Capítulo 68 - União Parte 1
O barulho dos trilhos persistia na madrugada, e Verion estava tenso sob o olhar pesado que Jeremiah apresentava naquele momento. Um silêncio entre eles se estabeleceu, mas logo foi encerrado.
— Foram essas coisas que aconteceram comigo nos últimos anos. Foi por tudo isso que passei antes de chegar à Aludra e te conhecer, Verion. — Ele fechou os olhos, resignado. — Não sou forte o suficiente pra cumprir nada daquilo que queria fazer, no fim essa é a verdade. Continuo fraco e só um desesperado que não sabe o que tá fazendo da vida.
Ele continuou: — Não estava nos meus planos ir até Raptra logo agora, enfrentar cara a cara esse meu passado e caçar Karl Cettuwals em sua própria terra, até porque sou incapaz disso. Mas seu convite descarado, porque você precisa de ajuda, me fez querer agir. Posso não estar pronto ou ter me tornado alguém que poderia ser um orgulho pra minha mãe, igual eu desejava ser depois daquele dia, mas não quero mais esperar. Quero saber que tipo de pessoa Charlotte se tornou e saber o que aconteceu com meu irmão… Espero que Raman ainda seja aquela boa pessoa de sempre, mesmo depois de todo esse tempo.
Ele prosseguiu: — Verion, já faz muito tempo em que estive falhando em tudo que me propus a fazer, e agora estou indo direto pra minha provável morte só por querer ver duas pessoas importantes pra mim… Também, por estar próximo de você nessa viagem, Quilionodora vai acabar querendo me estourar. Todos os caminhos da minha vida parecem que estão me arrastando até uma catástrofe e um fracasso. — Ele uniu as mãos, entrelaçando os dedos. — Por isso quero te fazer um pedido: conta tudo que você está escondendo agora.
Jeremiah concluiu: — Minha vida vai acabar de um jeito ou de outro nesse ritmo, então queria pelo menos conseguir ajudar alguém de verdade. Não sei com o que você tá metido, mas quero te ajudar a realizar. Isso porque sei que você nunca planejaria fazer algo ruim, apesar de ficar todo misteriosozinho assim. Confio em você, então quero que confie em mim; me dê a chance de fazer algo de útil enquanto vivo.
Verion ficou aturdido com todas aquelas coisas. Percebeu que tudo que sabia a respeito dele antes daquela conversa era muito pouco, e o que descobriu era bizarro o suficiente para pesar em seus ombros olhá-lo nos olhos naquele instante. Pensou em tentar dizer algumas palavras para consolá-lo, mas não encontrava em sua cabeça algo que pudesse falar. No fim, preferiu não dizer nada do tipo, acreditou que tudo que Jeremiah menos iria querer naquele momento era ser tratado como um coitado e alguém digno pena.
Jeremiah pareceu sempre se importar com seu objetivo e focar nele, na ideia de ser alguém incrível que poderia mudar a vida das pessoas para melhor. Alguém que almejava ser uma figura tão importante, como um salvador, e que escondia tão bem suas tristezas por tanto tempo, jamais iria querer ser visto meramente através de suas misérias. Seus sonhos importavam mais e era melhor vê-lo com base em seus sonhos.
Verion não conseguia imaginar que rumo as coisas tomariam caso contasse a verdade naquele momento, caso revelasse para Jeremiah tudo aquilo que viveu. Apesar das dúvidas que rondavam sua mente como uma espiral, seria incapaz de dizer não e simplesmente negar a ele o direito a saber. Ainda mais após vê-lo se abrir sobre sua vida de forma tão genuína. Talvez não fosse a mais lógica das decisões, mas era a decisão que um Velgo tomaria mediante tamanha confiança.
— Tá… você venceu, eu vou contar tudo.
— Obrigado por acreditar em mim, prometo que vou ficar do seu lado desde que isso não atrapalhe meu objetivo de reencontrar Charlotte e meu irmão.
— É… com certeza não vai atrapalhar, mas você vai ficar meio chocado por um tempo, só avisando. — Verion parou e pensou por onde começar, era coisa demais. — Vou começar te falando o que eu quero estando lá em Raptra.
— Achei que era só pra ajudar a Lyria com alguma coisa.
— Não, não, tem mais coisas. — Verion abaixou um pouco o olhar. — Estou indo pra Raptra encontrar Vincent Velgo, meu irmão mais velho. Não sabia da existência dele até pouco tempo atrás, mas ele é um filho que minha mãe teve antes de se mudar aqui para Quilionodora.
— Pera, pera, pera! — disse rápido e com um tom de espanto. — Charlotte, naquele papel que deixou comigo, disse que meu irmão tava andando com um tal de Vincent. Pô, é seu irmão?! Não sabia que era um Velgo também.
— É um Velgo, e eu quero achar ele pra pedir ajuda… Ele parece alguém meio perigoso… e maluco, mas preciso da ajuda de qualquer um pro que eu quero fazer. Também quero perguntar se ele sabe algum jeito de resolver a situação da Lyria.
— Já que você vai procurar ele, vai acabar sendo mais fácil eu encontrar o Raman por aí. — Jeremiah repensou em algo e perguntou: — E… tá, pode me contar o que acontece com a Lyria? Sei que você sabe, mas não explicou ainda.
— Ahh… vê se não fica muito pirado com a informação.
— Cara, a gente vive num mundo mágico cheio de deuses doidinhos da cabeça, acho que o que você tem pra falar não vai ser tão surpreendente assim! — respondeu, irreverente e com um sorriso no rosto.
— Você já deve ter percebido que ela não é exatamente normal, essa coisa da tinta e tudo.
— Obviamente… Só não quis tocar no assunto porque seria estranhíssimo falar disso já que ela não falava. Os poderes dela, como o corpo dela é, a situação da vila com a outra personalidade dela, tudo isso me deixou curioso, mas não quis ser o inconveniente que falaria dessas coisas.
— E acho que foi melhor assim, isso ainda é um assunto muito delicado pra Lyria… — Verion ponderou em como dizer suas próximas palavras sem que soassem como uma completa insanidade. Mas sabendo que seria impossível aquilo parecer algo lógico e comum, meramente disse: — Tem uma deusa no corpo da Lyria.
— Ah… — Jeremiah franziu as sobrancelhas, tomado de uma confusão genuína. — Como assim uma deusa?
— O nome dessa deusa é Circe. Ela no mínimo tem 19 mil anos e é extremamente perigosa, tal como deu pra ver com a situação de Aludra sendo destruída e o ataque chegando até mesmo em outros países… A Deusa da Afantasia. Não tem nada disso de outra personalidade, é uma divindade disputando o controle do corpo.
— O Jon não sabe disso não, né?
— Claro que não, se soubesse aí que ele pirava de vez. E é melhor que fique sem saber que isso envolve uma deidade no corpo da Lyria, vamos deixar ele continuar acreditando na versão de que é uma outra personalidade, é mais seguro.
— Certo… parece fazer sentido.
— O motivo da Lyria ter esse corpo e esses poderes é porque ela foi criada artificialmente. Uma autora chamada Lya Seshat deu a própria vida pra tirar uma personagem dela de um livro, e essa personagem é a nossa Lyria. E… no meio desse acontecimento, colocaram fragmentos dessa deusa chamada Circe nesse corpo para revivê-la.
— O que queriam trazendo uma deusa tão antiga de volta?
— Me matar… reviveram essa deusa pra matar eu e a Yunneh. Aquele ataque que aconteceu na vila, e varreu tudo, aquilo foi contra mim.
Jeremiah levou a mão ao rosto, pensativo. Não disse nada, dando a deixa para que Verion continuasse falando.
— A ideia de Lya Seshat, e uma semideusa que acompanhava ela, era trazer Circe de volta para matar eu e minha irmã. Mas como deu pra perceber, isso falhou por enquanto. A Lyria é tudo que segura a Deusa da Afantasia de repetir coisas como as que aconteceram contra Aludra.
Verion explicou e explicitou as razões por trás do ocorrido, contando sobre toda a situação. A morte de Elta Velgo era um assassinato realizado por uma deidade chamada Aurelius Daath, e essa figura queria também matar Verion e Yunneh. Ele contou que Aurelius estava alojado nos corpos dos irmãos, esperando uma oportunidade de tomá-los para si. Não sabia quanto tempo levaria até esse processo se completar.
Verion complementou: — Esses cabelos brancos são uma prova desse Aurelius existir, eu a minha irmã já morremos pelo menos uma vez cada. Nós ficamos mais fortes e surgem essas mechas brancas quando revivemos.
— Ai… tá explicado porque a Yunneh ficou assustadora de forte tão rápido. — Jeremiah, apesar de muito pensativo com as novas informações, deu uma risadinha. — Na sua posição eu já teria me matado mais uma vezinha pra ficar mais forte.
— Sai dessa! Morrer é horrível, eu não faria isso de propósito nunca! — Uma expressão assustada tomou conta.
— Hahahahah… Acho que você faria sim, você é meio doidinho quando o assunto é ajudar os outros. Mas espero que nunca chegue um momento em que você precise mesmo fazer isso só pra poder vencer alguma luta.
— Ah… talvez só pela Yunneh eu faria algo assim.
— Se for por alguém assim, tudo vale a pena. Se não fosse por ela e aquela velhinha lá, a Karina, você já teria desistido de tudo isso, não é? — O loiro enrolava o longo cabelo ao redor do dedo indicador enquanto falava.
— Na verdade, acho que continuaria mesmo se perdesse elas duas… Karina e Yunneh seriam pessoas pelas quais eu me sacrificaria sem pensar duas vezes se isso significasse que elas ficariam bem. Mas, mesmo que ficasse sozinho, ainda tenho uma razão pra continuar seguindo em frente.
— Qual?
— Meu pai. Ele com certeza gostaria que eu ajudasse as pessoas, e é por isso que eu quero colocar meu plano em prática. — Verion levantou e estendeu a mão para Jeremiah. — Você disse que quer me ajudar, mas tem certeza que vai querer continuar fazendo isso depois de eu te contar o que planejo de verdade?
O som constante da locomotiva sobre os trilhos na madruga dominou os segundos de silêncio. Demorou para que Verion tivesse uma resposta, mas ela veio com mais um sorriso confiante e um tanto sarcástico.
— Eu já disse, eu vou acabar morrendo antes desse mês acabar por me meter em Raptra. Só desembucha logo, baixinho! — Segurou a mão do Velgo. — Nós dois estamos condenados a morrer se não entrarmos em ação pra mudar isso de algum jeito, então pode contar comigo pra qualquer coisa.
“Ele aceitou tudo que ouviu bem rápido. Não sei se ele é maluco ou se só confia muito em mim.”
— Eu quero transformar todos os seres humanos do mundo em semideuses para termos uma chance de matar Aurelius Daath! — Verion apertou a mão dele com mais firmeza. — Se ele reencarnar nos nossos corpos, o mundo com certeza vai acabar! Criarmos um exército de semidivindades é a única forma realista de contra-ataque!
— Eita… — Jeremiah piscou duas vezes e seu sorriso aumentou, vindo uma gargalhada logo depois. — É, você é doidinho mesmo quando o assunto é ajudar os outros! Só me explica essa parada melhor que agora eu tô confuso e curioso!
Estamos chegando no arco maluco e interessante… mas a frequência vai continuar baixa por um tempo.

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