Capítulo 36: O Museu.
Naquele lugar entre os planos, havia um museu.
Um museu que não guardava simples obras. Não havia esculturas de mármore, nem pinturas. Nada disso. Os quadros continham palavras, que formavam frases. Frases que teciam parágrafos, parágrafos que costuravam textos.
O Museu de Quadro-Contos.
Naquele lugar, duas pessoas caminhavam lado a lado. Uma delas, a mais velha, andava preocupado. Mexia e remexia a gola da camisa, como se estivesse com calor. Mil e uma coisas se passavam em sua mente.
Era torturante.
— Sabe, o narrador está ficando ligeiramente cansado de seguir o próprio planejamento. É meio frustrante apresentar os elementos do mundo de forma isolada — O Narrador reclamou, andando com as mãos nas costas.
— Ué, mas a culpa é sua — disse o garoto que andava ao lado dele, dando de ombros. — Foi você que fez esse planejamento estúpido de sair exibindo contos soltos. Acho que os visitantes devem ter se enjoado, assim como você.
— De fato. Sabe, Ajudante, você é bem perspicaz. Eu não soube como iniciar a exibição do nosso museu, e acabei mostrando um conto desnecessariamente corrido. Nathan Yago Dias é um dos pilares centrais da nossa existência, e eu fiz a burrada de mostrar chatices sobre ele.
O Ajudante o olhou de esguelha, como se duvidasse do Narrador.
— Mostrei contos que não interessam a ninguém, e nem pude terminar aquele sobre o jogo de cartas.
— Esse sim foi frustrante — murmurou o Ajudante, lembrando-se do potencial que o quadro-conto tinha.
— Veja, acho que as avaliações vão mal. Mesmo que este lugar seja um museu, o natural é que, seguindo a tendência, fizéssemos o básico. Início, meio e fim. Os visitantes não devem ter tanta paciência para “apreciar” coisas desordenadas.
— Isso é a falta que o storytelling faz no seu planejamento.
— Exatamente. Não vamos conseguir prender a freguesia, se ficarmos nessa de exibir quadro-contos ao acaso.
— E não ajuda em nada se tudo acabar em diálogo.
O Narrador esfregou a cabeça, nervoso até os ossos. Vendo-o assim, agindo pateticamente, o Ajudante só conseguiu escapar um suspiro.
— Você se perde ao narrar essas histórias — disse o garoto, olhando os quadro-contos ao redor. — Atropela algumas coisas, esquece outras vírgulas. Na verdade, vocẽ sabe usar as vírgulas? Sempre me perguntei isso.
— Às vezes penso que não.
— Essa sua última frase tinha vírgula? — perguntou o Ajudante, genuinamente curioso.
— Sei lá. Se eu dissesse “às vezes, penso que não”, creio que soaria como “às vezes penso que sei usar, mas penso que não”. Do jeito como falei, “às vezes penso que não”, sem vírgula, creio que passa o que quis dizer.
— Isso é bem confuso.
— Sim. Além disso, como você falou, eu realmente me perco nos diálogos. Mesmo sendo o Narrador, o guia desse museu, esqueço que minha função é narrar o que essas pessoas fizeram.
O Ajudante riu, escondendo a boca com o punho.
— É, pois é. A verdade é que eu gosto muito deles.
— Isso é perceptível. Você gosta muito do Nathan Yago Dias.
O Narrador pôs as mãos na cintura, orgulhoso, por algum motivo.
— Você tem uma tendência natural a ligar esse garoto aos outros quadro-contos.
— Veja, você também faria isso — justificou-se o Guia, como se estivesse se defendendo. — Há muito tempo atrás… e quando digo “muito tempo atrás”, é realmente muuuuuito tempo atrás. Bom, houve uma época em que eu era como você.
— Como eu? — O Ajudante ficou surpreso.
— Sim. O Narrador, guia, como você quiser chamar, é um cargo. E, como todo cargo, é passado de um funcionário a outro. O que veio antes de mim, assim como eu, também tinha um apreço enorme pelo Nathan Yago Dias.
O Ajudante parou o andar.
— Sério. Naquela época, eu, assim como você, não conseguia entender. Por que um moleque invocado para salvar outro mundo, entre tantos outros, seria tão importante assim?
— É exatamente o que eu estou me perguntando — disse o Ajudante.
— A resposta para isso, meu caro… — Ele apontou para frente, seu dedo mirando um livro no centro da próxima sala. — É aquilo.

Eles caminharam, e o garoto ficou tenso. Aquele era o quadro-conto mais importante do museu? Será que era isso? Se fosse, ele poderia, mesmo, ver aquilo? Seu coração não parava de galopar.
Quando chegaram, o Narrador acariciou a capa do Quadro-Conto.
— Este, meu garoto, é o Laed Odnum.
O livro era imenso. Quando o abriu, o Guia mostrou que boa parte das páginas estava em branco. Vendo aquilo, o garoto franziu o cenho. “Existem quadro-contos vazios?” Perguntou-se, admirando a palidez de folhas sobre o mais puro nada.
O que era aquilo, afinal?
— Todo mundo tem um mundo ideal. Eu, você, os outros Ajudantes e Guias antes de nós, as pessoas nessas histórias, todos possuímos um mundo que consideramos perfeito.
“Um mundo perfeito?”
— No entanto, nunca existiu um ser capaz de realizar esse sonho. O sonho do Mundo Ideal.
— Então…?
— Capaz de concretizar, entende? Mas houve uma pessoa, entre tantas outras, que chegou perto — Ele fechou o livro, abrindo-o outra vez logo em seguida. — Ela era a Bruxa das Sombras. A Dama que Negou a Paz.
Os olhos do Ajudante se arregalaram.
— Heeh, você sabe, né? Sabe de quem estou falando…
— Sa-Sakai… — Só o nome o fazia tremer inteiro. — Sakai Junko, certo?
O Narrador sorriu de um jeito sinistro.
— Esse… esse livro é um…
— Grimório? Sim, isso mesmo. O fruto de uma vida inteira dedicada a um propósito.
“O Laed Odnum… O mundo ideal!”
— Depois de quase morrer de exaustão, Sakai Junko se viu no limiar do sono eterno — falou o guia, de um jeito sombrio. — Seu trabalho a levaria ao fim de si mesma. Por ter chegado tão longe, o universo lhe deu um presente.
Ele folheou o grimório, e suas mãos pousaram na página 22.
— “Eu caminhei pelo Vale da Sombra da Morte, ouvi tantos sonhos sussurrados pelo vento do arrependimento! Tive sorte, eu acho. E, quando dei por mim, eu vi quem estava me vendo. Me assistindo, me ouvindo desde que existo.”
Os lábios dele saborearam a leitura.
— “Descendo a Escada do Caminho Sem-Volta, eu me deparei comigo mesma. Uma outra Sakai Junko. Era o fantasma da pessoa que, antes de decidir sacrificar a si mesma, sonhava com o mundo perfeito. O mundo em que ninguém precisava sofrer…”
Seu dedo indicador corria pela frase.
— “Eu me vi nos olhos dela. Vi que os meus, ao contrário dos dela, eram opacos. A luz havia me deixado. Eu estava rumando para o meu próprio fim.”
Ela me olhava com decepção.
— Não era isso que eu queria.
— Não mesmo — respondi, descendo o próximo degrau.
— Eu queria um mundo onde todos pudessem sorrir.
— E é exatamente isso que vou criar.
A outra “eu” riu, mas sem qualquer humor.
— Você sabe tão bem quanto eu. O motivo para o Mundo Ideal não existir, no fim das contas, é que esse mundo varia de pessoa para pessoa. O mundo perfeito não é o mesmo. Nem o seu, nem o meu. E as pessoas, as que tem poder, investem tudo para alcançar os delas. O desejo…
O sonho delas…
— É o que faz as guerras. Todas, sem excessão, se resumem a conflitos de interesse. Gente lutando por um Mundo Ideal próprio. Sendo assim, nunca haverá paz. Nunca haverá o mundo que você quer.
O mundo em que todos poderiam sorrir juntos.
— Mas, e se você fosse capaz de realizar o sonho de todos, sem que um interfira no outro?
Eu continuei a descer, a deixando para trás.
— O Mundo Ideal como uma coleção de mundos particulares, perfeitos para cada residente? Prisões em que as pessoas pudessem ser livres? Se você fosse capaz disso, seria lindo. Perfeito. O mundo ideal é o mundo em que o sonho de todos virou realidade…
E todos os vivem isoladamente.
— Isso é o Laed Odnum — terminou o Narrador, satisfeito.
O Ajudante, de olhos arregalados, mal sabia o que dizer.
— Como eu disse, ninguém foi capaz de realizar algo assim. Sakai Junko, entre todos, foi quem chegou mais perto.
— Mas, se ela só chegou perto… — começou o garoto, iniciando um entendimento tardio.
— Algo a impediu.
Nesse momento, o sorriso do Narrador ficou maior.
— Não me diga que…
— Isso mesmo. Ele é o responsável por impedir a loucura de uma bruxa.
O garoto que foi invocado para salvar outro mundo e, no processo, salvou a todos os outros.
— Nathan Yago Dias.
— Impossível… — murmurou o ajudante.
— Eu também achei.
Mas aqueles quadros…
O fato de estarem ali, conversando sobre isso, era a prova de que era verdade.
— Por isso eu gosto tanto dele.

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