Noah, em sua casa, conforme a droga que havia posto em sua bebida ia fazendo efeito e enquanto se afogava em suas lágrimas de desespero, amedrontadoras gargalhadas, cada vez mais constantes, surgiam perante as suas alucinações que tinha com a sua mãe.

    As lembranças de toda uma vida que estavam a passar como se fosse um filme bem diante dos seus olhos. Desde que era capaz de se lembrar, ela estava lá para ajudá-lo, protegê-lo, e tudo sozinha.

    Ela o ensinou o que pôde para ele ajudá-la em casa quando voltasse da escola e o ajudava com a sua lição de casa mesmo sabendo pouco, não tendo terminado nem seus estudos básicos mais fundamentais, mas, para ajudá-lo, estudava um pouco todas as noite para aprender as matérias que ele tinha dificuldade.

    Sua mãe faltava constantemente do seu trabalho para cuidar dele quando ficava doente, algo bem constante, pois sempre foi mais fraco do que as outras crianças.

    Noah teve que passar quase toda a sua infância tomando os remédios que sua mãe lhe dava para que parasse de passar mal, até que um dia, depois de anos melhorando gradualmente de sua estranha condição física deteriorada, pode ter uma vida normal.

    Após tantos anos em que passou em frente a televisão, doente, assistindo a tudo o que a tevê aberta lhe proporcionava que considerava interessante, como programas infantis e, principalmente, o jornal que mostrava coisas ao redor do mundo, tanto que, enquanto as outras crianças admiravam o Zico, ele admirava os jornalistas que trabalhavam pelo mundo afora.

    Apesar de não terem dinheiro para comprar uma TV, bastou sua mãe trapacear em um concurso para terem acesso a vários canais abertos.

    — Que merda — resmungou, cortando todos os pensamentos que vinham em sua mente —, acabou a bebida… Vou ter que pegar mais.

    Ele estava tão tonto que mal pôs três dedos de vinho no copo e um dedo do resto do pacote de drogas que tinha, desperdiçando todo o resto que se perdeu na pia, mas não conseguia ficar bravo com isso, não no estado em que estava, só olhou para o ralo da pia e disse com um olhar surpreso e a voz turva:

    “Nossa, mamãe vai ficar uma fera se descobrir que droguei a pia. Por isso que não vamos contar nada para ela senhores pratos”.

    Então voltou para o sofá, onde se sentou em cima do controle, deixando a tevê em uma tela estática preto e branco que não parava de chiar, parecia até que várias formigas estavam sobre a tela, até que desligou a TV.

     Ele ficou encarando o seu próprio reflexo refletido pela tela, no qual rejuvenesceu até voltar a ser um adolescente no final da década de mil novecentos e oitenta, se lembrando de uma época repleta de arrependimentos.

    Mesmo depois de anos recebendo todos os cuidados que sua mãe podia lhe proporcionar, com ela o ajudando a se exercitar e a estimular sua imaginação nas aventuras que vivia em sua casa, ainda assim, em um dia chuvoso de verão, ele foi detido roubando um videocassete e levado pela polícia para a delegacia.

    Estando algemado, registraram na presença de sua mãe, não apenas um, mas diversos roubos que cometeu na cidade diante de várias testemunhas que foram até a delegacia para identificar o indivíduo.

    Sendo reconhecido por todos que, sem o mínimo de dúvidas, afirmaram que ele fazia parte do grupo de arruaceiros que os roubaram: carteiras, colares, calçados, pulseiras, relógios, chaves, mochilas, chapéus, óculos, videogames, roupas e até calotas de carros.

    Ele ainda conseguia se lembrar bem da expressão de sua mãe mudando a cada palavra que ouvia na delegacia, a vergonha que ela sentia, a sua raiva e sua tristeza completando essa mistura de emoções que apertavam o seu coração e o de Noah, que não sabia como, mas parecia sentir a dor dela.

    Ele passou cinco longos meses preso em uma instituição correcional antes de voltar para a sociedade, só voltando a ver a sua mãe no dia em que foi liberado.

    “Calotas de carros… — relembrava Noah, como se fosse ontem, das primeiras palavras que ouviu depois de uma longa e silenciosa caminhada até a sua antiga casa. — Para o que você usou essas calotas? Isso é uma coisa que não entra na minha cabeça.”

    Noah, envergonhado, ficou calado ouvindo ela reclamar incessantemente durante longos e inacabáveis minutos, mas nada foi tão marcante quanto o olhar dela depois que se sentou na cadeira, incapaz de bater nele, o dando algo pior que veio junto de uma frase que nunca mais gostaria de ouvir sair da boca dela e um olhar triste que parecia se perguntar onde foi que ela errou para chegar a tal situação enquanto falava:

    “Você me decepcionou muito”.

    Na manhã seguinte o clima não era um dos melhores, levou tortuosos dias até que recuperasse um pouco da confiança que havia perdido e semanas para que ela voltasse a confiar nele.

    Para isso ele se tornou o filho exemplar que ela tanto merecia, se focou nos estudos, no seu futuro e em ajudar sua mãe que parecia envelhecer muito mais do que as outras pessoas e, consequentemente, a ficar cada vez mais doente.

    Noah não sabia como aquilo era possível, mas era o único a reparar nisso já que mudavam de casa quase sempre de três a três meses por não pagarem o aluguel, então não parecia dar tempo para que mais alguém reparasse naquilo.

    O ruim era que não conhecia nenhum amigo de sua mãe, alguém para ajudá-los, dava a impressão de que era os dois contra o mundo.

    Ainda assim, mesmo depois de ela estar ficando a cada ano em uma situação mais precária, mesmo tendo perdido toda a sua confiança nele, continuou a treiná-lo, treinamentos que, com o tempo percebeu, conforme ia envelhecendo e as brincadeiras no meio disso tudo ficando de lado, que serviam para a sua defesa pessoal e do próximo.

    Além disso, ela continuou a ajudá-lo com a faculdade e não parava nem por um instante, desde que podia se lembrar foi assim, ela saía cedo de casa, chegava bem tarde, e ainda assim tirava tempo para ajudá-lo e treiná-lo no restante do dia antes de ir para a cama se deitar.

    Seguiu assim até o dia em que ela começou a passar tão mal que sequer conseguiu ir para o trabalho, o que era raro, foi então que tudo mudou para eles.

    Ela teve menos tempo e Noah precisou começar a se virar, repetindo a sua rotina por conta própria, enquanto via a sua mãe ter altos e baixos constantes em sua saúde.

    “DIN-DON!”

    De repente a campainha tocou, acordando o Noah que estava babando com a cara no sofá.

    “DIN-DON-DIN-DON-DIN-DON…”

    Continuou a apertar incessantemente a campainha do portão, quem quer que o estivesse esperando, forçando-o a gritar “estou indo” antes que quebrassem a campainha. Contudo, ao abrir a porta para ver quem era que estava tão desesperado, ele não avistou ninguém do lado de fora de sua humilde casa, murmurando, frustrado demais para se importar com algo tão tosco: “Esses pivetes não tem nada para fazer mesmo”. Ao voltar para dentro de sua casa, com a cabeça parecendo que iria explodir, se deparou com o cartão que o médico havia lhe dado, estava largado na borda da mesa, tanto que o fraco vento o derrubou aos seus pés.

    — Ah… que merda, já estava quase esquecendo disso — suspirou pegando o cartão. — É melhor eu ligar antes que me esqueça de novo — disse enquanto bocejava e sentia a cabeça doer ao mesmo tempo. — Só vou tomar um remédio antes, puta que pariu.

    E após tomar o remédio ligou para o hospital através do número do telefone anotado no cartão, enquanto terminava de preparar uma xícara amarga de café, já que havia acabado todo o açúcar do pote.

    — Alô? — perguntou à atendente do outro lado da linha.

    — Oi… A minha mãe está com câncer, mas o hospital em que ela está não tem suporte para isso, então o médico me passou o número de vocês… — explicou Noah, como se estivesse prestes a engasgar com as palavras.

    — Entendi. Então o senhor gostaria de deixá-la sob os nossos cuidados?

    — Sim, por favor.

    — Se o senhor quiser nós podemos mandar uma ambulância para fazer a transferência amanhã de manhã, mas para isso precisamos que nos informe o hospital em que a sua mãe está para entrarmos em contato, o nome completo dela e o seu, o telefone para que entremos em contato, celular, se tiver, além de que venha aqui, no máximo em até três dias, com seus documentos e os dela para que possa assinar os papéis do registro dela aqui…

    — E quanto é o valor?

    — A diária é de cinquenta reais e começamos a cobrar a partir do momento em que ela completar um mês de sua chegada aqui.

    — Isso dá basicamente mil e quinhentos por mês, né? — perguntou de cabeça baixa, se perguntando se realmente conseguiria pagar por tudo.

    — Os valores alteram dependendo de quantos dias tiver no mês, mas, basicamente, é isso mesmo!

    — Que merda… — suspirou após afastar o celular para que a mulher não o ouvisse.

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