CAPÍTULO II
Após pegar a grana, ele saiu sem muito ânimo do prédio, olhou para o dinheiro enquanto parado na calçada vazia e murmurou frustrado “não consigo fazer quase nada com isso”.
E então seguiu para o mercado mais próximo onde comprou pouca coisa, apenas o essencial para comer ao longo da semana, exceto por duas garrafas de vinho barato. Com isso voltou para a casa com pouco menos de trinta reais, uma sacola cheia e duas garrafas de vinho escondidas na sacola que carregava abraçado para não caírem.
No caminho para casa deu uma passada rápida em um beco pelo caminho, onde gastou uma parte do dinheiro que sobrou, e só então ele foi realmente para o seu acanhado lar.
— Mãe, cheguei — avisou com um grito, ao finalmente entrar em sua casa.
A porta dava diretamente para a acanhada cozinha na qual não cabia quase nada, era tudo compacto: na pia mal cabia uma panela grande, o espaço para deixarem toda a louça escorrendo era ainda mais ridículo, haviam armários em cima e em baixo para que eles pudessem guardar tudo, o fogão tinha apenas três bocas e o forno sequer dava para guardar as panelas menos usadas, a geladeira era menor do que ele, a mesa dobrável que estava acoplada a parede era mais uma coisa minúscula que mal dava para duas pessoas usar, e as cadeiras dobráveis se encontravam penduradas na parede, por um gancho cada, ao lado da mesa.
Ao abrir a geladeira para guardar aquilo o que havia comprado, a viu quase vazia, ficando fácil de organizá-la para que não se esquecessem de consumir nenhum dos alimentos mais velhos ali dentro, não podiam se dar ao luxo de desperdiçar.
A variedade dos alimentos não era grande coisa, tudo o que havia ali dentro eram as coisas mais baratas do mercado que pudessem sustentar uma pessoa por bastante tempo, basicamente a geladeira estava cheia de carboidratos. E ao se lembrar de que o controle remoto da TV estava sem pilha, ele abriu o congelador e pegou duas pilhas de uma caixinha cheia delas.
Antes que se sentasse no sofá, o qual ficava ao lado da cozinha — já que a sala era separada por apenas um piso diferente — pegou um copo de alumínio, uma das garrafas de vinho, misturou um pó na bebida e retirou os seus sapatos que ainda estavam ensopados por causa da chuva, os deixando pendurados atrás da sua geladeira para secarem.
Somente então que Noah finalmente se soltou, desabotoou os botões da camisa, bagunçou o cabelo, tirou seu paletó, no qual ele largou jogado no sofá, e se sentou, pensante, tirando duas cartas fechadas do bolso que pegou na caixa de correios, eram as contas do mês.
Não dava para pagar tudo, quitar as dívidas e sair do vermelho, era mais fácil jogá-las na pequena pilha de dívidas que se formava em cima do gaveteiro ao lado do sofá e se acabar na bebida para se esquecer de tudo, do que encarar tantos problemas que se formavam ao longo do mês, no qual ainda tinha um longo tempo até acabar.
— Que merda — suspirou se alargando no sofá, cansado.
— Oi, meu filho, chegou cedo hoje — observou a idosa senhora que andava lentamente até o sofá. — Conseguiu arrumar um emprego?
— Não, mas consegui uma grana pelas fotos, então comprei algumas coisas para nós comer na semana e sobrou um pouco. Vai dar para pagarmos uma conta — contou enquanto enchia o copo de vinho.
— Pelo menos uma conta, graças a Deus.
— Se Deus existisse não estaríamos nessa merda — sussurrou.
— Vou continuar rezando para que as coisas melhorem.
— Vai gastar a língua de tanto rezar, você precisa economizar energia para que possa se recuperar logo, os medicamentos não são baratos — disse após virar o copo de uma única vez.
— Rezar nunca é demais, me sinto até mais forte quando rezo.
— Sei — respondeu, desacreditado. — De qualquer forma, pare de ficar se esforçando tanto, deixa que eu faço todas as tarefas.
— Lavar uma louça nunca matou ninguém…
— Você vai ser a primeira se continuar desse jeito.
— Além do mais — continuou sem sequer tê-lo ouvido —, você já vem fazendo muito por mim, não é justo deixar tudo por sua conta.
— Você ao menos conseguia trazer dinheiro para pagar as contas e botar comida na mesa — disse enchendo mais um copo, a garrafa já havia ultrapassado a metade.
— Eram outros tempos, uma época em que a taxa de desemprego não estava tão alta. Hoje as coisas não estão fáceis para ninguém, quando ligo a televisão é morte para todos os lados, desemprego, comércios fechando as portas e etcétera… Dizem que esse plano real é para melhorar o país, mas só está tornando as coisas mais difíceis do que já estavam, não sei porque foram ter uma ideia dessas.
— Eu sei, eu sei, mas agora é minha vez de cuidar de você.
— Ninguém pode fazer tudo sozinho.
— Se pudesse agora nós estaríamos em uma casa boa, com comida boa na mesa, a mais nova geração tecnológica e roupas sem furos — falou aumentando a voz a cada palavra que saía de sua boca, o pó estava a deixá-lo alucinado.
“TRIIIM-TRIIIM…”
— Que barulho é esse? Desligue isso — reclamou, incomodada.
— É o despertador mãe, está avisando que é a hora do seu remédio — explicou.
— Não quero tomar essas porcarias, são horríveis.
— Vai sim, porque estou mandando! — gritou, estando relativamente tonto, enquanto ia atrás dos remédios.
— Porque é que você tem que ser tão grosso comigo assim de repente?
— Porque é que você tem que agir como uma criança estando tão velha? — continuou a erguer o tom de voz, enquanto agia normalmente preparando o remédio dela.
— Fala com a minha mão.
— Senhora mão, segure este copo e vire-o de uma só vez — disse entregando-a o copo com o remédio, que se dissolvia aos poucos na água.
“GUL-GUL-GUL…”
Foi com muito desgosto que ela esvaziou o copo rapidamente.
— Bom… Agora abra a boca.
— Para quê?
— Eu quero ter certeza de que você engoliu o remédio.
Então ela mostrou a língua, cheia de raiva, para provar que havia engolido tudo.
— Ótimo. Agora vai para a sua cama antes que capote em qualquer lugar, não estou afim de carregá-la de novo.
— Está bem, seu mandão… Ficando bravo comigo à toa — resmungou.
Após ela sair, ele pegou algumas cartas de seu paletó, era a resposta das empresas em que fez entrevista. Então ele foi até a cozinha, abaixou a mesa, pegou uma das cadeiras, abriu a outra garrafa de vinho e, apreensivo, se sentou para lê-las.
A cada segundo que se passava lendo cada uma daquelas cartas, Noah ia ficando ainda mais frustrado, todas as empresas haviam lhe rejeitado, era assim todas as vezes. Noah até sentia que aos poucos estava se acostumando com isso, tanto que ele comemorava sempre que alguma empresa, qualquer uma, lhe solicitava para uma segunda chamada, porém, no fim, o resultado era o mesmo, apenas mais uma mensagem de rejeição no meio de tantas outras, isso quando a empresa enviava algum aviso.
— O que estou fazendo de errado? — se perguntou, cabisbaixo, se debruçando na mesa após virar a última gota de vinho que tinha.

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