Capítulo 61 – Reencontro com o Algoz
Narrador: Azazel
Azazel urrou.
O grito não foi apenas raiva. Foi ausência.
Uma explosão de energia partiu dele e, por alguns segundos, a névoa foi rasgada como tecido queimado. O campo reapareceu em clareza brutal.
E ele viu.
O arco nas mãos do Santo.
O cristal.
O fragmento.
Os olhos de Azazel se dilataram, a sanidade oscilando sob o peso do desejo.
— Você… — a voz saiu distorcida, sobreposta por ecos internos. — Você carrega o que é meu.
O Santo não baixou o arco.
Azazel avançou um passo.
A terra rachou sob seus pés.
— Devolva. — Agora era exigência. — Eu preciso disso. Eu preciso estar completo.
O Santo puxou a corda de luz. Uma flecha começou a se formar, desenhada a partir do próprio brilho do cristal.
— Completo? — disse ele num tom sarcástico.
Azazel estava a um instante de avançar com velocidade quando o ar, atrás dele, se distorceu.
O ar aqueceu.
Não como fogo comum. Era um calor antigo, primitivo, que fazia a própria atmosfera vibrar.
Uma sombra colossal se projetou sobre o campo.
Azazel sentiu antes de ver.
Virou-se com rapidez.
E então seus olhos se arregalaram.
Atrás dele erguia-se um dragão vermelho de proporções monumentais. As escamas eram grossas como placas de armadura ancestral, cada uma refletindo tons de sangue e brasa. Chifres curvos emergiam de sua cabeça como coroas quebradas. Os olhos, verticais e dourados, ardiam com inteligência impiedosa.
As asas abertas obscureciam o céu já encoberto pela névoa. Quando se moveram, o vento gerado derrubou árvores já partidas.
A boca do dragão se abriu lentamente, revelando fileiras de presas irregulares, cada uma grande o bastante para atravessar um corpo humano inteiro.
Azazel recuou meio passo.
O ódio inundou cada parte de seu ser.
— Você… — a voz dele tremeu, não de medo, mas de memória. — Foi você quem fez isso comigo!
O dragão inclinou a cabeça, como quem observa um inseto que ousou falar.
Azazel rangeu os dentes.
— Eu era luz!
o dragão ignorou, enquanto de suas narinas era liberado fumaça incandescente.
O campo parecia pequeno demais para conter os dois.
Azazel ergueu a foice.
— Eu matarei você, e enfim terei minha vingança!
O dragão abriu as asas por completo.
— Tente.
Antes que Azazel pudesse avançar contra o dragão, a criatura moveu-se.
Não houve anúncio. Não houve preparação.
A pata colossal desceu como um veredito.
O impacto atingiu Azazel em cheio, esmagando-o contra o solo antes de lançá-lo para longe. O corpo do demônio foi arremessado por quilômetros, atravessando árvores, rochas e o que restava do campo como um projétil descontrolado.
No ar, ele girou.
Ao tocar o chão novamente, cravou ambas as foices na terra, sulcando o terreno enquanto era arrastado violentamente. O solo abriu-se em dois longos rasgos fumegantes até que, finalmente, ele conseguiu forçar o próprio corpo a parar.
A poeira subiu ao redor.
Azazel ergueu-se lentamente.
Seus olhos se estreitaram.
Havia algo errado naquele dragão.
O calor era real. O peso era real. A presença… também.
Mas havia uma camada por trás daquilo. Talvez a força. Um traço que não pertencia totalmente à criatura que um dia o matou.
Antes que pudesse concluir o pensamento, algo perfurou seu ombro.
A flecha atravessou carne e osso com precisão cirúrgica.
Azazel virou a cabeça bruscamente.
O Santo permanecia à distância, o arco branco ainda tensionado. Duas novas flechas de luz já cortavam o ar em sua direção.
Com um rosnado, Azazel arrancou a flecha do próprio ombro e a arremessou de volta contra o Santo, usando a mesma força que empregaria numa lança. Em seguida, desviou para o lado com um salto lateral, permitindo que as outras duas flechas rasgassem o espaço onde ele estivera um instante antes.
A flecha arremessada por Azazel cruzou o campo como um projétil de execução, reta, implacável. O impacto teria atravessado o peito do Santo sem hesitação, não fosse o reflexo brutal.
Num gesto seco, ele puxou a cabeça do cavalo pela crina.
O movimento desviou sua própria linha do tiro por um fio.
A flecha não encontrou o torso. Encontrou o crânio da montaria.
O estalo foi curto. Definitivo.
O corpo do animal cedeu de imediato, tombando pesadamente sobre o solo encharcado de névoa. O cavalo ainda estremeceu por um instante antes de aquietar-se por completo.
O Santo deixou-se deslizar da sela no mesmo movimento, pousando no chão com leveza controlada. Não houve pressa, tampouco surpresa. Apenas a aceitação fria de um sacrifício que nunca pesara em sua balança.
Mesmo oculto pela máscara, seu olhar voltou-se para o cavalo morto com um desdém absoluto.
Como se aquela vida tivesse valido menos que o tempo gasto para invoca-lo.
Ao desviar, Azazel então percebeu o ferimento.
A carne ao redor da perfuração não se fechava.
Não havia regeneração.
O tecido permanecia aberto, queimado por dentro, como se algo estivesse consumindo sua essência.
— Não… — murmurou, encarando o próprio ombro.
Foi um erro.
Milésimos de segundo de distração.
O suficiente.
Hendrick surgiu à sua frente como um espectro de guerra. O cavalo vermelho relinchou, e a espada desceu verticalmente, carregando peso absoluto.
Azazel não teve alternativa.
Cruzou as foices diante do corpo para bloquear.
O aço encontrou a luz.
Ou deveria ter encontrado.
No último segundo, quando a lâmina de Hendrick estava prestes a colidir com as foices…
— Ἁρπαγή.
A voz de Kaelmon foi baixa. Precisa.
As foices desapareceram das mãos de Azazel.
Não foram repelidas. Não foram quebradas.
Foram tomadas.
No instante seguinte, estavam nas mãos de Kaelmon, que as segurava com naturalidade quase ofensiva, como se sempre lhe tivessem pertencido. Os veios dourados sob sua pele brilharam com intensidade maior por um breve momento.
Azazel arregalou os olhos.
Não houve tempo para reação.
A espada de Hendrick desceu sem impedimento.
O golpe atravessou o pescoço de Azazel com força devastadora.
A cabeça foi lançada ao ar, girando lentamente antes de cair. O corpo tombou logo depois, inerte, pesado.
Hendrick recuou imediatamente, puxando as rédeas do cavalo e se afastando.
O dragão não hesitou.
A pata colossal desceu, esmagando o corpo decapitado contra o solo, ossos se partindo sob toneladas de força.
Ao mesmo tempo, a criatura abriu a boca.
Dentro dela, algo começou a se formar.
Não era fogo comum.
Era concentrado. Denso. Um fluxo incandescente que se acumulava como a carga de uma arma ancestral.
O ar ao redor distorceu.
O poder prestes a ser liberado iluminou o campo como o prenúncio de um extermínio definitivo.
Então, o limite do suportável foi rompido.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.