Nos olhos de Hugo, as pupilas se rasgam em três marcas diagonais, como garras talhadas na íris.

    Um longo sobretudo negro se ajusta ao corpo. Em suas costas, uma roleta se forma. O ponteiro gira entre símbolos de armas e para sobre um arco de seis pontas, que se materializa em sua mão.

    Sem perder tempo, dispara três flechas na direção do alvo, girando e perfurando o ar

    Os olhos de Fiogon brilham ainda mais forte, e as pupilas se estreitam em fendas verticais.

    Em sua forma híbrida, o corpo humanoide se cobre de escamas roxas e violetas. Ajeita a postura com um punho à frente do outro, pernas afastadas e o corpo abaixado.

    As flechas assoviam no ar rumo à sua direção.

    Respira fundo, e suas escamas ficam espelhadas. Os projéteis mergulham no reflexo… somem por um instante.

    O Drake estica o braço, aponta dois dedos devolvendo o próprio ataque para o caçador.

    — É por isso que eu não gosto de lutar contra quem usa esse tipo de Ressonância — Hugo resmunga por trás da máscara de caveira.

    Desvia por pouco com uma evasiva rápida, já abrindo os braços. Abaixa o corpo e, no instante seguinte, cola em Fiogon quase sem deixar rastro de movimento.

    Puxa novas flechas… disparando-as muito próximas ao Dragão.

    O velho segura duas no reflexo. A terceira para nas escamas do peito, tentando perfurá-las.

    No instinto, o Dragão salta para não ser atravessado, mas a força do impacto ainda o lança para o alto.

    Jogado às nuvens, ele corta o céu em arco e desaba no meio de um mar de areia, afundando numa explosão dourada.

    — Ele continua forte como sempre. Só ele mesmo para me arremessar em outro continente. — Fiogon se levanta, sacudindo grãos de areia das escamas. — Mas tinha que ser logo na Garra Âmbar.

    O Caçador chega logo depois, voando em alta velocidade com a barra do manto ondulando ao vento.

    Ele pousa à frente de Fiogon que ergue levemente os chifres entre os cabelos espetados e abre um sorriso de canto. O encara como quem diz, sem precisar falar: venha.

    Com movimentos rápidos, os dois trocam golpes de punho levantando tempestades de areia e empurrando o mundo ao redor moldando as dunas em ondas.

    Hugo acerta um soco feroz lançando Fiogon para trás que no mesmo instante, abre uma fenda no espaço. Agarra o braço de Hugo, gira o corpo e o arremessa para dentro.

    A luta reaparece na Garra Central, uma vasta savana povoada por animais e bestas. Mesmo sendo os maiores perigos daquele lugar, disparam em pânico, fugindo em manadas que não ousam olhar para trás.

    Os dois travam os dedos numa disputa bruta de força. O capim alto se deita sob o ranger da energia no ar. A pressão aumenta. O espaço rasga de novo, sob o comando do Drake.

    Desta vez, o portal os leva para o desfiladeiro rochoso, na Garra Cinzenta.

    O vento uiva entre as fendas, carregando poeira de pedra, enquanto Fiogon desfere socos imprevisíveis através de pequenos portais.

    Hugo responde de frente. Os punhos avançam rápidos, quase invisíveis. Cada choque arranca um estalo seco. Acerta jabs e encaixa cruzados curtos mudando de ângulo no último instante. O impacto faz o chão vibrar sob as botas.

    O Dragão devolve sem recuar. Desviando como pode, contra-ataca com palmas secas e passos que não afastam o corpo, apenas encurtam a distância.

    Mais uma vez, os dois travam as mãos, força contra força. A luz se distorce entre seus dedos. As fendas uivam mais alto.

    Hugo agarra a cabeça de Fiogon e o arrasta por um paredão. A rocha se parte em lascas, e o atrito arranca faíscas da pedra.

    O Dragão não deixa barato. Pega no manto de Hugo, gira o corpo e o arremessa com violência.

    Nem o vento consegue desacelerá-lo. O Caçador risca o céu em um arco, girando no ar enquanto tenta recuperar a postura.

    No último instante, corrige o corpo antes de despencar sobre a grossa camada de neve da Garra Boreal, onde até o ar parece queimar de tão frio.

    Hugo se ergue da neve com os braços cruzados, irritado.

    — Me jogou logo na Garra que menos gosto de visitar. — Sacode a neve do ombro. — Odeio frio.

    Fiogon surge sem aviso e desfere um chute devastador, arremessando Hugo para o alto.

    Portais se abrem ao redor do Caçador. De dentro deles… saem flechas perfurando o ar em grande velocidade.

    Por um instante, Hugo se surpreende. No outro, entende o que Fiogon fez e sorri de canto.

    Ainda no ar, gira o corpo em espiral. O ponteiro da roleta acompanha o movimento até parar sobre uma lâmina serrilhada, que se materializa em sua mão.

    O golpe sobe com precisão.

    A lâmina se alonga no meio do corte, raspa as escamas do peito de Fiogon em um rastro de faíscas e segue até atingir o chifre esquerdo.

    O impacto o parte num estalo seco. O fragmento voa para longe caindo meio enterrado na neve, ainda fumegando com energia.

    No instante seguinte, as flechas alcançam Hugo explodindo sobre ele numa chuva de luz.

    Os dois despencam na neve, respirando com dificuldade.

    — Ora, ora… sua raposa astuta. — Hugo ri, limpando o sangue do canto da boca. — As flechas que você me devolveu e desviei eram só imagens residuais. As verdadeiras, mandou para um espaço separado, aguardando o momento certo para usá-las.

    — Hohoho, mas é claro. — Fiogon toca o lugar do chifre perdido. — Eu não iria te enfrentar sem um plano. — Suspira. Mas esse chifre… vai demorar para crescer de novo. Estou velho.

    — Nós dois, meu caro amigo. — Hugo se levanta um pouco torto. — Vamos acabar logo com isso. Quero sair desse frio.

    — Eu até gosto do frio. Não me importaria de lutar mais um pouco contra você.

    Os dois sorriem mais empolgados agora do que antes da luta começar.

    A roleta de Hugo brilha. Um segundo ponteiro surge sobre ela, aumentando a chance de cair na arma desejada.

    Placas de energia se formam ao redor de cada punho… manoplas pesadas. Entre as frestas, a energia vaza em vibrações intensas.

    — Dei azar. Vou ter que me virar com essa — comenta o caçador.

    Fiogon esvazia os pulmões. As escamas brilham intensamente por todo o corpo, liberando energia no ar.

    Puxa o fôlego de volta, e o Eco espalhado pelo ambiente acompanha o ar para dentro de seus pulmões, condensando-se no próprio peito.

    Os dois avançam no mesmo instante. Os golpes se encontram no meio do caminho.

    A explosão é ensurdecedora. A luz engole a visão. Avalanches se formam. A neve ao redor derrete em vapor. Árvores se dobram. O chão racha como vidro.

    Quando a claridade enfim cede, os dois estão caídos lado a lado, rindo em meio à dor do impacto.

    — Ainda vivo? — Hugo pergunta, encarando o céu.

    — Sim… e você? Tudo no lugar?

    — Acho que sim. Você é duro na queda.

    — Digo o mesmo, velho amigo.

    O silêncio volta pesado. A luta termina sem vencedor. Por alguns instantes, não existem heróis nem monstros, apenas dois velhos cansados que bateram demais um no outro.

    Um estalo seco corta o vento. Passos lentos denunciam a chegada. Não estão correndo. Muito menos ofegantes.

    Só… presentes.

    Não vieram correndo, muito menos ajudar. Aparecem do jeito que o predador chega quando a presa já cansou: no tempo deles.

    Ômegas…

    Dispensam apresentações. São o ponto mais alto da cadeia alimentar.

    Uma jovem vai à frente, estatura pequena, cabelo curto de um vermelho vivo e olhos castanhos.

    O rosto sorridente está voltado para Fiogon.

    — Irú… e aí, Fiogon. Há quanto tempo.

    — Curupira… — Fiogon a olha de cima a baixo. — Continua fofa como sempre.

    — Poxa vida! — Ela faz bico, emburrada. — Já sou uma adulta.

    Um homem de aparência nobre, vestindo uma armadura pesada de aço prateado e cabelo branco, lança apenas uma breve olhada para o velho caído.

    — Essa luta causou estrago demais. Típico de Dragão.

    Outro deles já carrega carisma e provocação na postura. Cabelos castanhos bagunçados, sorriso torto, expressão cheia de energia.

    Sem perder tempo, cutuca São Jorge.

    — Por que está reclamando? Se quisesse menos estrago, podia ter vindo no lugar do Hugo… ou o famoso caçador de dragões ficou com medinho?

    São Jorge vira o rosto devagar. O brilho do luar toca a armadura e se parte em reflexos limpos. Até o vento parece pensar duas vezes antes de encostar nele.

    — Medo? Odin, vindo de você… é muita hipocrisia. Atacar pelas costas virou bravura agora, hei?

    Odin dá um passo. A luz ao redor dele não reflete… afunda. As sombras se juntam no chão na forma de cães treinados.

    — Hã. Bonito discurso. Lenda… famoso caçador de dragões… qual dragão dizem que você matou mesmo? Ah, lembrei. — Ele sorri, malicioso. — He…

    São Jorge libera uma presença que pesa o ar espalhando um sobressalto pela noite.

    Os dois avançam até ficarem testa contra testa. Uma figura passa entre eles e os empurra para o lado sem esforço.

    — Já chega!

    Armadura escura com detalhes metálicos, longos cabelos negros, olhar âmbar afiado e um sorriso confiante rumo ao Dragão caído.

    — Fiogon… como vai ser?

    Ele solta o ar, vencido mais pela matemática do que pela dor.

    — Diana… desisto. Com tantas feras e uma predadora, não tenho energia nem para fugir… — Ele vira o rosto, resmungando. — Mas não vou dizer onde está meu neto.

    Ela inclina levemente a cabeça.

    — Sem problemas. — Passa a língua nos lábios, devagar, sem pressa. — Vai ser mais divertido caçá-lo.

    Correntes de Prata brilhante se fecham ao redor de Fiogon. Ele é arrastado até uma jaula puxada por tigres-dente-de-sabre, presos a coleiras de energia.

    — Levem-no para a masmorra subterrânea — ordena Diana.

    São Jorge olha para Hugo, que apenas faz um leve aceno. Fiogon é levado sem oferecer resistência.

    — Ué… não vem, Hugo? — indaga Curupira.

    — Depois alcanço vocês. Por enquanto, vou ficar deitado enquanto o chão ainda está quente.

    Ele respira fundo, encarando o céu estrelado. O rastro de uma estrela reflete em seus olhos. Mas, acima daquele brilho, a cúpula já se encontra escurecida por algo.

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