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    — Olha só… — Baalat balançou a cabeça. — Quem diria que ser o receptáculo do poder de uma entidade cósmica e maligna traz alguns benefícios…

    — Alguma coisa boa tem que trazer, não é? — respondeu Renato, com um sorriso divertido no rosto, e dando de ombros.

    — Acha mesmo que consegue chegar até a Sala do Jogo?

    — Acho que eu preciso tentar. Já fui lá uma vez. Não. Fui duas, na verdade. Deve dar certo.

    — Consegue levar mais alguém com você?

    — Dificilmente.

    Baalat sorriu e serviu mais um pouco de cachaça no copo.

    — Sabe, você ainda me deve três respostas. Você ficou aí todo tagarela, só fazendo suas perguntas, e eu nem tive tempo de fazer as minhas. Quando você voltar, eu quero saber de tudo.

    — Combinado.

    — E mais uma coisa. Quando chegar lá, pode avisar ao grande e magnífico Lúcifer que eu chamei ele de babaca e pai irresponsável? E que por causa da ausência dele, eu e minha irmã estamos completamente sobrecarregadas com as funções que deveria ser dele? Poderia dizer isso, Renato?

    — Aproveita e diz que o Syrach tá sendo um chato! — complementou Angélica. — E eu tô quase decidindo acorrentar ele e jogar no Gehenna pra queimar pela eternidade!

    Renato pensou por um momento. Baalat não parecia estar brincando. Quanto a Angélica, era difícil ter certeza.

    — Se o clima estiver favorável… E, sabe… se eu sentir que ele não vai me pulverizar, talvez eu diga.

    A Primeira Princesa riu e bebeu a cachaça. Seu corpo ficou mole e perdeu o equilíbrio, e ela quase caiu da cadeira.

    Angélica se acabou na gargalhada.

    — Que irmã mais velha mais idiota! Não impõe nenhum respeito!

    — Sabe, Renato… — Clara pôs a mão em seu ombro. — Não pode dizer estas coisas ao Diabo. Sabe disso, não sabe?

    — E acha que eu sou idiota? É claro que eu sei!

    Clara assentiu.

    — Uma vez, ele destruiu até as moléculas de um demônio que olhou torto pra ele.

    — Me sinto aliviado em saber disso.

    — Pra falar a verdade, Lúcifer é ótimo em ler os outros. Tem uma intuição sobrenatural maior que a de qualquer um e ainda domina as artes da linguagem corporal, mentira e da manipulação. Não tem gênio melhor! Então, é melhor evitar até pensar nessas coisas ruins perto dele, ou ele pode perceber e aí já era. Acabou pra você. Não pense que ele é como esses demônios fracos que você já enfrentou. Ele é o número um! O mais forte desde a queda. O único que Deus respeita a ponto de jogar com ele. Entendeu onde está se metendo, Renato? 

    — Entendi.

    — Se tivesse entendido mesmo, teria mudado de idéia. Deixe a Tâmara morta! E daí que ela está presa nas prisões inferiores? Não é como se ela fosse uma santa e nem nada do tipo. Ela até que merece!

    — Verdade. Ela não é nenhuma santa. Na verdade, é mais o contrário. — Renato riu. — Mas mesmo assim, não posso deixá-la. Afinal, Clara, algum de nós é santo?

    O súcubo riu, pegou a garrafa de cachaça da mesa e bebeu um gole. Deu uma cambaleada.

    — Santidade não combina nem um pouco com a gente mesmo. — Ela deu de ombros. — Como posso dizer, ao homem que derrotou um Cavaleiro do Apocalipse, que algo é impossível?

    Em seguida, Renato se concentrou e pensou.

    Não sabia, ao certo, como deveria fazer, então usaria seu instinto.

    Da última vez que esteve lá, ele caiu. Caiu por várias dimensões, como se algo o sugasse para baixo, da Terra à Sala do Jogo, e da Sala do Jogo ao Inferno, e só depois caiu em direção ao vazio profundo do Não-Criado.

    Era como se essas dimensões estivessem empilhadas uma em cima da outra.

    E se isso for verdade, a Sala do Jogo estaria bem no meio entre a Terra e o Inferno. Os dois seres mais poderosos da grande guerra cósmica encontraram uma pequena brecha entre os mundos, uma fresta, e a transformaram em seu esconderijo pessoal.

    Para alguém com alguma habilidade de manipulação da realidade, não deve ser impossível acessar. E Renato tinha isso, só não estava tão treinado nesse aspecto.

    Precisava tentar!

    — Baalat, você consegue abrir um portal para a Terra?

    A primeira princesa abriu um sorriso soberbo.

    — Eu sou uma das únicas que consegue.

    — Poderia abrir um?

    Ela pensou por um instante.

    — Hummm… só porque eu acho que isso vai ajudar a dar uma lição no meu pai!

    Ela levou a mão fechada ao peito, e a girou como se torcesse algo.

    — K-ahú aren hay! — Ela sussurrou palavras em enoquiano.

    Em seguida, ela traçou no ar um círculo com as mãos.

    O círculo brilhou numa luz avermelhada, e o portal foi aberto.

    O interior do círculo era negro, mas era possível ver as silhuetas das formas das Terra. Se prestasse bastante atenção, veria que aquelas formas enegrecidas além do portal eram árvores e prédios, e talvez até pessoas.

    — Prontinho! Hic! — Soluçou e cambaleou.

    Renato teve que conter o riso, porque achou que a cambaleada dela foi muito parecida com a do Capitão Jack Sparrow locasso de rum.

    — Tem algo que precisa buscar, Renato? — perguntou Clara.

    — Não. Não é no destino da viagem que eu tô interessado, mas no caminho…

    Ele foi até o portal e o analisou. Era frio. Uma brisa soprava através dele e fazia um som baixinho que lembrava estática de tevê.

    Ele tocou, e sua mão desapareceu através do portal.

    — Sabia que alguém na Terra poderia ver sua mão flutuando no meio do nada? — comentou Clara, achando aquilo divertido.

    — SCP 0001, o caso da mãozinha flutuante! Como a fundação lidaria com isso? — Renato riu. Só ele mesmo.

    — Tá falando grego! — reclamou Clara, franzindo o cenho.

    Renato deu de ombros.

    — Às vezes eu esqueço que você não tem cultura de internet…

    O garoto estava concentrado, tocando na borda fina e sutil do portal. Sentiu uma pequena ondulação e um formigamento beliscando a ponta dos dedos.

    — Talvez… se eu conseguir enfiar os dedos aí…

    — Fundação? — Angélica se aproximou, com a mão no queixo, pensativa. — É algum tipo de fundação que estuda lindas e delicadas princesas? Porque eu seria uma ótima voluntária, sabe…

    Renato, concentrado em sua missão de encontrar uma forma de adentrar na fina borda do portal, até pensou em pedir para que as garotas fizessem silêncio porque estavam atrapalhando, mas ele preferiu não fazer algo tão estupido. Ali estava três garotas demoníacas, de humor mais volátil que álcool puro e de poder consideravelmente assustador, então ele preferiu apenas dizer:

    — Mais ou menos isso…

    E então, tudo ficou em silêncio.

    Estava sozinho na taberna. Ou quase isso.

    Ele ainda podia ver as garotas, mas elas não podiam vê-lo. A voz delas chegava até ele de maneira abafada, como a voz debaixo d’água.

    — A realidade espelhada… o reflexo… talvez agora…

    Renato voltou-se para o portal.

    Ele ainda estava lá, mas vibrava de um jeito diferente. Ele conseguia ver claramente do outro lado, árvores,grama, prédios… com uma nitidez que antes era impossível.

    O reflexo da verdade era um quase mundo. Tinha sido a tentativa dos Cavaleiros de criar sua própria realidade, mas que deu errado. Ainda assim, as regras originais da realidade ficavam um pouco distorcidas.

    O próprio portal vibrava de um jeito diferente, pulsando de maneira mais intensa. A luz cintilante das bordas passou do avermelhado para um azul clarinho.

    E, o mais importante: ele conseguia sentir o fluxo energético, vivo, fluindo em direção a ele.

    Da mesma maneira que fez, em outra ocasião, com um fóton de luz, fez com o portal.

    Meteu a mão numa das bordas, sentindo a energia hermética que vibrava, e forçou a abertura.

    E um azul profundo, cor de céu, engoliu todo o ambiente.

    Não estava mais na taberna.

    O chão sob seus pés, as paredes distantes, o céu… tudo era azul.

    O azul era interrompido, em alguns momentos, por círculos amarelos, brancos, vermelhos e alguns até pretos. Esses últimos eram muito maiores.

    Pareciam estrelas, deslizando no céu infindo. E também buracos negros.

    Mas Renato estava pisando nessas estruturas que deveriam ser colossais, como se elas fossem mero carpete ou papel de parede.

    E, no centro da sala, havia uma mesa gigantesca. Tão grande que olhar para aquilo foi como olhar para um prédio de muitos andares, e ele até sentiu tontura.

    Mas o mais peculiar da mesa é que ela parecia feita de plástico e, se os olhos de Renato não o estivessem enganando, tinha a palavra “Skol” gravada em sua lateral.

    E, em duas cadeiras igualmente gigantescas, duas figuras sentadas jogavam um jogo de cartas.

    A esse ponto do campeonato, Renato já sabia quem era quem ali naquela brincadeira.

    O homem que parecia indistinguível, como se um borrão ocultasse sua face, era Deus.

    E o outro, que mais parecia um galã de novela, era Lúcifer. Tinha o tipo de aparência que era um perigo para qualquer mulher no período fértil.

    Os dois baixaram o olhar, fitando diretamente Renato.

    O Diabo emitiu um som irritado.

    — Já falei que deveríamos ter exterminado este moleque!

    A gargalhada de Deus se espalhou pelo local.

    — E quem mais traria alguma incerteza ao Universo?

    — Incerteza pode ser divertida, mas é perigosa.

    — Talvez… — Pela primeira vez, Renato viu que Deus também pode dar de ombros.

    “O cara já não gosta de mim!” pensou Renato. “Quais as chances de isso dar merda?”.

    Não tinha outro jeito. Ele já chegou longe demais para recuar ou demonstrar fraqueza. Estava ali diante de criaturas cósmicas e imprevisíveis. E pior: eram viciados em apostas. Mas isso também abria uma brecha que o garoto poderia explorar.

    — Ei! — gritou o garoto, usando as mãos na frente da boca, para aumentar o alcance de sua voz. — Eu preciso falar com Lúcifer!

    Deus gargalhou alto, achando a situação deveras divertida.

    — Ele quer falar com você, Samael!

    O Diabo estalou a língua, irritadiço, e colocou suas cartas na mesa, viradas para baixo, é claro.

    — Não me chame assim! Eu odeio esse nome.

    — Por quê? Foi o nome que eu te dei.

    — E é por isso que eu não gosto.

    Deus estalou os dedos, e num instante, eles deixaram de ser gigantes.

    A mesa, as cadeiras, o baralho, e os dois seres cósmicos ficaram do tamanho que Renato poderia considerar normal.

    “Pelo menos assim caberiam dentro do bar Pinga Dourada…” pensou.

    Lúcifer direcionou aqueles olhos azuis escuros para o garoto. Havia pontinhos brancos na íris, como estrelas derramadas no céu noturno.

    — Então o descendente de Adão quer falar comigo? O que desejas, Homo Sapiens? Uma maçã? Infelizmente elas acabaram. — A voz dele carregava a mesma sibilância de víbora que às vezes aparecia na voz de Baalat.

    — Eu quero apostar uma coisa com você!

    Lúcifer e Deus ficaram um bom tempo só encarando Renato.

    O Diabo se levantou de sua cadeira. Ele vestia um belo terno preto. Um charuto surgiu magicamente em seus dedos, já acesso, e ele o levou à boca. 

    Puxou a fumaça e a soprou na direção de Renato.

    — O que quer apostar, rapaz?

    — Uma partida de truco! Se eu ganhar, você me deixa pegar de volta uma alma que está presa nas Prisões Subterrâneas de Enxofre!

    Satanás riu.

    — Uma alma? Achei que queria algo grande, mas aparentemente, ambição não é para todo mundo.

    — Vai aceitar?

    O Diabo deu de ombros.

    — Depende. Está disposto a apostar o que eu quero?

    — E o que quer?

    — Uma alma por uma alma, não é? É o justo! Quero você. Por completo. Se ou quando eu ganhar, vou ser dono de tudo o que define sua existência. Não apenas sua alma, mas também seu poder, suas escolhas, suas vontades, suas paixões, sua pouca e quase inexistente esperança. Você vai ser minha marionete. Vai falar quando eu mandar, e calar a boca quando eu mandar. Seu passado, presente e futuro serão meus! Vai viver por mim e também morrer por mim. Sua alma será minha para eu fazer tudo aquilo que eu quiser. E aí, Renato, quer apostar?

    O garoto pensou por um instante.

    — Eu sempre fui bom no truco mesmo. Desce carta!

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