Capítulo 208 - A fome tem forma
O círculo de inimigos se fechava como uma mandíbula faminta.
Harley forçou-se a ficar de pé, mesmo com a dor que latejava desde que a linha do destino se desfizera por completo, fechando-lhe o caminho para a Dimensão da Morte.
No instante em que a bolha dimensional deixou de envolvê-lo, os Cobradores Dimensionais avançaram pelas dunas, sem mais nada que os contivesse.
Não eram apenas criaturas. Eram impulso devorador. Atraídas pela energia dimensional desencadeada.
À medida que fechavam o cerco, as doze formas reptilianas tornavam-se brutalmente nítidas. A areia já não as distorcia. Seus corpos, feitos de treva espessa, se contorciam em geometrias instáveis que o olhar mal conseguia acompanhar. Estavam perto demais.
No núcleo de cada criatura, a matéria escura se contraía e se projetava em ondas densas, calculando o próprio impulso. Estruturas alongadas se formavam e se desfaziam na superfície, reconfigurando-se a cada avanço, sempre inclinadas para o mesmo ponto: eles.
Um deles disparou quinze metros em linha direta, reduzindo a distância de forma brutal. Outro dividiu-se em seis prolongamentos móveis que avançaram em vetores distintos, fechando ângulos e eliminando qualquer espaço de evasão.
Um apêndice atingiu uma rocha escura à margem da duna. Não houve impacto, houve extração. A pedra empalideceu, perdeu contorno e se desfez em fragmentos secos, como se seu interior tivesse sido removido antes mesmo da matéria ceder.
Por onde passavam, deixavam um rastro de esgotamento absoluto. A areia não queimava nem se partia: tornava-se opaca, sem tensão, reduzida a matéria comum. Durante quinhentos anos, aquele solo fora saturado pela energia dimensional que o envolvera. Agora essa carga era arrancada sem pausa.
O que havia ali ainda se resumia à dispersão. O que buscavam não era espalhar energia, mas concentrá-la: intensificá-la sobre um único ponto.
A ameaça avançava sobre eles. Ivana deslocou o peso do corpo e concentrou a energia que a envolvia. Após hesitar, a matéria sombria escorreu até a mão e se adensou numa haste escura, assumindo a forma estável de lança compacta.
A mulher sombria calculou o avanço das doze formas, acompanhando cada deslocamento. Só então abriu os lábios, e o tom que emergiu não carregava medo.
— ESTAR AO SEU LADO CONTINUA EMOCIONANTE COMO SEMPRE.
Ivana riu baixo, a lança firme na mão.
— E VOCÊ NÃO MUDOU NADA. SEMPRE COM GENTE CORRENDO ATRÁS DE VOCÊ.
Ela inclinou levemente o rosto, sem tirar os olhos das criaturas.
— ASSIM VOU ACABAR FICANDO COM CIÚMES.
Harley permitiu um sorriso breve.
— Ainda sou irresistível.
— IRRESISTÍVEL PARA PROBLEMAS. — o tom dela permaneceu leve — PENSEI QUE JÁ TINHA RESOLVIDO ISSO.
Ele encontrou os olhos dela.
— Eles ainda são menos perigosos do que você.
Uma das criaturas avançou primeiro. Um apêndice distendeu-se em velocidade abrupta e cortou o espaço entre eles, projetando-se exatamente onde estavam. Eles saltaram para lados opostos no mesmo instante. O tentáculo atingiu o solo que ocupavam um segundo antes e o impacto não produziu som algum. A areia simplesmente cedeu, escureceu e foi sugada para dentro da própria sombra criada pelo contato.
Harley sentiu o peso do movimento. O salto foi mais forçado do que deveria. Ainda havia em seus músculos a reverberação da energia que rasgara as linhas do destino, agora convertida em exaustão mal disfarçada. Usara mais do que calculava. Houve resposta do corpo, embora a precisão de outrora tivesse se perdido.
Quando voltou a erguer o olhar, a constatação foi imediata. Eles estavam no centro. As doze formas ajustavam distância e ângulo a cada passo, preservando proporções idênticas entre si. O jovem Ginsu girou lentamente o campo de visão. Não encontrou abertura, falha ou atraso no avanço.
Os Cobradores estavam cada vez mais próximos. Muito próximos. E, conforme encurtavam o raio, reduziam a velocidade.
Os apêndices começaram a se multiplicar. Não em uma única criatura, mas em todas. Onde antes havia cinco, surgiam oito. Depois dez. Depois doze. As extensões cresciam e se subdividiam em velocidade crescente, ocupando o espaço ao redor deles e comprimindo qualquer margem de deslocamento.
Eles se olharam por um instante. A conclusão era simples. Se qualquer um daqueles ataques os atingisse em cheio, não haveria segunda tentativa.
Harley ainda sentia o eco da dimensão que atravessara minutos antes. A sensação de morte não desaparecia quando se retornava. Um peso insistia atrás dos olhos, sugerindo que parte dele continuava lá. Ivana lhe dera segundos suficientes para firmar a respiração e conter o tremor nas mãos. A nitidez, entretanto, ainda falhava. Seu foco vinha em ondas.
Um dos apêndices contraiu-se com mais tensão que os demais.
O jovem Ginsu identificou o vetor tarde demais.
O tentáculo já vinha direcionado ao seu crânio quando a mulher o puxou pelo braço com violência lateral. O golpe atravessou o espaço onde sua cabeça estivera e atingiu o chão atrás deles, sugando a matéria ao contato.
Outro ataque veio imediatamente, desta vez baixo, tentando varrer as pernas. Ivana girou a lança em arco curto e seccionou a extensão antes que tocasse Harley.
À esquerda, mais três apêndices se retraíram ao mesmo tempo, sinalizando que o próximo avanço viria de forma simultânea.
Ivana não esperou confirmação. Puxou-o para frente, diretamente contra a lateral de uma das criaturas. A superfície não era sólida nem líquida. Era densidade viva, fria, vibrando sob tensão. Um tentáculo desceu onde ele estivera um instante antes.
Sem soltar o braço dele, ela mudou o eixo do próprio corpo e mergulhou na sombra projetada pela criatura. Não na areia. Na sombra dela.
— NÃO SOLTE. NÃO RESPIRE.
A escuridão os absorveu.
Harley já atravessara sombras com Ivana antes. Aquela era diferente. Nas outras ocasiões, a travessia era ausência de luz. Espaço neutro entre pontos. Agora havia resistência. A sombra carregava a assinatura da criatura que a projetava.
Eles não viajavam apenas por escuridão.
Atravessavam o reflexo vivo do predador.
Algo se movia junto. Longe de ser entidade separada, era extensão direta da fome que compunha os Cobradores. A pressão ao redor era maior, o percurso mais viscoso. Ele sentiu algo roçar sua lateral, não físico, mas consciente.
A própria natureza da criatura contaminava o trajeto.
O deslocamento durou pouco, embora a percepção fosse de tempo alongado demais para algo que deveria ser instantâneo. Emergiram na sombra irregular de uma formação rochosa a cerca de vinte metros do ponto anterior, fora do cerco formado pelas criaturas.
O ar retornou com violência.
Harley girou imediatamente. As criaturas já se reorganizavam, redistribuindo posições e continuando a perseguição.
Ao lado dele, Ivana vacilou.
A forma dela perdeu estabilidade por um instante, os contornos tornando-se translúcidos antes de se recomporem. Ela se contraiu de forma abrupta e vomitou na areia.
A substância era espessa, escura demais para refletir qualquer luz.
E não se dissipava. Permanecia ali, recusando qualquer retorno.

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