Passam-se alguns dias de treinamento rigoroso. Dói, cansa, frustra, mas Heragon insiste. Teimoso como só ele.

    Em certo momento, o Venenoso o chama para conversar.

    — Heragon, tenho um desafio para você. Vá até uma caverna próxima e traga uma fruta que cresce numa plantinha.

    — Uma fruta?

    — É fácil. Mas vai ser bom para o seu crescimento.

    Heragon parte determinado. No caminho, evita confrontos com criaturas enormes, desviando por trilhas estreitas, passando rente a ossadas antigas e marcas de garras em troncos, como se a própria dimensão deixasse avisos.

    Ao chegar a uma cachoeira, sai de um arbusto, batendo a mão na roupa para tirar as folhas. De outro arbusto, um pouco mais à frente, surge um garoto de manto longo, cabelos azul-claro e olhar curioso.

    Os dois se encaram.

    “Quem é esse?” pensam, ao mesmo tempo.

    — Oi! Sou Heragon, dos Dragões. — Ele toma a iniciativa.

    — Sério?! Um Dragão?! Que legal! — o outro responde, animado. — Sou Merlin, dos Magos. Gosto de arroz e de conhecer pessoas novas!

    Raça: Mago; Canal: Adap; Inteligentes e estudiosos, programam a própria ressonância.

    Heragon sorri, apesar da estranheza.

    — Você é bem empolgado. Mas preciso resolver uma coisa agora.

    — Espera! — Merlin baixa um pouco o olhar, cabisbaixo. — Eu estou perdido… me afastei do Pilar e não sei onde estou.

    — Hm… eu também não conheço muito bem essa dimensão. Boa sorte aí.

    Merlin dá um passo para trás e capricha no drama, com a clássica cara de “me leva junto”.

    — Então já vou… sozinho nessa floresta perigosa… sem rumo… cheia de dinossauros prontos para me devorar…

    Heragon suspira.

    — Vem comigo. Depois a gente acha o caminho para o seu Pilar.

    — Opa! Eu sabia que você era gente boa!

    Os dois entram na caverna atrás da cachoeira. O túnel é úmido e escuro, e a água pingando parece marcar o tempo, gota por gota, como se o lugar estivesse contando quantos passos faltam para alguém fazer besteira.

    — Então… o que você precisa fazer aqui? — pergunta Merlin.

    — Meu mestre pediu para eu pegar uma fruta que cresce aqui dentro.

    — Legal. O seu mestre pede. — Os olhos do jovem mago brilham, como se aquilo fosse uma aventura lendária.

    — Hahaha. — Heragon ri. — Eu falei que ia pegar uma fruta numa caverna e é com isso que você fica impressionado.

    — Meu mestre é meio mandão.

    Enquanto caminham, Heragon conta parte de sua história, soltando as palavras como quem mede o peso de cada lembrança antes de deixá-la cair no chão.

    O caminho segue, e a conversa vai se costurando no ritmo dos passos, até chegarem a uma clareira.

    Uma fenda no teto derrama luz sobre o lugar, um corte brilhante no escuro. O feixe ilumina o pó no ar e revela movimento: insetos gigantes circulam pela área, zunindo em espirais lentas, como se guardassem aquela abertura por instinto.

    Merlin, por algum motivo, fica boquiaberto. Não é medo. É… reconhecimento. Estranhamente surpreso, ele fecha os punhos, trava o maxilar e solta uma frase nada comum:

    — História inicial de protagonista… — Merlin aperta os olhos. — Droga!

    — O quê? — Heragon sorri de canto, confuso. — Espera… ouvi algo.

    Ele puxa Merlin para trás de um arbusto. À frente, dinossauros caçam em bando, rasgando formigas gigantes com precisão de açougueiro.

    Deinonychus

    Tipo: Animal; Ameaça: Raro; Classe: Dino; Apelido: Deino.

    — Isso é ruim — sussurra Merlin. — Já estudei sobre esses dinossauros. São rápidos e inteligentes.

    — Vamos pelas beiradas, sem fazer baru…

    Crack.

    Heragon pisa numa planta.

    — O que foi isso?! — murmura Heragon.

    Merlin arregala os olhos.

    — Isso é ruim… isso pode soar estranho, mas você acabou de pisar em uma planta que odeia ser pisada.

    Mandrágora

    Tipo: Besta; Ameaça: Comum; Classe: Treant.

    O grito da planta puxa os Deinos como ímã.

    — Que ótimo. Agora vamos ter que lutar!

    As feras avançam. Uma delas acerta o flanco de Heragon. Ele cai, mas, antes que o chão o engula por completo, trava o pescoço do bicho com os antebraços, segurando como pode. Garras em forma de foice rasgam o traje. O fôlego encurta, preso entre o peso da criatura e a urgência de não ceder.

    Merlin se posiciona ao lado, mão erguida, olhar firme.

    Console: Mater — Matriz: Elemen Água…

    Uma esfera se forma em sua palma. Pontinhos de luz surgem na superfície e, um a um, são ligados por um traço fino, formando uma rede: um mapa compacto de intenção e cálculo.

    Metralhadora D’água!

    A esfera se rompe, transformando-se numa metralhadora de água, e dispara. As rajadas perfuram as penas do Deino preso a Heragon, atravessando como agulhas de pressão. O peso cede, enfim. Heragon gira o corpo, rola para longe e se levanta num salto curto, ainda ofegante.

    Ele tenta criar fogo… nada. Só ar quente escapando, inútil.

    Então, sem opção e sem tempo, parte para o combate direto.

    Cotovelo. Chute baixo. Passo lateral. O Deino morde o vazio.

    — Uau! Você luta bem! — comenta Merlin.

    — Aprendi com meu avô. Ele chama isso de… Kung Fu.

    — Maneiro! — Merlin ri. — Tive uma ideia. Pode ser a isca?

    — Como se eu tivesse escolha!

    — Tente juntá-los num só lugar!

    Heragon puxa o bando para si. Desvia por centímetros. Salta uma raiz, deixa dois se atropelarem. Agarra o focinho de um, empurra, bate a cabeça dele contra a de outro… um estalo oco… e recua num salto.

    Merlin aproveita a abertura.

    — Console: Modi — Matriz: Invo — Paredão!

    Grandes rochas surgem do nada. Elas se moldam em paredes em três lados, numa dobra súbita e brutal, fechando os Deinos numa caixa aberta, sem teto e sem fuga.

    Console: Mater — Matriz: Elemen Vento — Rajada!

    O ar responde. Ventos em lâminas cortam o espaço como facas invisíveis, assobiando com sede de corte. O impacto chega de uma vez só, seco e esmagador, derrubando todos ao mesmo tempo, como se alguém tivesse arrancado as pernas do grupo com um único golpe.

    — Heragon, da próxima vez, olha por onde pisa, hein?

    — Engraçadinho…

    Eles riem, um riso curto, com o pulso ainda acelerado, e seguem adiante.

    — Você é forte — diz Merlin. — E tem bons chutes.

    — Ainda não consigo usar ressonâncias direito. Só me viro com o Kung Fu.

    — A Ressonância é quando você muda a vibração do Eco usando um dos sete canais.

    — Meu mestre falou algo sobre Elemen.

    — Elemen é o canal central da sua raça, o dominante. Para usar, você precisa mandar um Sinal, tipo um comando para o Eco entrar no padrão certo. Esse sinal se divide em três faixas.

    — Já está dando um nó na minha cabeça.

    — Haha! Agora fica mais simples: a faixa imagética é a mais comum, porque é a mais intuitiva. Ela depende totalmente da visualização. Você tem que imaginar com clareza o que quer criar.

    — Eu estou tentando, mas ainda não consigo imagens claras.

    — Imagino que o que você precisa é de um exemplo bem definido na mente. É mais fácil do que o jeito que a minha raça cria Ressonância.

    — Pode me ajudar? Como vocês fazem?

    — Programação. — Merlin anima a explicação. — A gente pensa no Eco como uma esfera com vários pontinhos e manifesta isso para fora do corpo. Em cada ponto, coloca uma informação: tamanho, densidade, efeito… Liga os pontos, e isso cria o Programa. A gente usa a faixa programática. É bem comum em raças de base Adap.

    — É legal. Mas pensando bem… não me ajuda em nada.

    — Haha. A gente só memoriza Programas já criados, então fica fácil ressoar. E relaxa: tem raça que sofre mesmo com a faixa imagética… quem tem Adap como base costuma penar nisso. No seu caso, tenta puxar um exemplo claro, uma imagem que grude com força na sua mente.

    — Vou me lembrar disso. Obrigado.

    Andam mais um pouco, até avistarem uma fruta de casca escura, com desenhos em forma de ondas.

    — É ela! — Heragon aponta e corre para pegá-la.

    — Essa fruta me é familiar… tenho certeza de que já a vi num livro — murmura Merlin.

    Quando ele se aproxima, o chão vibra.

    Ao redor, dentes brotam do chão. Afiados, armados para mastigar.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota