Capítulo 81 - Peões
Enquanto descem o morro até Kanthen, os quatro mordiscam alguns bolinhos. A paz da alvorada é algo de outro mundo nesse lugar. Cada detalhe do mundo parece ser digno de contemplação, desde as formigas até as intocáveis estrelas. Naturalmente, os ombros de Raisel relaxam sob a gentil brisa aromática de flores multicolores.
“Aqui é tão diferente do Centro Comercial de Balmund… A cidade parece limpa. A natureza sem qualquer interferência de mãos pecaminosas. Consigo ver casas que sobem em espiral por todo o tronco de uma árvore gigante… É uma cidade em perfeita harmonia com o mundo. Como é lá dentro?” 一 genuinamente, a fagulha de esperança de um mundo justo e belo preenche o coração pouco experiente do menino.
Olhando-o de canto, Tejin suspira. Seus olhos objetivos como a ponta de uma lâmina sequer cintilam ao ver a sua cidade natal. Por outro lado, Kimich está com as sobrancelhas derretidas de tédio.
A meia-elfa apalpa as próprias mãos. Por mais que tenha alguma expectativa, o horror recente de Kromslaing e suas mágoas não deixam seu coração vibrar de alegria. Seus ombros estão tensos.
“Outro lugar desconhecido… mas me parece tão familiar.” 一 os punhos escorados contra o peito captam os batimentos turvos da sua alma.
Entretanto, na base do monte, os lumes dourados de Raisel arregalam-se. O odor metálico e amargo passa nas suas narinas como uma breve saudação da realidade. Ao desviar o olhar para a direção do cheiro, o alquimista já está olhando a mesma área. Engolindo seco, o fedor de ovo podre rapidamente contamina o espaço…
一 Você sentiu isso também, Kimi? 一 com a mão canhota, inclina o sabre brevemente para o chão.
一 Sim… Tejin, Jeanice, tem cadáveres de alguma coisa por ali.
Tomando as rédeas, o homem impulsiona-se até lá em saltos sequenciais.
Seguindo-o, a formação naturalmente muda para que o menino ficasse por último, na retaguarda dos meio-elfos.
一 “Garoto, sinto uma concentração de Beisen gigantesca… Provavelmente é um Contratante.” 一 a voz grave ressoa diretamente na mente do garoto.
一 “Não consegue dizer qual é a direção?” 一 um dos olhos fechados em incômodo esboçam o quão alta foi a mensagem na sua mente.
一 “Em todo lugar.”
As palavras de Leraje parecem paralisar o mundo de Raisel. Nem mesmo um lugar magnífico como este, está livre das amarras do caos? Novamente, um pedaço da alma dele se trinca, tornando as cores em sua visão mais opaca. Suas pálpebras fecham um pouco, transformando seus olhos em uma lâmina afiada.
Em poucos instantes, eles chegam na cena: um campo de gramíneas douradas, mas que agora, estão tingidas de sangue viscoso. Agachando próximo dos cadáveres, Kimich estende o palmo para introduzir o seu Gewissen transparente pela área. Os corpos completamente avermelhados repartidos ao meio são envoltos, seguido por outro que teve seus braços e pernas amputadas, um decapitado e outro com um terço do corpo faltando… As manchas de sangue alastraram-se por uma grande área entre as moscas brilhantes.
Jeanice tapa o rosto com as mãos enquanto Raisel encara aquilo com o maxilar tenso.
一 Terminei de analisar… 一 enquanto levanta, o loiro observa cada um dos seus companheiros em silêncio.
一 Eles morreram há dois dias. Não foram feridos apenas mortalmente, então não foi um assassinato. Foi uma luta direta. Não dá pra reconhecer as vestimentas eos traços pelo número de ferimentos… fizeram isso para dificultar a identificação, mas eu consegui descobrir. Essas pessoas são… meio-elfos. 一 apertando os punhos por dentro dos bolsos do sobretudo, ele volta a caminhar em direção à Kanthen.
Raisel acompanha o caminhar dele, encarando as suas costas. Mas ao levar os olhos para Jeanice e Tejin, eles estão paralisados enquanto encaram aquela cena…
一 Tsc. 一 o garoto recua com a cabeça e segue atrás do alquimista.
“Por que em todo lugar tem mortes cruéis assim… Quem pode ter feito isso?” 一 a bainha da espada, pressionada com força, vibra entre tinidos do metal colidindo.
Afastando-se dos meio-elfos assassinatos, os humanos esperam escorados em uma árvore. Eles se encaram por um breve instante.
一 Os ferimentos… eles tinham traços demoníacos fracos. Não conte isso para os outros dois, mas esses corpos estarem tão próximos de Kanthen… algo deve estar lá dentro. 一 de braços cruzados, as sobrancelhas franzidas fazem os olhos castanhos dilatar pela energia translúcida.
一 Mas o Tejin havia dito que elfos de Sangue Puro não possuem pecados…! 一 o dedo indicador flexionado em frente aos lábios, tapa os seus lábios brevemente.
一 Sim… Isso só pode ser obra de humanos ou outros meio-elfos… Não baixe a sua guarda em momento algum no momento em que entrarmos na cidade. Se forem Pagãos, podem estar planejando algo grande…
“E, na pior das hipóteses, vão capturar você…” 一 o loiro complementou na própria mente.
A brisa do meio-dia arrepia a nuca de Raisel. Um pressentimento ruim como uma náusea ou enjôo leve incomoda o seu estômago…
Enquanto as folhas e flores imaculadas caem, as árvores se transformam em prédios de granito e arenito. Os tijolos escaldantes sobrepostos na muralha do Centro Comercial, escondem a verdadeira essência desse lugar. O Coliseu distante ao fundo e o Castelo da Guerra sobre o pico do monte, quase como parte dos céus.
Lá dentro, na câmera de audiência protegida pelos Goléns de Ouro, alguém reverencia o seu senhor sentado no trono colossal. Com o rosto apoiado em uma de suas mãos repletas de escamas, Liekkien encosta a ponta do dedo sobre a braçadeira de concreto algumas vezes.
一 Soberano, como foi planejado, os Kriegshunde conseguiram se infiltrar em Roderich. Pelas chances dos fugitivos e dos Selvagens terem ido para Eramelyn serem baixas, eles decidiram começar procurando por Kanthen, a Primeira Cidade. 一 de cabeça baixa, os fios espetados de cor marsala mais parecem com uma explosão de sangue.
O monstro sobre o trono apenas sorri de canto, mas isso é o suficiente para deixar a sala mais pesada.
一 Ótimo, criança dos Gunther… Ordene os seus homens para que eles não apenas descubram informações sobre aqueles malditos, como extermine o maior número de insetos elfos e mestiços possível…! 一 a fala, apesar de baixa, é carregada de uma energia natural capaz de estremecer todo o castelo.
O bom humor do senhor da Guerra significa que um conflito de grande escala aparecerá…
一 Entendido, Soberano.
O semblante desse homem se levanta. Sua cicatriz cruzada enorme começa do centro da testa até se espalhar pelas bochechas. Os olhos negros cintilam em uma aura escaldante. Em seu peito, uma estrela de quatro pontas prateada representa o seu perigo…
Após a confirmação, esse rapaz desaparece com o espaço sendo comprimido à sua volta de maneira brusca.
“Valdrien… mesmo tendo uma terra tão farta, jamais conseguiu extrair toda sua riqueza. Seu comodismo me irrita… Eu pegarei tudo o que é seu para mim! Começarei enfraquecendo a cidade-fronteira do sul com essas mortes…!”
Uma cauda repartida em manchas horizontais flamejante começa a balançar pela animosidade da Calamidade. Com a última batida do dedo sobre a braçadeira do trono, tudo se apaga.

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