Índice de Capítulo

    O amanhecer em Ōtsu não trazia esperança.

    Trazia sobrevivência.

    O céu ainda estava pálido quando Vini abriu os olhos. O corpo protestou de imediato, como se cada músculo tivesse decidido lembrá-lo do preço de estar vivo. O joelho ardia, o rosto latejava, mas ele se sentou mesmo assim.

    Neom já estava acordada.

    Ela observava a rua ao longe, sentada com os braços envolvendo as pernas, atenta a qualquer movimento. Quando percebeu que Vini havia despertado, soltou o ar devagar, aliviada.

    — Achei que você ia desmaiar de novo — disse.

    — Não hoje — respondeu ele. — Hoje não.

    Eles não precisaram dizer mais nada.

    O portão leste de Ōtsu ficava distante, atravessando bairros onde a miséria se tornava ainda mais visível. Prédios tortos, casas improvisadas, pessoas dormindo nas calçadas como sombras esquecidas.

    Enquanto caminhavam, Neom quebrou o silêncio:

    — Você confia nele?

    Vini pensou por alguns segundos.

    — Não sei — respondeu com honestidade. — Mas confio menos em Ōtsu.

    Ela assentiu.

    — Então já é o suficiente.

    Quando chegaram ao portão leste, o sol já começava a subir, lançando uma luz fria sobre a muralha desgastada. O lugar parecia abandonado, exceto por uma figura encostada em uma pilastra de pedra.

    Raiga Kurohane.

    Ele vestia o mesmo manto escuro, agora aberto, revelando roupas simples por baixo. Nas mãos, segurava dois espetos de legumes grelhados — pimentões, cebolas, raízes desconhecidas — ainda soltando vapor.

    Ao vê-los, seus olhos se iluminaram.

    — Vocês vieram — disse, com um sorriso largo e genuíno. — Bom. Eu odeio desperdiçar comida.

    Neom piscou, surpresa.

    — Isso é… pra gente?

    Raiga estendeu os espetos.

    — Claro que é. Crianças não pensam direito de estômago vazio.

    Vini hesitou apenas um segundo antes de pegar o espeto. O cheiro era simples… mas real. Comida de verdade.

    Ele mordeu.

    E quase chorou.

    Neom comeu em silêncio, os olhos marejados, tentando manter a compostura. Raiga observava os dois com uma expressão tranquila, como se aquela cena fosse exatamente o que ele esperava.

    — Meu nome é Raiga Kurohane — disse, depois de algum tempo. — E antes que perguntem… sim, eu sei quem vocês são.

    Vini engasgou levemente.

    — Como?

    Raiga deu de ombros.

    — Ōtsu fala. Mesmo quando acha que ninguém escuta.

    Ele se virou e começou a caminhar.

    — Venham. Quero apresentar algo a vocês.

    Eles o seguiram.

    Passaram pelo portão leste e entraram em uma área esquecida da cidade, onde galpões abandonados se misturavam com terrenos vazios. Ao fundo, um antigo armazém de madeira resistia ao tempo, reformado de maneira improvisada, mas sólida.

    Antes que pudessem perguntar qualquer coisa, vozes infantis ecoaram.

    — EI! ELE CHEGOU!

    — RAIGA VOLTOU!

    — TEM COMIDA?!

    A porta do galpão se abriu de uma vez.

    Cinco crianças surgiram quase atropelando umas às outras.

    Todas tinham idades semelhantes. Todas carregavam marcas de Ōtsu: cicatrizes, roupas gastas, olhares desconfiados… mas também algo diferente.

    Vida.

    Raiga abriu os braços.

    — Calma, seus demônios famintos — disse, rindo. — Todo mundo vai comer.

    As crianças pararam imediatamente.

    — Olha o jeito que você fala da gente! — reclamou um garoto baixo de cabelo espetado.

    — Porque eu posso — respondeu Raiga. — Agora se alinhem. Temos convidados.

    As cinco crianças obedeceram, ainda curiosas.

    Raiga apontou para Vini e Neom.

    — Esses dois vão ficar com a gente.

    O silêncio caiu.

    Neom sentiu o coração acelerar.

    — Ficar… como assim?

    Raiga se agachou, ficando novamente no nível deles.

    — Eu vou criar vocês — disse, com naturalidade. — Como meus filhos.

    O mundo pareceu parar.

    Vini arregalou os olhos.

    — O quê…?

    — Não por pena — continuou Raiga. — Nem por obrigação. Mas porque vocês escolheram proteger um ao outro em um lugar que ensina a abandonar.

    Ele se levantou.

    — Isso vale mais do que força.

    Uma das crianças deu um passo à frente.

    — Então… eles são nossos irmãos agora?

    Raiga sorriu.

    — Se vocês aceitarem.

    O garoto coçou a cabeça.

    — Bom… — olhou para Vini e Neom — …se eles dividirem comida, eu aceito.

    Raiga gargalhou alto.

    — Viu? Democracia perfeita.

    Ele apontou para as crianças, uma por uma.

    — Apresentem-se. Sem medo.

    O primeiro foi o garoto de cabelo espetado.

    — Sou Haru. — Cruzou os braços. — Corro mais rápido que qualquer um aqui.

    — Mentira — rebateu uma garota de cabelo curto. — Eu corro mais.

    — Cala a boca, Mika — respondeu Haru.

    Ela fez careta.

    — Sou Mika. E eu bato nos dois.

    Uma criança mais quieta levantou a mão timidamente.

    — Eu sou Ren…

    — Ele é o mais inteligente — disse Raiga. — E o mais teimoso.

    Ren corou.

    O quarto, mais alto, falou em tom sério:

    — Daichi. Não gosto de barulho.

    — E o quinto… — Raiga olhou para um menino pequeno agarrado à barra de sua roupa.

    — Sora — disse ele baixinho.

    Raiga pousou a mão na cabeça de Sora com carinho.

    — Eles são meus filhos — disse então, olhando para Vini e Neom. — E, se quiserem… agora são os de vocês também.

    Neom sentiu os olhos arderem.

    — Por quê? — perguntou. — Por que fazer tudo isso?

    Raiga sorriu enquanto colocava mais espetos sobre uma pequena grelha improvisada.

    — Porque eu acredito que o mundo muda quando alguém escolhe ser gentil onde não deveria ser.

    Vini observava tudo em silêncio.

    A forma como Raiga ria.

    Como cozinhava.

    Como ouvia cada criança.

    Como jamais levantava a voz.

    Ali, pela primeira vez, Ōtsu não parecia uma prisão.

    — Escutem bem — disse Raiga, chamando a atenção de todos. — Eu não prometo uma vida fácil.

    As crianças se calaram.

    — Mas prometo três coisas. — Levantou três dedos. — Comida todos os dias. Um teto. E alguém que jamais vai levantar a mão contra vocês.

    Ele olhou para cada um, sem exceção.

    — Enquanto eu respirar, vocês terão um lugar no mundo.

    O silêncio que se seguiu não foi vazio.

    Foi sagrado.

    Vini apertou os punhos.

    Naquele instante, ele soube.

    Raiga Kurohane não era apenas o Rei de Ōtsu.

    Era o homem que ensinaria aquelas crianças

    a transformar fome em propósito,

    dor em força,

    e abandono em família.

    E ali…

    no sorriso simples de um homem com espetos de legumes nas mãos,

    nascia a base da maior mudança que Ōtsu já veria.

    Ōtsu possuía muitos rostos.

    Alguns cheiravam a ferrugem, fome e desespero.

    Outros… exalavam riqueza, controle e morte silenciosa.

    No coração elevado da cidade, onde prédios antigos haviam sido reformados com materiais caros e vigilância constante, erguia-se uma mansão que não pertencia oficialmente a ninguém — e, ainda assim, todos sabiam quem mandava ali.

    O salão principal era amplo, iluminado por lustres de vidro importado. O chão de madeira escura refletia a luz suave como um espelho polido. Servos andavam em silêncio absoluto, quase invisíveis, como sombras treinadas para não existir.

    Sentado à cabeceira de uma longa mesa de pedra, estava Chaejin Choi.

    O nome não era gritado nas ruas.

    Era sussurrado.

    Alto, magro, postura impecável. Usava um terno claro, perfeitamente alinhado, contrastando com o cabelo negro penteado para trás. Seus olhos eram afiados, atentos, calculistas — olhos que não precisavam de força para impor medo.

    Ele girava lentamente um copo de vidro entre os dedos, observando o líquido âmbar dançar em seu interior.

    — Ōtsu está calma demais — disse, com voz baixa e educada. — E eu odeio calmaria falsa.

    À sua direita, encostado casualmente em uma coluna, estava Charles Choi.

    Mais jovem.

    Menos refinado.

    Mas com o mesmo brilho venenoso nos olhos.

    Naquela época, Charles ainda subia degrau por degrau. Vestia roupas caras, porém exageradas, tentando parecer maior do que era. Seu sorriso nunca era completo — sempre faltava algo humano nele.

    — As pessoas estão felizes — respondeu Charles. — Produção subiu. Os mercados estão cheios. Os líderes locais estão obedientes.

    Chaejin sorriu de canto.

    — Felizes? — repetiu, com leve desprezo. — Pessoas felizes não obedecem por muito tempo. Pessoas famintas, sim.

    Ele pousou o copo sobre a mesa.

    — Quem está causando isso?

    Charles suspirou, já sabendo a resposta.

    — Raiga Kurohane.

    O nome caiu no ar como uma lâmina invisível.

    Chaejin se levantou e caminhou até a janela ampla, de onde era possível ver boa parte da cidade. Ōtsu parecia pequena dali de cima. Controlável.

    — O chamado Rei de Ōtsu… — murmurou. — Um título que não dei. Um poder que não concedi.

    Ele virou o rosto lentamente.

    — Homens como ele são perigosos.

    Charles inclinou a cabeça.

    — Ele não quer poder político. Nem dinheiro. Nem território direto.

    — Justamente por isso — respondeu Chaejin. — Ele quer algo pior.

    O salão ficou em silêncio.

    — Ele quer pessoas — continuou. — Lealdade verdadeira. Não comprada. Não forçada. E quando um homem conquista isso… ele se torna impossível de controlar.

    Charles cerrou os dentes.

    — Ele anda reunindo crianças. Órfãos. Lixos de Ōtsu.

    — Todo império começa com lixo — disse Chaejin, calmamente. — Depois se torna ouro.

    Ele caminhou até a outra extremidade do salão.

    Ali, encostados na parede, estavam dois homens.

    Não falavam.

    Não se moviam.

    Não precisavam.

    Eram idênticos na postura: altos, corpos largos, músculos densos como aço antigo. Usavam roupas simples, mas cada movimento deles parecia conter uma violência adormecida.

    Irmãos Shiranui.

    — Goro Shiranui — disse Chaejin, olhando para o mais velho.

    — Jairo Shiranui — completou, virando-se para o outro.

    Os dois eram lendas vivas.

    Homens da Geração Zero.

    Não possuíam títulos oficiais. Não lideravam gangues. Não buscavam fama. Ainda assim, seus nomes eram conhecidos entre aqueles que realmente entendiam o peso da força.

    Dizia-se que, juntos, poderiam enfrentar qualquer monstro daquela era esquecida.

    — O Rei de Ōtsu… — disse Goro, com voz grave, finalmente quebrando o silêncio — …é um problema.

    Kaito cruzou os braços.

    — Ele não tem medo — completou. — Nem de nós.

    Charles franziu o cenho.

    — Ele deveria.

    Goro sorriu levemente.

    — Medo é inútil contra convicção.

    Chaejin assentiu, satisfeito com a resposta.

    — Exato. — Caminhou de volta à mesa. — Raiga Kurohane não é um guerreiro comum. Ele não luta por si. Ele luta por aquilo que acredita.

    Ele se sentou novamente.

    — E isso… — pausou — …é contagioso.

    Charles apertou os punhos.

    — Então vamos matá-lo agora.

    Chaejin ergueu a mão, interrompendo-o.

    — Não.

    Charles virou-se, irritado.

    — Por quê?!

    Chaejin o encarou friamente.

    — Porque homens como Raiga não morrem facilmente. — Sua voz não se alterou. — Se o matarmos agora, ele vira mártir.

    Ele cruzou os dedos.

    — E mártires criam guerras.

    O silêncio se aprofundou.

    — Prefiro algo mais elegante — continuou. — Algo inevitável.

    Goro inclinou a cabeça.

    — Tempo?

    — Exatamente — respondeu Chaejin. — Pequenos anos. Suficientes para enfraquecer suas raízes. Para transformar seus filhos em alvos. Para fazer Ōtsu escolher entre fome… e obediência.

    Charles sorriu.

    — Eu posso cuidar da parte social. Políticos, líderes locais, mercados…

    — Eu sei — disse Chaejin. — Você sempre foi bom em ser uma víbora.

    Charles não se ofendeu. Pelo contrário.

    — É um elogio.

    Chaejin se levantou mais uma vez.

    — Quando Raiga cair… — disse, encarando a cidade pela janela — …Ōtsu não vai chorar.

    Ele virou o rosto para os irmãos Shiranui.

    — E quando chegar a hora… quero vocês prontos.

    Goro fechou os olhos por um breve instante.

    — Quando ele cair… — murmurou — …o mundo vai sentir.

    Jairo abriu um sorriso perigoso.

    — Mal posso esperar.

    Lá fora, Ōtsu continuava respirando.

    Em um canto da cidade, crianças riam ao redor de uma fogueira improvisada, aprendendo o significado de família.

    No outro, homens poderosos planejavam como esmagar isso lentamente.

    E, entre esses dois extremos,

    o destino começava a se afiar.

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