Enquanto Sara está enfurecida.

    A luta no outro franco começa.

    Ravier não perde tempo.

    — Fase Cheia…

    A energia dele se desfaz em fumaça.

    — Campo de Caça!

    A névoa se espalha, densa, engolindo o terreno inteiro. Pouco a pouco, os olhos brilhantes somem atrás da cortina branca. Ravier reaparece em estalos de segundo, como se o campo tivesse portas invisíveis abertas só para ele.

    Golpes rápidos. Precisos. O Venenoso recebe, mede, bloqueia. Ainda assim, Ravier insiste. Some e reaparece, então avança numa velocidade absurda, circulando Ouroboros como uma sombra viva, farejando uma brecha.

    De repente, ele põe as mãos no chão.

    — Correntes Terrestres!

    O solo racha. Correntes irrompem, sobem e prendem Ouroboros ao piso com um estalo metálico que corta até o silêncio da névoa.

    — Esferas de Espinhos!

    Orbes cobertos de pontas se materializam ao redor da presa. Um estalar de dedos e as esferas se expandem de uma vez, perfurando e esmagando o centro.

    Ravier dá um passo à frente, confiante.

    — Oi, oi… não me diga que já morreu?

    — Haha… bela sequência de golpes. Foi bem treinado. Mas creio que nunca lutou contra um Dragão… nós odiamos ser subestimados.

    De dentro das esferas, uma fumaça verde começa a vazar. O ar vibra. O Eco ao redor parece derreter, virando uma gosma que recobre o corpo de Ouroboros. Ravier sorri, já sentindo o gosto da vitória.

    — Hã… Dragões vivem muito, mas não são imortais. Se morrem, podem ser caçados.

    O velho dragão ergue a cabeça, devagar, como se o peso das correntes fosse só um detalhe.

    — Vejo que não me apresentei. Meu nome é Ouroboros. Resista a isso… e talvez eu leve o que você falou a sério.

    Os olhos de Ravier se arregalam.

    — O quê…? Espera… aquele Ouroboros?!

    O dragão sorri de leve.

    — Minha vez.

    — Fase Cheia…

    Escamas que variam do marrom claro ao escuro se espalham pelo corpo.

    — Dragão Wyrm!

    O tronco alonga. A silhueta toma a forma de uma serpente colossal, com um chifre cravado bem no centro da testa. A cauda varre a névoa num único golpe, abrindo um rasgo de visibilidade no campo.

    Ele abre a boca.

    — Ninho de Serpentes!

    Da garganta, dezenas de serpentes de veneno disparam. Elas deslizam, se enlaçam ao redor de Ravier, mordem o revestimento de energia e arrancam pedaços que esfumaçam e derretem, como se fossem corroídos por ácido. A defesa cai em segundos, e as serpentes alcançam o caçador.

    — Vórtex Venenoso!

    As serpentes se desfazem em fumaça verde. O turbilhão gira feroz, adensa, vira uma esfera corrosiva. Cresce. Vibra. E explode.

    O vento sai quente e pesado. Quando a poeira baixa, Ravier ainda está de pé, com o corpo salpicado de manchas negras e os olhos brancos, vazios. Um segundo depois, ele desaba de costas, completamente paralisado.

    Ouroboros desfaz a forma dracônica e puxa o ar, fundo.

    — Usar a primeira fase foi um pouco demais… — murmura, ajeitando os cabelos. — Que inveja do Fiogon… queria ter lutado contra o Hugo…

    Ele se aproxima do Pilar, onde Sara está sentada calmamente lixando as unhas, enquanto um grande urso de pelúcia de aparência sinistra desfere golpes constantes na Hunter desacordada.

    — Sara, pode parar. Ela já está inconsciente.

    — Mas ela me irritou!

    Com um estalo de dedos, a criatura é puxada por um portal.

    — Entendeu, Heragon? — diz Ouroboros. — As Fases extraem da Lunae poder puro. Se enfrentar alguém desperto, fuja.

    Heragon, espantado, engole seco.

    — Com toda certeza, vou me lembrar disso.

    — Ótimo. Agora, levante o medalhão.

    — Por quê?

    — Apenas faça e não questione.

    — Bem… tá bom.

    Heragon ergue o medalhão.

    — Só pense no destino. Mas vá para Símia primeiro. Procure o posto dos Guias. Mostre o medalhão e eles te levarão a Guiar.

    — Sim, senhor. Obrigado por tudo.

    — Menos drama. Apenas vá.

    — Boa sorte, fofinho! — grita Sara.

    Um feixe de luz parte do medalhão e acende o Pilar. O portal se abre. Heragon dá um último olhar e atravessa. Ouroboros coça a cabeça.

    — Sinto que estou esquecendo algo…

    Sara abre a bolsa para guardar a lixa. Vê um passaporte com o nome do jovem.

    — Ah, hehe… se esqueceu, não deve ser importante.

    Essa cara de pau!

    — Deve ter razão.

    E esse venenoso também não colabora!

    Dimensão Guiar

    Em um lugar onde a brisa sopra suave e a natureza trabalha em perfeita harmonia, o próprio som do ambiente parece uma serenata para o mundo. Ali, uma mansão majestosa faz jus ao cenário.

    Pilares ornamentados com fios de ouro, telhado de telhas esculpidas em safiras, detalhes refinados por toda a estrutura. Diamantes refletem a luz do sol, exibindo para qualquer um que veja aquela casa o poder de quem vive ali.

    Ao entrar e seguir por um corredor repleto de obras de arte, chegamos a uma porta dupla, coberta de runas que brilham constantemente. Atrás dela, há uma ampla sala com diversos retratos de uma única pessoa. A única que importa, é claro!

    Ao redor, menos importantes do que os retratos, relíquias inestimáveis e ornamentos cobertos de pedras preciosas adornam as paredes. Ao fundo da sala, há um tatame escondido atrás de um véu translúcido.

    Por trás do tecido, uma mulher observa em silêncio: bela, sedutora, cabelos dourados como fios de ouro, cacheados como uma cachoeira inquieta, com olhos tão brilhantes quanto as pedras preciosas ao redor.

    Raça: Guia; Observadores, capazes de se moverem livremente pelo Multiverso.

     Ao seu lado, uma esfera flutua, parecida com um enorme globo ocular, com uma runa no lugar da pupila. Encará-la dá a sensação de que ela vasculha a sua alma.

    — Entre — diz a mulher, com uma voz majestosa.

    A porta se abre, e uma jovem entra. Cabelos loiros tão longos que quase tocam o chão, roupas leves e um olhar confiante. Ela se ajoelha diante da incomparável mulher.

    Guia aprendiz. A primeira de sua turma.

    — Bia Mormou se apresenta diante da Guia Suprema.

    A Guia Suprema observa com serenidade; um sorriso sedutor toma seus lábios.

    — Você, dentre os jovens, é a mais talentosa. Já está apta para sua primeira missão. Será seu teste de graduação.

    Ela inclina levemente a cabeça e apoia o punho no rosto.

    — Agradeço o elogio, senhora. Prometo não decepcioná-la.

    — Senhora?

    — Ah… quer dizer, Guia Suprema.

    — Melhorou. Perdemos contato com nossa base em Símia. Vá até lá, verifique a situação e me reporte pessoalmente.

    — Irei me preparar e partirei assim como me foi ordenado.

    A Guia Suprema acena com elegância, liberando a garota. Quando a porta se fecha, um homem de máscara negra se destaca na penumbra, encostado à parede, braços cruzados.

    Raça: Desconhecido.

    — Ela ficou bem orgulhosa — comenta o mascarado, num tom calmo.

    A belíssima se levanta, atravessa o véu com a esfera atrás, seguindo-a, caminha até a janela e observa Bia indo embora.

    — Muito talento pode gerar excesso de confiança — responde ela, sem desviar o olhar. — Com o tempo e com experiência, ela mudará.

    — Você não mudou.

    Um sorriso confiante surge naqueles lábios delicados.

    — Sou incrível demais. Meu orgulho é perfeitamente compreensível.

    — Essa coisa do seu lado continua sinistra como sempre.

    Ela apoia o cotovelo na esfera flutuante.

    — Ela é bem útil. O poder desse Artefato, em conjunto com as minhas ressonâncias, me torna ainda mais incrível.

    Coleção Oráculo

    Artefato das Moiras: Lachesis.

    — Ainda não sei como você a conseguiu, mas, com esse poder…

    — Nem adianta continuar. Eu sei onde você quer chegar, mas você sabe muito bem que, neste caso, não faz diferença.

    — Verdade… me exaltei. Por falar nisso, ele já os notou.

    — Era de se esperar. Com o selo prestes a se romper, ele deve sentir com mais clareza as mudanças desta linha do tempo. Não é algo que precise nos preocupar. Pelo que eles são… notá-los será o máximo que conseguirá fazer.

    — Assim espero. — O mascarado cruza os braços. — Heragon está indo para Símia.

    — Percebi. — Ela ri discretamente. — Quem você acha que eu sou? De acordo com os planos daquele homem, ainda é cedo. Eu o mandei para aquele lugar.

    — Usou a Lachesis, só um Artefato mesmo para hackear um Pilar. Mas pensando bem, o medalhão de Rodens consegue fazer algo parecido.

    — De fato, o que vai fazer agora?

    — Irei observá-lo de perto.

    — Não vai vigiar aquele outro?

    — Enquanto ele estiver com o selo amaldiçoado, não se moverá.

    — Imagino que seja verdade. Abrirei um portal. Lembre-se — diz ela, firme —, sua interferência deve ser mínima. O jovem deve aprender a se virar.

    — Eu sei.

    A Guia Suprema retorna ao tatame. Com um simples gesto, murmura:

    — Portalis!

    Um portal se abre em meio à sala. O homem atravessa o véu dimensional e desaparece. Voltado a ter apenas a companhia do Artefato.

    Fechando os olhos, sussurra:

    — Grande Gaia… esta é a nossa última chance. Desta vez, não podemos falhar.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota