Doorugami.

    Doorugami Touma era um adolescente comum. Ele vivia no dormitório da Academia de Nohin, do reino de mesmo nome. Ele era o único estudante que não dividia o quarto com ninguém, Mesmo estando no segundo semestre, seu colega de quarto ainda não havia aparecido.

    Touma estava no telefone.

    — É verdade que você venceu a Princesa de Hanashihai?

    Todos os seus amigos perguntavam isso.

    — Disseram que um cara de cabelos espetados para frente, com a farda da Nohin, venceu a estudante mais promissora de Shihai — O amigo fez uma pausa. — Pensei logo em você, Doorugami.

    — Sério, Cídio. A Sui já me ligou, achei que ela tinha te contado.

    — Ela me falou, mas eu queria os detalhes. Sabe como é! — E deu sua risada asmática.

    — Eu sei.

    Todos os seus amigos.

    Sui e Cídio.

    Não importava como ele visse os nomes deles, sentia que era uma piada. Mas eram nomes tão estranhos que, para um nohin-jin como ele, decifrar o sentido era perda de tempo. De qualquer forma, Sui Tempest e Cídio Moreira eram os melhores amigos de Doorugami Touma.

    — Pra falar a verdade, cara, eu já topei com a Kurosaki umas duas vezes.

    — Sério?

    Como esquecer? Kurosaki estava lá, num beco escuríssimo, bem longe dos dormitórios de Hanashihai. Era um beco em Kurakawa, um bairro conhecido por ser o berço das maiores trupes de assassinos, bandidos e ladrões de Nohin. O único lugar em que cassinos e bordéis não tinham vergonha de chamar atenção.

    O que uma patricinha de bolsa cara, como Kurosaki Suzuha, fazia lá? Ninguém sabia.

    — E a outra?

    A outra foi quase do mesmo jeito.

    Suzuha estava no Grazio’s, um restaurante famoso por suas brigas. O homem acusava a mulher de infidelidade, o amigo dizia que foi traído por outro, sócios terminavam parcerias. Até guerra de comida acontecia, quando o alvo de um ensopado de carne desviou do prato.

    Suzuha comia seu nemal como se não fosse nada.

    — Essa garota é meio doida, né?

    — Sim, cara. O mundo caindo do lado dela, e a garota lá, devorando o nemal. Acho que as meninas passam fome em Hanashihai.

    — Isso explica o raquitismo delas, haha!

    Elas eram muito magras, de fato.

    — Sui quase me matou por causa delas, inclusive — lembrou Cídio, deixando transparecer o arrepio pelo telefone. — “É dessas que você gosta, né? Tudo bem, eu sei que eu tô uma BALEIA!”

    — Sinto muito por você.

    — Valeu. Mas e aí…

    O tom de Cídio agora foi perigoso. Touma sentiu que devia ligar o estado de alerta.

    — Se essas foram duas vezes, essa de ontem foi a terceira, né?

    — Sim… a gente lutou, dessa vez — concordou Doorugami, sentindo medo.

    — Na próxima tu já pode ir pro abate, né?

    Abate?

    O que ele queria dizer?

    — Sabe como é, Doo-ru-ga-mi…

    Riso.

    — …Kun?

    Ele não podia estar falando sério.

    — Vamo lá, Doorugami. Não se faça de besta!

    — Cara, ela queria me matar — reforçou Touma, incrédulo com o amigo. Ele até ficou sentado na cama. — Você tá brincando, né?

    — Irmão, tu já salvou ela duas vezes, igual um príncipe. Agora, tu nocauteou ela. Irmão, se eu fosse tu, eu ia!

    — Ia pra onde, seu maníaco?! — Berrou Doorugami, e o vizinho bateu na parede. Ele pediu desculpas. — Cídio, ela queria me matar, cacete!

    — Na minha terra, nós tinhamos um ditado.

    Lá vem…

    — Se te machucas, fé nas malucas!

    — QUE MERDA ISSO QUER DIZER!

    BAM-BAM-BAM!

    O vizinho bateu de novo na parede. Touma percebeu que havia gritado. Cídio estava tirando-o do sério.

    — Quer saber, Cídio, eu preciso ir dormir. E você também. Amanhã temos prova, e você não vai querer passar mais um ano com gente de quinze anos!

    Com um boa noite irritado, Doorugami desligou.

    ———

    Calor.

    Calor desgraçado.

    Tão quente que fez Touma abrir os olhos. Nohin era a terra das areias, e era por um bom motivo. Todo o seu território era um deserto, e o dia mais frio media quarenta e tantos graus. O quarto de Touma, mesmo com um olegnihcam, fervia como uma panela de pressão.

    Merda.

    O relógio marcava seis e quinze, uma hora antes do esperado. Acordar cedo não era o forte dele, mesmo sendo um estudante da Academia de Nohin. Aliás, ele odiava o fato de a academia compartilhar o nome do reino. Sendo desatento como era, às vezes confundia ambos.

    Ficou na beirada da cama.

    Será que vão me perguntar sobre a Kurosaki.

    Ele odiaria que fizessem isso. No entanto…

    É, eu não preciso me preocupar.

    Afinal, ninguém sabia quem era Doorugami Touma. Se alguém fosse na sala dele, e perguntasse por um garoto de cabelos espetados para frente, o aluno ia inclinar a cabeça e te olhar com dúvida. “Tem alguém assim na minha turma?” Ele iria perguntar.

    Era bem estranho, na verdade.

    — Só os professores falam comigo.

    Além de Sui e Cídio, é claro.

    Ninguém sabe quem eu sou, na academia.

    Então estava seguro.

    Já que acordou cedo, ele decidiu pegar sua farda. Graças ao seu encontro com Kurosaki Suzuha, Touma sujou de poeira, lama e fuligem o seu uniforme da academia. Demorou um bocado para deixá-la como devia. Seu quarto-sala-cozinha ficava a uma porta de correr de distância da varanda.

    O céu deve estar tão azul, mas o meu futuro é tão sombrio…

    Quando afastou a porta de vidro, avistou o céu. Mesmo sendo seis da manhã, já começava a exibir seu esplendor azul. As nuvens, preguiçosas, nadavam sem pressa por ele.

    Sua farda, pendurada no varal, balançava com o vento.

    Acho que secou…

    Mas o mais estranho não era isso.

    Hã?

    Deitado contra a grade de ferro, uma criança dormia. E não uma criança qualquer. Era um garoto loiro, com o uniforme da Academia de Nohin: o blazer azul, a gravata vermelha e a calça preta. O brazão com o desenho de uma duna, exibido no peito, denunciava que era legítimo.

    Havia um corte recém-fechado na bochecha dele.

    Que porra é essa?

    — Ei…

    A boca do garoto se moveu.

    — Touma, se você tiver comida, me dá um pouco?

    Seus olhos eram vermelhos, como os de um coelho.

    — Sério, eu tô morrendo de fome.

    Mas que porra é essa?

    No entanto, como Doorugami Touma não era de pensar muito, simplesmente correu para a koribako — uma caixa que esfriava o interior magicamente — e pegou alguns pães. Serviu a mesa, e foi ajudar o garoto a se levantar e ir comer.

    Depois de preparar um café, eles se sentaram.

    — Eu sou… — O garoto coçou os cabelos, como se estivesse pensando em algo difícil. — Bem, Touma, eu sou Linoa dylo Dancha.

    — De Zedes, suponho.

    — Isso mesmo. Eu venho do reino de Zedes. Acho que você soube, pelos professores, que eu seria um estudante transferido.

    — Eu soube…?

    E parou no meio da sentença.

    Espera, não me diga que…

    — Então você é o…

    — O colega de quarto desaparecido de Doorugami Touma? Sim, isso mesmo — o garoto respirou fundo, aparentemente cansado. — Se você quer um resumo do que aconteceu comigo… Nathan Yago Dias, Cadil, Danka. É isso.

    — Nathan… isso é uma pessoa?

    — Bem mais que uma pessoa — disse Linoa, sorrindo. — Ah, e sobre isso — apontou para a bochecha —, eu tive uns contratempos em minha vinda.

    — Tá, certo… então, agora você será um estudante regular na academia?

    A palavra regular fez o garoto rir.

    — Que foi?

    — É estranho falar isso. Ainda que eu ignore o que rolou ontem, a minha situação está longe de ser normal. Bem, fazer o que, né? — E deu de ombros. — É um prazer finalmente encontrá-lo, Doorugami Touma.

    — O prazer é todo meu.

    E apertaram as mãos.

    Espera…

    Quase havia esquecido.

    Quando eu…

    Um detalhe pequeno.

    …Me apresentei?

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