Índice de Capítulo

    Zumbido. Eis isso tudo o que Carlos pôde ouvir. Suas orelhas tremiam sozinhas. Sangue era tudo o que elas podiam oferecer ao portador.

    Tudo, ao seu redor, era escuro. O bastante para fazê-lo questionar se seus olhos estavam realmente abertos; no entanto, não tinha energia para concluir seu raciocínio.

    Um de seus dedos tremeu, mas isso era tudo o que podia fazer. Tentar levantar nesse cenário era impossível, suas costas pareciam pesadas demais.

    Por um momento, pensou que estava morto. Não podia se mover, ouvir, falar, apenas pensar, mas não concluir. A ausência de emoções nesse lugar o fez desistir de pensar sobre isso facilmente.

    Foi na sua desistência que partículas cianas começaram a surgir, contaminando cada gota das trevas até que se tornasse uma interface completa.

    👁️1
    Você é mais inútil do que eu pensei.

    Os olhos de Carlos estavam banhados em escuridão, mas a sua indagação era tão clara quanto a luz: “Quem é esse sistema dos olhos estranhos?”

    👁️
    Ahh… Só porque o “S1” desapareceu nesse lugar você não me reconhece? Parece que estar perto da morte só te tornou mais burro.

    Uma vaga memória caminhou por sua mente. Foi esse sistema de cor ciana o responsável por entregar-lhe aquela máscara assim que reviveu.

    👁️
    Enfim, não vim aqui pra ficar de papo. Retardei ao máximo as recompensas da floresta e entreguei tudo discretamente agora. Quando acordar, diga: “Consumir item especial”, e você terá uma nova chance. Tchau.

    E assim se foi, tão rápido quanto veio. Carlos até tentou raciocinar a respeito, mas não havia mais tempo, as trevas começaram a se desfazer rapidamente.


    Uff… Ahh…

    Eis o sussurro da respiração. O calor aconchegante que rodeava Ônix se despedia pouco a pouco, e a maldição da dor erguia seu império novamente.

    Os olhos fechados insistiam em tentar sentir, mas era tarde demais. As lágrimas se afastavam do rosto, deixando-o seco como estava antes.

    As pálpebras se ergueram pouco depois. Ainda de joelhos, conseguia sentir o pulsar angustiado de seu coração. Com a ausência da paz, retornou a sofrer.

    No entanto, um detalhe o impedia de sentir-se sozinho: não foi a primeira vez que sentiu esse conforto, suas lembranças eram a prova disso.

    Quando reviveu, tentou acabar com tudo ali mesmo usando uma faca como instrumento, mas algo o impediu, e esse algo tinha esse mesmo calor.

    Ainda que estivesse abraçado à tristeza, tinha total certeza de que não estava sozinho. Não por ter muitos amigos que o amam, mas por ter algo invisível zelando por sua vida.

    Portanto, levantou-se. A cabeça baixa evitava olhar para Carlos. Seus passos lentos acompanhavam a visão desfocada, entregando que sua mente estava distante dali.

    Agora caminharemos para a arquibancada. Saito e Waraioni observaram todo aquele evento com olhares indecifráveis. Ao mesmo tempo que brilhavam, pareciam ter desvendado alguma coisa.

    Os lábios de Saito estavam entreabertos. Seus dedos, incapazes de controlar uma erupção, tremiam ao tentar executar essa tarefa.

    Waraioni tampou os olhos com a palma e baixou a cabeça. Morfius, esse tempo todo, era Carlos? Para ele, que não sabia a verdade, essa era a única resposta plausível.

    “Era ele esse tempo todo…”

    Saito levantou-se. Seu semblante aparentava tranquilidade, mas os olhos não mentiam na angústia que sentiam. Algo, pelo menos dessa vez, deveria ser feito.

    Dito isso, caminhou em passos lentos em direção a Andressa. Não demorou tanto até que a alcançasse, dizendo logo depois:

    — Pode me ajudar com uma coisa, por favor?

    Andressa não pensou duas vezes antes de responder: “Posso.” Sendo assim, Saito respondeu: “Pode tampar os olhos dele quando ele chegar na arquibancada, por favor?”

    À primeira vista, esse desejo foi algo ligeiramente estranho. Por um momento, hesitou em dizer que poderia, mas conseguiu concluir sua frase logo depois:

    — Eu… Sim, consigo.

    — Muito obrigado, de verdade.

    Saito despediu-se dessa forma, retornando para onde Waraioni estava. Sua cabeça estava baixa, e seu olhar estava ainda mais indecifrável do que antes.

    Os lábios cerravam pouco a pouco. Os punhos apertaram quase que inconscientemente. Seu coração começou a bater cada vez mais forte.

    — Eu também sinto essa dor.

    Disse alguém ao seu lado. Por algum motivo, essas palavras serviram como um apoio simples, mas que todos precisam: lembrar de que não estão sozinhos.

    Waraioni ergueu a cabeça e olhou para o lado. Lá estava seu irmão com a mão estendida para ajudá-lo a levantar enquanto complementava:

    — Eu já cuidei do mais importante. Vamo lá, dar um fim nessa história é nosso trabalho como irmãos.

    Além de um suspiro profundo, não houve o que responder de volta. Waraioni aceitou a ajuda oferecida e caminhou para frente, pulando da arquibancada pouco depois.

    Saito acompanhou de imediato. Os pés tocaram o chão logo após, mas algo parecia estranho. Um incômodo incomum apertava seu coração.

    Quando percebeu, estava hesitante em olhar para frente, onde seu irmão estava. O que o coração sentia que seus olhos não queriam ver?

    A única resposta era “pagar para ver”, e assim foi feito. Ainda que seus instintos insistissem em dizer “não”, ergueu o pescoço e descobriu de onde aquele incômodo vinha…

    … Os olhos universais. Aparentavam estar normais; entretanto, tristeza estava imperando na escuridão de seus olhos, como se sempre estivessem lá.

    Tudo o que Saito pôde fazer foi arregalar levemente os olhos e manter os lábios entreabertos. Perante essa provação em que uma luta física não existe, ele não sabia o que deveria ser feito.

    O que dizer? Um abraço aliviaria, mesmo que só um pouquinho? Deixá-lo em paz seria melhor? Todas essas indagações caminharam por sua mente.

    Foi então que Waraioni começou a fazer o que julgou ser o melhor. No começo, apenas caminhou com os lábios apertados em direção a Ônix.

    Depois, sem trocar sequer uma palavra, o abraçou. Uma lágrima discreta escorreu por um de seus olhos, mas isso não importava nesse instante.

    Isso o ajudaria de alguma forma? Sua dor diminuiria, mesmo que somente 0,0001%? De forma alguma, mas ele entendeu que, além disso, nada podia ser feito.

    — Vai lá descansar…

    Essas foram as palavras que usou para desfazer o abraço e deixá-lo seguir em frente. Ônix recomeçou seus passos, lentos como sempre.

    Saito, por sua vez, não fez e nem disse nada. Seu peito gritava mais do que os lábios podiam suportar para se reerguer e falar algo a respeito.

    Foi somente poucos segundos depois em que ele virou seu olhar para trás, observando o cenário para saber quando ele fecharia os olhos.

    Não muito depois, Ônix encostou uma das mãos na parede e foi teletransportado para a arquibancada. Além de sentar-se e manter a cabeça baixa, nada fez.

    Alguns passos se aproximavam dele, mas isso não tinha importância para ele. Pouco depois, alguém sentou-se ao seu lado sem dizer nada.

    Mais alguns segundos se passaram, e esse alguém encostou a cabeça no seu ombro. Sua voz inconfundível revelou que era Andressa.

    — Posso te pedir um favor?

    Essas palavras, para ele, pareciam lentas demais. O mundo, pouco a pouco, estava desacelerando? Não havia respostas disponíveis para isso.

    — Pode… Pode sim.

    Andressa suspirou profundamente e fechou os seus olhos, entregando-se ao silêncio por um curto momento, até que tivesse coragem de dizer:

    — Fecha seus olhos? Eu já fechei os meus pra te acompanhar.

    No começo, pensou: “Que pedido estranho…”, mas, quando deu por si, as pálpebras pesavam pouco a pouco. Antes que a escuridão abraçasse seu olhar, respondeu:

    — Tranquilo…

    Carlos, poucos segundos antes disso, havia aberto os seus. Não restavam forças para respirar direito e, tampouco, levantar; entretanto, tudo o que precisava dizer era somente três palavras.

    — Consumir… Item especial.

    E assim foi feito. Todas as feridas de seu corpo desapareceram no mesmo instante. Seu próprio corpo começou a levantar sem o seu consentimento.

    O azul tomou seus olhos como uma súbita descarga elétrica. Logo em seguida, o pigmento escuro de seu cabelo recuou, dando lugar a um tom dourado vívido que parecia refletir uma luz que não vinha de fora, mas de dentro de suas próprias células.

    Um dos braços ainda estava baixo, mas o outro estava firme na cintura, pronto para atacar a primeira pessoa que estivesse na sua frente.

    Relâmpagos começavam a cantarolar no céu. As nuvens se agrupavam em um grupo em atenção. Saito notou o fechar dos olhos de seu irmão.

    Dessa forma, as lâminas de jade surgiram em ambas as mãos. Assim que elas encostaram no chão, um trovão acertou sua cabeça em cheio.

    A cor do cabelo, outrora azul normal, tornou-se Neon. As lâminas colidiam no chão incontáveis vezes conforme ele balançava as correntes enquanto caminhava.

    Waraioni, por sua vez, permitiu-se chorar em um dos olhos enquanto o outro sussurrava sangue. Dessa forma, invocou uma foice temporal e arrastou-a no solo, observando fixamente seu atual adversário.

    Próximo capítulo: Peça Perdão a Deus.

    1. @Maik: Eu queria por um dos olhos universais de Ônix aqui, mas não tem como. Imagine que é um![]

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