um sono profundo, como se tivesse mergulhado em um poço sem fundo. O mundo escurece. Mas não é o escuro da noite. É um véu, espesso como fumaça, cobrindo tudo ao meu redor. E no meio dele, surge um som. Um sino. Grave, profundo, que ecoa como se fosse o próprio tempo a se partir em dois.
Me vejo de pé, no que parece ser o pátio do templo de Ekóz. As lajes de pedra estão rachadas, as colunas queimadas, o céu… vermelho. Um vermelho que sangra por entre nuvens rasgadas. Ao meu lado, há corpos. Guerreiros caídos, armaduras partidas, bandeiras rasgadas ao vento. É Zendrut… mas não como me lembro. É Zendrut morrendo.
— Você voltou cedo demais… — diz uma voz atrás de mim.
Viro-me. Lá está ele. Ekóz. O Santo da Espada.
Seu rosto está coberto por uma sombra que o vento não leva. Mesmo assim, sinto seus olhos sobre mim. Julgando. Esperando. Em sua mão, uma espada. Não a de combate, mas a que ele usava para ensinar. O aço brilha, apesar do céu coberto.
— Ainda não está pronto, Arial. — Sua voz corta mais do que a lâmina. — Mas o tempo não espera. E as correntes já estão em movimento.
— O que está acontecendo com Zendrut? — pergunto. Mas minha voz não sai. Apenas penso. E ele responde mesmo assim.
— O mundo não é mais o que era. E o que você deixou para trás… voltará a cobrar seu preço.
A terra treme.
Do chão rachado, mãos começam a emergir. Mãos feitas de sombras, estendendo-se para o céu. O templo se desfaz em poeira. Ekóz desaparece como névoa. E eu, sozinho, começo a cair. Um vazio infinito me engole, e enquanto caio, vozes ecoam:
— Ele carrega a alma de dois mundos…
— Um fardo que nenhum homem suportaria…
— Mas e se ele não for apenas um homem?
A escuridão se parte. Luz.
Agora estou em uma floresta. Uma que nunca vi, mas que me é estranhamente familiar. As árvores sussurram em línguas antigas. A mana aqui é visível — partículas douradas, flutuando como vagalumes ao vento. À minha frente, uma figura encapuzada.
Ela ergue a mão. E no ar, runas flamejantes se formam.
— Se deseja despertar antes da hora, então prove-se. — A voz é feminina, serena como o fluxo de um rio. — O fogo que acende cedo demais, também consome cedo demais.
Ela aponta para mim. Uma dor atravessa meu peito. Como se algo antigo estivesse sendo arrancado, ou… colocado de volta. O peito brilha — um símbolo que pulsa como um segundo coração.
— O selo foi rompido, criança de dois mundos. O caminho está aberto. Mas cada passo à frente será uma escolha.
— Que escolha? — grito, sem saber por que.
Mas a floresta já está se desmanchando. Acordo ofegante. O sol ainda não nasceu. A casa está quieta, mas sinto como se algo estivesse diferente. A mana. Ela está… mais próxima.

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