Nem toda história começa onde deveria.
Às vezes, o verdadeiro início se esconde muito antes do primeiro passo, muito antes do primeiro nome, muito antes de alguém perceber que já está envolvido.
Antes da guerra, da queda e das marcas deixadas pelo tempo, algo se moveu.
Uma escolha foi feita.
E, desde então, o Multiverso jamais voltou a respirar da mesma forma.
Agora, em um mundo onde vacilar pode ser o mesmo que morrer, um jovem segue adiante sem saber que certas histórias não começam com respostas.
Começam com ecos.
E alguns deles jamais deveriam ter despertado.
Capítulo 01 — Cartas, Caos e Profecias


Nossa história começa em uma cabana, em meio a uma grande floresta…
Parou. Parou. Que narração mais genérica é essa? Pode começar de novo. Desta vez, faz direito!
… Era uma vez, um jovem sonhador, caçando…
Sai pra lá. Eu não vou deixar narrarem uma história em que eu estou tão… sem sal. Sem brilho. Sem impacto.
Pelo jeito, se quiser algo bem feito, faça você mesmo. Nesse caso, a maravilhosa aqui vai narrar… por onde começo?
Um começo tem que ser marcante. Épico. Cósmico.
Voltaremos meio milênio atrás. Antes da invasão, da guerra e da repetição!
Dentro do Tabuleiro, o maior jogo que existe, as peças são esferas de vidro que guardam mundos inteiros, cada uma com suas regras, nomes e cores.
Uma mão que não caberia no horizonte ergue o dedo indicador e o move, chamando uma esfera. Ela é atraída no mesmo instante e para entre duas entidades, ambas com cartas nas mãos.
O Escuro, mais negro que o próprio vazio, puxa do deck e, apesar da aparência adulta, deixa ecoar uma voz infantil e sapeca:
— Hehe… olha… olha… um peixe estranho.
Ele encara a carta, satisfeito. Daqueles satisfeitos que não deveriam ser permitidos perto de nada importante.
A Clara, ofuscando toda a luz ao redor, curiosa e ingênua, se empolga na hora:
— Peixe estranho? Só tem coisa feia no seu baralho!
— Tem nada. Olha de novo. Peixe com braços e garras, super legal. — Ele mostra a carta mais de perto.
— Feio! Seu baralho só destrói. O meu é bonito, só ajuda.
— Só que as suas demoram a fazer efeito. A minha é da hora e ainda sai provocando mais caos. — O Escuro faz uma expressão de orgulho.
— Você é estranho igual ao Peixe. Minha vez!
Ela puxa uma carta e a observa com um brilho curioso: um livro envolto em luz, com uma cauda de energia escorrendo no ar.
— Hm… não faço ideia do que esta carta faz… deixe-me pensar…
— Mais uma que demora, aposto!
— Calado… vou jogar.
Ela lança a carta sobre a esfera. O vidro a engole com um brilho, e ela desaparece sem som. Lá dentro, move-se rapidamente, como um cometa vagando sem rumo, ansioso por encontrar algo… ou alguém.
O Escuro ri baixinho, como quem estala os dedos perto de uma pilha de gravetos secos.
— Legal… ela se move rápido. Mas, se é só isso… já sei: toma.
Joga a carta do peixe na mesma esfera. Um brilho percorre toda a circunferência; um ponto se racha; o caos é lançado. Aquele mundo treme, como se tivesse reconhecido o gosto do perigo.
— Aaaah! Por que fez isso?! — reclama a Clara, quase manhosa.
— Ué. Fica mais divertido assim — responde o Escuro, em tom esperto. — Vamos ver o que acontece. Você não está curiosa?
A Clara faz uma pausa, pesando aquela jogada. A curiosidade cresce, mesmo contra a vontade.
— Hm… agora que falou… — Ela cruza os dedos, pensativa. — É, parece interessante mesmo.
Os dois se inclinam, aproximando os rostos colossais daquela esfera quase insignificante, encarando-a bem de perto, como duas crianças observando uma formiga num potinho.
Quietos. Atentos.
Esperando, ansiosos, pelo desfecho de suas jogadas.
Aquele dia era como qualquer outro. Tranquilidade e paz… até que uma fenda se abriu na parede do próprio Multiverso, e uma onda ecoou, fazendo tudo vibrar.
Acima, uma gigantesca Lua ilumina em tom prateado cúpulas pontilhadas, paradas sobre um solo rochoso.
Dentro de cada uma, terremotos desestabilizam o caminhar; ventos violentos empurram quem não consegue se segurar… aquelas dimensões, mesmo com a proteção da cúpula, não se mantêm seguras.
Da fenda, uma cabeça colossal começa a emergir. Um peixe descomunal, com corpo alongado como o de uma moreia e dois braços dianteiros terminando em garras, como se o próprio “errado” tivesse decidido ganhar forma.
Quando tombou sobre o solo rochoso do Nimpo, todo o chão daquele mundo se moveu, como se algo profundo tivesse sido cutucado… e não tivesse gostado.
Enormes gêiseres entraram em erupção, cobrindo tudo com uma névoa negra e densa ao ponto de ser andável, trazendo a noite mais cedo às dimensões.
Apesar do corpo gigantesco, a criatura se movia rápido por aquele oceano recém-nascido. Dimensões pequenas sumiam numa sequência absurda. As maiores… resistiam por segundos a mais, só para provar que tamanho não é garantia de nada.
Em outro lugar, o alerta é dado. Logo, aqueles são enviados.
Primeiro, Anjos e Valquírias, aspirantes a Celestiais. Com suas armas em mãos, lançam ataques coordenados. Do oceano negro, dois olhos acendem. E, como se densidade não fosse nada, uma patada corta o breu e varre o esquadrão num instante, deixando só silêncio e ondas se desfazendo.
Então, os mais fortes foram enviados. Os Celestiais cercaram a Moreia Cósmica e lutaram com tudo. Poderes foram lançados; armas afiadas perdem o fio; nem sequer arranham aquelas grossas escamas de jade. O resultado foi o mesmo: recuos, perdas e a sensação terrível de estar batendo em uma muralha que responde.
Na Lua, em um castelo majestoso e brilhante, o Panteão também está um caos… mais por preocupação. Temiam ser enviados.
Os mais poderosos entre os Celestiais se reuniram para decidir o que fazer, mas o pânico já estava instaurado. Em meio àquele caos, um certo homem se levantou… e todos se calaram.
Alto, musculoso, com cabelos e barba movendo-se como nuvens ao vento, olhar afiado e sorriso confiante.
Ele deu alguns passos à frente com a perna em um degrau, apoiou o cotovelo e disse:
— Deixem comigo. Vou lá deitar um peixe.
As expressões na sala mudaram. O alívio veio por um momento… ainda preocupados consigo mesmos. Apenas jogaram a responsabilidade para cima dele.
Ninguém queria ser o próximo a ser enviado, então pensaram:
“Ele é um Supremo, deve dar conta.”
E assim, ele parte.
Voa rápido, como se fosse o próprio céu em disparada. Ondulações na névoa negra denunciam a posição do alvo. Aquele homem emite uma presença esmagadora; a própria névoa recua, como se, por vontade própria, reconhecesse quem havia chegado.
Diante da criatura, ele se apresenta, abrindo um sorriso e afiando o olhar. A atenção do monstro se volta inteira para ele.

Então, o rastro de uma estrela cadente risca o vazio e dá a largada para uma batalha de proporções cósmicas.
A cada soco, uma onda sacudia as dimensões, fazendo-as balançar como bolhas de sabão. A cada golpe de cauda, regiões inteiras tremiam. Cada poder liberado provocava clarões capazes de transformar a noite em dia, por segundos.
A luta seguia implacável, sem descanso. Não era só força. Era teimosia do tamanho do universo.
Cem longos anos… Depois de um século no escuro, finalmente a luz do dia retornou às dimensões.
O Celestial retornou vitorioso ao Panteão. Ergueu um braço e anunciou sua vitória, mas ninguém comemorou. Ao vê-lo naquele estado, os que nada puderam fazer baixaram a cabeça, envergonhados.
Ele voltou… coberto pela marca da batalha, como se a guerra tivesse tentado arrancar dele tudo que podia. Ainda assim, o sorriso permanecia ali, firme, quase irritante de tão intacto.
Sua esposa, presente na reunião, aproximou-se de cabeça erguida, segurou o rosto dele com cuidado, deu-lhe um beijo e disse:
— Bem-vindo de volta, querido. E parabéns pela vitória.
O ar na sala mudou. Um por um, erguem as cabeças…
Uma palma ecoa pelo lugar…
Mais uma…
E outra…
Até estourar em uma salva de palmas.
Logo, ele é conduzido por sua esposa para que possa descansar.
No estado em que estava, curas comuns seriam desnecessariamente longas e cansativas.
Vendo, então, uma oportunidade de usar um certo poder, revigorante e ao mesmo tempo terrível, ele disse:
— Revitalização Celeste!
Poucos eram capazes de usá-lo, mas os benefícios eram enormes: curava o corpo por completo. O custo, porém, era alto: um sono profundo que poderia durar anos, séculos… ou até milênios.
E dormir era apenas o menor dos custos.
Durante esse sono, sua mente seria invadida por desastres que já aconteceram, que estavam acontecendo ou que ainda poderiam acontecer. Possíveis catástrofes futuras, em diferentes versões do próprio Multiverso, o atingiriam sem aviso.
Assim, ele se curaria e poderia avisar seus iguais sobre perigos futuros. Um sacrifício que tomou para si.
Certo dia, a Lua tremeu, e o som ecoou.
— Após a Moreia Cósmica ser arrastada para o Abismo, criaturas se alimentaram do que ficou para trás… e a Horda Negra devastou tudo o que tocou.
Todos pensaram, confusos. Premonição? Aviso? Ou delírio?
Um tempo depois, o mesmo se repetiu.
— Sussurros de servos malignos corromperam nosso escudo, deixando-o fraco. Um pedaço se quebrou… e instaurou medo e discórdia por onde passou.
A reação de todos não mudou muito. Mas a semente plantada começou a preocupá-los.
Na última, porém, seus olhos se abriram por um breve instante. E não foi só a Lua que escutou sua voz: ela ecoou além, atravessando dimensões.
— O selo se quebrou. O mal foi libertado. A terrível sombra negra promete trazer o verdadeiro mal de volta. Mas vejo algo enevoado… uma estranha silhueta. Uma luz intensa, de longos cabelos, grandes asas, usando um manto. Atrás de seu brilho, três sombras. O que me conforta é que, por algum motivo, desta vez… não vejo o final desta história.
Logo em seguida, ele voltou a dormir, e todos entenderam.
Não eram apenas frases aleatórias. Então, ficaram conhecidas entre os Celestiais como:
As Três Profecias de Uranos.
Num lugar onde um vacilo vira caça.
Perto de uma árvore colossal, o mato prende a respiração.
Um jovem está ali, parado… à primeira vista, presa fácil.
Lá dentro, algo se move. Devagar. Sem pressa.
Um ruído curto. Folhas dobrando. Um corpo roçando no verde.
O jovem inclina a cabeça por cima do ombro.
Sorri.
Um passo pesado. E ainda assim… sem um ruído.
As garras raspam a terra, sem pressa.
O corpo se comprime, pronto para o salto.
E então…
A guerra acabou.
Ou, pelo menos, foi isso que disseram.
Séculos se passaram desde profecias, monstros e ruínas que fizeram o próprio Multiverso estremecer. O tempo andou, as eras mudaram, e o que antes parecia o fim foi empurrado para longe, como se pudesse ser enterrado sob poeira, silêncio e rotina.
Mas algumas histórias não terminam quando a batalha acaba.
Elas apenas mudam de forma.
Em Floressi, onde a vida exige presas, garras e sangue, um garoto cresce entre a selva e os ensinamentos do avô, sem imaginar o tamanho do caminho que o espera. Para ele, o mundo ainda cabe em caçadas, desafios e pequenas vitórias conquistadas com suor.
Por enquanto.
Porque o destino raramente avisa quando decide bater à porta.
Às vezes, ele vem no peso de um olhar.
No brilho de um medalhão.
No eco de um nome.
Ou no instante exato em que alguém, em algum lugar, ergue a mão antes do inevitável.
E, quando isso acontece, até a paz mais simples revela que era só o intervalo entre uma história e outra.
O jogo continua.
Próximo capítulo: O menino da Selva.

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