Capítulo 13 — Portais
Enquanto Sara está enfurecida.
A luta no outro franco começa.
Ravier não perde tempo.
— Fase Cheia…
A energia dele se desfaz em fumaça.
— Campo de Caça!
A névoa se espalha, densa, engolindo o terreno inteiro. Pouco a pouco, os olhos brilhantes somem atrás da cortina branca. Ravier reaparece em estalos de segundo, como se o campo tivesse portas invisíveis abertas só para ele.
Golpes rápidos. Precisos. O Venenoso recebe, mede, bloqueia. Ainda assim, Ravier insiste. Some e reaparece, então avança numa velocidade absurda, circulando Ouroboros como uma sombra viva, farejando uma brecha.
De repente, ele põe as mãos no chão.
— Correntes Terrestres!
O solo racha. Correntes irrompem, sobem e prendem Ouroboros ao piso com um estalo metálico que corta até o silêncio da névoa.
— Esferas de Espinhos!
Orbes cobertos de pontas se materializam ao redor da presa. Um estalar de dedos e as esferas se expandem de uma vez, perfurando e esmagando o centro.
Ravier dá um passo à frente, confiante.
— Oi, oi… não me diga que já morreu?
— Haha… bela sequência de golpes. Foi bem treinado. Mas creio que nunca lutou contra um Dragão… nós odiamos ser subestimados.
De dentro das esferas, uma fumaça verde começa a vazar. O ar vibra. O Eco ao redor parece derreter, virando uma gosma que recobre o corpo de Ouroboros. Ravier sorri, já sentindo o gosto da vitória.
— Hã… Dragões vivem muito, mas não são imortais. Se morrem, podem ser caçados.
O velho dragão ergue a cabeça, devagar, como se o peso das correntes fosse só um detalhe.
— Vejo que não me apresentei. Meu nome é Ouroboros. Resista a isso… e talvez eu leve o que você falou a sério.
Os olhos de Ravier se arregalam.
— O quê…? Espera… aquele Ouroboros?!
O dragão sorri de leve.
— Minha vez.
— Fase Cheia…
Escamas que variam do marrom claro ao escuro se espalham pelo corpo.
— Dragão Wyrm!
O tronco alonga. A silhueta toma a forma de uma serpente colossal, com um chifre cravado bem no centro da testa. A cauda varre a névoa num único golpe, abrindo um rasgo de visibilidade no campo.
Ele abre a boca.
— Ninho de Serpentes!
Da garganta, dezenas de serpentes de veneno disparam. Elas deslizam, se enlaçam ao redor de Ravier, mordem o revestimento de energia e arrancam pedaços que esfumaçam e derretem, como se fossem corroídos por ácido. A defesa cai em segundos, e as serpentes alcançam o caçador.
— Vórtex Venenoso!
As serpentes se desfazem em fumaça verde. O turbilhão gira feroz, adensa, vira uma esfera corrosiva. Cresce. Vibra. E explode.
O vento sai quente e pesado. Quando a poeira baixa, Ravier ainda está de pé, com o corpo salpicado de manchas negras e os olhos brancos, vazios. Um segundo depois, ele desaba de costas, completamente paralisado.
Ouroboros desfaz a forma dracônica e puxa o ar, fundo.
— Usar a primeira fase foi um pouco demais… — murmura, ajeitando os cabelos. — Que inveja do Fiogon… queria ter lutado contra o Hugo…
Ele se aproxima do Pilar, onde Sara está sentada calmamente lixando as unhas, enquanto um grande urso de pelúcia de aparência sinistra desfere golpes constantes na Hunter desacordada.
— Sara, pode parar. Ela já está inconsciente.
— Mas ela me irritou!
Com um estalo de dedos, a criatura é puxada por um portal.
— Entendeu, Heragon? — diz Ouroboros. — As Fases extraem da Lunae poder puro. Se enfrentar alguém desperto, fuja.
Heragon, espantado, engole seco.
— Com toda certeza, vou me lembrar disso.
— Ótimo. Agora, levante o medalhão.
— Por quê?
— Apenas faça e não questione.
— Bem… tá bom.
Heragon ergue o medalhão.
— Só pense no destino. Mas vá para Símia primeiro. Procure o posto dos Guias. Mostre o medalhão e eles te levarão a Guiar.
— Sim, senhor. Obrigado por tudo.
— Menos drama. Apenas vá.
— Boa sorte, fofinho! — grita Sara.
Um feixe de luz parte do medalhão e acende o Pilar. O portal se abre. Heragon dá um último olhar e atravessa. Ouroboros coça a cabeça.
— Sinto que estou esquecendo algo…
Sara abre a bolsa para guardar a lixa. Vê um passaporte com o nome do jovem.
— Ah, hehe… se esqueceu, não deve ser importante.
Essa cara de pau!
— Deve ter razão.
E esse venenoso também não colabora!
Em um lugar onde a brisa sopra suave e a natureza trabalha em perfeita harmonia, o próprio som do ambiente parece uma serenata para o mundo. Ali, uma mansão majestosa faz jus ao cenário.
Pilares ornamentados com fios de ouro, telhado de telhas esculpidas em safiras, detalhes refinados por toda a estrutura. Diamantes refletem a luz do sol, exibindo para qualquer um que veja aquela casa o poder de quem vive ali.
Ao entrar e seguir por um corredor repleto de obras de arte, chegamos a uma porta dupla, coberta de runas que brilham constantemente. Atrás dela, há uma ampla sala com diversos retratos de uma única pessoa. A única que importa, é claro!
Ao redor, menos importantes do que os retratos, relíquias inestimáveis e ornamentos cobertos de pedras preciosas adornam as paredes. Ao fundo da sala, há um tatame escondido atrás de um véu translúcido.
Por trás do tecido, uma mulher observa em silêncio: bela, sedutora, cabelos dourados como fios de ouro, cacheados como uma cachoeira inquieta, com olhos tão brilhantes quanto as pedras preciosas ao redor.

Raça: Guia; Observadores, capazes de se moverem livremente pelo Multiverso.
Ao seu lado, uma esfera flutua, parecida com um enorme globo ocular, com uma runa no lugar da pupila. Encará-la dá a sensação de que ela vasculha a sua alma.
— Entre — diz a mulher, com uma voz majestosa.
A porta se abre, e uma jovem entra. Cabelos loiros tão longos que quase tocam o chão, roupas leves e um olhar confiante. Ela se ajoelha diante da incomparável mulher.
Guia aprendiz. A primeira de sua turma.
— Bia Mormou se apresenta diante da Guia Suprema.
A Guia Suprema observa com serenidade; um sorriso sedutor toma seus lábios.
— Você, dentre os jovens, é a mais talentosa. Já está apta para sua primeira missão. Será seu teste de graduação.
Ela inclina levemente a cabeça e apoia o punho no rosto.
— Agradeço o elogio, senhora. Prometo não decepcioná-la.
— Senhora?
— Ah… quer dizer, Guia Suprema.
— Melhorou. Perdemos contato com nossa base em Símia. Vá até lá, verifique a situação e me reporte pessoalmente.
— Irei me preparar e partirei assim como me foi ordenado.
A Guia Suprema acena com elegância, liberando a garota. Quando a porta se fecha, um homem de máscara negra se destaca na penumbra, encostado à parede, braços cruzados.
Raça: Desconhecido.
— Ela ficou bem orgulhosa — comenta o mascarado, num tom calmo.
A belíssima se levanta, atravessa o véu com a esfera atrás, seguindo-a, caminha até a janela e observa Bia indo embora.
— Muito talento pode gerar excesso de confiança — responde ela, sem desviar o olhar. — Com o tempo e com experiência, ela mudará.
— Você não mudou.
Um sorriso confiante surge naqueles lábios delicados.
— Sou incrível demais. Meu orgulho é perfeitamente compreensível.
— Essa coisa do seu lado continua sinistra como sempre.
Ela apoia o cotovelo na esfera flutuante.
— Ela é bem útil. O poder desse Artefato, em conjunto com as minhas ressonâncias, me torna ainda mais incrível.
Coleção Oráculo
Artefato das Moiras: Lachesis.
— Ainda não sei como você a conseguiu, mas, com esse poder…
— Nem adianta continuar. Eu sei onde você quer chegar, mas você sabe muito bem que, neste caso, não faz diferença.
— Verdade… me exaltei. Por falar nisso, ele já os notou.
— Era de se esperar. Com o selo prestes a se romper, ele deve sentir com mais clareza as mudanças desta linha do tempo. Não é algo que precise nos preocupar. Pelo que eles são… notá-los será o máximo que conseguirá fazer.
— Assim espero. — O mascarado cruza os braços. — Heragon está indo para Símia.
— Percebi. — Ela ri discretamente. — Quem você acha que eu sou? De acordo com os planos daquele homem, ainda é cedo. Eu o mandei para aquele lugar.
— Usou a Lachesis, só um Artefato mesmo para hackear um Pilar. Mas pensando bem, o medalhão de Rodens consegue fazer algo parecido.
— De fato, o que vai fazer agora?
— Irei observá-lo de perto.
— Não vai vigiar aquele outro?
— Enquanto ele estiver com o selo amaldiçoado, não se moverá.
— Imagino que seja verdade. Abrirei um portal. Lembre-se — diz ela, firme —, sua interferência deve ser mínima. O jovem deve aprender a se virar.
— Eu sei.
A Guia Suprema retorna ao tatame. Com um simples gesto, murmura:
— Portalis!
Um portal se abre em meio à sala. O homem atravessa o véu dimensional e desaparece. Voltado a ter apenas a companhia do Artefato.
Fechando os olhos, sussurra:
— Grande Gaia… esta é a nossa última chance. Desta vez, não podemos falhar.

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