Capítulo 08 — Sopro Ardente

No topo de uma montanha, a água nasce entre pedras úmidas. Primeiro, é só um fio fino, escorrendo devagar. Logo, outros fios se juntam, formando um pequeno riacho que começa a descer.
Ele serpenteia entre plantas gigantes, raízes grossas e folhas largas que brilham sob a luz dos astros. Dinossauros bebem em suas margens, e o chão treme a cada passo pesado que eles dão.
Mais adiante, o rio despenca em uma imensa cachoeira, rugindo alto e espalhando névoa por todo o vale. Lá embaixo, a água cai em um lago calmo, cercado por pedras e samambaias enormes.
À margem do lago, com o rosto enfiado na grama, um jovem repousa silenciosamente. Um cenário bonito demais para ser apenas um campo de sobrevivência.
O ambiente é tropical, repleto de árvores de tamanhos e formas variadas. Pequenos répteis andam em grupos, farejando qualquer coisa que pareça comida.
Compsognathus
Tipo: Animal; Ameaça: Comum; Classe: Dino.
Um deles se aproxima, curioso, e arrisca uma mordida exploratória.
— Aiii! Minha bunda!
Heragon salta, esfregando o local da mordida. Olha ao redor, tentando entender onde está. Então nota o medalhão em sua mão e se lembra do que aconteceu. Aperta-o com força, o olhar decidido.
“Tenho que achar o vovô.”
Acostumado à natureza, ele se orienta com facilidade. Cruza um córrego, salta por cima de folhas enormes e abre caminho entre cipós.
Ao puxar um galho volumoso, encara duas coisas nada simpáticas: olhos grandes, pele negra porosa com manchas amareladas e uma cabeça achatada apoiada num tronco comprido.
Salamandra de Fogo
Tipo: Besta; Ameaça: Raro; Classe: Dino/Aquárion.
— Esse padrão de cor… é problema.
Heragon solta o galho, que volta como um chicote e acerta o focinho da criatura. Ele não espera para conferir: corre. Corre como se a vida dependesse disso e, bom… depende mesmo!
Furiosa, a fera dispara atrás dele, com o corpo longo e flexível deslizando pelo solo. Das manchas luminosas, bolas de fogo são disparadas em sua direção, cortando a escuridão.
— Era só o que me faltava!
Ele desvia como pode, escapando por pouco. Ao alcançar um pequeno desfiladeiro, salta com tudo. Por um triz, agarra a parede de pedra do outro lado. A criatura freia na borda e o encara.
Com um sorriso de vitória, daqueles bem provocativos, Heragon acha que escapou. A fera, no entanto, olha para baixo, vê o rio… e simplesmente se atira, caindo de peito na água. Logo reaparece, nadando em sua direção e escalando a parede como se não fosse nada.
— Ferrou.
O jovem sobe o mais rápido que consegue. A criatura volta a persegui-lo. Até que se deparam com a base de uma montanha. Encurralado, ele não tem escolha.
Avança.
Heragon desvia das bolas de fogo e tenta golpear, mas o soco escorrega pela pele úmida da criatura. Ele perde o equilíbrio e recebe a chicotada da cauda. O impacto o arremessa contra a pedra. Caído, ferido e exausto, vê a besta incandescer o próprio corpo e canalizar o fogo na boca.
— Ah… cheguei ao limite…
Com a visão turva, Heragon fecha os olhos e pensa no avô. Uma lembrança desperta.
Heragon treinava artes marciais. Agora, jazia no chão, ofegante, com o peito queimando.
— Vovô… eu estou… muito cansado…
— Hoho… já chegou ao limite? Levante-se. Mais uma sequência.
— Eu não… consigo…
— Isso é porque você não sabe respirar.
— Claro que sei! Eu estou respirando!
— Respirar para viver e respirar para sobreviver são coisas diferentes.
Heragon o encara, confuso.
— Levante. Vou te ensinar a respirar direito.
A criatura se prepara para atacar, mas o jovem se põe de pé.
“Retire todo o ar dos pulmões.”
Ele obedece, esvaziando o peito e deixando os ombros caírem. O monstro dispara um jato de fogo.
“Inspire lentamente o máximo que conseguir.”
Heragon abre os braços para os lados e puxa o ar até doer. O fogo entra nos pulmões… até o ataque cessar. As mechas brancas tomam toda a cor de seus cabelos.
A criatura o fita, confusa. Sem pensar, prepara outro ataque. Heragon se lembra de outra lição.
“Com o Eco mais calmo, seu corpo e sua respiração ficam mais leves. Só o agite se precisar de poder.”
No silêncio absoluto, uma grande onda surge em sua mente. Ele força o foco; a onda se acalma.
“Por alguns segundos, prenda a respiração… e expire como um último sopro de vida.”
O Eco se condensa nos pulmões. O fogo, antes desgovernado, começa a girar em círculo. Quando o inimigo lança um novo jato, Heragon expele as chamas com tudo.
As rajadas se chocam num clarão. O fogo do jovem vence o da criatura e a engole por completo.
Sem Eco, ele desmaia. Seus cabelos permanecem no tom branco.
A salamandra sobrevive, queimada, mas viva. Avança para finalizar a caça… mas, antes que morda, uma bota pisa em sua cabeça.
— Tsc. O que aquele velhote estava pensando ao mandar o neto para cá sem avisar? Espera… essa assinatura de Eco… foi a velhota.
Quem está chamando de velhota? Seu cara de serpente! Venenoso! Escamoso! Cruzes, tenho que melhorar meu repertório!
A criatura tenta reagir, mas o velho a esmaga como quem pisa em um inseto.
— Impressionante… o garoto conseguiu ferir uma Salamandra de Fogo usando fogo. Não esperava menos do filho dela.
Heragon acorda, ainda dolorido. Vira o rosto e quase salta de susto ao ver uma cabeça triangular, um chifre no centro e escamas que vão do marrom claro ao escuro.
— Aaaaah!
Sai correndo, cambaleando. A enorme cobra o persegue. Quando o alcança e prepara o bote, Heragon cruza os braços instintivamente… mas o ataque para a poucos centímetros.
— Aquele velhote não te treinou direito… você nem consegue ressoar o próprio Eco conscientemente.
— O quê?! Você fala?!
— Mas é claro que falo. Enfim…
A cobra começa a se retrair, tomando a forma de um homem jovem, de aparência sábia, cabelos castanhos e olhos tranquilos.
— E aí, garoto. Vejo que cresceu bastante.
Ouroboros dos Mil Venenos. Raça: Dragão; Espécie: Wyrm. Usam o elemento Toxina.
— Tio Ouroboros! O vovô…
— Já imagino o que aconteceu. Mas, antes de qualquer coisa, vamos comer algo. Aquela Salamandra vai dar um bom cozido.
Eles seguem até a casa do venenoso: uma caverna aconchegante, ainda que rústica demais para o meu gosto!
Depois de um belo cozido de Salamandra que, sinceramente, deve ter um gosto bem exótico, Ouroboros observa Heragon tentando se levantar.
— Heragon. Agora vá descansar.
— Não tenho tempo para isso, tio. Preciso encontrar o vovô.
— Haah… cabeça dura. Do jeito que está, você vai morrer antes de chegar lá. Fique e treine um pouco.
— Mas…
— Nada de “mas”. Conhecendo o velho Fiogon, ele está bem. Agora, passe esta pomada nos ferimentos e se enfaixe. Amanhã, eu te levo a um lugar.
Heragon resmunga, mas obedece.
Ouroboros o conduz até uma cachoeira ao lado de um pântano. Sob uma grande árvore, uma criatura de couraça grossa repousa, deitada, como se o mundo inteiro fosse seu quintal.
— Derrote aquele bicho. Se conseguir, eu te levo até o seu avô.
— Sério?! É uma promessa?
— É. Se tiver sorte de sobreviver.
Heragon observa o ambiente, amarra cipós, prepara uma armadilha e se posiciona. Lentamente, aproxima-se da criatura. Assim que ela o nota, um olhar cheio de sede de sangue o paralisa.
“Se mova… eu preciso me mover!”
Mas, antes que possa reagir, uma sensação sufocante toma conta dele. Uma imagem surge em sua mente: uma visão de pura morte. Suas pernas tremem.
Ouroboros aparece à frente, e a fera, ao vê-lo, foge correndo para dentro da água.
Heragon cai sentado, ofegante.
— Entendeu agora? Para salvar Fiogon, você vai ter que invadir a casa dos Hunters. O mais fraco dos inimigos que terá que enfrentar… tem a mesma presença que essa criatura.
— Então eu… ainda sou fraco demais. — Heragon abaixa a cabeça. — Mas posso ficar forte o suficiente se treinar com você?
— Digamos que será um bom começo.
“Não tenho escolha…”
Muito bom. O venenoso sabe motivar. Nada como uma morte iminente para calar até o mais teimoso dos homens!

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