Capítulo 4 - Descobertas
O estudo havia sido bem interessante. No começo, Ellie não estava querendo prestar atenção e falava que queria brincar do lado de fora, e isso era o normal de uma garotinha de 6 anos. Porém, depois que Ulisses disse que, se ela prestasse atenção, iria ajudá-la a pegar as flores, Ellie com certeza começou a prestar atenção e Ulisses ficou bem satisfeito com isso.
Quando a aula acabou, por volta da tarde, Ellie não pode brincar com seu irmão, pois ela precisava ir para sua aula de boas maneiras, Ulisses disse que, quando ela terminasse, ambos iriam brincar juntos e pegar flores, o que animou a garotinha a concluir logo os seus afazeres. Enquanto ela seguia para a aula com a sua babá, Ulisses achou que poderia andar pela sua nova casa.
Obviamente, não era uma nova casa para o verdadeiro Ulisses, mas, como agora era Eddie que estava no controle, achou que poderia conhecer mais o lugar. Ao passar por uma janela, viu uma empregada com três cestas cheias de roupas, e o curioso era que ela estava os carregando com magia. Isso fez Ulisses pensar no novo mundo em que estava e quantas coisas havia de diferente de seu mundo original.
No mundo na novel, todos, sem exceção, possuem mana, não importa se for um idoso de 90 anos ou um bebê recém-nascido. O que diferia era a quantidade de mana em seus corpos: alguns poderiam ter muito, outros, pouco. Existia também o fato de que nem todos poderiam fazer com que sua quantidade de mana aumentasse devido à linhagem familiar; dependendo dos seus pais, os filhos não poderiam evoluir seu fluxo de mana.
Essa constatação nunca deixava de impressionar.
— O quanto consigo evoluir começando com 9 anos? — Disse Ulisses, olhando para suas mãos. — Ah… que complicado.
— Deixe disso, Lisses!
Ulisses rapidamente se virou para ver quem era e então viu sua mãe; ela estava vindo em sua direção com um sorriso. Ao olhar para ela, começou a pensar se tinha dito algo estranho. Era uma criança de 9 anos e não podia dizer nada que deixasse as outras pessoas pensarem o contrário.
— M-mãe… — ele soltou um sorriso forçado —há quanto tempo está aí?
— Não faz muito tempo, querido — disse Eduina — estava indo ver como anda a preparação para o almoço.
— A-ah, sim, hehe.
— Quer vir comigo? — perguntou a mulher de longos cabelos pretos azulados. — Como vai treinar com seu pai, pensei em uma comida que te desse muita energia.
— Eu quero ir.
Pensando um pouco em seu passado, a mãe de Eddie nunca foi uma pessoa muito presente, e seu pai havia ido embora antes de nascer. Por isso, sua mãe sempre o culpava, dizia com todas as letras que não gostava de seu rosto por ser igual o pai. Agora, porém, poderia dizer que era diferente. Eduina sempre o tratou com carinho e gentileza. Apesar dos seus planos em ir embora para não ter seu caminho cruzado com a protagonista da história, iria fazer o possível para tentar ter um maravilhoso convívio com sua nova família o máximo possível.
Ulisses seguiu sua mãe à direção da cozinha, tentando agir de modo mais normal possível. Eduina parecia bem contente por estar com o filho, e Ulisses, de certa forma, também estava.
— Sabe filho…
— Sim, mãe.
— Estou contente por estar aqui comigo — ela sorriu — até está sendo mais presente em seu relacionamento com sua irmã.
— Não estou entendendo, mãe… — disse Ulisses — o que você quer dizer com isso?
— Não é nada, apenas estou dizendo para que continue sendo gentil.
A sensação que teve foi que Eduina estava dizendo para que não começasse a ser um verdadeiro escroto, e isso fez Eddie se perguntar como ele poderia ter sido antes de se recuperar as memórias do outro mundo. Tudo era tão estranho: os olhares dos empregados, a sua irmã dizendo que ele não passava um tempo com ela, e agora sua mãe dizendo para não parar de ser gentil.
“Por acaso eu era um bundão?”, pensou. “Eu não estou entendendo mais nada!”
— Confie em mim, mãe — continuou — eu sempre vou ser gentil e vou te dar muito orgulho!
Eduina olhou para seu filho e então sorriu; suas palavras aqueceram seu coração. Pelos olhos de Ulisses, ela estava mais do que satisfeita.
— Sabe, Lisses… faz duas semanas que você está sendo um garotinho muito bom…
“O que ela quer dizer com isso?”, perguntou-se mentalmente. “Eu sou Ulisses agora, eu acho que estou muito normal.”
— Parece até que você é outra pessoa — disse ela.
“Eu juro que não sou! Na verdade, sou sim, mas acredite que não foi porque eu quis!” pensou ele, com um sorriso agradável
— sinceramente, acho que você está amadurecendo rápido para um garotinho.
— É-é, c-com certeza — disse Ulisses — eu acho que devo ser c-como um adulto.
“Falou a pessoa que tem 35 anos e morava num muquifo de apartamento, com um emprego de merda sem nenhuma responsabilidade! Isso soa tão estranho… “, pensou ele, incrédulo com o que havia dito. Ainda assim, para uma criança de 9 anos, achava que era o suficiente.
Não demorou muito Eduina e seu filho chegaram à cozinha. Ulisses ficou bem impressionado com o que viu: as empregadas estavam usando magia para preparar a refeição. Quando Eddie havia lido na novel o trecho “tudo era desculpa para se usar mana; todos os cidadãos adoravam isso e, não importava o dever a ser cumprido, usava-se mana”, imaginou que isso significava apenas praticidade. Mas usar mana para cozinhar era o auge para ele.
Ao entrarem, as bancadas estavam cheias de pratos prontos. Achou até um exagero preparar tanta comida para uma família de três pessoas. Quando as empregadas viram Eduina e Ulisses, ficaram surpresas, e ele percebeu isso; ainda não havia se acostumado com aqueles olhares cheios de curiosidade e estranhamento.
— Olá, senhora! — disse uma empregada, sorrindo — O que a traz à cozinha?
— Vim ver como estão os preparativos para o almoço — respondeu Eduina — Lisses, diga “oi” para nossas empregadas que fazem a sua refeição.
— Olá a todas — disse Ulisses — A comida que vocês fazem é deliciosa.
Todas se entreolharam por alguns segundos e, ainda mais surpresas, sorriram e agradeceram.
— Deixe-me ver o que estão preparando — disse Eduina — deve estar muito bom.
— Pequeno Sr. Urion — uma empregada aproximou-se de Ulisses — venha pegar um aperitivo para alegrar seu dia.
— Por favor… — Ulisses pode ver a empregada engolir o seco e o garoto não entendeu o motivo. — Me chame pelo meu nome — completou — é mais fácil assim.
A empregada arregalou os olhos, e Ulisses percebeu que ela havia relaxado um pouco; ela não parecia mais tensa com aquela situação.
— Sim… é… Sr. Ulisses!
— Onde estão os aperitivos?
— Por aqui.
A empregada levou Ulisses para uma das mesas da cozinha e, de uma forma mais tranquila, pegou alguns biscoitos, colocou-os em um prato e entregou para Ulisses, que, ao ver, ficou com água na boca. Estava realmente querendo experimentar; pegou um dos biscoitos e, ao comer, ficou muito impressionado com o sabor doce e simplesmente maravilhoso que experimentou.
— Isso ficou incrível! — disse Ulisses com os olhos brilhantes. Naquele momento, realmente parecia uma criança — Você é… qual é o seu nome?
— S-Sr. Ulisses quer saber… meu nome?
— Sim.
— Bem, me chame de Briana.
Ulisses achou Briana um nome bem bonito. Ela não parecia ter mais de 15 anos; ela parecia a empregada mais jovem que havia visto até aquele momento.
— Srta. Briana obrigado pelos biscoitos.
“Por que estou falando como uma criança?” pensou Eddie. Não sabia porque estava agindo daquele jeito, sem estar no personagem. Para Eddie, Ulisses era como um personagem que tinha que fazer a todo momento que estava entre duas ou mais pessoas.
— Obrigada — Briana sorriu — fico feliz que tenha gostado.
— Agora eu posso comer mais um?
— Claro!
O pequeno tempo que passou na cozinha foi bem divertido. Depois de uns dois minutos conversando com Briana, parecia que as outras empregadas haviam deixado de lado sua desconfiança (mesmo que Ulisses não tivesse entendido muito essa desconfiança). As outras empregadas conversaram com o garoto e eles até riram muito com o assunto sobre brócolis.
Depois que Ulisses saiu da cozinha, sua mãe pediu para que ele fosse se preparar para o almoço. Se despedindo da mãe, Ulisses foi se preparar, e não demorando muito, o horário do almoço chegou, o que fez todos da família Urion irem para a sala de jantar. Ulisses, que ainda estava um pouco atrasado, estava em seu quarto, sentado em sua mesa, escrevendo tudo o que se lembrava da novel e por onde a protagonista passava ou em quais lugares ela iria ir antes de se encontrar com Ulisses. Estava buscando, no fundo de sua memória, cada diálogo e detalhe possível para que, no futuro, não passasse por aquele lugar ou se quer pensasse em ir. Lembrava-se que, em um diálogo no capítulo 03, Stelle estava contando para Ulisses que o primeiro lugar que foi para ficar mais forte era as planícies do templo sagrado, que possuía um item para ter mais força. Depois de recordar disso, Ulisses foi só anotando no papel todos os lugares que se lembrava, praticamente fazendo uma mapa para se lembrar de não ir a esses lugares.
Ouviu batidas na porta e, logo em seguida, ela se abriu. Ouviu alguém correndo em sua direção e, ao olhar para ver quem era, viu sua irmã vindo em sua direção com um sorriso muito bonito.
— Irmão é hora do almoço. Mamãe e papai estão te esperando para começar.
— Certo, vamos então.
Ulisses tirou toda a sua atenção do que estava fazendo e foi até a sua irmã, estendendo a mão. A garotinha olhou por uns segundos para a mão de seu irmão e, logo em seguida, olhou para o rosto de Ulisses, que estava sorrindo, e logo depois disse com uma expressão confusa:
— O que quer que eu faça?
— Ah… bem… — começou Ulisses — não quer segurar na mão do seu irmão mais velho?
— S-sério mesmo? — disse Ellie, animada — Vai deixar que eu segure sua mão?
— Claro, vamos juntos para almoçar.
— Esse é o melhor dia da minha vida!
Ellie segurou a mão do irmão e o puxou na direção da saída. Ao passar por seu mordomo, percebeu que ele havia ficado bem surpreso, mas, por passar praticamente correndo, não teve tempo de pensar em algo que explicasse toda essa surpresa em seu rosto.
Conforme Ulisses passava pelos corredores com sua irmã, via que os empregados ainda estavam surpresos, e uns até cochichavam uns com os outros. Nesse momento, decidiu que mais tarde iria descobrir o que aquilo significava, pois estava muito estranho.
Chegando à sala de jantar, os dois irmãos foram para seus lugares e, enquanto comiam, todos estavam compartilhando como estavam sendo seus dias. Ellie era a que mais estava falando, animada e com um sorriso fofo no rosto. Ulisses, de certa forma, estava gostando de todos os membros de sua nova família, principalmente de sua irmã.
— Depois disso, a Madame Edia me disse para treinar mais a minha escrita.
— Tenho certeza que vai ter uma caligrafia linda — disse Eduina — e você Ulisses, o que aprendeu hoje em sua aula?
— Nada de mais… — Ulisses riu suavemente — Mas posso dizer que Ellie, apesar da idade, entendeu um pouco o meu conteúdo, mesmo com pouca idade.
— Ellie… — Eduina olhou para a garota, com um semblante surpreso e levemente orgulhoso — Eu sabia que era muito inteligente.
— Hehe… eu sou — A garota cruzou os braços, convencida.
Ulisses riu com a situação, enquanto comia um pouco da comida no seu prato. Era estranho ter esses momentos em família, porém, pensava que até poderia ser um momento bem agradável..
Enquanto estava comendo e as figuras femininas da mesa conversavam, Haru olhou para o filho e o analisou com atenção. Ele sabia que tinha algo de diferente em Ulisses, mas não sabia ao certo o quê. Mesmo assim, decidiu que seu filho poderia estar apenas crescendo e consequentemente ficando cada vez mais maduro.
— Está pronto para o treinamento de hoje?
— Ah… s-sim… — Ulisses levantou o olhar e olhou para Haru — estou animado, de certa forma.
— Fico contente por isso.
As palavras de Ulisses não estavam erradas; ele realmente estava animado para começar o seu treinamento com o seu pai. Era como se fosse um verdadeiro começo para algo grande, o primeiro passo para ir para longe da protagonista feminina. De certa forma, estava animado para ficar fora do caminho dela. Quem não iria ficar animado e, ao mesmo tempo, aliviado para ficar longe de problemas?

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