Capítulo 102: Lágrimas em Duas Cores
Respirar naquele ambiente era o mesmo que tentar engolir chamas. Foi apenas um ataque no tórax, e isso foi o suficiente para fazê-lo repensar nas suas escolhas.
Havia alguma possibilidade de vitória perante aquele ser à sua frente? Um que disse adeus à piedade para abraçar a vingança?
“Merda… Não tenho tempo pra pensar nessas coisas.”
Os dedos trêmulos ergueram-se aos lábios e limparam o sangue que escapou. Seu olhar, aparentemente determinado, ocultava a covardia que habitava na escuridão da pupila.
“É só dar tudo de mim. Não foi isso o que o moleque da máscara fez esse tempo todo?”
Esse foi o primeiro pilar em que ele pôde se apoiar: a perseverança de Morfius que ele assistiu de perto, sem precisar lutar sequer uma vez.
“Isso… Nesse mundo, deve ser fácil assim. Pra eu ter chegado tão longe, devo ser algum personagem importante…”
O segundo pilar foi traiçoeiro, talvez mais do que Carlos foi. Ele se disfarçou de esperança e facilidade apenas para banhá-lo em ilusão.
“… Eu vou vencer, esse mundo PRECISA que eu vença!”
As pernas encontraram força. Não havia mais hesitação em seu olhar, e os punhos cerrados só pensavam em uma coisa: vitória!
E então, ele correu com tudo o que tinha, aproximando-se de Naevra em pouco tempo. Naquela curta distância, ele tinha certeza que um golpe acertaria.
O braço direito projetou-se para trás, o quadril rotacionava de acordo, e o grito rasgou sua garganta apenas para enaltecer sua força. O resultado foi…
… Completamente desajeitado. Seu soco sequer acertou o rosto de Naevra, que observou, com um desprezo crescente, aquele punho se distanciando.
Todo esse teatro, que ele realmente pensou que era real, e que, de fato, era alguém importante para aquele mundo, fez a ira de sua oponente aumentar.
A resposta veio na mesma hora: um soco certeiro no fígado, um que ela tinha certeza que acertou com força, e o resultado veio de acordo.
A dor fez Carlos berrar silêncio. Por um momento, não havia mais ar. O mundo ficou distorcido de uma hora para outra e, quando percebeu, estava de joelhos no chão.
Seus bufos eram a única coisa que conseguia ouvir, a baba vazando dos lábios a única coisa que podia ver, e nada podia pensar.
Permaneceu assim por segundos, até que o pescoço se levantasse por vontade própria para verificar o estado atual de sua adversária: intacta.
As veias só faltavam saltar do rosto de Naevra, os dentes se continham para não explodir uns aos outros, e a voz espremeu-se para dizer:
— PA… TÉTICO.
Os olhos de Carlos esbranquiçavam com o clarão da verdade. A chance, que pensou que existia, sequer era real desde que ele pisou na arena?
“Impossível… Como…?”
Naevra nem sabia mais o que pensar a respeito. Pouco tempo depois, agachou e agarrou os cabelos de Carlos, forçando-o a olhar no fundo de seus olhos.
— Que porra é essa? Por que você tá lutando desse jeito? Não vai me dizer que esse desempenho lixo é tudo o que você tem, é?
A única resposta que Carlos pôde oferecer foi o lacrimejo de seus olhos. Não foi um teatro, tampouco uma tentativa de enganar sua adversária, ele simplesmente tinha só aquilo para oferecer.
O resultado foi tão simples quanto: Naevra não conseguia acreditar. Aquela pessoa, que denominou a si mesmo como uma maldição, era isso?
Carlos podia sentir a fúria crescente da adversária, junto daquela energia hostil que ficava cada vez mais quente: desprezo incondicional.
Ele, pela primeira vez, encontrou-se no fundo do poço da humilhação, e isso foi um golpe mortal para o seu ego, levando-o à perda da noção.
Seus dentes cerraram, como se ele tivesse direito de sentir-se enfurecido. Sua mão estapeou a de Naevra, e tudo o que ele tinha a oferecer era seu grito:
— CALA A BOCA! O QUE VOCÊ ACHA QUE SABE SOBRE MIM?! EU SOU MUITO MAIS IMPORTANTE DO QUE VOCÊ SE IMAGINA SENDO!
Os olhos de Naevra não sabiam mais o que estavam observando. O nojo caminhou até seus lábios, só para fazê-los torcer como nunca antes.
— EU VENCERIA SE EU ACERTASSE SÓ UM SOCO! VOCÊ SABE DISSO, POR ISSO FICA DESVIANDO, NÉ? COVARDE! LIXO!
Não tinha mais o que comentar a respeito. Naevra levou os braços ao horizonte e desistiu completamente do ataque, dando passe livre para ser atacada.
— Vai. Faz.
Ali estava a chance que ele tanto desejava. Uma para provar seu valor, enaltecer seu ego, e provar a si mesmo que ele era o protagonista daquele mundo.
Dessa vez, não houve erro. A mão direita esticou-se para baixo, e um brilho ciano, que crescia sem limites, representava a esperança que tinha nesse golpe.
Podia não ter completa noção do que estava fazendo, mas sabia que toda energia daquele corpo estava sendo dedicada naquele momento.
Não pensou duas vezes assim que sentiu estar pronto, e assim aconteceu: um enorme ataque de energia, tão destrutivo quanto grande, foi direcionado a Naevra.
Uma parte da arena foi destruída. A arquibancada, que estava atrás dela, também foi danificada. Poeira ergueu-se, ocultando sua forma, dando-a como morta.
Carlos sentiu um grande pesar nos ombros, junto de fadiga. Ele suspirava como alguém que doou toda sua energia a uma maratona, mas isso não importava.
Leveza abraçou seu coração. Um sorriso, de orelha a orelha, consumiu seu rosto e, quando percebeu, estava rindo sozinho, satisfeito com o resultado.
Não demorou para que isso se transformasse em gargalhadas. Ele estava realmente certo: sua existência era importante naquele mundo…
… Isso até a poeira começar a baixar. Pouco a pouco, uma sombra parecia revelar-se a cada instante. Seu sorriso se desfez só de pensar que poderia ser ela.
E era pior do que ele podia pensar. Ela estar viva não era a pior coisa, mas sim seu estado: intacta, dando tapinhas na roupa para afastar a sujeira.
— Entendi. Que merda. Minha avó paraplégica teria me machucado mais com um chute dela. Fazer o que.
Não havia mais narrativa alguma para tentar convencê-lo de que ele ainda tinha chance. Os punhos não podiam mais cerrar, e os braços desistiram de quaisquer ações.
— Na moral, cansei. Hora de morrer.
Naevra ergueu um dos braços ao céu. O rosto inexpressivo disfarçava suas intenções; entretanto, estava concentrando um pouco de energia que aquele corpo tinha.
E essa foi o suficiente para mostrar a diferença entre o céu e a terra. Uma esfera enorme surgiu, de uma hora para a outra, acima da palma.
Sua escuridão era tão grande que fez o adjetivo “escuro” sentir-se insuficiente. A única coisa que brilhava naquele abismo era o olhar universal escarlate.
— Já vai tarde.
A energia sequer estava indo em sua direção, mas a pressão que ela exercia era o suficiente para fazê-lo sangrar pelos olhos e despencar para trás.
A execução pública estava pronta. A morte de alguém, que merece morrer, estava prestes a acontecer, e nenhum dos espectadores sentiam incômodo com isso.
No entanto, uma névoa apareceu. Era tão sutil quanto o sussurro do vento, e sua cor era banhada em ciano e vermelho. As duas conviviam em harmonia.
Ela apenas encostou naquela esfera das trevas, e isso bastou para que desaparecesse. Naevra observou aquela névoa com um olhar confuso, mas entendeu logo depois.
— Entendi. Pelo visto, meu tempo acabou.
As pontinhas escarlates no olhar universal piscavam repetidas vezes. A pálpebra abaixava sem pressa, e os lábios deixaram o desabafo escapar:
— Acho que é hora de voltar pro meu refúgio.
A sombra, que espalhou-se no céu, também retornou para o conforto que os aguardava. As nuvens voltaram a brilhar sem a interferência da escuridão.
No entanto, isso não significava que estava tudo bem. Não era tempo de chuva, e, ainda assim, gotas d’água começaram a cair do céu.
O garoto abria os olhos pouco a pouco. Era dedutível dizer quem era só de olhar seu semblante desanimado, como o de alguém que acordou de um sonho ruim.
O que ele não sabia é que aquele dia seria diferente de todos os outros. Quando abriu os olhos por completo, pôde perceber algo à sua frente.
Não era mais uma simples névoa, mas, sim, um ser quase invisível. Tudo o que ele podia mostrar era as características de duas pessoas atualmente desconhecidas.
O cabelo era curto e ciano; no entanto, o resto do corpo era pintado em vermelho. Ônix podia não saber quem é, mas seu coração conhecia aquele calor.
Ele não disse nada, mas não precisava dizer alguma coisa, aquele ser não precisava de palavras, apenas de uma coisa: um abraço que quis oferecer de novo.
Foi tão inesperado quanto agradável. Ele não sabia o que dizer, mas sentiu pela primeira vez o que lhe aguarda no fim de sua longa jornada: paz.
A dor e angústia desapareceram, como se nunca tivesse existido. Era o conforto da paz que todos sempre tiveram em algum momento, mas ele havia esquecido disso.
As maldições ainda estavam ativas, então ele não podia chorar, mas até esse detalhe não foi esquecido por aquela pessoa que estava o abraçando.
Lágrimas cianas começaram a cair de seu olho direito, e o mesmo aconteceu com o esquerdo, só mudou a cor: vermelho, como o daquele corpo.
Por ter se passado tanto tempo, tinha se esquecido da sensação que só as lágrimas podem oferecer. Ele não sabia que precisava dela, até tê-la de volta por um breve momento.
Os joelhos abraçaram o chão, e mesmo assim aquele ser não o soltou. Seu tempo era limitado, e ele queria passar cada segundo confortando seu amado garoto.
Próximo capítulo: Vingança dos Irmãos.

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